{"id":162,"date":"2012-03-31T19:24:24","date_gmt":"2012-03-31T22:24:24","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=162"},"modified":"2016-09-01T18:16:29","modified_gmt":"2016-09-01T21:16:29","slug":"domingo-de-ramos-jesus-e-a-luta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/domingo-de-ramos-jesus-e-a-luta\/","title":{"rendered":"Domingo de Ramos, Jesus e a luta."},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><span style=\"color: #800080;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>Domingo de Ramos, Jesus e a luta.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><em>De forma clandestina, Jesus e os seus entram em Jerusal\u00e9m.<\/em><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Gilvander Moreira<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma col\u00f4nia do Imp\u00e9rio Romano \u2013 a Palestina -, ap\u00f3s uma longa marcha desde a Galileia, Jesus e seu movimento popular-religioso estavam \u00e0s portas de Jerusal\u00e9m (Lc 9,51-19,27).<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>De forma clandestina, n\u00e3o confessando os verdadeiros motivos, Jesus e o seu movimento entram na capital, conforme narra o Evangelho de Lucas (Lc 19,29-40). De alguma forma deve ter acontecido essa entrada de Jesus em Jerusal\u00e9m, provavelmente n\u00e3o tal como relatada pelo evangelho, visto ter tamb\u00e9m um tom midr\u00e1xico, ou seja, quer tornar presente e viva uma profecia do passado. Montado em um jumentinho, Jesus evoca a profecia de Zacarias que dizia: &#8220;Teu rei vem a ti, humilde, montado num jumento. O arco de guerra ser\u00e1 eliminado&#8221; (Zc 9,9-10).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois disc\u00edpulos recebem a tarefa de viabilizar a entrada na capital, de forma humilde, mas firme e corajosa. Deviam arrumar um jumentinho \u2013 meio de transporte dos pobres -, mas deviam fazer isso disfar\u00e7adamente, de forma \u201cclandestina\u201d. O texto repete o seguinte: \u201cSe algu\u00e9m lhes perguntar: \u201cPor que voc\u00eas est\u00e3o desamarrando o jumentinho?\u201d, digam somente: \u2018Porque o Senhor precisa dele\u2019\u201d. A repeti\u00e7\u00e3o indica a necessidade de se fazer a prepara\u00e7\u00e3o da entrada na capital de forma clandestina, sutil, sem alarde. Se dissessem a verdade, a entrada em Jerusal\u00e9m seria proibida pelas for\u00e7as de repress\u00e3o, tal como fez a tropa de choque de Minas Gerais com o MST<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn2\">[2]<\/a>, em 10 de abril de 1996, quando 500 militantes Sem Terra marchavam de Governador Valadares a Belo Horizonte, em 15 dias de marcha. Na entrada da capital mineira foram barrados pela pol\u00edcia. Vinte lideran\u00e7as foram presas e outras 22 pessoas foram hospitalizadas. Mas, no dia seguinte, os marchantes conseguiram entrar e chegar ao cora\u00e7\u00e3o de Belo Horizonte. Foram acolhidos por pessoas sens\u00edveis \u00e0s lutas por justi\u00e7a social, mas abominados pelos defensores do <em>status quo<\/em> capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quase 2 mil anos atr\u00e1s, na periferia de Jerusal\u00e9m, disc\u00edpulos\/as, com os \u201cpr\u00f3prios mantos\u201d, prepararam um jumentinho para Jesus montar. Foi com o pouco de cada um\/a que a entrada em Jerusal\u00e9m foi realizada. A alegria era grande no cora\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas, povo organizado. \u201c<em>Bendito o que vem como rei<\/em>&#8230;\u201d Viam em Jesus outro modelo de exercer o poder, n\u00e3o mais como domina\u00e7\u00e3o, mas como gerenciamento do bem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ouvir o an\u00fancio dos disc\u00edpulos \u2013 um novo jeito de exerc\u00edcio do poder \u2013 um grupo de fariseus se incomodou e tentou sufocar aquela \u00f3tima not\u00edcia para os pobres, um evangelho. Hipocritamente chamam Jesus de mestre, mas querem domestic\u00e1-lo, dom\u00e1-lo. \u201c<em>Manda que teus disc\u00edpulos se calem<\/em>.\u201d, impunham os que se julgavam salvos e os mais religiosos. \u201cManda&#8230;!\u201d Dentro do paradigma \u201cmandar-obedecer\u201d, eles s\u00e3o os que mandam. N\u00e3o sabem dialogar, mas s\u00f3 impor. \u201cQue se calem!\u201d, gritam. Quem anuncia a paz como fruto da justi\u00e7a testemunha fraternidade e luta por justi\u00e7a, o que incomoda o <em>status quo<\/em> opressor. Mas Jesus, em alto e bom som, com a autoridade de quem vive o que ensina, profetisa: \u201c<em>Se meus disc\u00edpulos (profetas) se calarem, as pedras gritar\u00e3o<\/em>.\u201d (Lc 19,40). Esse alerta do Galileu virou refr\u00e3o de m\u00fasica das Comunidades Eclesiais de Base: \u201c<em>Se calarem a voz dos profetas, as pedras falar\u00e3o. Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascer\u00e3o&#8230; O poder tem ra\u00edzes na areia, o tempo faz cair. Uni\u00e3o \u00e9 a rocha que o povo usou pra construir<\/em>&#8230;!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um domingo, uns festejavam a chegada de Jesus em Jerusal\u00e9m. \u201cBendito aquele que vem&#8230;\u201d, exclamavam. Cinco dias ap\u00f3s, outros enfurecidos, gritavam \u201ccrucifica-o! Crucifica-o!\u201d Como entender essas duas posturas diametralmente opostas? Trata-se do mesmo grupo que se comporta como folha ao vento? Certamente s\u00e3o dois grupos bem diferentes. O grupo que aplaudiu Jesus \u00e9 o movimento de Jesus, composto por disc\u00edpulos e disc\u00edpulas que o seguiam desde a Galileia: camponeses, mulheres e, em sua esmagadora maioria, povo pobre. Os que vaiam e pedem a condena\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 a massa que sobrevive em Jerusal\u00e9m, em torno do Templo. Das cerca de 30 mil pessoas que vivia na cidade de Jerusal\u00e9m, 70% se contentava com as migalhas que caiam da mesa do sistema opressor que girava em torno do Templo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As Jerusal\u00e9ns de hoje continuam impedindo a entrada dos profetas, do povo, das lutas populares. Os grandes centros expulsam os pobres e querem calar a voz das profecias, como o Imp\u00e9rio e o Templo fizeram com Jesus. Uma coisa \u00e9 certa, \u00e9 princ\u00edpio da espiritualidade crist\u00e3: quando se tenta calar a voz dos que clamam por justi\u00e7a a luta se fortalece e de forma \u201cclandestina e silenciosa\u201d, como a estrat\u00e9gia de buscar o jumentinho naquele \u201cdomingo de ramos\u201d, se espalha por todos os cantos. Porque a vit\u00f3ria ser\u00e1 da Justi\u00e7a Social, da Verdade que liberta e da Paz que \u00e9 fruto da luta do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bom lembrar que, ap\u00f3s a entrada em Jerusal\u00e9m, Jesus \u00e9 condenado \u00e0 morte na cruz, mesmo sendo inocente. Foi condenado pelos poderosos e pela omiss\u00e3o daqueles que se mantiveram do lado do Poder. Hoje, nas situa\u00e7\u00f5es concretas, de que lado estamos? Do lado dos que lutam por justi\u00e7a ou do lado dos que condenam os discriminados?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Glorificam Jesus os que lutam pela terra, pela defesa do ambiente, contra toda forma de opress\u00e3o e injusti\u00e7a, mesmo correndo o risco da discrimina\u00e7\u00e3o. Os verdadeiros crist\u00e3os n\u00e3o podem simplesmente cruzar os bra\u00e7os ante as injusti\u00e7as, mantendo-se confortavelmente entre a maioria indiferente \u00e0s causas que amea\u00e7am VIDA todos os dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Belo Horizonte, MG, Brasil, 31 de mar\u00e7o de 2012, 25 anos do mart\u00edrio de <strong>Roseli Celeste Nunes da Silva<\/strong>, a Rose que participou junto com Sem Terra do MST da Ocupa\u00e7\u00e3o da Fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul em 1985. Na \u00e9poca, Rose estava gr\u00e1vida de seu terceiro filho, Marcos, que acabou sendo a primeira crian\u00e7a a nascer no Acampamento em 28\/10\/1985. Em 31\/03\/1987, Rose foi assassinada, atropelada por um caminh\u00e3o de uma empresa agr\u00edcola que jogou-se contra uma manifesta\u00e7\u00e3o de Sem Terra na beira de uma estrada, perto do Acampamento da Fazenda Annoni. Atualmente seu filho Marcos Tiaraj\u00fa, que aparece no Filme Sonho de Rose e seu pai Jos\u00e9 Corr\u00eaa da Silva est\u00e3o no Assentamento Filhos de Sep\u00e9, no munic\u00edpio ga\u00facho de Viam\u00e3o.<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref1\">[1]<\/a> Frei e padre carmelita; mestre em Exegese B\u00edblica; professor do Evangelho de Lucas e Atos dos Ap\u00f3stolos, no Instituto Santo Tom\u00e1s de Aquino \u2013 ISTA -, em Belo Horizonte \u2013 e no Semin\u00e1rio da Arquidiocese de Mariana, MG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: <a href=\"mailto:gilvander@igrejadocarmo.com.br\">gilvander@igrejadocarmo.com.br<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3\">www.gilvander.org.br<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a> &#8211; facebook: gilvander.moreira<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref2\">[2]<\/a> Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingo de Ramos, Jesus e a luta. De forma clandestina, Jesus e os seus entram em Jerusal\u00e9m. Gilvander Moreira[1] Em uma col\u00f4nia do Imp\u00e9rio Romano \u2013 a Palestina -, ap\u00f3s uma longa marcha desde a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=162"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":258,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162\/revisions\/258"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}