{"id":204,"date":"2012-11-11T11:31:11","date_gmt":"2012-11-11T13:31:11","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=204"},"modified":"2012-11-11T11:31:11","modified_gmt":"2012-11-11T13:31:11","slug":"a-mae-terra-clama-pelo-bem-viver","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-mae-terra-clama-pelo-bem-viver\/","title":{"rendered":"A M\u00e3e Terra Clama pelo Bem Viver"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><span style=\"font-size: large;\"><span style=\"color: #993300;\"><strong>A M\u00e3e Terra Clama pelo Bem Viver. E <\/strong><strong>O Bem Viver no Reino de Deus.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Assembl\u00e9ia do CIMI, 4 a 8 de Outubro de 2011, Luzi\u00e2nia, Goi\u00e1s<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>(Obs.:<\/strong> Esse artigo \u00e9 o 6\u00ba de uma s\u00e9rie de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na internet, em <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> , em breve.). Esse texto, Carlos Mesters escreveu em conjunto com Francisco Orofino, biblista do CEBI e das CEBs &#8211; Comunidades Eclesiais de Base.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O:<\/strong> Tr\u00eas chutes iniciais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. O Bem Viver nas not\u00edcias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Um pensamento de Leonardo Boff sobre o Bem-Viver<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. A Proposta do CIMI<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. O Para\u00edso Terrestre: A Vida em plenitude projetada no passado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. A Sabedoria do Reino: a semente que gera a esperan\u00e7a do bem-viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. S\u00e1bios, Profetas e Levitas: Os servidores do bem viver, sem privil\u00e9gios, sem prest\u00edgios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. A ambival\u00eancia afeta os servidores do Bem-Viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A ambival\u00eancia afeta a sabedoria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A ambival\u00eancia afeta a profecia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A ambival\u00eancia afeta os Levitas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. O horizonte da solidariedade e do servi\u00e7o em defesa do bem-viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. A reconstru\u00e7\u00e3o do relacionamento humano na conviv\u00eancia di\u00e1ria (Qohelet)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Resistir contra a marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da mulher (C\u00e2ntico, Rute)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Cr\u00edtica radical \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o da imagem de Deus (J\u00f3)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6. Jesus ensina como construir o bem-viver no Reino de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus retoma a tradi\u00e7\u00e3o dos s\u00e1bios, profetas e levitas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As dimens\u00f5es do Bem-Viver no Reino de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Jesus refaz o relacionamento humano na base<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Recupera a dimens\u00e3o sagrada e festiva da Casa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Reconstr\u00f3i a vida comunit\u00e1ria nos povoados da Galil\u00e9ia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. Cuida dos doentes e acolhe os exclu\u00eddos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. Recupera igualdade homem e mulher<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. Vai ao encontro das pessoas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7. Supera as barreiras de g\u00eanero, religi\u00e3o, ra\u00e7a e classe<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os t\u00edtulos de Jesus: um novo caminho para construir o Bem-Viver<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho do homem<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Servo de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Redentor dos irm\u00e3os<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7. A Fraternidade Universal sem servos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0\u00a0 um novo Para\u00edso Terrestre e uma nova Cria\u00e7\u00e3o: novo c\u00e9u, nova terra<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0\u00a0 uma festa de casamento, uni\u00e3o definitiva com Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0\u00a0 um novo \u00caxodo, uma nova Fraternidade universal Deus, Ele mesmo, tudo em todos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O: <\/strong>Tr\u00eas chutes iniciais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. O Bem Viver nas not\u00edcias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Um pensamento de Leonardo Boff sobre o Bem-Viver<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. A Proposta do CIMI<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Bem-Viver nas not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se fala muito de um determinado assunto \u00e9 porque surgiram problemas em torno a ele. \u00c9 o caso do Bem-Viver. Cresce a insatisfa\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao modelo do Bem-Viver na nossa sociedade: cresce o anonimato no meio da multid\u00e3o; o individualismo na conviv\u00eancia humana; a insatisfa\u00e7\u00e3o no meio da abund\u00e2ncia de bens; a desumaniza\u00e7\u00e3o no meio de uma t\u00e9cnica avan\u00e7ada; a pobreza humana na opul\u00eancia de bens; o moralismo numa sociedade sem \u00e9tica; o empobrecimento no meio do aumento da riqueza; a busca de religi\u00e3o no mundo cada vez mais secularizado. O relacionamento humano cada vez mais fragilizado l\u00e1 na base dificulta o amadurecimento das pessoas. Nunca a ci\u00eancia fez tantos progressos em todos os n\u00edveis e nunca foi t\u00e3o grande a aus\u00eancia de rumos que possam apontar um futuro garantido de Bem-Viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Um pensamento de Leonardo Boff sobre o Bem-Viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cBem Viver\u201d est\u00e1 presente ao longo de todo o continente Abya Yala (nome ind\u00edgena para o Continente sul-americano), do extremo norte at\u00e9 o extremo sul, sob muitos nomes dos quais dois s\u00e3o as mais conhecidos: <strong>suma qama\u00f1a <\/strong>(da cultura aymara) e <strong>suma kawsay <\/strong>(da cultura qu\u00e9chua). Ambas significam: \u201co processo de vida em plenitude\u201d. Esta resulta da vida pessoal e social em harmonia e equil\u00edbrio material e espiritual. Primeiramente \u00e9 um saber viver e em seguida um saber conviver: com os outros, com a comunidade, com a Divindade, com a M\u00e3e Terra, com suas energias presentes nas montanhas, nas \u00e1guas, nas florestas, no sol, na lua, no fogo e em cada ser. Procura-se uma economia n\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza, mas da produ\u00e7\u00e3o do suficiente e do decente para todos, respeitando os ciclos da Pacha Mama e as necessidades das gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. A Proposta do CIMI<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perspectiva com que o CIMI aborda o tema \u201c<strong>A m\u00e3e terra clama pelo bem viver<\/strong>\u201d. Dizia a carta-convite:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cComo crist\u00e3os podemos compreender o <strong><em>bem viver <\/em><\/strong>como vida em plenitude e como sabedoria do Reino, sem privil\u00e9gios, sem prest\u00edgios. O <strong><em>bem viver <\/em><\/strong>no horizonte da solidariedade n\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s, \u00e9 para os outros: \u201c<em>A outros salvou, a si mesmo n\u00e3o pode salvar<\/em>!\u201d (Mt 27, 42a). Lutamos como servos para que ningu\u00e9m precise ser servo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta proposta do CIMI aparecem seis pontos muito significativos: (1) Vida em plenitude; (2) Sabedoria do Reino; (3) Sem privil\u00e9gios e sem prest\u00edgios; (4) O horizonte da Solidariedade; (5) Jesus como modelo; (6) Atitude de servi\u00e7o para construir a fraternidade universal sem servos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes pontos oferecem o esquema para abordar o tema do \u201cBem Viver no Reino de Deus\u201d tal como aparece na B\u00edblia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. <strong>A Vida em Plenitude <\/strong>\u00e9<strong> <\/strong>projetada no passado no mito do Para\u00edso Terrestre<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. <strong>A Sabedoria do Reino <\/strong>\u00e9<strong> <\/strong>a semente que vai gerando o Bem-Viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. <strong>Os servidores do bem viver<\/strong> servem de gra\u00e7a, \u00a0sem privil\u00e9gios, sem prest\u00edgios<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. <strong>A ambival\u00eancia<\/strong> afeta a sabedoria, a profecia e o culto e amea\u00e7a o bem viver<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. <strong>O Horizonte da solidariedade <\/strong>e a luta constante em defesa do bem-viver<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. <strong>Jesus nosso modelo<\/strong> ensina como construir o Bem-Viver no Reino de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7. <strong>A fraternidade universal<\/strong> do bem viver sem servos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. <\/strong><strong>O Para\u00edso Terrestre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Vida em plenitude projetada no passado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande utopia do bem-viver est\u00e1 expressa no mito do Para\u00edso Terrestre que aparece no come\u00e7o e no fim da B\u00edblia, G\u00eanesis e Apocalipse. Na primeira parte do mito, o ser humano, feito de barro e sopro divino, toma conta de um jardim com abund\u00e2ncia de \u00e1gua, onde jamais haver\u00e1 seca e, portanto, onde sempre haver\u00e1 comida (Gn 2,15). Ele pode comer de todas as \u00e1rvores, inclusive da \u00e1rvore da vida que est\u00e1 no meio do jardim. \u00c9 vida sem morte (Gn 2,9). Homem e mulher vivem integrados entre si (Gn 2,20-23), com os animais (Gn 2,20), com a terra e com Deus, que passeia com eles no jardim na brisa da tarde (Gn 3,8). Neste mito o povo projeta no <strong><em>passado<\/em><\/strong> a esperan\u00e7a do bem viver que o anima na caminhada para o <strong><em>futuro<\/em><\/strong> e que \u00e9 o oposto da situa\u00e7\u00e3o cheio de males que ele vive no <strong><em>presente<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na terceira e \u00faltima parte do mito, ap\u00f3s a expuls\u00e3o do Para\u00edso, aparecem os males da vida presente. Rompeu-se a conviv\u00eancia harmoniosa, e o homem acaba sendo o opressor da mulher (Gn 3,16). Rompeu-se o equil\u00edbrio dos seres humanos com os animais, e a serpente persegue a mulher e tenta dar o bote (Gn 3,15). Rompeu-se a harmonia da natureza, e a terra aparece maldita, produzindo s\u00f3 mato e carrapichos. (Gn 3,17). Rompeu-se o relacionamento harmonioso com Deus, e Ad\u00e3o e Eva sentem medo de Deus, t\u00eam vergonha da sua nudez e se escondem (Gn 3,10). O barro venceu o sopro divino, e a vida que nasce com dores de parto, (Gn 3,16) termina em morte (Gn 3,19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na parte central do mito, se informa como aconteceu a passagem da situa\u00e7\u00e3o ideal para a situa\u00e7\u00e3o real cheia de males. Ad\u00e3o e Eva transgrediram a ordem de Deus e comeram da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal. Por isso foram castigados, expulsos do Para\u00edso. Assim, a situa\u00e7\u00e3o real em que hoje vivemos \u00e9 apresentada como castigo de Deus. Na B\u00edblia, apresentar a situa\u00e7\u00e3o real como castigo de Deus \u00e9 o mesmo que afirmar, com outras palavras, que n\u00f3s mesmos somos os respons\u00e1veis pela situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos. \u00c9 afirmar que a situa\u00e7\u00e3o presente deve ser aceita n\u00e3o como uma fatalidade sem sa\u00edda, mas sim como um apelo de Deus \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 criatividade. O Para\u00edso n\u00e3o foi destru\u00eddo. Ele continua no horizonte da exist\u00eancia humana como uma possibilidade real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descri\u00e7\u00e3o das conseq\u00fc\u00eancias da transgress\u00e3o de Ad\u00e3o e Eva funciona como an\u00e1lise cr\u00edtica da realidade e aponta as etapas do caminho de sa\u00edda e da recupera\u00e7\u00e3o do bem viver do Para\u00edso:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Desligado de Deus, o homem perde a no\u00e7\u00e3o da fraternidade e mata o irm\u00e3o, Caim mata Abel (Gn 4,1-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Isto produz a viol\u00eancia extrema de Lameque que vinga 70&#215;7 por uma ferida recebida (Gn 4,17-24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Sem prote\u00e7\u00e3o neste mundo, eles manipulam a religi\u00e3o, o que produz a desintegra\u00e7\u00e3o do Dil\u00favio (Gn 6,1-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Uma na\u00e7\u00e3o tenta dominar as outras na\u00e7\u00f5es, criando assim a confus\u00e3o da Torre de Babel (Gn 11,1-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o real, na qual todos se reconhecem. Qual a sa\u00edda? Qual a esperan\u00e7a? Apesar das quedas progressivas, cada vez de novo, a miseric\u00f3rdia de Deus prevalece sobre o castigo e mant\u00e9m aberta a porta da reconcilia\u00e7\u00e3o e do retorno ao bem-viver do Para\u00edso:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A serpente ataca e quer matar a mulher, mas Deus promete a vit\u00f3ria \u00e0 mulher (Gn 3,15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Ad\u00e3o e Eva s\u00e3o expulsos do Para\u00edso, mas Deus os protege e faz roupa para eles (Gn 3,21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Caim \u00e9 castigado, mas recebe um sinal que o protege (Gn 4,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 O dil\u00favio \u00e9 um castigo cruel, mas em No\u00e9 a humanidade sobrevive (Gn 6,18; 8,15-17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A Torre de Babel amea\u00e7a a todos, mas Deus abre uma porta chamando Abra\u00e3o e Sara (Gn 12,1-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta maneira de descrever a situa\u00e7\u00e3o do povo oferece uma esperan\u00e7a de sa\u00edda e um roteiro para orientar o povo no retorno ao bem-viver do Para\u00edso Terrestre. Esta esperan\u00e7a aparece realizada na vis\u00e3o final do Apocalipse, que retoma a imagem do Para\u00edso Terrestre para simbolizar a realiza\u00e7\u00e3o do futuro que Deus sonhou para todos. Entre a utopia do Para\u00edso Terrestre do livro de G\u00eanesis e a sua realiza\u00e7\u00e3o no Apocalipse, est\u00e1 a longa caminhada de Abra\u00e3o e Sara que terminar\u00e1 na realiza\u00e7\u00e3o do bem-viver na <em>Terra sem males<\/em> do Para\u00edso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos ver de perto esta longa caminhada em dire\u00e7\u00e3o ao Bem-Viver no Reino de Deus: qual o seu in\u00edcio, qual o percurso com seus altos e baixos, quais os atores que animam a caminhada, quais os perigos e amea\u00e7as que enfrentam, quais os meios e recursos de que disp\u00f5em, qual o modelo que os anima e provoca, qual o resultado final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. A Sabedoria do Reino: a semente que gera a esperan\u00e7a do bem-viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esperan\u00e7a do bem-viver que percorre a hist\u00f3ria do povo de Deus de G\u00eanesis ao Apocalipse n\u00e3o caiu pronta do c\u00e9u. Ela nasceu pequena como a semente de mostarda, a menor de todas as sementes, mas cresceu e se tornou uma \u00e1rvore frondosa. Na B\u00edblia, esta semente \u00e9 a Sabedoria Popular que foi crescendo ao longo dos s\u00e9culos e, no fim, foi verbalizada nos prov\u00e9rbios e nos mitos, nas leis e nos costumes, na religi\u00e3o e nas celebra\u00e7\u00f5es. Foi desta experi\u00eancia concreta da for\u00e7a e da fecundidade da Sabedoria Popular que nasceu a esperan\u00e7a que se expressa tanto o mito do Para\u00edso Terrestre como o Mito da Terra sem males. Creio que, dentro da diversidade das culturas e das religi\u00f5es, em todos os povos acontece a mesma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria popular nasce da preocupa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do ser humano de preservar e garantir o bem-viver. Nasce da multiforme luta em defesa da vida: na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, na descoberta dos rem\u00e9dios, no confronto constante com a natureza, na educa\u00e7\u00e3o dos filhos, na transmiss\u00e3o dos valores, na conviv\u00eancia social, na compra e venda dos produtos, na luta pela justi\u00e7a contra a explora\u00e7\u00e3o injusta, no governo do povo, na pr\u00e1tica da religi\u00e3o. A sabedoria popular \u00e9 como um ato criador continuado, que defende a vida contra o caos amea\u00e7ador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No povo da B\u00edblia, na origem da Sabedoria Popular est\u00e3o os prov\u00e9rbios que refletem o ambiente da <em>Casa<\/em>, da <em>Tribo<\/em>. Inicialmente, <strong><em>s\u00e1bio<\/em><\/strong> era aquele que conseguia captar e verbalizar a experi\u00eancia humana num prov\u00e9rbio. Aos poucos, a sabedoria foi evoluindo, ultrapassando sua modesta origem caseira e tribal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ultrapassou o \u00e2mbito do <strong>prov\u00e9rbio<\/strong> e chegou a produzir tratados e longas reflex\u00f5es, como o livro de J\u00f3, Qohelet e Sabedoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ultrapassou o \u00e2mbito da <strong>fam\u00edlia<\/strong> e do <strong>cl\u00e3<\/strong> e entrou no \u00e2mbito da na\u00e7\u00e3o e do Estado. Assim, o Rei Salom\u00e3o aparece como o grande s\u00e1bio, autor de milhares de prov\u00e9rbios (2Rs 3,12; 5,9-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ultrapassou o \u00e2mbito da <strong>na\u00e7\u00e3o<\/strong> e da <strong>ra\u00e7a<\/strong> e se preocupa com os proble\u00admas da vida humana como tal, independentemente de na\u00e7\u00e3o, ra\u00e7a, geografia ou religi\u00e3o. Por exemplo, o livro de J\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ultrapassou o <strong>presente<\/strong> e come\u00e7ou a investigar o passado e a cria\u00e7\u00e3o do Universo como manifesta\u00e7\u00e3o da Sabedoria (Eclo 44,1 a 50,29; Sb 10,1 a 19,22). E chegou a descobrir em Deus a origem e o destino da sabedoria. Tanto a cria\u00e7\u00e3o e o cosmos, como a hist\u00f3ria e a vida, tudo tornou-se o palco da manifesta\u00e7\u00e3o da Sabedoria Divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Sabedoria chegou a produzir uma teoria sobre si mesma (Prov 8,12-21; 8,30-36; Eclo 24,1-8; Sb 7,21-8,1) como sendo a irradia\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Criador, anterior \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, conselheira de Deus na obra da cria\u00e7\u00e3o (Prov 8,22-31; Eclo 24,9-17). Tornou-se sin\u00f4nimo do Esp\u00edrito Divino que enche o universo (Sb 1,6-7; 8,1). Ela esteve presente como mestra de obras na cria\u00e7\u00e3o do universo (Prov 8,30) e na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o (Eclo 44 a 50).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lei de Deus \u00e9 vista pelos s\u00e1bios n\u00e3o como uma imposi\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria que amarra e oprime, mas como <strong><em>Torah<\/em><\/strong>, ponteiro que abre e orienta o povo no caminho em dire\u00e7\u00e3o do Bem-viver. Ela \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o suprema da sabedoria, simbolizada na \u201c\u00e1rvore da vida\u201d (Prov 3,18; 11,30) e expressa de maneira admir\u00e1vel no longo salmo 119. . \u00c9 atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia fiel desta lei de Deus, expressa nos Dez Mandamentos, que o ser humano se apropria da Sabedoria e garante o retorno ao Para\u00edso Terrestre. Ela \u00e9 o caminho por onde se constr\u00f3i o bem-viver do Reino. \u00c9 a \u00e1rvore frondosa que nasceu daquela pequena semente do prov\u00e9rbio popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. S\u00e1bios, Profetas e Levitas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os servidores do bem viver, sem privil\u00e9gios, sem prest\u00edgios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo grupo humano, tribo, comunidade ou fam\u00edlia, nascem espontaneamente os v\u00e1rios servi\u00e7os para organizar, coordenar, retificar, orientar, aprofundar e celebrar a vida e mant\u00ea-la no rumo do bem-viver. Os \u00edndios t\u00eam seus caciques e pag\u00e9s. Na b\u00edblia, s\u00e3o os <strong>s\u00e1bios<\/strong> que organizam a vida e o bem-viver; os <strong>profetas<\/strong> mant\u00eam o rumo, denunciam os desvios; os <strong>levitas<\/strong> celebram as grandes datas do dom e da recupera\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os <span style=\"text-decoration: underline;\">S\u00e1bios<\/span><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os s\u00e1bios organizam a vida e a defendem contra o caos amea\u00e7ador. Os s\u00e1bios s\u00e3o antes de tudo os pais em casa, que organizam e coordenam a vida familiar, educam os filhos, transmitem os valores, ensinam as leis e os costumes. \u00c9 freq\u00fcente a insist\u00eancia dos s\u00e1bios na obedi\u00eancia aos pais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na medida em que a comunidade cresce em tamanho, cresce a influ\u00eancia dos s\u00e1bios na coordena\u00e7\u00e3o e no governo do povo. A palavra <strong>&amp;lm<\/strong> (rei) tem o duplo sentido de ser rei e de aconselhar, orientar. O Rei Salom\u00e3o aparece como o grande s\u00e1bio, capaz de dar nome a todos as coisas (2Rs 3,12; 5,9-13). A ele se atribuem livros sapienciais que foram escritos mais de 500 anos depois da morte dele. O relacionamento das pessoas com o rei \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o constante nos livros sapienciais (Prov 25-29; Sb 6,1-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os <span style=\"text-decoration: underline;\">Profetas<\/span><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio da monarquia (1000 aC), os profetas faziam parte da hist\u00f3ria de Israel. Eles zelavam pela observ\u00e2ncia da Alian\u00e7a. \u201cCaco de vidro no ch\u00e3o \u00e9 sinal de copo quebrado\u201d. Para os profetas, pobre no meio do povo era sinal de Alian\u00e7a quebrada. Os profetas eram a consci\u00eancia falante do povo de Deus. A palavra <em>profeta<\/em> vem do grego e significa \u201cfalar\u201d (<strong>fhmi<\/strong>) em nome de, \u201cpro\u201d (<strong>pro<\/strong>). O profeta n\u00e3o fala em nome pr\u00f3prio, mas em nome de outro que o enviou. \u00c9 porta-voz. Aar\u00e3o era <em>profeta<\/em> (porta-voz) de Mois\u00e9s (Ex 7,1). O profeta tem uma liga\u00e7\u00e3o \u00edntima com aquele, em nome do qual fala e que o envia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do ex\u00edlio (587 a 538), desaparecem os profetas. O povo dizia: &#8220;N\u00e3o existem mais profetas&#8221; (Sl 74,9; cf. Dn 3,38; 1Mc 9,27; 1Mc 4,46 14,41). \u00c9 que o imp\u00e9rio da Babil\u00f4nia tinha acabado com as pequenas monarquias do M\u00e9dio Oriente que agora ficaram reduzidas a comunidades \u00e9tnicas sem independ\u00eancia pol\u00edtica, sem ex\u00e9rcito, sem rei. Nesta situa\u00e7\u00e3o, era imposs\u00edvel imaginar algu\u00e9m das aldeias da Palestina atuar como profeta no estilo antigo de Am\u00f3s ou Miqu\u00e9ias. Um campon\u00eas da Palestina n\u00e3o teria nenhuma possibilidade de cobrar a observ\u00e2ncia da Lei de Deus, seja do imperador da Babil\u00f4nia, seja dos governantes helenistas. O imp\u00e9rio tinha outros deuses e outras leis!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste per\u00edodo <em>sem profetas,<\/em> a profecia encontrou novas formas de express\u00e3o para cuidar do bem-viver do povo e manifesta a sua presen\u00e7a nas novelas populares (Rute, Ester, Judite, Jonas), na literatura sapiencial (J\u00f3, Eclesiastes e trechos de Prov\u00e9rbios, Eclesi\u00e1stico e Sabedoria), nas celebra\u00e7\u00f5es e romarias (muitos Salmos), no movimento apocal\u00edptico (Daniel), na arte popular (C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os <span style=\"text-decoration: underline;\">Levitas<\/span><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Originalmente, os <strong><em>Levitas<\/em><\/strong> n\u00e3o formavam uma tribo. Na B\u00edblia existe at\u00e9 \u201cum levita da tribo de Jud\u00e1\u201d (Jz 17,7). Levita era a pessoa que se sentia chamada para exercer uma miss\u00e3o mediadora entre Deus e o povo. A palavra <em>levi <\/em>ou <em>levita<\/em> vem da raiz <em>lawa:<\/em> significa <em>aderir, apegar-se, associar-se, acompanhar<\/em>. Os <strong><em>Levitas<\/em><\/strong> eram as pessoas que, nas v\u00e1rias tribos, se <em>associavam<\/em> ao redor desta miss\u00e3o mediadora. Aos poucos, foram identificadas como uma Tribo ao lado das outras. Muitas vezes, os levitas s\u00e3o identificados como sacerdotes, e vice-versa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tribo de Levi era vista como a propriedade particular de Jav\u00e9, que a reservou para si. (Num 3,11-13; cf Ex 13,11-16). Eles n\u00e3o podiam receber terra como heran\u00e7a, pois a sua heran\u00e7a era o pr\u00f3prio Jav\u00e9. (cf. Josu\u00e9 13,33; 14,3-4; 18,7; Dt 18,1-2; Eclo 45,22). Atrav\u00e9s do ensino da Lei eles ajudavam o povo a superar a tenta\u00e7\u00e3o de voltar para o Egito (Nm 14,3-4; Ex 13,17; 14,11-12; Dt 33,10; 31,11; Ne 8,7). \u201cPara o Egito voc\u00eas n\u00e3o podem voltar nunca mais!\u201d (Dt 17,16). Irradiavam no meio do povo a presen\u00e7a libertadora de Jav\u00e9 e a mem\u00f3ria do \u00caxodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como em todos os povos e culturas, o povo da B\u00edblia cultivava seus lugares e tempos sagrados. Na \u00e9poca dos Ju\u00edzes, os levitas atuavam nos pequenos santu\u00e1rios, espalhados por todo o territ\u00f3rio, animando o povo: Siqu\u00e9m (Gn 12,6; 12,7-8), Betel (Gn 13,3; 28,19-22), Sal\u00e9m (Gn 14,17-20) (Jerusal\u00e9m ?), Hebron (Gn 13,18; 23,1-20; 25,7-10), Bersheba (Gn 21,32-34; 22,19; 26,23-25), Guilgal (Jos 4,19-20; 5,2-12), Jeric\u00f3 (Josu\u00e9 5,13-15), Silo (1Sm 1,3-20), Rama (1Sm 7,17; 8,4; 19,23), Carmelo (1Rs 18). Era nestes santu\u00e1rios de romaria, que eles contavam aos romeiros os grandes feitos da hist\u00f3ria dos Patriarcas e irradiavam a experi\u00eancia do Deus libertador que os tirou do Egito. Deste modo, ajudavam o povo a continuar na caminhada iniciada com Abra\u00e3o e Sara rumo ao Para\u00edso, \u00e0 Terra sem Males. Eis uma lista de alguns destes santu\u00e1rios:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. A ambival\u00eancia afeta os servidores do Bem-Viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caminhada do povo de Deus n\u00e3o \u00e9 retil\u00ednea, mas cheia de curvas, perigos e percal\u00e7os que j\u00e1 transparecem na descri\u00e7\u00e3o da vida no Para\u00edso Terrestre. O ser humano \u00e9 mistura de <em>barro<\/em> e de <em>sopro<\/em> <em>divino<\/em>. Ele sofre a tenta\u00e7\u00e3o de abandonar a lei de Deus, a \u00e1rvore da vida, para criar sua pr\u00f3pria lei, expressa na \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal. O barro vence o sopro divino. Esta ambival\u00eancia afetava os servidores do Bem-Viver: a sabedoria, a profecia, os levitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*\u00a0 A ambival\u00eancia afeta a sabedoria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma ambival\u00eancia quase estrutural afeta e amea\u00e7a a sabedoria desde o seu mais remoto in\u00edcio. <em>De um lado<\/em>, existe nela o desejo de conhecer as coisas por experi\u00eancia, de organiz\u00e1-las e de control\u00e1-las em defesa da vida. <em>De outro lado<\/em>, existe nela o desejo de resistir a tudo que possa amea\u00e7ar a vida, desejo de autonomia e de liberdade de quem n\u00e3o se deixa dominar. Estes dois aspectos geram uma tens\u00e3o permanente no interior da pr\u00f3pria sabedoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>De um lado<\/em>, a sabedoria aparece ligada aos s\u00e1bios e aos reis que aconselham e coordenam, atacam e defendem. Ela encontra sua express\u00e3o nas escolas dos s\u00e1bios, que colecionam, organizam e sistematizam a sabedoria do povo (Prov 25,1; 1Rs 5,9-13; Sab 7,15-21). S\u00e3o eles que fizeram a reda\u00e7\u00e3o final da Tor\u00e1, da Lei de Deus. O <em>S\u00e1bio<\/em> se torna <em>Doutor <\/em>da lei que conserva (<em>conservador<\/em>) os valores do passado, precursor dos escribas e fariseus. Em alguns deles, ser s\u00e1bio vira status e classe separada do povo, que chama o povo de ignorante (Jo 7,49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Do outro lado<\/em>, a sabedoria aparece como um impulso criativo que, sem parar, surge de dentro do povo para enfrentar os problemas da sobreviv\u00eancia; cria sempre novas formas de luta em defesa da vida, criticando-se a si mesma e \u00e0s suas formas de express\u00e3o j\u00e1 superadas pela pr\u00f3pria vida; produz alargamento do horizonte e aprofunda os problemas humanos; atinge a raiz do sistema dominante e o critica radicalmente. O <em>S\u00e1bio<\/em> se torna <em>Profeta<\/em> . Jesus \u00e9 um deles. Ele agradece a Deus por revelar a sabedoria do Reino aos pequenos e escond\u00ea-la aos \u201cs\u00e1bios e entendidos\u201d (Mt 11,25-26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta ambival\u00eancia estrutural, escondida na semente, foi aparecendo no fruto. O resultado final, registrado nos livros da B\u00edblia, mostra uma sabedoria que produz gente conservadora e gente aberta; gente do sistema e gente subversiva; gente r\u00edgida, legalista, doutor da lei, e gente espont\u00e2nea, rebelde, criativa e criadora. Produz J\u00f3 e os amigos de J\u00f3. S\u00e3o tend\u00eancias que, por vezes, existem misturadas at\u00e9 nas pr\u00f3prias pessoas e nos grupos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*\u00a0 A ambival\u00eancia afeta a profecia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma ambival\u00eancia afeta tamb\u00e9m a profecia. Havia profetas que apoiavam a monarquia (2Sm 7,4-16; 2Cr 18,12; Jr 28,1-4) e outros que a criticavam (1Rs 18,16-18; 21,17-24). Havia profetas que apoiavam o culto e estimulavam a reconstru\u00e7\u00e3o do templo (Ag 1,2-11), e outros que criticavam o Templo, condenavam o culto e anunciavam a sua destrui\u00e7\u00e3o (Jr 7,1-15; Am 5,21-25; Is 1,10-15). Havia profetas como Am\u00f3s que n\u00e3o assumiam sua identidade como profeta e diziam: \u201cEu n\u00e3o sou profeta!\u201d (Am 7,14; Zc 13,5). Havia outros como Jeremias que criticavam os profetas, culpando-os pelo desastre nacional da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m (Jr 23,33-40; Lam 2,14; Ez 13,1-13.16; Zc 13,2-6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que h\u00e1 de comum a todos, \u00e9 que eles aparecem como pessoas ligadas \u00e0 divindade. Por isso mesmo, havia tanta confus\u00e3o, pois as divindades eram muitas. E muitas eram as imagens que os v\u00e1rios grupos e tend\u00eancias tinham do pr\u00f3prio Jav\u00e9, o Deus do povo. Por isso era grande a ambival\u00eancia que afetava a profecia. Quando hoje ouvimos a palavra \u201cprofeta\u201d, v\u00eam em mente as figuras de Elias, Isa\u00edas, Jeremias e outros. Mas foi s\u00f3 aos poucos, atrav\u00e9s de demorado discernimento, que se chegou a esta imagem clara e definida que nos permite distinguir os profetas verdadeiros dos falsos. Na \u00e9poca dos acontecimentos, as coisas n\u00e3o eram t\u00e3o claras assim. O povo ficava confuso sem saber quem era e quem n\u00e3o era profeta de verdade (Jr 27,9-10; 29,8; 2Cr 18,1-22; cf. Dt 18,17-22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*\u00a0 A ambival\u00eancia afeta os Levitas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os reis chegavam a manipular a religi\u00e3o para legitimar seu poder diante do povo. O desejo de fortalecer o poder em suas m\u00e3os levava os pretendentes ao trono a buscar o apoio de profetas e levitas. Isto aconteceu com Saul (1Sam 10,1-8.17-24), com Davi (1Sam 16,1-13), com Salom\u00e3o (1Rs 1,32-40), com Jerobo\u00e3o (1Rs 11,26-40; 12,15) e outros. O crescente envolvimento dos levitas com os homens do poder chegou a gerar uma rivalidade e ambival\u00ean\u00adcia entre os pr\u00f3prios levitas. Na luta pela sucess\u00e3o de Davi, seus dois filhos Adonias e Salom\u00e3o buscavam apoio nos levitas. Adonias era apoiado por Abiatar; Salom\u00e3o, por Sadoc (1Rs 1,5-8). Salom\u00e3o venceu e foi aclamado rei, (1Rs 1,38-40). Para consolidar o seu poder, ele matou os que tinham apoiado a Adonias. Matou o pr\u00f3prio Adonias, confirmou o levita Sadoc como o seu sacerdote e exilou Abiatar, o outro levita, para Anatot (1Rs 2,26-27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Davi concebeu a id\u00e9ia de construir um templo para Jav\u00e9 (2Sm 7,1-2) que acabou sendo constru\u00eddo pelo rei Salom\u00e3o (2Sm 7,13; 1Rs 6,37). A arca da alian\u00e7a, s\u00edmbolo e cora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 do povo, \u00e9 transferida para o templo (2Sm 6,12-19). Assim, o santu\u00e1rio de Jerusal\u00e9m come\u00e7a a ter uma import\u00e2ncia maior, e os levitas de Jerusal\u00e9m come\u00e7am a ter maior visibilidade que os levitas dos pequenos santu\u00e1rios do interior do pa\u00eds. Assim, aos poucos, no Templo de Jerusal\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o do levita deixou de ser um servi\u00e7o ao povo para tornar-se uma fun\u00e7\u00e3o sagrada a servi\u00e7o do rei. A tribo de Levi come\u00e7ou a clericalizar-se. A fam\u00edlia de Sadoc, o preferido de Salom\u00e3o (1Rs 2,35), conseguiu firmar sua posi\u00e7\u00e3o de tal maneira, que se tornou uma esp\u00e9cie de super-sacerdote ou Sumo Sacerdote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tempo do rei Josias (Sec VII aC) consolidou-se o processo de clericaliza\u00e7\u00e3o dos levitas. Todo o culto foi concentrado no Templo de Jerusal\u00e9m e os pequenos santu\u00e1rios do interior foram destru\u00eddos. Os levitas do interior foram levados para servir como ajudantes dos sacerdotes do Templo. Mas a reforma de Josias n\u00e3o deu certo e morreu com a morte de Josias em 609 aC. Foi o come\u00e7o do fim (cf. 2Rs 23,8.9.19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em agosto de 587, Nabucodonosor, rei da Babil\u00f4nia avan\u00e7ou sobre Jerusal\u00e9m. Os tr\u00eas grandes sinais ou \u201csacramentos\u201d da presen\u00e7a de Deus foram destru\u00eddos! O <strong><em>Templo<\/em><\/strong>, morada perp\u00e9tua de Deus (1Rs 9,3), foi incendia\u00addo (2Rs 25,9). A <strong><em>Monarquia<\/em><\/strong><em>,<\/em> fundada para durar sempre (2Sam 7,16), j\u00e1 n\u00e3o existia (2Rs 25,7). A <strong><em>Terra<\/em><\/strong>, cuja posse \u00e9 para <em>sempre<\/em> (Gen 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. O horizonte da solidariedade e do servi\u00e7o em defesa do bem-viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mitos dos povos n\u00e3o s\u00e3o realidades fixas e imut\u00e1veis, mas acompanham a hist\u00f3ria e a evolu\u00e7\u00e3o dos mesmos. Conservam sinais e cicatrizes que retratam a hist\u00f3ria percorrida com suas contradi\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias, vit\u00f3rias e derrotas. O mesmo aconteceu no povo da B\u00edblia. A desintegra\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es (templo, monarquia e posse da terra) deixou marcas profundas e levou a uma busca sem precedentes para encontrar uma sa\u00edda, reconstruir em novas bases sua identidade como povo de Deus e retomar o caminho em dire\u00e7\u00e3o ao Bem-Viver iniciado com Abra\u00e3o e Sara. Apareceram quatro tend\u00eancias misturadas entre si que existem difusas em quase todos os escritos da B\u00edblia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) A maioria silenciosa adotou os deuses do imp\u00e9rio. O que mais transparece nos escritos daquela \u00e9poca \u00e9 a den\u00fancia do perigo dos \u00eddolos (Is 44,9-20; Bar 6,1-72; Sl 115,4-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) O grupo de Zorobabel e Josu\u00e9 queria restaurar o passado. Eles consideravam a \u00e9poca dos Reis como modelo a ser imitado. Foram eles que logo voltaram para a Palestina, quando Ciro permitiu o retorno (Esd 2,2; 3,2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas de Isa\u00edas n\u00e3o abandonaram a f\u00e9 nem quiseram voltar ao passado, mas queriam saber: \u201cOnde est\u00e1 Deus no meio desta trag\u00e9dia?\u201d Eles reliam o passado em busca de uma luz para redescobrir a presen\u00e7a de Deus naquela terr\u00edvel aus\u00eancia (cf. Is 40,6-11.27-31; 41,8-14; 43,1-5; etc).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) O grupo de Neemias e Esdras aceitava o jugo do rei estrangeiro e colaborava com ele (Br 2,21.24; Jr 27,6-8.12.17; 42,10-11), mas mantinha a consci\u00eancia de povo eleito de Deus, separado dos outros povos. Por isso, insistiam na observ\u00e2ncia da lei de Deus (Esd 7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da ra\u00e7a (Esd 9,1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo da maioria silenciosa desapareceu. O grupo da restaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu realizar o seu intento e foi absorvido pelo modo de pensar do grupo de Neemias e Esdras que se tornou hegem\u00f4nico no per\u00edodo p\u00f3s-ex\u00edlico. O grupo dos disc\u00edpulos de Isa\u00edas sobreviveu como um movimento de base que animava o povo exilado na f\u00e9 de que Jav\u00e9, o Deus do povo, continuava presente no meio deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na nova conjuntura nova do cativeiro, o \u00fanico espa\u00e7o de certa autonomia e liberdade que ainda sobrava era o espa\u00e7o familiar, o mundo pequeno da fam\u00edlia, a \u201ccasa\u201d. Todo o resto que antes fazia parte da vida j\u00e1 n\u00e3o existia: a posse da terra, o templo, as peregrina\u00e7\u00f5es, o culto, o sacrif\u00edcio, o sacerd\u00f3cio, a monarquia, o rei. Nada disse tinha sobrado. O ambiente caseiro, a <strong><em>Casa<\/em><\/strong>, e a necessidade de resistir e de vencer na vida ocupavam, novamente, um lugar central, como na \u00e9poca dos Ju\u00edzes, anterior \u00e0 monarquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi neste espa\u00e7o reduzido e enfraquecido da fam\u00edlia, da comunidade, da <em>\u201ccasa\u201d<\/em>, que renasce a semente da Sabedoria, tendo como raiz uma nova experi\u00eancia de Deus e da vida. A imagem de Deus, transmitida pelos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Isa\u00edas, reflete este ambiente familiar da <strong><em>Casa<\/em><\/strong>. Deus \u00e9 apresentado como <strong><em>Pai<\/em> <\/strong>(Is 63,16; 64,7), como <strong><em>M\u00e3e<\/em><\/strong> (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como <strong><em>Marido<\/em><\/strong> (Is 54,4-5; 62,5), como parente pr\u00f3ximo (<em>go\u00eal<\/em> ou <strong><em>irm\u00e3o mais velho<\/em><\/strong>) (Is 41,14; 43,1). Jav\u00e9, o Deus que antes estava ligado ao Templo, ao culto oficial, ao sacerd\u00f3cio, ao clero, \u00e0 Monarquia, agora est\u00e1 perto deles, \u201cem casa\u201d; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas <strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">Casa<\/span>,<\/em><\/strong> e n\u00e3o <em>Templo<\/em>. N\u00e3o insistiram nas imagens religiosas tradicionais, mas sim usaram imagens novas tiradas da vida familiar e comunit\u00e1ria. Eles <em>humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram a vida, a fam\u00edlia, a pequena comunidade, como o espa\u00e7o do reencontro com Deus<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui est\u00e1 a raiz que vai animar a luta do povo pela reconquista do Bem-Viver. A for\u00e7a que mant\u00e9m o horizonte aberto, \u00e9 esta nova experi\u00eancia de Deus e da vida. Tr\u00eas aspectos desta luta merecem nossa particular aten\u00e7\u00e3o, pois ter\u00e3o continuidade na vida e na atividade de Jesus em defesa do Bem Viver do Reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. A reconstru\u00e7\u00e3o do relacionamento humano na conviv\u00eancia di\u00e1ria (Qohelet)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qohelet oferece crit\u00e9rios para o povo poder adquirir uma consci\u00eancia mais clara frente \u00e0s v\u00e1rias tend\u00eancias da \u00e9poca. Havia a proposta de Esdras e Neemias, que, de um lado, promovia a abertura para o imp\u00e9rio e, de outro lado, fechava o povo na observ\u00e2ncia estrita da lei e na pureza da ra\u00e7a, chegando ao ponto de expulsar as mulheres estrangeiras (Es 9,1-2; 10,3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com palavras diferentes, Qohelet repete, do come\u00e7o ao fim: \u201cTudo \u00e9 vaidade!\u201d, miragem, ilus\u00e3o! Parece um estribilho que sempre volta, <em>vinte e nove vezes!<\/em> (Qo 1,2.14.17; 2,1.11.15.17.19.21.23.26; 3,19; 4,4.8.16; 5,9.15.19; 6,2.9.12; 7,6.15; 8,10.14; 9,9; 11,8.10; 12,8). Ele critica tanto a sede de riqueza da elite, favor\u00e1vel \u00e0 abertura para o imp\u00e9rio (Qo 2,1-16; 5,9-16) e a sua mania de correr atr\u00e1s das novidades (Qo 1,10-11), quanto o fechamento dos escribas com a sua pretensa justi\u00e7a e com seu sentimento de gente privilegiada por Deus (Qo 7,15-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por meio de outro estribilho que, com palavras diferentes, \u00e9 repetido <em>sete vezes<\/em>, Qohelet aponta uma sa\u00edda que pode ser resumida da seguinte maneira: <em>\u201cNada h\u00e1 de melhor para o ser humano do que alegrar-se, comer e beber, desfrutar o fruto do trabalho e gozar a vida com a esposa amada, pois tudo isto vem da m\u00e3o de Deus\u201d<\/em> (cf. Qo 2,24-25; 3,12-15; 3,22; 5,17-19; 7,13-14; 8,15; 9,7-10). Qohelet convida o povo a reencontrar o fundamento do Bem-Viver na vida em comunidade, na fam\u00edlia, no trabalho honesto e na f\u00e9 em Deus. Todo o resto, que n\u00e3o contribui para a reconstru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias neste n\u00facleo b\u00e1sico e caseiro da conviv\u00eancia humana \u00e9 <em>vaidade<\/em>, perda de tempo, corrida atr\u00e1s do vento, miragem, ilus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Resistir contra a marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da mulher (C\u00e2ntico, Rute)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No relato sobre a manifesta\u00e7\u00e3o da Sabedoria Divina na hist\u00f3ria do povo de Deus (Eclo 44-50), o autor do livro do Eclesi\u00e1stico s\u00f3 conservou os nomes dos homens. Quando fala da mulher, manifesta um certo desprezo (Eclo 25,13); e quando diz coisas boas sobre ela, \u00e9 a partir do ponto de vista do homem (Eclo 26,1-2.13; 36,21-27). Por\u00e9m, quando fala da Sabedoria, ele a personifica sob a figura de uma mulher (Eclo 4,11-19; 14,20-15,10; 24,1-29). Estas duas tend\u00eancias, marginaliza\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da mulher, aparecem em todo o Antigo Testamento, mas sobretudo no per\u00edodo depois do cativeiro. Na mesma medida em que crescia a exclus\u00e3o da mulher, cresciam a sua resist\u00eancia e valoriza\u00e7\u00e3o. V\u00e1rios livros registram esta resist\u00eancia e valoriza\u00e7\u00e3o progressivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, a mulher aparece como pessoa independente. Para poder encontrar o seu amado, ela enfrenta os guardas da cidade (Ct 3,1-4; 5,2-8), o rival que a persegue (Ct 8,11-12), e os irm\u00e3os que querem prote\u00adg\u00ea-la (Ct 8,8-10). No livro de Rute, duas mulheres pobres, ambas vi\u00favas sem futuro, das quais uma estrangeira, est\u00e3o na origem da reconstru\u00e7\u00e3o do povo. S\u00e3o elas que tomam as iniciativas para reconquistar os direitos perdidos e fazer observar a lei do resgate (Rt 2,20; 3,1-6). \u00c9 de uma estrangeira que nasce o av\u00f4 do messias (Rt 4,11.17). Judite, mulher de um povoado imagin\u00e1rio da Samaria, contesta a decis\u00e3o tomada pelos anci\u00e3os e sacerdotes (Jdt 8,11-17). Sozinha, ela enfrenta o ex\u00e9rcito inimigo e consegue derrotar o general Holofernes, cortando-lhe a cabe\u00e7a (Jdt 8,32-34; 13,6-10). Ester \u00e9 a mulher que se engaja na luta pela sobreviv\u00eancia do povo (Est4,8-17). O mesmo valor de resist\u00eancia encontramos nas primeiras p\u00e1ginas da B\u00edblia, escritas depois do cativeiro, onde se afirma a igualdade do homem e da mulher como imagem de Deus\u00a0 (Gn 1,27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes livros a mulher aparece n\u00e3o tanto como m\u00e3e e esposa, mas muito mais como mulher que sabe usar sua dignidade e beleza para lutar pelos direitos dos pobres e assim defender a Alian\u00e7a do povo. E ela luta n\u00e3o a favor do Templo, nem a favor de leis abstratas, mas sim a favor da vida do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. Cr\u00edtica radical \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o da imagem de Deus (J\u00f3)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de J\u00f3 ajuda a perceber como a imagem que as pessoas t\u00eam de Deus repercute na organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social, pol\u00edtica e religiosa da sociedade. O ensino oficial dizia: \u201cSofrimento e pobreza s\u00e3o castigo de Deus\u201d (cf. J\u00f3 4,7; 8,1-4). Identificava o bem-viver com a riqueza. Esta maneira de representar o relacionamento entre Deus e o ser humano falsificava o bem-viver, beneficiava a elite e dava aos pobres um complexo de culpa e de inferioridade. O livro de J\u00f3 verbaliza a tens\u00e3o que estava nascendo entre o ensino oficial da elite e a incipiente consci\u00eancia rebelde dos sofredores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de J\u00f3 nos d\u00e1 uma imagem concreta da ambival\u00eancia entre os s\u00e1bios: uns raciocinando a partir da tradi\u00e7\u00e3o, querendo manter a ordem conquistada, e outros raciocinando a partir da experi\u00eancia dolorosa da vida, denunciando a domina\u00e7\u00e3o. Os tr\u00eas amigos representam a vis\u00e3o tradicionalista, que eles defendem com unhas e dentes. J\u00f3 representa os sofredores, cuja consci\u00eancia estava come\u00e7ando a se rebelar. A cabe\u00e7a de J\u00f3, formada pelo catecismo da tradi\u00e7\u00e3o dominante, dizia: \u201cVoc\u00ea sofre e \u00e9 pobre porque \u00e9 pecador! Deus o est\u00e1 castigando!\u201d Mas o cora\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia, lhe dizia: \u201cDeus \u00e9 injusto comigo! N\u00e3o pequei! Quero brigar com ele para me defender\u201d. J\u00f3 critica os tr\u00eas amigos, que identificavam a presen\u00e7a de Deus com o n\u00edvel econ\u00f4mico das pessoas: \u201cVoc\u00eas usam mentiras e injusti\u00e7as para defender a Deus!\u201d (J\u00f3 13,7). \u201cVoc\u00eas s\u00e3o capazes de sortear um \u00f3rf\u00e3o e vender seu pr\u00f3prio amigo!\u201d (J\u00f3 7,27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frase final do livro de J\u00f3 traz a luz que esclarece o problema em torno da imagem de Deus. J\u00f3 \u00a0se dirige a Deus e diz:<em> \u201cEu te conhecia s\u00f3 de ouvir falar de Ti, mas agora meus olhas te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre p\u00f3 e cinza\u201d<\/em> (J\u00f3 42,4-6). J\u00f3 descobriu que a sua luta n\u00e3o era contra Deus, mas sim contra aquela imagem de Deus que falsificava a consci\u00eancia das pessoas e destru\u00eda a conviv\u00eancia humana. \u00c9 a rebeldia prof\u00e9tica da tradi\u00e7\u00e3o sapiencial que n\u00e3o quer ser enquadrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6. Jesus ensina como construir o bem-viver no Reino de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jesus retoma a tradi\u00e7\u00e3o dos s\u00e1bios, profetas e levitas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua atitude frente aos fariseus e escribas <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas discuss\u00f5es de Jesus com os fariseus e escribas, aparece a ambival\u00eancia inerente \u00e0 natureza da sabedoria. De um lado, os fariseus e os escribas que controlam e dominam; do outro lado, Jesus resiste e liberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua maneira de ensinar por meio de par\u00e1bolas e de transmitir conhecimento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como os s\u00e1bios, Jesus tinha uma capacidade enorme para comparar as coisas de Deus com as coisas da vida do povo. As par\u00e1bolas provocam e levam as pessoas a refletir sobre a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, e fazem com que esta experi\u00eancia as leve a descobrir Deus presente na vida. A par\u00e1bola muda o olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua atitude frente \u00e0 Lei de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como os levitas, Jesus quer que as pessoas ultrapassem a letra e percebam o objetivo da lei \u00e9 (Mt 7,12; Mc 12,29-31), Aos que identificavam a vontade de Deus com a letra da Lei, ele dizia: <em>\u201cAntigamente foi dito, mas eu digo\u201d<\/em> (Mt 5,21-22.27-28.31-34.38-39.43-44). Para Jesus a <strong><em>torah<\/em><\/strong> quer o bem-viver do povo: \u201cEu vim para que tenham vida e vida em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua atitude frente \u00e0s pr\u00e1ticas e tradi\u00e7\u00f5es religiosas <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como os profetas, Jesus n\u00e3o permite que as tradi\u00e7\u00f5es religiosas desviem o povo da verdadeira experi\u00eancia de Deus e da vida. Ele mostra grande liberdade frente aos costumes religiosos: esmola (Mt 6,1-4), formas de rezar (Mt 6,5-15), jejum (Mt 6,16-18), pr\u00e1ticas da pureza legal (Mc 7,1-23), observ\u00e2ncia do s\u00e1bado (Mc 2,23-28), comunh\u00e3o de mesa com pag\u00e3os e pecadores (Mc 2,15-17), Templo (Mc 11,15-17). Ele chegou a dizer que Deus pode ser adorado em qualquer lugar contanto que seja em esp\u00edrito e verdade (Jo 4, 21-24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua atitude frente \u00e0s pessoas de outra ra\u00e7a e religi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como os s\u00e1bios, Jesus n\u00e3o se fecha dentro da sua pr\u00f3pria ra\u00e7a e religi\u00e3o, mas sabe reconhecer as coisas boas que existem nas pessoas de outra ra\u00e7a e religi\u00e3o. Ele acolhe li\u00e7\u00f5es da parte deles: da Canan\u00e9ia (Mt 15,27-28), da Samaritana (Jo 4,31-38) e at\u00e9 dos Romanos (Mt 8,5-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua atitude frente ao povo, sobretudo frente aos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como os profetas, Jesus defende os direitos dos pobres e reconhece neles a sabedoria de Deus (Mt 11,25-26). Bondade, ternura e simplicidade s\u00e3o a caracter\u00edstica do jeito com que Jesus acolhe as pessoas: o velho Zaqueu (Lc 19,1-10), as m\u00e3es com crian\u00e7as (Mt 19,13-14), o leproso que grita \u00e0 beira da estrada (Mt 8,2; Mc 1,40-41), o paral\u00edtico de 38 anos (Jo 5,5-9), o cego de nascimento na pra\u00e7a do templo (Jo 9,1-13), a mulher curvada na sinagoga (Lc 13,10-13), a vi\u00fava de Naim (Lc 7,11-17), as crian\u00e7as em todo canto (Mt 21,15-16), e tantas e tantas outras pessoas. \u00c9 o contr\u00e1rio da atitude dos fariseus e escribas chamavam o povo de ignorante e maldito e achavam que o povo n\u00e3o tinha nada para ensinar a eles (Jo 7,48-49; 9,34)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As dimens\u00f5es do Bem-Viver no Reino de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este testemunho de Jesus era amostra e semente do Bem-Viver do Reino, trazida por ele da parte de Deus. Os doutores ensinavam que o Reino s\u00f3 viria como fruto da observ\u00e2ncia da lei. Jesus dizia: \u201cO Reino j\u00e1 est\u00e1 presente no meio de voc\u00eas!\u201d (Lc 17,21). Jesus realiza a esperan\u00e7a do povo atrav\u00e9s de uma pr\u00e1tica que revela os v\u00e1rios aspectos ou dimens\u00f5es do bem-viver no Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Jesus refaz o relacionamento humano na base<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa \u00e9poca em que a religi\u00e3o oficial insistia no espa\u00e7o sagrado do Templo e nas coisas ligadas ao culto, Jesus recupera a dimens\u00e3o caseira da f\u00e9. O ambiente da <strong><em>Casa<\/em><\/strong> exerce um papel central na vida e na atividade de Jesus. Quando se fala em <em>casa<\/em>, n\u00e3o se trata s\u00f3 da casa de tijolos ou de pedra, nem s\u00f3 da fam\u00edlia pequena, mas tamb\u00e9m e sobretudo do cl\u00e3, da comunidade. At\u00e9 \u00e0 idade de trinta anos, Jesus viveu no ambiente comunit\u00e1rio e caseiro l\u00e1 em Nazar\u00e9. Durante os tr\u00eas anos que andou pela Galil\u00e9ia ele entrava e vivia nas <em>casas<\/em> do povo. Entrou na <em>casa<\/em> de Pedro (Mt 8,14), de Mateus (Mt 9,10), de Jairo (Mt 9,23), de Sim\u00e3o o fariseu (Lc 7,36), de Sim\u00e3o o leproso (Mc 14,3), de Zaqueu (Lc 19,5). O oficial reconhece: \u201cN\u00e3o sou digno de que entres em minha <em>casa<\/em>\u201d (Mt 8,8). E o povo procurava Jesus na <em>casa <\/em>dele (Mt 9,28; Mc 1,33; 2,1; 3,20). Quando ia a Jerusal\u00e9m, Jesus parava em Bet\u00e2nia na <em>casa<\/em> de Marta, Maria e L\u00e1zaro (Jo 11,3.5.45; 12,2). No envio dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas a miss\u00e3o deles \u00e9 entrar nas <em>casas<\/em> do povo e levar a paz (Mt 10,12-14; Mc 6,10; Lc 10,1-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Recupera a dimens\u00e3o sagrada e festiva da Casa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, sua m\u00e3e e todos os disc\u00edpulos participam da festa de casamento em Can\u00e1 (Jo 2,1-2). Jesus aceita convite para almo\u00e7ar e jantar nas casas do povo: de Sim\u00e3o o leproso (Mc 14,3), de Sim\u00e3o o fariseu (Lc 7,36), de Marta e Maria (Jo 12,2), de um outro fariseu (Lc 11,37; 14,12). \u00c9 na sala superior da <em>casa<\/em> de um amigo que Jesus celebrou a \u00faltima p\u00e1scoa com seus amigos (Mt 26,18-19). Envia os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas para reconstruir o cl\u00e3 nas aldeias da Galil\u00e9ia nas quatro bases da vida comunit\u00e1ria: hospitalidade, partilha, comunh\u00e3o de mesa e acolhida aos exclu\u00eddos (Lc 10,1-9). Depois da ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus entrou em <em>casa<\/em> com os dois disc\u00edpulos em Ema\u00fas e foi reconhecido por eles no gesto t\u00e3o caseiro da fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o (Lc 24,29-30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. Reconstr\u00f3i a vida comunit\u00e1ria nos povoados da Galil\u00e9ia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como explicar as palavras duras em que Jesus diz literalmente: <em>&#8220;Se algu\u00e9m vem a mim, e n\u00e3o odeia seu pai, sua m\u00e3e, sua mulher, seus filhos, irm\u00e3os, irm\u00e3s, e at\u00e9 mesmo \u00e0 sua pr\u00f3pria vida, esse n\u00e3o pode ser meu disc\u00ed\u00adpulo\u201d <\/em>(Lc 14,26). No antigo Israel, o cl\u00e3, isto \u00e9, a fam\u00edlia ampliada, a comunidade, era a base da conviv\u00eancia social. Era a garantia de vida para uma pessoa: garantia a terra, a prote\u00e7\u00e3o, a defesa, os relacionamentos, as tradi\u00e7\u00f5es que davam identidade a uma pessoa. Era a maneira concreta do povo daquela \u00e9poca encarnar o amor a Deus e ao pr\u00f3ximo. Defender o cl\u00e3 era o mesmo que defender a Alian\u00e7a entre Deus e o povo. Mas na \u00e9poca de Jesus, devida \u00e0 pol\u00edtica dos romanos e ao sistema da religi\u00e3o oficial, a vida comunit\u00e1ria estava sendo desintegrada. Mais da metade do or\u00e7amento familiar ia para os impostos, taxas, tributos, d\u00edzimos. Tais pol\u00edticas excludentes geravam doentes, famintos, marginalizados, vi\u00favas, \u00f3rf\u00e3os, possessos, pobres. Esta situa\u00e7\u00e3o levava as fam\u00edlias a se fecharem sobre si mesmas, impossibilitadas de exercer seu dever de go\u00eal, de ajuda desinteressada aos parentes do mesmo cl\u00e3 ou comunidade. A pr\u00f3pria fam\u00edlia de Jesus queria impedir que Jesus se reocupasse com os outros e queriam lev\u00e1-lo de volta para Nazar\u00e9. Jesus reage e n\u00e3o quer saber: \u201cQuem \u00e9 minha m\u00e3e e meus irm\u00e3os? \u00c9 todo aquele que faz a vontade do Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us\u201d (Mc 3,34-35) Jesus alarga a fam\u00edlia, reconstr\u00f3i o cl\u00e3, a comunidade. Ele quer evitar que as fam\u00edlias se fechem sobre si mesmas e, assim, desintegrem a vida do cl\u00e3, da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. Cuida dos doentes e acolhe os exclu\u00eddos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro trabalho de Jesus foi cuidar de doentes (Mc 1,32). Os enfermos, por causa de sua doen\u00e7a considerada um castigo divino, eram afastados do conv\u00edvio social, perambulando pelas ruas, aguardando uma esmola. Ao voltar-se para os doentes, Jesus assumiu um lado da sociedade de seu tempo. Assumiu conscientemente uma marginaliza\u00e7\u00e3o social, a ponto de j\u00e1 n\u00e3o poder entrar nas cidades (Mc 1,45). Jesus anuncia o Reino para todos! N\u00e3o exclui ningu\u00e9m. Mas o anuncia a partir dos ex\u00adclu\u00eddos. Ele oferece um lugar aos que n\u00e3o tinham lugar na conviv\u00eancia humana. Com amor e carinho acolhe os que n\u00e3o eram acolhidos. Recebe como irm\u00e3o e irm\u00e3 aos que a religi\u00e3o e o governo despre\u00adzavam e exclu\u00edam: os <em>imorais<\/em>: prostitutas e pecadores(Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11); os <em>hereges<\/em>: pag\u00e3os e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42); os <em>impuros<\/em>: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26); os <em>marginalizados<\/em>: mulheres,crian\u00e7as e doentes (Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s); os <em>colaboradores<\/em>: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10); os <em>pobres<\/em>: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,\u00ad20.\u00ad24; Mt 11,25-26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. Recupera igualdade homem e mulher<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus soube acolher e dar continuidade \u00e0 resist\u00eancia das mulheres contra a sua exclus\u00e3o. A mo\u00e7a <em>prostitu\u00edda<\/em> \u00e9 acolhida e defendida por Jesus contra o fariseu (Lc 7,36-50). A mulher <em>encurvada<\/em> \u00e9 acolhida por Jesus como filha de Abra\u00e3o contra o dirigente da sinagoga (Lc 13,10-17). A mulher <em>impura<\/em> \u00e9 acolhida sem censura e curada (Mc 5,25-34). A Samaritana, desprezada como <em>her\u00e9tica<\/em>, \u00e9 a primeira pessoa a receber o segredo de que Jesus \u00e9 o Messias (Jo 4,26). A mulher <em>estrangeira<\/em> de Tiro e Sid\u00f4nia \u00e9 atendida por ele (Mc 7, 24-30). As <em>m\u00e3es com filhos pequenos<\/em> que enfrentam os disc\u00edpulos s\u00e3o acolhidas e aben\u00e7oadas por Jesus (Mt 19,13-15; Mc 10,13-16). As mulheres, que desafiaram o poder e ficaram perto da cruz de Jesus (Mt 27,55-56.61), foram as primeiras a experimentar a presen\u00e7a de Jesus ressuscitado (Mt 28,9-10). Maria Madalena, considerada <em>possessa<\/em>, mas curada por Jesus (Lc 8,2), recebeu a <em>ordem<\/em> de transmitir a Boa Nova da ressurrei\u00e7\u00e3o aos ap\u00f3stolos (Jo 20,16-18). As mulheres fazem parte da comunidade de disc\u00edpulos que se forma ao redor de Jesus (Lc 8,1-3; Mc 15,40-41).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6. Vai ao encontro das pessoas<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No lugar de encerrar-se numa sinagoga ou numa escola e exercer o poder de um escriba, Jesus rompe este esquema, tornando-se um pregador ambulante. Onde encontra gente para escut\u00e1-lo, ele fala e transmite a Boa Nova de Deus. Em qualquer lugar. Nas <em>sinagogas<\/em> durante a celebra\u00e7\u00e3o da Palavra nos s\u00e1bados (Mc 1, 21; 3,1; 6,2). Em <em>reuni\u00f5es <\/em>informais nas casas de amigos (Mc 2,1.15; 7,17; 9,28; 10,10). Andando pelo <em>caminho <\/em>com os disc\u00edpulos (Mc 2,23). Ao longo do mar, \u00e0 beira da <em>praia,<\/em> sentado num barco (Mc 4,1). No <em>deserto<\/em> para onde se refugiou e onde o povo o procura (Mc 6,32-34). Na <em>montanha<\/em>, de onde proclama as bem-aventuran\u00e7as (Mt 5,1). Nas <em>pra\u00e7as<\/em> das aldeias e cidades, onde povo carrega seus doentes(Mc 6, 55-56). Mesmo no <em>Templo <\/em>de Jerusal\u00e9m, nas romarias, diariamente, sem medo (Mc 14,49)! Ele vai ao encontro das pessoas, estabelecendo com elas uma rela\u00e7\u00e3o direta atrav\u00e9s da pr\u00e1tica do acolhimento. Antes de propor ou expor um conte\u00fado b\u00e1sico doutrin\u00e1rio, Jesus prop\u00f5e um caminho de vida. A resposta \u00e9 <em>seguir<\/em> Jesus neste caminho: <em>\u201cVenham para mim todos voc\u00eas que est\u00e3o cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso, &#8230;aprendam de mim&#8230;\u201d <\/em>(Mt 11,28-30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7. Supera as barreiras de g\u00eanero, religi\u00e3o, ra\u00e7a e classe<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus supera as barreiras de g\u00eanero, de religi\u00e3o, de ra\u00e7a e de classe. Ele acolhe e conversa com Nicodemos (Jo 3,1), que era um membro da alta classe judaica, com assento no Sin\u00e9drio. Acolhe e conversa com uma mulher samaritana (Jo 4,7). Com esta mulher, Jesus consegue estabelecer um di\u00e1logo construtivo, superando uma das mais dif\u00edceis barreiras, a religi\u00e3o. Para a samaritana Jesus era um judeu (Jo 4,9), ou seja, um inimigo religioso, opressor dos samaritanos. Pacientemente, Jesus teve que, desarmar a samaritana e dizer: \u201cMulher, eu sou judeu, mas n\u00e3o sou teu inimigo!\u201d. Para estabelecer um di\u00e1logo com ela, Jesus come\u00e7a a conversa revelando uma car\u00eancia que s\u00f3 poderia ser saciada com o trabalho daquela mulher: \u201cD\u00e1-me de beber!\u201d Revelar uma car\u00eancia \u00e9 uma boa maneira de estabelecer um di\u00e1logo! O longo di\u00e1logo entre Jesus e a samaritana mostra o quanto Jesus estava aberto para a presen\u00e7a das mulheres em seu grupo. Contrariando um grande n\u00famero de rabinos, que n\u00e3o aceitavam mulheres em seus grupos de estudo, sabemos que muitas mulheres seguiam Jesus (Mc 15,41; Lc 8,2-3). O texto de Jo\u00e3o mostra que os pr\u00f3prios disc\u00edpulos ficam surpresos com o di\u00e1logo de Jesus com a samaritana (cf. Jo 4,27). Aceitar as mulheres em igualdade dentro do grupo n\u00e3o deve ter sido f\u00e1cil para os disc\u00edpulos (Lc 24,11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas estas atitudes de Jesus revelavam a experi\u00eancia de Deus que o animava por dentro. Ele irradiava uma nova imagem de Deus em aberto contraste com a concep\u00e7\u00e3o de Deus que se expressava nas atitudes e na estrutura religiosa oficial da \u00e9poca. Jesus \u00e9 um leigo que n\u00e3o estudou na escola oficial. Mas o povo reconhecia que nele existe sabedoria (Mc 6,2) e ficava impressionado com o jeito que Jesus tinha de ensinar: \u201cUm novo ensinamento! Dado com autoridade! Diferente dos escribas!\u201d (Mc 1,22.27). Por isso foi perseguido pelas autoridades. Como J\u00f3 aos olhos dos tr\u00eas amigos, assim Jesus aos olhos dos escribas e fariseus, era um homem sem Deus (Jo 9,16), contr\u00e1rio ao Templo e \u00e0 Lei de Deus (Mt 26,61).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os t\u00edtulos de Jesus: um novo caminho para construir o Bem-Viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi esta a Boa Nova que Jesus viveu e irradiou durante os tr\u00eas anos que andou pela Galil\u00e9ia anunciando o Reino de Deus. Sua mensagem desagradou aos poderosos e eles o prenderam, condenaram e mataram na cruz. Mas Deus o ressuscitou, confirmando-o diante dos disc\u00edpulos por meio de muitas apari\u00e7\u00f5es (1Cor 15,3-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Animados pelo Esp\u00edrito de Jesus no dia de Pentecostes (At 2,1-4; Jo 20,21-23), os disc\u00edpulos deram continuidade ao an\u00fancio da Boa Nova do Reino. A for\u00e7a que os sustentava no an\u00fancio da Boa Nova est\u00e1 expressa neste testemunho do ap\u00f3stolo Paulo: \u201cVivo, mas j\u00e1 n\u00e3o sou eu, \u00e9 Cristo que vive em mim&#8221; (Gl 2,20). Jesus era tudo para eles!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para aprofundar e expressar quem era Jesus para eles, conservavam e divulgavam t\u00edtulos, nomes e atributos. S\u00f3 no Novo Testamento mais de cem! Cada t\u00edtulo era uma tentativa para revelar algum aspecto da riqueza que Jesus significava para a vida deles. Os tr\u00eas t\u00edtulos mais antigos de Jesus est\u00e3o nesta frase:<em> \u201cO Filho do Homem n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate para muitos\u201c<\/em> (Mc 10,45). Os tr\u00eas v\u00eam do Antigo Testamento: <strong><em>Filho do Homem, Servo de Deus <\/em><\/strong>e <strong><em>Redentor <\/em><\/strong>(resgate)<strong><em> dos irm\u00e3os<\/em><\/strong>. Cada t\u00edtulo revela um determinado aspecto da riqueza que esclarece o caminho que conduz ao Bem-Viver do Reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Filho do homem <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho do Homem \u00e9 o t\u00edtulo que Jesus mais gostava de usar. Aparece mais de 80 vezes s\u00f3 nos quatro evangelhos! A express\u00e3o <em>Filho do Homem<\/em> vem dos profetas Ezequiel e Daniel. Em Ezequiel, a express\u00e3o \u201cfilho do homem\u201d ocorre 93 vezes e acentua a condi\u00e7\u00e3o humana do profeta. No livro de Daniel a express\u00e3o Filho do Homem ocorre na vis\u00e3o dos grandes imp\u00e9rios do mundo (Dn 7,1-28). Os imp\u00e9rios s\u00e3o apresentados sob a figura de animais (Dn 7,4-8), pois s\u00e3o animalescos; desumanizam a vida, \u201canimalizam\u201d as pessoas. O Reino de Deus \u00e9 apresentado, sob a figura de um ser humano, de um <em>Filho do Homem <\/em>(Dn 7,13). O Filho do Homem, o povo de Deus, n\u00e3o se deixa desumanizar nem enganar pela ideologia dominante dos reinos animalescos. A sua miss\u00e3o consiste em realizar o Reino de Deus como um reino <em>humano, <\/em>reino que n\u00e3o persegue a vida, mas sim a promove! Humaniza as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apresentando-se aos disc\u00edpulos como <em>Filho do Homem<\/em>, Jesus assume como <strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">sua<\/span><\/em><\/strong> esta miss\u00e3o humanizadora. \u00c9 como se dissesse: \u201cVenham comigo! Esta miss\u00e3o \u00e9 de todos n\u00f3s! Vamos juntos realizar a miss\u00e3o que Deus nos entregou, e realizar o Reino humano e humanizador que ele sonhou!\u201d E foi o que Jesus fez e viveu durante toda a sua vida, sobretudo, nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Ele foi t\u00e3o humano, mas t\u00e3o humano, como s\u00f3 Deus pode ser humano. Quanto mais humano, tanto mais divino! Quanto mais \u201cfilho do Homem\u201d e tanto mais \u201cfilho de Deus!\u201d Tudo que desumaniza as pessoas, afasta de Deus. \u00c9 <strong><em>humanizando<\/em><\/strong> que se constr\u00f3i o Bem-Viver do Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Servo de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este t\u00edtulo vem de uma profecia de Isa\u00edas, na qual o futuro Messias \u00e9 apresentado como Servo de Deus (Is 42,1-9). No tempo de Jesus, alguns esperavam um Messias <em>Rei<\/em> (Mc 15,9.32); outros, um Messias Santo ou <em>Sumo<\/em> <em>Sacerdote<\/em> (Mc 1,24); outros, um Messias <em>Guerrilheiro<\/em> (Lc 23,5; Mc 13,6-8), Messias <em>Doutor<\/em> (Jo 4,25), Messias <em>Juiz<\/em> (Lc 3,5-9), Messias <em>Profeta<\/em> (Mc 6,4; 14,65). Apesar das diferen\u00e7as, todos eles esperavam um messias glorioso que fizesse o povo de Deus ser grandioso no meio dos povos. S\u00f3 os pobres esperavam o Messias <em>Servidor<\/em>, anunciado pelo profeta Isa\u00edas (Is 42,1; 49,3; 52,13), e encaravam a miss\u00e3o do povo de Deus, n\u00e3o como um dom\u00ednio, mas como um servi\u00e7o \u00e0 humanidade. Maria, a pobre de Jav\u00e9, dizia ao anjo: \u201cEis aqui a <em><span style=\"text-decoration: underline;\">serva<\/span><\/em> do Senhor!\u201d Foi dela e dos pobres que Jesus aprendeu o caminho do servi\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este povo-servo \u00e9 descrito como aquele que \u201cn\u00e3o grita, nem levanta a voz, n\u00e3o solta berros pelas ruas, n\u00e3o quebra a planta machucada, nem apaga o pavio de vela que ainda solta fuma\u00e7a\u201d (Is 42,2). Perseguido, n\u00e3o persegue; oprimido, n\u00e3o oprime. Nele o v\u00edrus da viol\u00eancia opressora dos imp\u00e9rios n\u00e3o consegue penetrar. A atitude resistente do Servo de Jav\u00e9 marcou a vida de Jesus. Isa\u00edas diz do Servo \u201cCom fidelidade ele promove o direito, sem desanimar nem desfalecer, at\u00e9 estabelecer o direito sobre a terra\u201d(Is 42,4). \u00a0Jesus percorreu o caminho do servi\u00e7o at\u00e9 o fim, at\u00e9 as \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias. Ele definiu sua miss\u00e3o: <em>\u201cN\u00e3o vim para ser servido, mas para servir\u201d<\/em> (Mc 10,45). Ele n\u00e3o veio para implantar uma nova religi\u00e3o, mas para trazer a dimens\u00e3o de servi\u00e7o para todas as religi\u00f5es. \u00c9 <strong><em>humanizando e servindo<\/em><\/strong> que se constr\u00f3i o Bem-Viver do Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Redentor dos irm\u00e3os<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus inicia a sua prega\u00e7\u00e3o proclamando um novo jubileu, um <em>\u201cAno de Gra\u00e7a da parte do Senhor\u201d<\/em> (Lc 4,19). O objetivo do Ano Jubileu era restabelecer os direitos dos pobres, acolher os exclu\u00eddos, reintegr\u00e1-los na conviv\u00eancia e, assim, voltar ao sentido profundo e original da Lei de Deus. Um dos meios para levar a bom termo o Ano Jubileu era a lei do \u201cResgate\u201d (<em>Go\u00eal<\/em>, Redentor) (Lv 25,23-55). Jesus \u00e9 o <em>Go\u00eal<\/em>, o redentor dos irm\u00e3os, que veio pagar o resgate, para que n\u00f3s pud\u00e9ssemos ser libertados da escravid\u00e3o e recuperar a vida em comunidade. Muita gente era marginalizada em nome da Lei de Deus. Jesus, a partir da sua experi\u00eancia de Deus, denuncia esta situa\u00e7\u00e3o que esconde o rosto de Deus para os pequenos (Mt 23,13-36). Como <em>redentor<\/em> (go\u00eal), <em>irm\u00e3o mais velho<\/em>, ele oferece um lugar aos que n\u00e3o tinham lugar. Acolhe os que n\u00e3o eram acolhidos e recebe como irm\u00e3o aqueles que a religi\u00e3o e o governo desprezavam e exclu\u00edam (Mc 3,34). N\u00e3o tendo dinheiro para pagar o resgate, ele <em>se entregou<\/em> a si mesmo, seu corpo e seu sangue, para que todos pudessem viver em fraternidade (1Cor 11,23-26; Mc 14,22-24; Lc 22,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, o Redentor dos irm\u00e3os! Este talvez seja o t\u00edtulo mais antigo para expressar o que Jesus significa para n\u00f3s. O termo hebraico <em>go\u00eal <\/em>\u00e9 t\u00e3o rico que n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o un\u00edvoca na nossa l\u00edngua: redentor, salvador, libertador, defensor, advogado, consolador, par\u00e1clito, parente pr\u00f3ximo, irm\u00e3o mais velho. S\u00e3o Paulo o definiu t\u00e3o bem na carta aos G\u00e1latas: \u201cEu vivo, mas j\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, pois \u00e9 Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo, eu a vivo pela f\u00e9 no Filho de Deus, que me amou e<strong><em> se entregou por mim<\/em><\/strong>\u201d (Gl 2,20). . \u00c9 <strong><em>humanizando, servindo e acolhendo<\/em><\/strong> que se constr\u00f3i o Bem-Viver do Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Resumindo<\/span><\/strong>.\u00a0 Foi atrav\u00e9s da janela destes tr\u00eas t\u00edtulos, que os primeiros crist\u00e3os transmitiam o significado de Jesus para as suas vidas. O <em>Filho do Homem<\/em> se caracteriza pela <strong>humanidade<\/strong>; o <em>Servo de Deus<\/em>, pelo <strong>servi\u00e7o<\/strong>; o <em>Redentor<\/em>, pela <strong>acolhida aos exclu\u00eddos<\/strong>. Humanizar, Servir, Acolher. S\u00e3o os tr\u00eas tra\u00e7os principais por onde Deus nos mostra o seu rosto em Jesus. Indicam tamb\u00e9m o caminho mais tradicional para construir o Bem-Viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim se inicia a revers\u00e3o da desintegra\u00e7\u00e3o iniciada com Ad\u00e3o que culminou na confus\u00e3o da Torre de Babel:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A confus\u00e3o das l\u00ednguas da Torre de Babel come\u00e7ou a ser superada no dia de Pentecostes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A desintegra\u00e7\u00e3o do Dil\u00favio causa pela magia come\u00e7ou a ser superada pela for\u00e7a da f\u00e9 renovada<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* \u00a0A viol\u00eancia 70&#215;7 de Lameque come\u00e7ou a ser superada pelo perd\u00e3o 70&#215;7 de Jesus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A morte da fraternidade causa por Caim come\u00e7ou a ser superada pelo amor ao pr\u00f3ximo de Jesus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 A aliena\u00e7\u00e3o de Deus causada por Ad\u00e3o e Eva \u00e9 superada por Jesus que morre e ressuscita em Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7. A Fraternidade Universal sem servos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizia a carta do CIMI: \u201cLutamos como servos para que ningu\u00e9m precise ser servo\u201d. \u00c9 o mesmo que lutar pela fraternidade universal: todos serem irm\u00e3o e irm\u00e3 uns dos outros, sem domina\u00e7\u00e3o, sem privil\u00e9gios sem prest\u00edgios. Os dois \u00faltimos cap\u00edtulos do Apocalipse retomam o mito do Para\u00edso e descrevem os v\u00e1rios aspectos desta fraternidade universal, express\u00e3o m\u00e1xima do bem viver no Reino de Deus, que \u00e9 apresentado como:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*\u00a0\u00a0 um novo Para\u00edso Terrestre e uma nova Cria\u00e7\u00e3o: novo c\u00e9u, nova terra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro para\u00edso, havia um rio que irrigava tudo e dava fertilidade \u00e0 terra (Gn 2,10-14). No novo para\u00edso, a cabeceira do rio \u00e9 o trono de Deus (Ap 22,1). Suas \u00e1guas irrigam a terra e fazem crescer muitas \u00e1rvores da vida, que d\u00e3o fruto doze vezes por ano (Ap 22,2)! At\u00e9 suas folhas curam as na\u00e7\u00f5es (Ap 22,2). Agora s\u00f3 existe vida em abund\u00e2ncia, para todos! (cf. Jo 10,10) As maldi\u00e7\u00f5es antigas (Gn 3,14-19) desapareceram (Ap 22,3). N\u00e3o haver\u00e1 mais morte, nem luto, nem grito, nem dor (Ap 21,4)! Ele d\u00e1 de beber da fonte das \u00e1guas da vida (Ap 21,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um novo c\u00e9u e uma nova terra (Ap 21,1). O mar, s\u00edmbolo do mal, j\u00e1 n\u00e3o existe (Ap 21,1). Na primeira cria\u00ad\u00e7\u00e3o, Deus iniciou seu trabalho criando a luz (Gn 1,3). Mas sobrou a escurid\u00e3o (Gn 1,5). Na nova cria\u00e7\u00e3o, a escurid\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o existe (Ap 21,25; 22,5). Tudo \u00e9 luz! O pr\u00f3prio Deus brilha sobre o seu povo (Ap 22,5). Jesus, o Cordeiro, \u00e9 a l\u00e2mpada que ilumina tudo (Ap 21,23). Das coisas antigas nada sobrou (Ap 21,1.4). O mundo antigo deixou de existir. A utopia tornou-se realidade! E Deus proclama: \u201cFa\u00e7o novas todas as coisas!\u201d (Ap 21,5)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9u desceu sobre a terra (Ap 21,2), transformada para sempre na Morada de Deus (Ap 21,3). Deus \u00e9 a fonte da vida (Ap 21,6; 22,1), o princ\u00edpio e o fim de tudo (Ap 21,6). Jav\u00e9, Deus conosco, Deus libertador. Deus na sua ternura infinita enxugar\u00e1 toda l\u00e1grima dos nossos olhos (Ap 21,4.7)! No futuro que Deus oferece, n\u00e3o haver\u00e1 mais necessidade de sol, nem de lua, nem de l\u00e2mpada (Ap 21,23; 22,5). Como a luz do sol que ilumina tudo, assim ser\u00e1 a presen\u00e7a amiga de Deus! A sua gl\u00f3ria iluminar\u00e1 o seu povo (Ap 21,23) e brilhar\u00e1 sobre ele (Ap 22,5). E todos, para sempre, contemplar\u00e3o a sua face (Ap 22,4). O lugar de Deus n\u00e3o \u00e9 no c\u00e9u, mas sim no cora\u00e7\u00e3o da humanidade!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*\u00a0\u00a0 uma festa de casamento, uni\u00e3o definitiva com Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade de Deus \u00e9 uma noiva, bonita, toda enfeitada para o seu marido (Ap 21,2). O seu esposo \u00e9 o Cordeiro (Ap 21,9). Ela \u00e9 a Filha de Si\u00e3o, a Mulher, s\u00edmbolo da humanidade, que lutou contra a morte e contra o Drag\u00e3o (Ap 12,1-6). A noiva, o povo, a humanidade, se prepara para a uni\u00e3o definitiva com Deus, para o casamento com o Cordeiro (Ap 19,7.9; 21,9), anunciado por Isa\u00edas: \u201cO teu esposo ser\u00e1 o teu Criador!\u201d (Is 54,5). \u201cComo a alegria do noivo pela sua noiva, tal ser\u00e1 a alegria que o teu Deus sentir\u00e1 em ti!\u201d (Is 62,5)\u00a0 \u00c9 a festa final da caminhada!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela desce do c\u00e9u, de junto de Deus (21,2.10), enfeitada com pedras preciosas de todos os tipos (Ap 21,19-21). Nela tudo \u00e9 perfeito: o comprimento, a largura, a altura, as muralhas, as portas, os alicerces (Ap 21,14-19). A sua pra\u00e7a principal \u00e9 de ouro puro, como vidro transparente (Ap 21,21). As suas portas est\u00e3o sempre abertas (Ap 21,25). As riquezas das na\u00e7\u00f5es s\u00e3o trazidas para dentro (Ap 21,26). N\u00e3o h\u00e1 perigo de roubo, pois nela n\u00e3o existe mais nada de impuro ou de mentiroso\u00a0 (Ap 21,27). Jerusal\u00e9m deixou de ser capital de um povo ou centro de uma religi\u00e3o para tornar-se o cora\u00e7\u00e3o da humanidade renovada. Ela \u00e9 uma cidade aberta, ecum\u00eanica (Ap 21,24-26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*\u00a0\u00a0 um novo \u00caxodo, uma nova Fraternidade universal Deus, Ele mesmo, tudo em todos!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como na sa\u00edda do Egito, Deus vem morar com o seu povo, estende sobre ele a sua tenda (Ap 21,3) e pronuncia as palavras da Alian\u00e7a: <em>Eu serei o seu Deus, e voc\u00eas ser\u00e3o o meu povo!<\/em> (Ap 21,3) E a cada um em particular ele diz: <em>Eu serei o seu Deus e voc\u00ea ser\u00e1 o meu filho<\/em> (Ap 21,7). A Alian\u00e7a \u00e9 com o povo todo e com cada um em particular. \u00c9 a perfeita harmonia! Ningu\u00e9m se perde no anonimato da massa que aliena, nem no individualismo de uma f\u00e9 que s\u00f3 pensa em si. O povo da Alian\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 um povo separado dos outros povos, mas ser\u00e1 a pr\u00f3pria humanidade. Ela ser\u00e1 a <em>tenda de Deus com os homens<\/em>. \u00c9 o ecumenismo finalmente realizado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A organiza\u00e7\u00e3o fraterna, iniciada no deserto com o recenseamento das doze tribos (Nm 1 a 4), aparece aqui em sua plenitude. O n\u00famero <em>doze<\/em> est\u00e1 em todo canto. \u00c9 a marca registrada da nova cria\u00e7\u00e3o: doze portas, doze anjos, doze tribos, doze alicerces, doze ap\u00f3stolos, doze mil est\u00e1dios, doze vezes doze c\u00f4vados, doze tipos de pedras preciosas, doze colheitas ao ano (Ap 21,12-21; 22,2). \u00c9 a organiza\u00e7\u00e3o perfeita na qual j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o, nem assassinato, nem impureza, nem magia, nem culto aos falsos deuses, nem mentira (Ap 21,8.27). \u00c9 a nova humanidade reconciliada consigo mesma, com a natureza, com o universo, com Deus. \u00c9 o Bem-Viver completo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A M\u00e3e Terra Clama pelo Bem Viver. E O Bem Viver no Reino de Deus. 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