{"id":207,"date":"2012-11-21T17:49:05","date_gmt":"2012-11-21T19:49:05","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=207"},"modified":"2012-11-21T17:49:05","modified_gmt":"2012-11-21T19:49:05","slug":"introducao-ao-apocalipse-de-sao-joao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/introducao-ao-apocalipse-de-sao-joao\/","title":{"rendered":"INTRODU\u00c7\u00c3O AO APOCALIPSE DE S\u00c3O JO\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><span style=\"font-size: large;\"><span style=\"color: #008000;\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O AO APOCALIPSE DE S\u00c3O JO\u00c3O: <\/strong><strong>QUINZE CHAVES DE LEITURA.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\">Frei Carlos Mesters, Carmelita<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>(Obs.:<\/strong> Esse artigo \u00e9 o 7\u00ba de uma s\u00e9rie de 10 artigos de frei Carlos Mesters que estamos disponibilizando semanalmente na internet, em <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a>.)<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>A ressurrei\u00e7\u00e3o se anuncia<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Aurora de um novo dia<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>A esperan\u00e7a renasce<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O Apocalipse atua<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>1\u00aa Chave: <\/strong>Vis\u00e3o geral da problem\u00e1tica em torno do Apocalipse<\/p>\n<p><strong>2\u00aa Chave: <\/strong>Diferen\u00e7a e semelhan\u00e7a entre Profecia e Apocalipse<\/p>\n<p><strong>3\u00aa Chave: <\/strong>A Porta de entrada no Apocalipse de Jo\u00e3o (Apoc 1,1-20)<\/p>\n<p><strong>4\u00aa Chave: <\/strong>A situa\u00e7\u00e3o das Sete Comunidades da \u00c1sia, espelho de hoje (Apoc 2-3)<\/p>\n<p><strong>5\u00aa Chave: <\/strong>Apocalipse: an\u00fancio prof\u00e9tico da Boa Nova de Deus em \u00e9poca de Imp\u00e9rio<\/p>\n<p><strong>6\u00aa chave: <\/strong>1\u00aa Caracter\u00edstica: Expressar tudo por meio de imagens e s\u00edmbolos<\/p>\n<p><strong>7\u00aa Chave: <\/strong>2\u00aa Caracter\u00edstica: Dividir a hist\u00f3ria em etapas para situar o momento presente<\/p>\n<p><strong>8\u00aa Chave: <\/strong>3\u00aa Caracter\u00edstica: Usar linguagem radical na leitura dos fatos<\/p>\n<p><strong>9\u00aa Chave: <\/strong>Limites, perigos e desvios do movimento apocal\u00edptico<\/p>\n<p><strong>10\u00aa Chave: <\/strong>As tend\u00eancias na interpreta\u00e7\u00e3o do Apocalipse<\/p>\n<p><strong>11\u00aa Chave: <\/strong>\u00c9poca, autor e hist\u00f3ria do texto do Apocalipse de Jo\u00e3o<\/p>\n<p><strong>12\u00aa Chave: <\/strong>Divis\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o do texto do Apocalipse<\/p>\n<p><strong>13\u00aa Chave: <\/strong>Apocalipse e Liturgia<\/p>\n<p><strong>14\u00aa Chave:<\/strong> Apocalipse e a vinda de Jesus no fim dos tempos: \u201cVem, Senhor Jesus!\u201d<\/p>\n<p><strong>15\u00aa Chave: <\/strong>Resumo da Mensagem do Apocalipse<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Ap\u00eandice: <\/strong>O contexto mais amplo da conjuntura do imp\u00e9rio romano da \u00e9poca<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">1\u00aa Chave<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>VIS\u00c3O GERAL DA PROBLEM\u00c1TICA EM TORNO DO APOCALIPSE<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. As dificuldades mais comuns do povo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse de Jo\u00e3o \u00e9 um livro misterioso, dif\u00edcil, controvertido, fechado a sete chaves, cheio de vis\u00f5es estranhas, descritas em linguagem obscura, que a gente n\u00e3o entende e que muitas vezes metem at\u00e9 medo nas pessoas. Sobretudo hoje em dia, nestes tempos <em>apocal\u00edpticos!<\/em> Livro cheio de viol\u00eancia e morte como se a vida humana j\u00e1 n\u00e3o valesse mais nada. Livro que mistura os tempos: voc\u00ea n\u00e3o sabe se ele fala do presente, do passado ou do futuro. Livro que provoca atitudes fatalistas, pois ele parece sugerir que n\u00e3o adianta voc\u00ea se esfor\u00e7ar para interferir no rumo dos acontecimentos. Tudo j\u00e1 parece determinado e a n\u00f3s s\u00f3 cabe assistir a tudo de camarote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra <em>apocalipse<\/em> sugere e provoca rea\u00e7\u00f5es bastante negativas: Sugere algo que tem a ver com confus\u00e3o, desastre, fim do mundo. Sugere algo que vem de for\u00e7as superiores. Alguns dizem que vem de Deus. Por isso provoca o fatalismo que faz ficar parado sem participar. Sugere vis\u00f5es e revela\u00e7\u00f5es, recebidas e interpretadas por videntes, como aqueles tr\u00eas sinais que apareceram na parede do pal\u00e1cio do rei Baltazar (Dn 5,5.25-26). Sugere ainda um certo fanatismo que pode levar as pessoas a cometer desatinos. A leitura errada do Apocalipse j\u00e1 provocou o suic\u00eddio de muita gente, tanto ontem como hoje. Afinal, qual o significado certo do Apocalipse?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Tr\u00eas interpreta\u00e7\u00f5es muito comuns<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse de Jo\u00e3o \u00e9 um dos livros mais procurados da B\u00edblia. Tamb\u00e9m dos mais abusados. Muitos n\u00e3o entendem o seu sentido, mas sentem uma atra\u00e7\u00e3o, uma curiosidade. Uma senhora disse: \u201cEntender, n\u00e3o entendo. O meu entendimento \u00e9 fraco, mas gosto muito. Me traz conforto e coragem na luta\u201d. De fato, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio entender de m\u00fasica para poder sentir o con\u00adforto de uma bela sinfonia! Imagens e vis\u00f5es, por si mesmas, podem comunicar conforto e coragem. Mas n\u00e3o basta a coragem. Sem o entendimento, ela pode desandar como um carro desgovernado. Pode at\u00e9 ser usada para fins anti-evang\u00e9licos, como j\u00e1 aconteceu e ainda acontece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros s\u00e3o mais cr\u00edticos. N\u00e3o querem s\u00f3 assistir. Querem \u00e9 conhecer o rumo e participar. Por isso n\u00e3o gostam do Apocalipse: \u201cDeus faz tudo. N\u00e3o sobra mais nada para a gente. E aquelas vis\u00f5es terr\u00edveis do fim do mundo! Sem um entendimento, aquilo s\u00f3 d\u00e1 medo na gente\u201d. Coragem sem entendimento desanda. Entendimento sem coragem paralisa. Como combinar as duas coisas na interpreta\u00e7\u00e3o do Apocalipse? E que entendimento? Pois nem todo entendimento abre o sentido do Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando em 1980 o Papa Jo\u00e3o Paulo II sofreu o atentado, alguns crentes diziam: \u201cIsto est\u00e1 bem conforme o que est\u00e1 escrito. O Apocalipse diz que a besta-fera recebe ferida de morte e sobrevive\u201d. Para uns, a besta-fera \u00e9 o Papa. Para outros, \u00e9 o governo. Para outros, o capitalismo. Para outros, o comunismo. Cada um l\u00ea o Apocalipse conforme o seu pr\u00f3prio entendimento e dele tira as suas conclus\u00f5es. Onde procurar o entendimento certo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. Resumindo<\/strong>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na opini\u00e3o comum, apocalipse ou apocal\u00edptico \u00e9 sin\u00f4nimo de:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Desastre e confus\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Medo e fim de mundo,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Vis\u00f5es estranhas e imagens esquisitas,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Interven\u00e7\u00e3o do alto e fatalismo c\u00e1 em baixo<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 Muito usado e muito abusado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">2\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DIFEREN\u00c7A E SEMELHAN\u00c7A ENTRE PROFECIA E APOCALIPSE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando dizemos: &#8220;Fulano \u00e9 um sujeito apocal\u00edptico!&#8221;, costumamos indicar uma pessoa que s\u00f3 fala em desastres e fim do mundo. Quando dizemos: &#8220;Fulana \u00e9 uma profetisa!&#8221;, indicamos uma pessoa, cuja palavra tem uma mensagem importante para os outros. Como explicar esta diferen\u00e7a? <em>Profecia<\/em> e <em>Apocalipse<\/em> n\u00e3o s\u00e3o ambos manifesta\u00e7\u00f5es do mesmo Esp\u00edrito de Deus e fontes de espiritualidade para o mesmo povo de Deus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes, se diz: &#8220;Temos que ser profetas!&#8221; Nunca se diz: &#8220;Temos que ser apocal\u00edpticos!&#8221; Pelo contr\u00e1rio! A palavra <em>apocal\u00edptico<\/em> parece ter uma aprecia\u00e7\u00e3o negativa. As igrejas at\u00e9 costumam reagir para manter fora de casa os ares aparentemente confusos e inc\u00f4modos do movimento apocal\u00edptico. Mesmo assim, o movimento pentecostal-apocal\u00edptico cresce como uma bola de neve. Cresce em toda a parte, sobretudo entre os mais pobres e exclu\u00eddos. Assim acontecia no fim do primeiro s\u00e9culo. Assim acontece hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Antigo Testamento, antes do ex\u00edlio, no per\u00edodo dos Reis, entre 1000 e 587 aC, n\u00e3o havia Apoca\u00adl\u00edpticos, mas havia muitos Profetas. Depois do ex\u00edlio, de 587 aC at\u00e9 100 dC, depois que os grandes imp\u00e9rios tomaram conta do mundo, os profetas come\u00e7aram a desaparecer e apareceram os apocal\u00edpticos que produziram uma abundante literatura entre o s\u00e9culo IV aC e o s\u00e9culo II dC. Como se explica esta mudan\u00e7a? Qual a rela\u00e7\u00e3o entre apocalipse e imp\u00e9rio, entre o movimento apocal\u00edptico e a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica e econ\u00f4mica em que o povo vive?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio da monarquia, em torno do ano 1000 antes de Cristo, at\u00e9 o ex\u00edlio, 587 aC, os profetas faziam parte da vida do povo de Israel. Eles eram a consci\u00eancia falante do povo de Deus. Depois do ex\u00edlio, por\u00e9m, o povo dizia: &#8220;N\u00e3o existem mais profetas&#8221; (Sl 74,9). Chegaram a dividir a hist\u00f3ria em dois per\u00edodos: o per\u00edodo em que havia profetas, e o per\u00edodo &#8220;em que j\u00e1 n\u00e3o havia mais profetas&#8221; (1 Mc 9,27). Falava-se dos &#8220;<strong><em>antigos profetas<\/em><\/strong>&#8221; (Zac 1,4; 7,7; cf Ez 38,17). Coisa do passado! Tinham at\u00e9 feito uma lista que j\u00e1 estava completa e encerrada: &#8220;<strong><em>doze profetas<\/em><\/strong>&#8221; (Ecli 49,10). E diziam: &#8220;Antigamente, Deus falava para a gente, agora j\u00e1 n\u00e3o fala mais!&#8221; (Sl 99,6-8). O povo constatava a mudan\u00e7a, mas n\u00e3o sabia explicar por que Deus j\u00e1 n\u00e3o se manifestava como antes. Achavam que &#8220;a m\u00e3o de Deus tinha mudado&#8221; (Sl 77,11). S\u00f3 ficou a saudade, cada vez mais forte, dos antigos profetas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, durante os mais de 400 anos do per\u00edodo dos reis, eles tiveram profe\u00adtas. Durante mais de 500 anos, desde o ex\u00edlio at\u00e9 Jo\u00e3o Batista, viveram sem profetas! \u00c9 neste per\u00edodo sem profetas que surge o movimento apocal\u00edptico como <strong>nova forma de profecia<\/strong>, como <strong>nova manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, <\/strong>como<strong> nova espiritualidade<\/strong>. Qual a experi\u00eancia humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera a profecia, e qual a experi\u00eancia humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera o movimento apocal\u00edptico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A experi\u00eancia humana em que surge e floresce a profecia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os profetas do tempo dos Reis viviam numa \u00e9poca em que era poss\u00edvel abarcar e controlar a situa\u00e7\u00e3o. O espa\u00e7o em que viviam, o <em>territ\u00f3rio<\/em>,<strong> <\/strong>era limitado e podia ser defendido e governado. O povo que vivia dentro deste territ\u00f3rio podia ser convocado, recenseado e cobrado. Eles eram donos do espa\u00e7o em que viviam. Tinham autonomia pol\u00edtica. Todos professavam a mesma religi\u00e3o, tinham f\u00e9 no mesmo Deus. Todos eram s\u00faditos do mesmo rei, tinham o mesmo compromisso de observar a Alian\u00e7a. Eles eram uma na\u00e7\u00e3o independente, senhora do seu pr\u00f3prio destino, da sua pr\u00f3pria <em>hist\u00f3ria<\/em>. Era dentro deste espa\u00e7o limitado que eles procuravam viver a sua f\u00e9 em Deus, observando a Alian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na origem da a\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica est\u00e1 uma experi\u00eancia humana muito profunda e muito comum at\u00e9 hoje. Quando, diante de uma injusti\u00e7a, voc\u00ea percebe que tem a possibilidade de fazer algo para mudar a situa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, dentro de voc\u00ea, nasce um sentimento de responsabilidade que o faz dizer: \u201cN\u00e3o posso ficar parado! Deus est\u00e1 me chamando! Devo fazer alguma coisa!\u201d N\u00e3o \u00e9 assim? Pois bem, a a\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica nasce desta consci\u00eancia forte que, de vez em quando, surge em n\u00f3s de que podemos e devemos fazer algo para mudar a situa\u00e7\u00e3o. A teologia da Liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 prof\u00e9tica. Ela nasceu da consci\u00eancia e da possibilidade que se entrevia de n\u00f3s crist\u00e3os podermos interferir no rumo da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina e de transformarmos a situa\u00e7\u00e3o de acordo com as exig\u00eancias da Alian\u00e7a, do Evangelho. Ela usa express\u00f5es que traduzem a mesma experi\u00eancia: ser sujeito da hist\u00f3ria, assumir nossa responsabilidade diante dos fatos, responder diante de Deus pelo que acontece no pa\u00eds, cumprir nossa tarefa de transformar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A mudan\u00e7a que ocorreu <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ex\u00edlio da Babil\u00f4nia (598 aC a 537 aC) provocou uma grande mudan\u00e7a, pois quebrou o sistema s\u00f3cio-pol\u00edtico em que o povo vivia no tempo dos reis. Em 598, a elite (rei, sacerdotes, falsos profetas, nobres e chefes) foi levada para o ex\u00edlio (2Rs 24,10-17). Dez anos depois, em 587, o pouco que restava da lide\u00adran\u00e7a foi preso e morto (2Rs 25,1-21). Jerusal\u00e9m, a capital, junto com o Templo, o santu\u00e1rio do rei, tudo foi destru\u00ed\u00adda. Todos ficaram sob o dom\u00ednio do poder estrangeiro, sem mais nenhum recurso para poder con\u00adtrolar a situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o eram Estado nem Na\u00e7\u00e3o, mas apenas uma comunidade \u00e9tnica, perdida num imp\u00e9rio multi-racial, sem independ\u00eancia pol\u00edtica, sem ex\u00e9rcito, sem rei. O espa\u00e7o livre ficou muito reduzido e, no decorrer dos anos, foi ficando cada vez menor. O pouco poder que lhes sobrou se concen\u00adtrava em torno do Sacerd\u00f3cio que controlava o Templo e em torno dos doutores ou escribas que controlavam a explica\u00e7\u00e3o da Lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anteriormente, na \u00e9poca da monarquia, o povo experimentava o mundo, o tempo (hist\u00f3ria) e o espa\u00e7o (terri\u00adt\u00f3rio) como entregues \u00e0 sua pr\u00f3pria responsabilidade. Esta experi\u00eancia despertava nele a vontade de interferir no rumo das coisas e gerava a <em>profecia<\/em>. Quando, naquele tempo, o povo do campo era oprimido pelos poderosos, amea\u00e7ado de perder suas terras, surgiam profetas como Am\u00f3s, Miqu\u00e9ias, Isa\u00edas e Jeremias. Eles enfrentavam os poderosos e cobravam deles o compromisso da Alian\u00e7a. A f\u00e9 em Deus assumia a forma de compromisso e de engajamento. Prevaleciam a observ\u00e2ncia da Lei de Deus e a fidelidade \u00e0 Alian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas agora, nesta nova situa\u00e7\u00e3o, era imposs\u00edvel imaginar algu\u00e9m das aldeias da Palestina ser profeta ou profetisa no estilo antigo. O campon\u00eas da Palestina n\u00e3o tinha nenhuma possibilidade de cobrar do imperador helenista a observ\u00e2ncia da Lei de Deus. O mesmo acontece hoje. Dif\u00edcil imaginar, por exemplo, que o coordenador ou a coordenadora de uma comunidade do interior de Minas possa enfrentar o FMI (Fundo Monet\u00e1rio Internacional) ou cobrar de W. Bush, presidente dos Estados Unidos, a observ\u00e2ncia do Evangelho. Tanto hoje como naquele tempo, o imp\u00e9rio tem outros deuses e outras leis!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A experi\u00eancia humana em que surge e floresce o movimento apocal\u00edptico<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento apocal\u00edptico surge exatamente nos per\u00edodos em que a hist\u00f3ria do povo parece estar \u00e0 deriva, sem controle, amea\u00e7ada de desintegrar-se. Mas ele surge n\u00e3o do lado de quem conduz a hist\u00f3ria, mas sim do lado de quem por ela \u00e9 esmagado. Aparece do lado de quem est\u00e1 perdido, mas quer continuar a crer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante do mundo ilimitado e amea\u00e7ador do imp\u00e9rio, os pobres experimentavam uma total impossibili\u00addade de interferir no rumo das coisas para transformar a situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o eram donos de nada. Estavam sem nenhum poder num mundo que os explorava e exclu\u00eda. O &#8220;macro&#8221; amea\u00e7ava esmagar e paralisar o &#8220;micro&#8221;! Sem ter onde se agarrar, o povo pobre das aldeias da Palestina se defendia e procurava sobreviver refor\u00e7ando em si a f\u00e9 de que o Deus dos Profetas continuava sendo o Senhor da hist\u00f3ria e do mundo! &#8220;Deus \u00e9 grande! Ele saber\u00e1 realizar a sua promessa! Ele nos salvar\u00e1!&#8221; A f\u00e9 em Deus assumia a forma de entrega e de abandono. Preva\u00adleciam a experi\u00eancia de gratuidade e a confian\u00e7a na promessa divina que garante a derrota do mal e a vit\u00f3ria do bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No movimento apoca\u00adl\u00edptico manifesta-se a experi\u00eancia de vida e a f\u00e9 dos pobres e oprimidos sem po\u00adder. \u00c9 a teimosia da f\u00e9 dos pequenos que n\u00e3o entrega os pontos nem quer deixar morrer a esperan\u00e7a! Esta f\u00e9, al\u00e9m de teimosa, \u00e9 concreta. Ela n\u00e3o ag\u00fcenta viver muito tempo sem sinais palp\u00e1veis e sugestivos. Os apocal\u00edpticos inventam formas de crer que s\u00e3o pouco ortodoxos para a elite. Mas s\u00e3o a forma que o povo pobre encontra para n\u00e3o se perder e poder sobreviver. \u00c9 o que acontecia com o povo nos s\u00e9culos de imperialismo depois do ex\u00edlio da Babil\u00f4nia e \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo hoje em dia aqui na Am\u00e9rica Latina, onde todos sofremos sob o imp\u00e9rio neoliberal. Desta necessidade dos pequenos de alimen\u00adtar sua f\u00e9 com sinais concretos, \u00e9 que nasce uma vis\u00e3o do mundo que \u00e9 pr\u00f3pria do movimento apoca\u00adl\u00edptico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles dividem o mundo em dois planos, o mundo de cima e o mundo de baixo. Para eles, o mundo verdadeiro e definitivo \u00e9 o mundo de cima, o mundo de Deus. O mundo c\u00e1 de baixo \u00e9 passageiro. As coisas que acontecem aqui entre n\u00f3s, no mundo de baixo, s\u00e3o apenas um reflexo do que acontece no mundo de cima. O seu sentido verdadeiro e definitivo, s\u00f3 o conhece quem recebe revela\u00e7\u00f5es da parte de Deus a respeito do que acontece no mundo de cima. Esse poder\u00e1 ajudar o povo a ler os fatos que est\u00e3o acontecendo no mundo de baixo. Ou, como diziam naquele tempo, ele \u00e9 capaz de &#8220;tirar o v\u00e9u&#8221;. <strong><em>Apo-calipse <\/em><\/strong>\u00e9 uma palavra grega que significa &#8220;tirar o veu&#8221; ou &#8220;re-velar&#8221;. Apocal\u00edptico \u00e9 aquele que tira o v\u00e9u e explica o sentido dos fatos, &#8220;revela o que deve acontecer em breve&#8221; (Ap 1,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta maneira de concretizar a f\u00e9 era o que sustentava os pequenos. Era a espiritualidade que lhes dava a paci\u00eancia hist\u00f3rica para continuar resistindo e, no fim, vencer o opressor pelo cansa\u00e7o. Eles souberam encontrar os s\u00edmbolos e as imagens que transmitiam a Boa Nova da presen\u00e7a libertadora de Deus no meio do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumindo.<\/strong> Profecia e Apocalipse! Alian\u00e7a e Promessa! Observ\u00e2ncia e gratuidade! Dois tipos de expe\u00adri\u00ean\u00adcia humana. Dois lados da mesma medalha, duas espiritualidades, duas maneiras diferentes de expressar e viver a mesma f\u00e9: &#8220;Deus est\u00e1 conosco! N\u00f3s somos o seu povo!&#8221; De um lado, a experi\u00eancia da pr\u00f3pria responsabilidade diante da situa\u00e7\u00e3o do povo desafia as pessoas e provoca nelas o profetismo, a vontade de transformar e o desejo de observar a <em>Alian\u00e7a<\/em>. De outro lado, a experi\u00eancia das pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es frente ao poder opressor gera nas pessoas um sentimento de impot\u00eancia e, para garantir a sobreviv\u00eancia, leva-as a confiar na gratui\u00addade e no poder da <em>Promessa<\/em>.\u00a0 S\u00e3o duas for\u00e7as profun\u00addas da vida humana. Uma deve ajudar a outra para manter o equil\u00edbrio. S\u00e3o como as duas pernas da caminha\u00adda: uma sem a outra n\u00e3o anda! Ambas nascem da <strong><em>vida<\/em><\/strong> que nos desafia e provoca, e de <strong><em>Deus<\/em><\/strong> que nos chama e conduz. Toda vez que uma pensa ser auto-suficiente e exclui a outra, ela se prejudica a si mesma e coloca em risco a caminhada do povo. O profeta que despreza o apocal\u00edptico j\u00e1 n\u00e3o sabe o que \u00e9 profecia. O apocal\u00edptico que despreza o profeta deixou de ser ele mesmo uma revela\u00e7\u00e3o (apoca\u00adlipse) de Deus para o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">3\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A PORTA DE ENTRADA NO APOCALIPSE DE JO\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apocalipse 1,1-20<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap 1,1-3: <em>A Apresenta\u00e7\u00e3o<\/em>.  Aqui batemos na porta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap 1,4-8: <em>A Sauda\u00e7\u00e3o<\/em>. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jo\u00e3o vem abrir e convida para entrar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap 1,9-20:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>A Vis\u00e3o Inaugural <\/em>Jo\u00e3o nos coloca em contato com Jesus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro cap\u00edtulo do Apocalipse de Jo\u00e3o \u00e9 uma amostra do que vem a ser o livro e a sua mensagem: (1) informa sobre a natureza do livro; (2) apresenta-o como uma carta carinhosa escrita por uma pessoa amiga para comunidades perseguidas que precisavam de anima\u00e7\u00e3o e de orienta\u00e7\u00e3o; (3) cria o ambiente, no qual o livro deve ser lido; (4) envolve as comunidades numa celebra\u00e7\u00e3o, em que possam experimentar a presen\u00e7a de Jesus ressuscitado, vivo no meio delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Apocalipse 1,1-3<\/span><\/strong><strong>: Apresenta\u00e7\u00e3o do livro: Revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes vers\u00edculos iniciais oferecem informa\u00e7\u00f5es sobre a natureza do Apocalipse, sua origem, seu valor ou autoridade, seu autor, conte\u00fado e destinat\u00e1rios. Mostram ainda como o livro deve ser lido e interpretado, qual a exig\u00eancia de compromisso e qual a recompensa que a sua observ\u00e2ncia traz consigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra <strong><em>Apocalipse<\/em><\/strong> significa <strong>re-vela\u00e7\u00e3o<\/strong>. Jesus \u00e9 o <em>autor<\/em> da <em>Revela\u00e7\u00e3o<\/em>. Ele nos revela \u201cas coisas que devem acontecer em breve\u201d (Ap 1,1). H\u00e1 uma hierarquia na maneira de comunicar a revela\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<table style=\"text-align: justify;\" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"313\" valign=\"top\">\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"313\" valign=\"top\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"318\" valign=\"top\">\n<p>A sua origem est\u00e1 em Deus,<\/p>\n<p>que a transmite a Jesus,<\/p>\n<p>que a entrega ao Anjo,<\/p>\n<p>que a manifesta a Jo\u00e3o,<\/p>\n<p>que a comunica aos <em>Servos,<\/em><\/p>\n<p>que devem testemunh\u00e1-la diante da humanidade.<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse \u00e9 <em>Profecia<\/em> (1,3), mas n\u00e3o \u00e9 profecia no sentido de Nostradamus ou dos videntes que entram em a\u00e7\u00e3o na v\u00e9spera de cada Ano Novo. Para estes, a profecia \u00e9 uma adivinha\u00e7\u00e3o, nascida da curiosidade que quer conhecer o futuro. O Apocalipse n\u00e3o deve ser lido como se l\u00e1 dentro pud\u00e9ssemos encontrar refer\u00eancias abertas ou veladas ao nosso tempo. Isto seria uma tentativa irreverente do ser humano para penetrar no mundo de Deus e arrancar dele o segredo do futuro. <em>Profecia<\/em> no sentido do Apocalipse \u00e9 o contr\u00e1rio. \u00c9 Deus que, atrav\u00e9s de Jesus, penetra no nosso mundo, na nossa hist\u00f3ria, e se d\u00e1 a conhecer atrav\u00e9s das palavras de Jo\u00e3o. Com a ajuda da Palavra de Deus, contida no Antigo Testamento, e do Esp\u00edrito de Jesus (Jo 14,26; 16,13; Ap 1,10; 4,2), chamado <em>Esp\u00edrito da Profecia<\/em> (Ap 19,10), Jo\u00e3o <em>revela<\/em>, tira o v\u00e9u, e nos faz conhecer a a\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria. At\u00e9 hoje, as nossas comunidades, animadas pelo Esp\u00edrito de Jesus e orientadas pela Palavra de Deus, descobrem e partilham entre si a a\u00e7\u00e3o deste mesmo Deus, sempre presente na vida e na hist\u00f3ria do seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Apocalipse 1,4-8<\/span><\/strong><strong>:\u00a0 Sauda\u00e7\u00e3o inicial: em Nome da Trindade Santa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s dizemos: <em>Pai, Filho, e Esp\u00edrito Santo<\/em>. O Apocalipse diz: <em>\u00c9-Era-Vem; os Sete Esp\u00edritos; Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primog\u00eanito dos mortos, o Pr\u00edncipe dos Reis da terra<\/em>. No fim do primeiro s\u00e9culo, a doutrina era como uma flor que brotava diretamente da experi\u00eancia vivida das comunidades. Nestes nomes, Jo\u00e3o diz o que eles esperavam do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo. Hoje, para muitos de n\u00f3s, a doutrina crist\u00e3 \u00e9 como a flor que foi cortada da experi\u00eancia e est\u00e1 guardada no caderno do catecismo. Flor bonita e colorida, mas seca, sem vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Apocalipse 1,9-20:<\/span><\/strong><strong> &#8220;N\u00e3o tenham medo! Estive morto, mas estou vivo!\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o de Jesus ressuscitado \u00e9 o grandioso painel de entrada do Apocalipse. Nele Jo\u00e3o transmite a experi\u00eancia que ele mesmo teve da ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c9 o resumo e o centro da mensagem que ele quer comunicar \u00e0s comunidades cansadas e perseguidas da \u00c1sia Menor. \u00c9 para que elas possam ter a mesma experi\u00eancia da presen\u00e7a viva de Jesus ressuscitado no meio delas. Pois s\u00f3 assim ser\u00e3o capazes de superar o medo da morte e de acreditar na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta vis\u00e3o inicial nos coloca em contato direto com a linguagem dos s\u00edmbolos, pr\u00f3pria do Apocalipse. \u00c9 uma linguagem, cujo valor n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 naquilo que \u00e9 dito, mas tamb\u00e9m naquilo que \u00e9 sugerido e evocado. Por isso, o int\u00e9rprete n\u00e3o deve querer explicar racionalmente todas as palavras, mas sim fazer o poss\u00edvel para levar o leitor, a leitora, a ter a mesma experi\u00eancia que est\u00e1 na raiz do s\u00edmbolo. Conv\u00e9m ler a vis\u00e3o inaugural de Jesus como se contempla uma pintura, como se assiste a um drama, como se ouve uma m\u00fasica. A linguagem simb\u00f3lica faz com que escritor e leitores sintonizem na mesma freq\u00fc\u00eancia ou <em>con-<\/em>spira\u00e7\u00e3o<em> <\/em>(a\u00e7\u00e3o comum do esp\u00edrito), e tenta fazer com que a <strong><em>con<\/em><\/strong>-spira\u00e7\u00e3o se torne em ambos uma <strong><em>in<\/em><\/strong><em>&#8211;<\/em>spira\u00e7\u00e3o comum, um ch\u00e3o comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente talvez n\u00e3o entenda logo o significado de todos os detalhes: t\u00fanica longa, cinto de ouro, cabelos brancos, olhos como chamas de fogo, p\u00e9s de bronze incandescente, voz como o estrondo de cataratas de \u00e1gua, sete estrelas na m\u00e3o direita, espada afiada de dois gumes saindo da boca, o rosto como sol em pleno brilho do meio dia! Mas, mesmo sem entender, adivinhamos algo de grande e de muito importante para a vida. S\u00e3o imagens poderosas que falam por si. \u00c9 como acontece com m\u00fasica bonita: todos gostam de ouvir e se sentem bem, mas s\u00f3 pouca gente entende de m\u00fasica. M\u00fasica \u00e9 feita n\u00e3o para quem entende, mas para quem gosta dela e se reanima ao ouvi-la! Esta vis\u00e3o de Jesus, colocada no in\u00edcio do livro, \u00e9 como a obra de arte colocada na entrada da igreja. Toda vez que voc\u00ea entra, ter\u00e1 que olhar de novo, pois a gente n\u00e3o d\u00e1 conta de abarc\u00e1-la de uma vez. Tem que voltar sempre para ver de novo, meditar, at\u00e9 que ela entre em voc\u00ea e lhe comunique a sua mensagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Primeira Palavra de Jesus no Apocalipse<em>: &#8220;N\u00e3o tenha medo! Eu sou o Vivente!&#8221; <\/em>A primeira rea\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o \u00e9 de medo: <em>Ao v\u00ea-lo, ca\u00ed como morto a seus p\u00e9s<\/em>. Era a rea\u00e7\u00e3o normal diante da manifesta\u00e7\u00e3o de Deus (Dn 10,9; Is 6,5; Ex 3,6). Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isto! A atitude de medo de Jo\u00e3o reflete tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o das comunidades. Amea\u00e7adas por dentro e por fora pelo poder do imp\u00e9rio e pelas tens\u00f5es internas, elas estavam prostradas e com medo. Estavam no escuro. N\u00e3o sabiam que eram luz. Algu\u00e9m precisava despert\u00e1-las e anim\u00e1-las. Exilado na ilha de Patmos, num momento de des\u00e2nimo e de prostra\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o teve uma forte experi\u00eancia da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus que o reanimou e o fez ressuscitar. Ele sentiu Jesus colocando <em>a m\u00e3o direita sobre mim assegurando: <strong>N\u00e3o tenha medo<\/strong><\/em>. Jo\u00e3o descreve a sua experi\u00eancia, para que as comunidades tenham a mesma experi\u00eancia. Ele quer que, como ele, elas possam sentir a m\u00e3o de Jesus no ombro e ouvir a mesma voz que lhes diga: <strong><em>N\u00e3o tenham medo!<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fundamento deste otimismo \u00e9 a palavra de Jesus: <em>Eu sou o Vivente! Estive morto, mas estou vivo para sempre. Tenho as chaves da morte e da morada dos mortos. <\/em> \u00c9 o poder da ressurrei\u00e7\u00e3o que aqui se manifesta. Por ela a morte est\u00e1 vencida, e vencido tamb\u00e9m est\u00e1 o poder do imp\u00e9rio que persegue e mata! Esta frase de Jesus resume a mensagem central do Apocalipse. Com esta mensagem no cora\u00e7\u00e3o, na mente e nos olhos, as comunidades ser\u00e3o capazes de entender melhor o sentido verdadeiro dos acontecimentos que os fazem sofrer e ter\u00e3o um crit\u00e9rio certo e seguro para entender o que v\u00e3o ler no Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">4\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A SITUA\u00c7\u00c3O DAS SETE COMUNIDADES DA \u00c1SIA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apocalipse2,1-3,22<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As sete cartas t\u00eam todas elas o mesmo esquema que funciona como chave de leitura.<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a<\/strong>. <strong>Destinat\u00e1rios <\/strong>Todas elas s\u00e3o dirigidas <em>ao anjo da comunidade;<\/em> o coordenador ou a coordenadora da mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>b<\/strong>. <strong>Remetente<\/strong> Todas elas se apresentam como palavra de Jesus: <em>Assim diz<\/em>&#8230; (e segue um t\u00edtulo de Jesus).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>c<\/strong>. <strong>Conte\u00fado<\/strong> Em todas elas, Jesus afirma: <em>Conhe\u00e7o<\/em>&#8230; Primeiro, descreve a <em>situa\u00e7\u00e3o<\/em>: o positivo e o negativo de cada comunidade. \u00a0Em seguida, d\u00e1 <em>conselhos<\/em>, orientando, criticando, amea\u00e7ando ou aprovando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>d<\/strong>. <strong>Aviso<\/strong> Em todas aparece no fim o mesmo aviso: <em>Quem tem ouvidos, ou\u00e7a o que o Esp\u00edrito diz \u00e0s Igrejas<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>e<\/strong>. <strong>Promessa<\/strong> Todas terminam com uma promessa final <em>Ao vencedor<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ordem em que s\u00e3o colocadas as cartas tem um sentido: Tiatira est\u00e1 no centro. Ela recebe a carta mais comprida. Seus problemas devem ter sido os mais comuns a todos. P\u00e9rgamo e Sardes v\u00eam logo antes e depois de Tiatira: na primeira, a maioria \u00e9 boa e um pequeno resto \u00e9 infiel; na outra, a maioria \u00e9 infiel e um pequeno resto \u00e9 bom. Esmirna e Filad\u00e9lfia, na mesma posi\u00e7\u00e3o antes e depois de Tiatira, as duas s\u00e3o pobres e fracas, mas n\u00e3o tem defeito. Delas n\u00e3o se pede que se convertam. Das outras todas se pede que se convertam (2,5.16.21; 3,3.19). \u00c9feso e Laodic\u00e9ia, a primeira e a \u00faltima: \u00c9feso \u00e9 atuante, Laodic\u00e9ia \u00e9 rica, mas ambas deca\u00edram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apocalipse 2,1-7\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para a comunidade de \u00c9feso: Apesar de atuante, voc\u00ea abandonou o primeiro amor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apocalipse 2,8-11\u00a0\u00a0\u00a0 Para a comunidade de Esmirna:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Apesar de pobre, voc\u00ea \u00e9 rica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apocalipse 2,12-17\u00a0 Para a comunidade de P\u00e9rgamo:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Apesar de perseguida, voc\u00ea n\u00e3o renegou a f\u00e9<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apocalipse 2,18-29\u00a0 Para a comunidade de Tiatira:\u00a0 Apesar do esfor\u00e7o, voc\u00ea deixa em paz os falsos l\u00edderes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apocalipse 3,1-6\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para a comunidade de Sardes: Apesar da fama de estar viva, voc\u00ea est\u00e1 morta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apocalipse 3,7-13\u00a0\u00a0\u00a0 Para a comunidade de Filad\u00e9lfia:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Apesar da fraqueza, voc\u00ea n\u00e3o renegou o meu Nome<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apocalipse 3,14-22\u00a0 Para a comunidade de Laodic\u00e9ia: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Apesar de rico, voc\u00ea \u00e9 infeliz, pobre, cego e nu<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As sete cartas oferecem um quadro amplo e variado dos grupos, tend\u00eancias e doutrinas que existiam nas comunidades da \u00c1sia. Em \u00c9feso e P\u00e9rgamo, havia os seguidores da doutrina dos Nicola\u00edtas (Ap 2,6.15). Em P\u00e9rgamo havia, al\u00e9m disso, os seguidores de Bala\u00e3o (Ap 2,14). Em \u00c9feso, havia l\u00edderes que se apresentavam como <em>ap\u00f3stolos<\/em> e n\u00e3o eram (Ap 2,2). Em Tiatira, havia uma profetisa, com o apelido de Jezabel, da qual se diz que seduzia as pessoas e as levava a aderir ao imp\u00e9rio (Ap 2,20) e a perscrutar os <em>segredos de Satan\u00e1s<\/em> (Ap 2,24). Em Esmirna e Filad\u00e9lfia havia um grupo que se apresentava como judeus e n\u00e3o eram (Ap 2,9; 3,9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia muitas tend\u00eancias. N\u00e3o era f\u00e1cil discernir. A comunidade de \u00c9feso conseguiu desmascarar falsas lideran\u00e7as (Ap 2,2). Em Sardes aconteceu o contr\u00e1rio: a comunidade como um todo se desviou e s\u00f3 um grupinho marginal continuou fiel (Ap 3,4). Em Tiatira, o grupo de Jezabel formou uma comunidade paralela (Ap 2,20.24). A comunidade de Laodic\u00e9ia era rica, auto-suficiente e relaxada (At 3,17), a de Esmirna era pobre mas fiel (Ap 2,9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema de fundo era o confronto cada vez mais forte com a ideologia do imp\u00e9rio, que era uma das cau\u00adsas principais das tens\u00f5es e tend\u00eancias no interior das comunidades. Diante deste quadro amb\u00edguo, era urgente ter alguns crit\u00e9rios de discernimento. \u00c9 o que Jo\u00e3o tenta transmitir nas sete cartas e nas vis\u00f5es do Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Imagem de Jesus nas sete cartas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pano de fundo das sete cartas \u00e9 a vis\u00e3o inaugural, onde Jesus aparece no meio das comunidades (Ap 1,9-16). O discurso de Jesus, iniciado durante a vis\u00e3o inaugural (Ap 1,17-20), continua nas cartas, que s\u00e3o apresentadas como palavra de Jesus: &#8220;<em>Assim diz.<\/em>&#8230;!&#8221;, seguida por um t\u00edtulo de Jesus tirado quase sempre da vis\u00e3o inaugural:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. \u00c9feso<\/strong>:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Assim diz aquele que segura as sete estrelas em sua m\u00e3o direita, o que anda em meio aos sete candelabros de ouro.<\/em> Lideran\u00e7a e Presen\u00e7a nas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Esmirna<\/strong>:\u00a0 <em>Assim diz o Primeiro e o \u00daltimo, aquele que esteve morto mas voltou \u00e0 vida<\/em>. Senhor da hist\u00f3ria e da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. P\u00e9rgamo<\/strong>: <em>Assim diz aquele que tem a espada afiada, de dois gumes<\/em>. Juiz, cuja espada de dois gumes \u00e9 s\u00edmbolo de discernimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. Tiatira<\/strong>:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Assim diz o Filho de Deus, cujos olhos parecem chamas de fogo e cujos p\u00e9s s\u00e3o semelhantes ao bronze<\/em>. Perspic\u00e1cia que discerne tudo e firmeza de quem n\u00e3o cede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. Sardes<\/strong>:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Assim diz aquele que tem os sete esp\u00edritos e as sete estrelas.<\/em> Presen\u00e7a junto aos coordenadores e \u00e0s coordenadoras das comunidades e Plenitude do Esp\u00edrito de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6. Filad\u00e9lfia<\/strong>:\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Assim diz o Santo, o Verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, o que abre e ningu\u00e9m mais fecha, e fechando, ningu\u00e9m mais abre.<\/em> Coer\u00eancia, Fidelidade e Poder sobre a vida e a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7. Laodic\u00e9ia<\/strong>:\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Assim diz o Amem, a Testemunha fiel e verdadeira, o princ\u00edpio da cria\u00e7\u00e3o de Deus.<\/em> Fidelidade e Coer\u00eancia, Novidade criadora e Sabedoria divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada carta, \u00e9 evocada a vis\u00e3o inaugural, na qual Jesus colocava a m\u00e3o sobre Jo\u00e3o dizendo: <em>N\u00e3o tenha medo! <\/em>(Ap 1,17). Assim, lendo, ouvindo e meditando as cartas nas suas reuni\u00f5es e celebra\u00e7\u00f5es, as comunidades sentiam a m\u00e3o de Jesus no ombro e ouviam dele a palavra de que estavam precisando. Era assim que elas se animavam na fidelidade e na resist\u00eancia. Esta mesma certeza at\u00e9 hoje nos anima e, como eles, na liturgia repetimos e exclamamos: <em>O Senhor esteja convosco! &#8211; Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s! <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A situa\u00e7\u00e3o das comunidades <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazia cinq\u00fcenta anos ou mais que elas vinham caminhando. O cansa\u00e7o ia tomando conta (Ap 2,20). Havia a diminui\u00e7\u00e3o do primeiro fervor (Ap 2,4). Algumas comunidades pareciam estar muito vivas e ativas, mas por dentro j\u00e1 estavam mortas (Ap 3,1). Outras, vencidas pela rotina, j\u00e1 n\u00e3o eram nem frio nem quente (Ap 3,15-16). A falta de horizonte e a persegui\u00e7\u00e3o aumentavam o cansa\u00e7o (Ap 6,10). Apesar do esfor\u00e7o e da boa vontade, os problemas, em vez de diminu\u00edrem, aumentavam sempre mais, e o resultado obtido era t\u00e3o pouco!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema do imp\u00e9rio romano estava baseado na escraviza\u00e7\u00e3o dos povos. Atrav\u00e9s de taxas, tributos, impostos e outros roubos legalizados, drenavam a riqueza dos povos para Roma, o centro do imp\u00e9rio (Ap 13,16-17; 18,11-20). O ac\u00famulo imenso de riqueza e de poder na capital contrastava com o empobrecimento cada vez maior dos povos na periferia do imp\u00e9rio. O endividamento progressivo obrigava as pessoas e as fam\u00edlias a se escravizarem para poder pagar suas d\u00edvidas (cf. Mt 18,25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte das primeiras comunidades era pobre como aquela de Esmirna (Ap 2,9), e fraca, sem muita for\u00e7a, como aquela de Filad\u00e9lfia (Ap 3,8). A maioria era de gente pobre (cf. 1Cor 1,26; Tg 2,2-9; 5,1-5). Os muitos conselhos relacionados com escravos mostram que havia tamb\u00e9m muitos escravos entre os crist\u00e3os (1Cor 12,13; Ef 6,5; Cl 3,22; 1Tm 6,1; Fm 10). Na 1\u00aa de Pedro se percebe que muitos eram migrantes e estrangeiros (1Pd 1,1; 2,11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos poucos, pessoas mais ricas iam entrando e as divis\u00f5es da sociedade penetravam na vida das comunidades, provocando nelas novos e dolorosos conflitos (Tg 2,2-9; 5,1-5; Ap 3,16-17; 1Cor 11,20-22). Por isso mesmo, Lucas insiste no ideal da partilha e da acolhida aos necessitados (At 2,42.44-45; 4,32.34-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">5\u00aa Chave<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>APOCALIPSE: AN\u00daNCIO DA BOA NOVA DE DEUS EM \u00c9POCA DE IMP\u00c9RIO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse \u00e9 <em>Boa Nova <\/em>porque comunica conforto e esperan\u00e7a a um povo em crise, amea\u00e7ado na sua f\u00e9. A crise tinha duas causas, ligadas entre si. A <em>externa<\/em>: a persegui\u00e7\u00e3o e as mudan\u00e7as na sociedade. A <em>interna<\/em>: a falta de vis\u00e3o e de f\u00e9, as divis\u00f5es e o cansa\u00e7o. Deus parecia ter perdido o controle da situa\u00e7\u00e3o. Os opressores pareciam ser os donos da hist\u00f3ria. Muitos se perguntavam: &#8220;Ser\u00e1 que vale a pena continuar a participar da comunidade?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse enfrenta este problema e ajuda o povo a perceber e a combater as causas da crise. Ele tira o v\u00e9u dos fatos e revela o <em>outro lado<\/em>, o lado escondido que s\u00f3 a f\u00e9 \u00e9 capaz de enxergar, e faz o povo saber que os aconteci\u00admentos n\u00e3o est\u00e3o escapando da m\u00e3o de Deus. Os poderosos <em>parecem<\/em> ser os donos do mundo, mas, na realidade, o seu poder \u00e9 limitado por Deus. A Boa Nova do Apocalipse \u00e9 esta: <em>Deus continua sendo o Senhor da hist\u00f3ria! Ele conduz o seu povo para a vit\u00f3ria final. Ningu\u00e9m, por mais forte que seja, consegue mudar o rumo do plano de Deus. Os opressores do povo v\u00e3o ser derrotados e condenados, todos! A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus o garante!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este an\u00fancio forte e vigoroso desloca o peso da balan\u00e7a. De um lado, enfraquece a carga da persegui\u00e7\u00e3o (<em>causa externa<\/em>). Do outro lado, fortalece o peso da f\u00e9 (<em>causa interna<\/em>). O povo se equilibra de novo na vida. Agora, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a persegui\u00e7\u00e3o que enfraquece a f\u00e9, mas sim a f\u00e9 renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo agradece, explode em c\u00e2nticos de alegria e se disp\u00f5e a resistir. Entoa, desde j\u00e1, o canto da vit\u00f3ria, como Miriam, irm\u00e3 de Mois\u00e9s, depois da travessia do Mar Vermelho. Depois dos Salmos, o Apocalipse \u00e9 o livro da B\u00edblia, em que mais se canta! Por isso, <em>qualquer interpreta\u00e7\u00e3o do Apocalipse feita para meter medo nas pessoas deve ser considerada como errada e falsa!<\/em> J\u00e1 n\u00e3o seria <em>Boa<\/em> Nova para os pobres. Seria o mesmo que usar o sol para molhar ou a \u00e1gua para enxugar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As v\u00e1rias maneiras de se anunciar a Boa Nova de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio, os crist\u00e3os criaram v\u00e1rias formas para transmitir a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe: em forma de <em>hist\u00f3ria <\/em>(Atos dos Ap\u00f3stolos), de <em>carta<\/em> (Paulo), de <em>c\u00e2ntico <\/em>(Maria, Zacarias), de <em>evangelho<\/em> escrito (Mateus, Marcos, Lucas, Jo\u00e3o), e em forma de <em>apocalipse<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem transmite uma mensagem em forma de cordel, deve conhecer o ritmo da poesia do povo. Quem o faz em forma de hist\u00f3ria em quadrinhos, deve saber desenhar. Quem o faz em forma de uma can\u00e7\u00e3o, deve entender de m\u00fasica. E quem anunciava a Boa Not\u00edcia de Deus em forma de <em>apocalipse<\/em>, o que ela ou ele devia saber ou fazer? \u00a0Costumava fazer as coisas que <em>caracterizam<\/em> o jeito pr\u00f3prio dos apocal\u00edpticos transmitirem sua mensagem ao povo perseguido das comunidades: (1) expressar tudo por meio de vis\u00f5es e s\u00edmbolos; (2) dividir a hist\u00f3ria em etapas para situar o momento presente; (3) usar linguagem radical de oposi\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal. Entender bem estas tr\u00eas coisas ajudar\u00e1 a esclarecer grande parte das dificuldades que o Apocalipse costuma provocar em n\u00f3s. Vamos ver de perto estas tr\u00eas chaves. \u00c9 o que vamos ver de perto nas pr\u00f3ximas tr\u00eas chaves<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">6\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeira Caracter\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXPRESSAR TUDO POR MEIO DE IMAGENS E S\u00cdMBOLOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o teve muitas vis\u00f5es, algumas delas muito estranhas. Ele viu animais com seis asas, cobertos com olhos ao redor e por dentro (Ap 4,8); um cordeiro com sete chifres e sete olhos (Ap 5,6); cavalos com cabe\u00e7a de le\u00e3o e rabo de escorpi\u00e3o (Ap 9,17.19), uma besta-fera com sete cabe\u00e7as e dez chifres (Ap 13,1), cujo n\u00famero \u00e9 666 (Ap 13,18); uma cidade, bonita como uma noiva que desce do c\u00e9u (Ap 21,2), e assim por diante! Ele enche o Apocalipse de n\u00fameros: 3, 4, 10, 1000 e suas combina\u00e7\u00f5es: 7 (3+4); 12 (3&#215;4); 40 (4 x10); 144.000 (12x12x1000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um outro mundo! Estranho, irreal, diferente do nosso! E o que dizer do n\u00famero 666 da Besta Fera? (Ap 13,18). H\u00e1 muitas interpreta\u00e7\u00f5es. A mais prov\u00e1vel \u00e9 que se trate de uma alus\u00e3o ao rei Salom\u00e3o que, por ano, tirava 666 talentos de ouro, i.\u00e9, 23 toneladas, dos agricultores da Palestina (1Reis 10,14). Al\u00e9m disso h\u00e1 o uso de n\u00fameros para indicar as letras. Por exemplo, VI significa seis. Assim, o n\u00famero de <span style=\"text-decoration: underline;\">C-e-s-a-r &#8211; N-e-r-o-n<\/span> \u00e9 666.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 que vis\u00f5es t\u00e3o estranhas podem clarear a situa\u00e7\u00e3o do povo? Por que Jo\u00e3o n\u00e3o usa a linguagem comum como, por ex., Lucas faz nos Atos e Paulo nas cartas? O que ser\u00e1 que o Apocalipse quer alcan\u00e7ar com estas vis\u00f5es? Vamos dar aqui seis respostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. <em>Trazer conforto e coragem na luta<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse de Jo\u00e3o traz vis\u00f5es grandiosas: Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18), o Trono de Deus (Ap 4,2-8), o Cordeiro imolado (Ap 5,6-14), a Mulher e o Drag\u00e3o (Ap 12,1-6). Talvez n\u00e3o entendamos logo o seu significado em todos os detalhes. Mesmo assim, experimentamos algo. \u00c9 como o menino que passeia com o pai. O menino nada entende do que seja for\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o. Mas ele sente a for\u00e7a e a prote\u00e7\u00e3o do pai, pois vai tranq\u00fcilo, sem medo, ao lado dele! Assim, a vis\u00e3o de Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18) n\u00e3o <em>diz<strong> <\/strong><\/em>o que \u00e9 for\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o. Mas <em>faz o povo sentir<\/em><strong> <\/strong>a for\u00e7a e a prote\u00e7\u00e3o de Jesus ressuscitado, caminhando com ele, ao lado dele!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. <em>Transformar a saudade em esperan\u00e7a<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As vis\u00f5es do Apocalipse de Jo\u00e3o est\u00e3o cheias de imagens tiradas do Antigo Testamento. A hist\u00f3ria do povo \u00e9 lembrada ou evocada, \u00e0s vezes, por uma \u00fanica palavra. Algumas vis\u00f5es nada mais s\u00e3o do que constru\u00e7\u00f5es novas, feitas com os velhos e j\u00e1 conhecidos tijolos do AT. Por que as vis\u00f5es recorrem tanto ao Antigo Testamento? O AT era o passado do povo. Passado bom, onde Deus tinha manifestado a sua presen\u00e7a com grandes milagres. Muitos lembravam o passado apenas para curtir a saudade: &#8220;Antigamente sim! Mas hoje&#8230;! Deus n\u00e3o aparece mais!&#8221; Ora, as vis\u00f5es recheadas com frases e lembran\u00e7as do Antigo Testamento, transformam este passado num espelho. <em>\u00c9 como se estivesse acontecendo de novo, agora!<\/em> Elas despertam a mem\u00f3ria, desobstruem o caminho da fonte que existe dentro do povo e, aos poucos, a energia do passado vai acordando, o v\u00e9u vai caindo, o povo se reencontra e a caminhada se ilumina: &#8220;Deus continua agindo! O mesmo Deus de antigamente! Ele n\u00e3o mudou de l\u00e1 para c\u00e1! Ele est\u00e1 conosco!&#8221; A saudade se transforma em esperan\u00e7a: N\u00e3o podemos desanimar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. <em>Comunicar ao povo algo da paz de Deus<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, pessoas medrosas e n\u00e3o engajadas usam o Apocalipse como pretexto para n\u00e3o entrar na luta: &#8220;Deus faz tudo! A n\u00f3s cabe assistir e esperar!&#8221; Mas este n\u00e3o era o caso das comunidades da \u00c1sia para as quais Jo\u00e3o escrevia o seu livro. N\u00e3o havia o risco de elas usarem o Apocalipse como pretexto para n\u00e3o entrar na luta, pois j\u00e1 estavam na luta, h\u00e1 muitos anos. O problema delas era outro: como fazer para n\u00e3o desanimar da luta, pois estavam meio perdidas e desanimadas na frente de batalha (Ap 6,10). O Apocalipse de Jo\u00e3o achou uma resposta. Por meio das vis\u00f5es, Jo\u00e3o transporta as comunidades para dentro do c\u00e9u (Ap 4,1), para perto do trono de Deus (Ap 4,2-11), onde est\u00e1 o quartel general do Cordeiro que lidera a batalha (Ap 14,15; 17,14; 7,9-17). L\u00e1 do alto, do centro das opera\u00e7\u00f5es, elas contemplam a luta com os olhos de Deus. Descobrem que as amea\u00e7as e pragas n\u00e3o s\u00e3o para os oprimidos, mas sim para os opressores do povo, e experimentam que, apesar de dif\u00edcil, a luta j\u00e1 est\u00e1 ganha (Ap 14,9-12; 17,14). Assim, as vis\u00f5es comunicam algo da paz com que Deus, sereno, l\u00e1 do alto, comanda a luta contra a injusti\u00e7a e a opress\u00e3o (Ap 11,14-18; 12,10-11). As comunidades fincam a sua raiz em Deus e a tempestade das persegui\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o consegue arranc\u00e1-la. Elas voltam para a luta bem mais animadas, com sabor de vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. <em>Defender-se contra os opressores do povo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u00e9poca de persegui\u00e7\u00e3o, todo cuidado \u00e9 pouco. Dizer abertamente que o imp\u00e9rio romano era o grande inimigo a ser combatido podia dar pris\u00e3o. Jo\u00e3o achou um jeito para diz\u00ea-lo de outra maneira. Por exemplo, para explicar o mist\u00e9rio da grande prostituta, sentada sobre a besta-fera com sete cabe\u00e7as (Ap 17,3), ele diz: &#8220;Aqui \u00e9 preciso ter intelig\u00eancia para poder discernir: as sete cabe\u00e7as s\u00e3o <em>sete colinas<\/em> sobre as quais a mulher est\u00e1 sentada&#8221; (17,9). Todos sabiam que a cidade de Roma, sede do Imp\u00e9rio, estava constru\u00edda sobre <em>sete colinas<\/em>. Para o bom entendedor, meia palavra basta! Em outro lugar, Jo\u00e3o diz: &#8220;Quem tem intelig\u00eancia \u00e9 capaz de calcular o n\u00famero da besta, pois \u00e9 um n\u00famero de gente. Seu n\u00famero \u00e9 666!&#8221; (Ap 13,18). De acordo com o n\u00famero de cada letra, o leitor calculava e descobria a mensagem: a besta \u00e9 o imperador de Roma que persegue os crist\u00e3os. As vis\u00f5es com seus s\u00edmbolos eram um meio para esclarecer o povo perseguido e defend\u00ea-lo contra os seus opressores. Elas revelavam a sua mensagem aos oprimidos e a escondiam aos opressores. Deus manda ser bom, mas n\u00e3o bobo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. <em>Fazer-se entender pelo povo das comunidades<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um cartaz com desenhos transmite muito mais do que s\u00f3 falar. Uma dramatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais instrutiva do que um serm\u00e3o. Uma imagem diz muito mais do que uma frase. Para se expressar, o povo prefere desenhos, teatro, imagens, cartazes e compara\u00e7\u00f5es. O mesmo vale para o Apocalipse. O Apocalipse n\u00e3o \u00e9 uma sala de confer\u00eancias, onde o povo entra pa\u00adra escutar algu\u00e9m falar. Parece muito mais com um sal\u00e3o enorme, cheio de imagens e retratos, pinturas e quadros, pendurados nas paredes das suas p\u00e1ginas. O povo pode entrar e andar por a\u00ed, \u00e0 vontade, observando, conversando, rezando. Pode andar onde quiser. Pois cada pintura, cada vis\u00e3o, tem a sua pr\u00f3pria mensagem. Seguindo, por\u00e9m, a ordem em que Jo\u00e3o colocou as vis\u00f5es, aproveitar\u00e1 mais. Pois aos poucos, ir\u00e1 percebendo a mensagem do conjunto. Um quadro come\u00e7a a esclarecer o outro quadro e o todo se ilumina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. <em>Uma chave para ler a realidade de outra maneira<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um <em>s\u00edmbolo<\/em> revela uma dimens\u00e3o mais profunda que a olho nu n\u00e3o se v\u00ea. S\u00edmbolo vem de <em>sym-ballo<\/em>: juntar, associar. O seu oposto \u00e9 <em>dia-ballo<\/em>: separar. Um s\u00edmbolo associa dois elementos, distantes entre si. Atrav\u00e9s desta associa\u00e7\u00e3o, o elemento mais familiar evoca e esclarece o outro menos conhecido e menos palp\u00e1vel. Por exemplo, a realidade bem familiar indicada pela palavra <em>porta<\/em> ajuda a entender o que Jesus significa para a vida das comunidades: &#8220;Eu sou a porta!&#8221; (Jo 10,9). O mesmo vale para <em>videira<\/em> (Jo 15,1), <em>caminho<\/em> (Jo 14,6), e tantos outros s\u00edmbolos. A for\u00e7a de um s\u00edmbolo consiste na sua capacidade de evocar que depende de muitos fatores. Depende da cultura: a imagem do <em>Cordeiro<\/em> fala mais para o povo do interior, do que para oper\u00e1rios da periferia de S\u00e3o Paulo. Depende da hist\u00f3ria: a palavra <em>Quilombo<\/em> fala mais para negros do que para brancos. Depende do clima e da regi\u00e3o: a imagem da <em>\u00e1gua<\/em> evoca coisas diferentes para um nordestino que vive na seca, e para o \u00edndio que vive na Amaz\u00f4nia. Um s\u00edmbolo atua sobre as pessoas mesmo sem elas se darem conta. Como hoje, assim naquele tempo, a m\u00e1quina de propaganda do imp\u00e9rio fazia passar os seus interesses por meio de s\u00edmbolos veiculados atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o da \u00e9poca. Os s\u00edmbolos do Apocalipse t\u00eam como objetivo n\u00e3o s\u00f3 descrever a experi\u00eancia que Jo\u00e3o teve em sonhos, mas tamb\u00e9m e sobretudo faz\u00ea-la acontecer nos outros. Um s\u00edmbolo vale mais pela experi\u00eancia e pela a\u00e7\u00e3o que provoca do que pelo conte\u00fado que comunica. Ele quer \u00e9 despertar a criatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Breve reflex\u00e3o sobre a natureza dos s\u00edmbolos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As vis\u00f5es aconteceram do jeito como Jo\u00e3o as descreve? Ele viu exatamente tudo aquilo que ele descreve? Na raiz das vis\u00f5es existe uma experi\u00eancia profunda de Deus e da vida. Experi\u00eancia que funciona como o clar\u00e3o de um raio no meio de uma noite escura. De repente, por um segundo, tudo se clareia e a pessoa enxerga. Depois do clar\u00e3o, a escurid\u00e3o parece mais escura, mas, por causa do clar\u00e3o, na mem\u00f3ria da pessoa, todas as coisas aparecem ligadas entre si por aquela claridade azulada, pr\u00f3pria dos raios. Da mesma maneira, a experi\u00eancia de Deus em forma de vis\u00e3o, como que por um segundo, clareia todas as coisas. Os acontecimentos que antes pareciam escuros e desconexos, agora tomam sentido e rumo. Na mem\u00f3ria do vision\u00e1rio, todas as coisas, do c\u00e9u e da terra, do passado, do presente e do futuro, tudo se liga e se esclarece dentro do \u00fanico projeto de Deus. Em seguida, conhecendo o povo das comunidades, a sua cultura e hist\u00f3ria, a situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil em que se encontram, Jo\u00e3o constr\u00f3i a vis\u00e3o, tentando reproduzir por escrito aquilo que ele mesmo experimentou. N\u00e3o se trata de uma descri\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica. O objetivo n\u00e3o \u00e9 tanto <em>informar<\/em> o conte\u00fado que ele mesmo viu, mas sim <em>fazer acontecer<\/em> nos outros a mesma experi\u00eancia que ele mesmo teve. Parece mais com a experi\u00eancia do poeta que tenta colocar em palavras a inspira\u00e7\u00e3o que ele teve. Como dizia um grande artista a respeito da sua obra: 10% de inspira\u00e7\u00e3o, 90% de transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na descri\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o inaugural (Ap 1,12-16), Jo\u00e3o apresenta Jesus ressuscitado. Apresenta\u00e7\u00e3o solene de muita majestade, que responde \u00e0 pergunta: &#8220;Quem \u00e9 Jesus para n\u00f3s?&#8221; A esta pergunta voc\u00ea pode responder com uma <strong>frase<\/strong> e dizer: &#8220;Jesus \u00e9 filho de Deus, Messias, Sacerdote, Juiz, Senhor da hist\u00f3ria, presente na comunidade, vivo para sempre!&#8221; Dizendo isto, voc\u00ea ter\u00e1 dito a mesma coisa que Jo\u00e3o. Mas Jo\u00e3o n\u00e3o respondeu com uma frase, mas sim com uma <strong>vis\u00e3o<\/strong>. As duas respostas, a frase e a vis\u00e3o, dizem a mesma coisa, mas de maneira diferente. Na frase, \u00e9 voc\u00ea quem fala sobre Jesus; na vis\u00e3o o pr\u00f3prio Jesus se apresenta. Na frase, Jesus aparece parado dentro de um discurso; na vis\u00e3o, ele aparece agindo. A frase traz um relat\u00f3rio; a vis\u00e3o pinta um quadro. A frase define as margens do rio da doutrina; a vis\u00e3o conta uma experi\u00eancia que alimenta a fonte do rio. A frase apela para a inteli\u00adg\u00eancia; a vis\u00e3o envolve o cora\u00e7\u00e3o e o sentimento, e provoca a imagina\u00e7\u00e3o. A frase traz entendimento; a vis\u00e3o comu\u00adnica for\u00e7a e coragem. Na frase, voc\u00ea ter\u00e1 dito uma grande verdade; na vis\u00e3o, Jo\u00e3o anunciou a Boa Nova de Jesus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem dos s\u00edmbolos expressa a viv\u00eancia da f\u00e9 dos pobres. \u00c9 a linguagem que sai do sil\u00eancio dos silenciados, e conduz ao sil\u00eancio dos libertados diante de Deus. Como diz a poesia: <em>Diante da vida do povo sofrido a gente n\u00e3o fala s\u00f3 sabe calar. Esquece as id\u00e9ias do povo sabido e fica humilde, come\u00e7a a pensar. <\/em>\u00c9 a linguagem da luta, da den\u00fancia prof\u00e9tica, do povo que n\u00e3o sabe ler. Linguagem da poesia, da atitude sapiencial mais solta, da m\u00edstica, da contempla\u00e7\u00e3o, da celebra\u00e7\u00e3o, do Amor. Conv\u00e9m ler o Apocalipse como se conversa com um amigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">7\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Segunda Caracter\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DIVIDIR A HIST\u00d3RIA EM ETAPAS PARA SITUAR O MOMENTO PRESENTE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma compara\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 viajando de Belo Horizonte para\u00a0 Rio de Janeiro. \u00c9 noite, perto da madrugada. Voc\u00ea estava dormindo e acorda. Conforme os seus c\u00e1lculos, o \u00f4nibus j\u00e1 devia estar chegando no Rio de Janeiro. Na realidade, n\u00e3o h\u00e1 nenhum sinal de cidade l\u00e1 fora. Tudo escuro! Al\u00e9m disso, em vez de asfalto, \u00e9 estrada de ch\u00e3o, cheio de buracos, coisa que n\u00e3o existe entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Preocupada, voc\u00ea se levanta e pergunta ao motorista: &#8220;Onde estamos? Vai demorar para chegar?&#8221; Ele responde: &#8220;Uma ponte quebrada obrigou a gente a fazer uma volta de quase 50 quil\u00f4metros por esta estrada de ch\u00e3o. Daqui a pouco alcan\u00e7amos de novo o asfalto. Vamos chegar no Rio com uma hora de atraso&#8221;. A\u00ed voc\u00ea se tranq\u00fciliza e diz: &#8220;Obrigada! Ent\u00e3o est\u00e1 tudo certo. Falta pouco. Gra\u00e7as a Deus!&#8221; Fora de voc\u00ea, nada mudou. Era a mesma escurid\u00e3o, a mesma estrada de ch\u00e3o, cheia de buracos. Dentro de voc\u00ea, tudo mudou. Voc\u00ea se situou, gra\u00e7as \u00e0 palavra do motorista!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O apocal\u00edptico \u00e9 como o motorista do \u00f4nibus: ajuda o povo a se situar na caminhada, feita no escuro das persegui\u00e7\u00f5es. A caminhada j\u00e1 vem de longe. Ningu\u00e9m sabe quanto tempo ainda vai demorar nem por onde o povo est\u00e1 andando. Deus perdeu o volante, assim parece. Angustiados perguntam: &#8220;Onde \u00e9 que estamos? Vai demorar muito?&#8221; (Ap 6,10). O interesse do povo que sofre n\u00e3o \u00e9 saber como vai ser o futuro daqui a cem ou a quinhentos anos, mas sim como vai ser amanh\u00e3: &#8220;Vai ou n\u00e3o vai ter persegui\u00e7\u00e3o? Vamos ou n\u00e3o vamos ter comida?&#8221; O apocal\u00edptico explica quantas s\u00e3o as etapas da caminhada do plano de Deus e informa em que etapa a comunidade se encontra no momento da persegui\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que ele faz isto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O apocal\u00edptico vive num tempo de crise e de persegui\u00e7\u00e3o, no meio de um povo sem poder. Para ajud\u00e1-lo ele volta atr\u00e1s na hist\u00f3ria e, por meio de vis\u00f5es, se transporta para o passado, para o in\u00edcio do plano de Deus ou para o in\u00edcio de alguma etapa importante deste plano. E de l\u00e1, do fundo da hist\u00f3ria, ele olha para a frente e descreve quantas s\u00e3o e como v\u00e3o ser as etapas do plano de Deus, desde aquele momento inicial at\u00e9 o fim dos tempos. Assim, na realidade, algumas destas etapas j\u00e1 pertencem ao <strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">passado<\/span><\/em><\/strong>; uma etapa est\u00e1 acontecendo no momento <strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">presente<\/span><\/em><\/strong> em que ele est\u00e1 escrevendo, e outras etapas ainda v\u00e3o acontecer no <strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">futuro<\/span><\/em><\/strong>. Quase sempre, a etapa <em>presente<\/em>, em que o povo sofre a persegui\u00e7\u00e3o, encontra-se imediatamente antes do fim. Deste modo, as comunidades perseguidas se situam e se animam: &#8220;Falta pouco! Estamos quase no fim! Vamos continuar na caminhada!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, geralmente, os escritos apocal\u00edpticos s\u00e3o pseud\u00f4nimos. Seus autores buscam uma figura significativa no passado, a partir da qual olham para o futuro. Basta olhar os nomes de alguns apocalipses que surgi\u00adram nos primeiros s\u00e9culos: apocalipse de Ad\u00e3o, Set, Sem, Abra\u00e3o, Mois\u00e9s, Elias, Sofonias, Baruque, Daniel, Zacarias, Est\u00eav\u00e3o, Pedro, Tom\u00e9, Maria, Tiago, Paulo, Jo\u00e3o. Vejamos tr\u00eas exemplos deste procedimento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Um exemplo tirado do livro de Daniel: A vis\u00e3o do Filho do Homem<\/strong> (Dn 7,1-28)<span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor de Daniel 7,1-28 vive no tempo dos Macabeus (167 aC). \u00c9 o per\u00edodo do imp\u00e9rio helenista, \u00e9poca da grande persegui\u00e7\u00e3o do rei Ant\u00edoco IV (175-164) contra o povo judeu. A persegui\u00e7\u00e3o criou uma situa\u00e7\u00e3o de deses\u00adpero. Para comunicar a sua mensagem de esperan\u00e7a, o autor do livro de Daniel se transporta para o passado, \u00e9poca do ex\u00edlio (550 aC), o &#8220;primeiro ano de Baltazar, rei da Babil\u00f4nia\u201d (Dn 7,1). Estando l\u00e1 no passado, ele tem uma vis\u00e3o, que lhe faz ver as etapas do plano de Deus, desde o ex\u00edlio da Babil\u00f4nia at\u00e9 o fim da persegui\u00e7\u00e3o que o povo estava sofrendo. Nesta \u201cvis\u00e3o noturna\u201d (Dn 7,2), aparecem, um depois do outro, os quatro grandes imp\u00e9rios, todos com apar\u00eancia de \u201canimais monstruosos\u201d: le\u00e3o com asas de \u00e1guia (imp\u00e9rio da Babil\u00f4nia) (Dn 7,4), urso com tr\u00eas costelas entre os dentes (imp\u00e9rio dos Medos) (Dn 7,5), on\u00e7a com quatro asas e quatro cabe\u00e7as (imp\u00e9rio dos Persas) (Dn 7,6), e uma &#8220;fera medonha e terr\u00edvel&#8221; (imp\u00e9rio dos gregos iniciado com Alexandre Magno) (Dn 7,7-8). Os imp\u00e9rios t\u00eam apar\u00eancia de animais porque s\u00e3o animalescos, brutais, desumanos. Eles perseguem, desumanizam e matam a vida. O quarto imp\u00e9rio dos gregos, o da &#8220;fera medonha e terr\u00edvel&#8221;, persegue e mata os \u201csantos do Alt\u00edssimo\u201d (Dn 7,21.25). \u00c9 aqui que o povo perseguido do ano 167 se reconhece: &#8220;Estamos na 4\u00aa etapa!&#8221; E imediatamente vem a pergunta: &#8220;Quanto ser\u00e1 que falta at\u00e9 que chegue o fim da persegui\u00e7\u00e3o?&#8221; A resposta vem em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois dos quatro reinos anti-humanos, chega a quinta e \u00faltima etapa do <em>Dia de Jav\u00e9<\/em>. O c\u00e9u se abre e aparece o Trono do julgamento divino: \u201cUm Anci\u00e3o se assenta, vestido de veste branca como a neve, cabelos brancos como a l\u00e3\u201d (Dn 7,9-10). A simples apari\u00e7\u00e3o do Trono do Juiz faz desaparecer os reinos animalescos. Diante do olhar divino, o mal desaparece como gelo diante do sol! Eles s\u00e3o julgados, condenados e destru\u00eddos (Dn 7,11-12). Aparece, ent\u00e3o, o quinto reino, o Reino de Deus, com apar\u00eancia n\u00e3o de um animal mas sim de gente, de \u201cum Filho de Homem\u201d, que recebe todo o poder (Dn 7,13-14). Pois o Reino de Deus \u00e9 um reino humano, que promove a vida. \u00c9 o contr\u00e1rio dos reinos animalescos! A figura do Filho do Homem representa o povo de Deus, o Povo dos Santos do Alt\u00edssimo (Dn 7,22. 27; cf. 7,18). \u00c9 uma figura comunit\u00e1ria ou coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme esta maneira de interpretar a hist\u00f3ria, a persegui\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o aparece como uma fatalidade, mas \u00e9 vista como um tijolo que contribui para a constru\u00e7\u00e3o do Projeto de Deus. \u00c9 etapa necess\u00e1ria para se chegar ao fim, como a dor de parto \u00e9 caminho necess\u00e1rio para o nasci\u00admento da vida nova. As comunidades perseguidas descobrem que a hist\u00f3ria continua na m\u00e3o de Deus e que falta muito pouco para a chegada do fim da persegui\u00e7\u00e3o, pois elas j\u00e1 se encontram na \u00faltima etapa pouco antes da manifesta\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria final do Filho do Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse \u00e9 como um espelho, onde o povo descobre a que altura est\u00e1 a caminhada. A escurid\u00e3o da per\u00adsegui\u00e7\u00e3o se ilumina por dentro, o v\u00e9u vai caindo, as comunidades se situam e a face de Deus reaparece: &#8220;A cami\u00adnhada est\u00e1 conforme o plano de Deus. \u00c9 ele que nos conduz! Falta pouco para chegar ao fim! Vamos cantar e conti\u00adnuar a resistir!&#8221; Elas mant\u00eam a cabe\u00e7a erguida, n\u00e3o se desumanizam e continuam irradiando esperan\u00e7a, f\u00e9 e amor!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Um exemplo em forma de desenho, tirado do Apocalipse de Jo\u00e3o <\/strong>(Ap 6,1-17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se do texto, onde Jo\u00e3o descreve a abertura dos sete selos (Ap 6,1-17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. Um exemplo de hoje: Os sete selos da hist\u00f3ria do Brasil narrada nos anos 80<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por causa de tantas frustra\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos sessenta anos da nossa hist\u00f3ria, muita gente desanimou e j\u00e1 n\u00e3o sabe mais como caminhar. O sofrimento do povo \u00e9 grande. Algu\u00e9m, vivendo no ano 2000, fez como Jo\u00e3o e voltou para algum ponto do nosso passado. Estando l\u00e1 no passado, abriu o livro dos sete selos da hist\u00f3ria do Brasil e come\u00e7ou a descrever as sete etapas da nossa hist\u00f3ria. Veja se voc\u00ea se reconhece nestes fatos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tive uma vis\u00e3o. Ap\u00f3s um per\u00edodo de cinco anos de guerras, matan\u00e7as, fome e destrui\u00e7\u00e3o at\u00f4mica, a paz se estabeleceu no mundo inteiro. Todo mundo respirou aliviado, dando gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, foi aberto o <em>Primeiro Selo<\/em>.\u00a0 E aquele que detinha o poder foi destitu\u00eddo e se matou para poder viver no cora\u00e7\u00e3o do povo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, foi aberto o <em>Segundo Selo<\/em>.\u00a0 E aqueles que foram institu\u00eddos para defender o povo e manter a ordem, enganaram o povo e estabeleceram a desordem por tr\u00eas vezes sete anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, foi aberto o <em>Terceiro Selo<\/em>.\u00a0 E aquele que dizia ter vindo para derrubar a desordem e trazer de volta a Ordem e o Progresso, na hora de tomar posse foi derrubado pela doen\u00e7a e o pa\u00eds ficou entregue por cinco vezes doze meses, sem possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, foi aberto o <em>Quarto Selo<\/em>.\u00a0 E aquele que tinha sido indicado pelos pobres e exclu\u00eddos para criar um mundo mais justo e mais fraterno, com paz e prosperidade para todos, foi derrubado pela mentira <strong><em>collorida<\/em><\/strong> e pa\u00eds caiu nas trevas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, foi aberto o <em>Quinto Selo<\/em>.\u00a0 Quando abriram o quinto selo, ouvi a voz do povo, debaixo do altar da P\u00e1tria <em>Real<\/em>, prisioneiro do sal\u00e1rio m\u00ednimo imposto pelo FMI, gritando em alta voz: &#8220;At\u00e9 quando, Senhor?&#8221; E foi lhes dito: &#8220;Ag\u00fcentem mais um pouco de tempo, pois logo vir\u00e1 o fim e a paz ser\u00e1 restabelecida para sempre!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o foi aberto o <em>Sexto Selo.<\/em> Um tumulto se fez no c\u00e9u. O sol escureceu, a lua sangrou, a terra tremeu, o mar transbordou, as estrelas ca\u00edram. Dos quatro cantos do universo avan\u00e7avam os anjos gritando: \u201cEnfim ser\u00e1 restabelecida a Ordem que Deus quis quando criou o mundo!\u201d Os grandes do mundo tremeram nos seus pal\u00e1cios e uma voz gritou: \u201c\u00c9 o come\u00e7o do fim!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando abriram o <em>S\u00e9timo Selo<\/em>, um sil\u00eancio percorreu a terra. O universo inteiro cantava um canto novo: \u201cAm\u00e9m! Aleluia! N\u00f3s te damos gra\u00e7as, Senhor, porque assumiste teu grande poder e passaste a reinar. Enfim, a injusti\u00e7a foi eliminada e destru\u00edda. A reforma agr\u00e1ria foi feita. Agora todos tem o seu lote, sua casa, seu quintal. Acabou-se a viol\u00eancia. Todos vivem com seguran\u00e7a, sem medo de ser feliz. O c\u00e9u baixou entre n\u00f3s! A paz chegou e o povo \u00e9 feliz para sempre! Am\u00e9m! Aleluia!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">8\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Terceira Caracter\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>USAR LINGUAGEM RADICAL NA LEITURA DOS FATOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas vis\u00f5es do Apocalipse, n\u00e3o h\u00e1 meio termo. \u00a0S\u00f3 contraste! De um lado, o mal; do outro, o bem. De um lado, o Drag\u00e3o e a besta-fera (Ap 13,1-18); do outro, o Cordeiro e o seu ex\u00e9rcito (Ap 14,1-5); de um lado, Roma, a grande prostituta (Ap 17,1-18); do outro, Jerusal\u00e9m, a noiva do Cordeiro (Ap 21,1-22,5). Jo\u00e3o sabe muito bem que, na vida real, as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim. Sabe que o bem e o mal existem misturados at\u00e9 na vida das comunidades. Sabe que, no imperio romano, tem muita coisa boa, muita gente boa. Por que, ent\u00e3o, nas vis\u00f5es ele fala como se, de um lado, s\u00f3 tivesse coisa boa e, do outro, s\u00f3 coisa ruim? Parece extremista e radical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. <span style=\"text-decoration: underline;\">O problema pol\u00edtico<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava muito confusa. Uns quarenta anos antes, Paulo tinha escrito aos crist\u00e3os de Roma que deviam obedecer \u00e0s &#8220;autoridades constitu\u00eddas&#8221; (Rm 13,1), &#8220;de modo que aquele que se revolta contra a autoridade op\u00f5e-se \u00e0 ordem estabelecida por Deus&#8221; (Rm 13,2). Nos Atos dos Ap\u00f3stolos, Lucas tinha apresentado o imp\u00e9rio romano como simp\u00e1tico aos crist\u00e3os (At 13,7; 18,12-15; 19,35-40; 25,13-27). Mas a situa\u00e7\u00e3o tinha mudado. Agora, essas mesmas \u201cautoridades constitu\u00eddas\u201d estavam perse\u00adguindo os crist\u00e3os. Elas at\u00e9 se infiltravam nas comunidades para for\u00e7\u00e1-las a adorar os falsos deuses do imp\u00e9rio (Ap 2,14.20). Quem era o culpado por essa situa\u00e7\u00e3o? O imp\u00e9rio em si, ou apenas alguns maus funcion\u00e1rios? As coisas n\u00e3o estavam claras. Havia v\u00e1rias opini\u00f5es. Deve ter havido muita discuss\u00e3o e at\u00e9 brigas em torno desse assunto da pol\u00edtica!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Apocalipse, Jo\u00e3o toma posi\u00e7\u00e3o e d\u00e1 a sua opini\u00e3o. Para ele, o culpado n\u00e3o s\u00e3o alguns maus funcio\u00adn\u00e1rios do imp\u00e9rio, mas sim o imp\u00e9rio em si: a sua organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a sua pretens\u00e3o de ser o senhor do mundo (Ap 13,1-18; 18,2-20). Por isso, ele condena radicalmente qualquer tentativa de alian\u00e7a com o imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. <span style=\"text-decoration: underline;\">A maneira de analisar a realidade<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse aprecia e avalia as coisas a partir do futuro, isto \u00e9, a partir da contribui\u00e7\u00e3o que elas est\u00e3o dando para o triunfo final do bem e da justi\u00e7a. A vit\u00f3ria j\u00e1 est\u00e1 certa, garantida pelo poder de Deus (Ap 11,17-18; 21,6-8.27; 22,3-5). Aquilo que contribui para a vit\u00f3ria \u00e9 bom, vem de Deus. Aquilo que impede a vit\u00f3ria n\u00e3o presta, vem do mal, do diabo. Ora, o imp\u00e9rio romano, do jeito que estava organizado, n\u00e3o estava contribuindo para a vit\u00f3ria do bem e da justi\u00e7a. Pelo contr\u00e1rio! Impedia a vit\u00f3ria, pois perseguia as comunidades que queriam contribuir e promover a vida! Por isso, na descri\u00e7\u00e3o que faz do imp\u00e9rio (Ap 13,1-18) e da cidade de Roma (Ap 17,1-18), Jo\u00e3o n\u00e3o aponta nada de bom. Tudo a\u00ed \u00e9 maldade! O imp\u00e9rio romano \u00e9 obra do Drag\u00e3o (Ap 13,1-2), \u00e9 v\u00f4mito de satan\u00e1s (Ap 12,15). A cidade de Roma, a grandiosa sede do imp\u00e9rio, capital do mundo, n\u00e3o passa de uma grande prostituta que leva o mundo inteiro para a perdi\u00e7\u00e3o (Ap 17,1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comparando. O imp\u00e9rio \u00e9 como um navio imenso navegando no mar. No navio tem coisas boas e ruins. Tudo misturado. Mas o navio est\u00e1 sendo usado para fazer guerra. Est\u00e1 navegando em dire\u00e7\u00e3o ao litoral para bombardear a popula\u00e7\u00e3o indefesa. Este rumo do navio est\u00e1 totalmente errado e, por isso, <em>tudo que est\u00e1 no navio se orienta para o mal. <\/em>O que Jo\u00e3o condena n\u00e3o \u00e9 o bem que existe no navio do imp\u00e9rio, mas sim o rumo errado do mesmo. Tudo est\u00e1 sendo usado e organizado para perseguir os crist\u00e3os indefesos que querem defender a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o quer alertar os crist\u00e3os. Eles n\u00e3o podem ser ing\u00eanuos e alimentar um regime, cuja organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 contra o Evangelho, contra a vida (Ap 18,4). N\u00e3o podem permitir que a falsa propaganda penetre nas comunidades (Ap 2,14.20). Devem, ao contr\u00e1rio, ag\u00fcentar firme na sua luta e resistir, mesmo at\u00e9 \u00e0 morte (Ap 2,10), apesar das persegui\u00e7\u00f5es (Ap 3,10-11). \u00c9 nesta luta humilde e penosa das comunidades que est\u00e1 a semente da futura vit\u00f3ria do bem e da justi\u00e7a (Ap 2,7.11.17.26; 3,5.12.21). Resistindo a todo custo e n\u00e3o se deixando desviar nem manipular, elas ser\u00e3o o ex\u00e9rcito do Cordeiro que enfrenta o drag\u00e3o do Imp\u00e9rio (Ap 14,1-5) e o vencer\u00e1 (Ap 17,14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por tudo isto que Jo\u00e3o fala em termos radicais. \u00c9 uma forma de fazer an\u00e1lise da realidade para ajudar os crist\u00e3os a enxergar com clareza a pol\u00edtica do imp\u00e9rio romano e a se definir diante da situa\u00e7\u00e3o. Hoje em dia, diante da propaganda do sistema neoliberal faz falta um <em>apocalipse<\/em> que nos ajude a fazer uma leitura um pouco mais cr\u00edtica da realidade, questionando os rumos do atual imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">9\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMITES, PERIGOS E DESVIOS DO MOVIMENTO APOCAL\u00cdPTICO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 1. Perigo de imobilismo e fatalismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento apocal\u00edptico ensina e sugere que o Plano de Salva\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 pronto e definido. Por isso, corre o perigo de alimentar o fatalismo que impede ou desaconselha a participa\u00e7\u00e3o das pessoas. Assim, na comunidade de Tessal\u00f4nica, muitos cruzavam os bra\u00e7os e ficavam em cima do muro, sem comprometer-se. \u201cSe Jesus vem logo, para que trabalhar ainda?\u201d (cf. 2Ts 3,11). O mesmo fazem hoje os que, em nome do evangelho, recusam ou condenam a participa\u00e7\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. A resposta de Paulo \u00e9 clara: \u201cQuem n\u00e3o quiser trabalhar, tamb\u00e9m n\u00e3o coma\u201d (2Ts 3,10)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 2. Perigo de isolamento e de aliena\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento apocal\u00edptico ensina que os pobres, perseguidos e amea\u00e7ados pelo imp\u00e9rio, s\u00e3o o povo eleito de Deus a ser salvo no <em>Dia de Jav\u00e9<\/em>. Por isso, este \u201cpovo eleito\u201d corre o perigo de considerar-se um \u201cpovo privile\u00adgiado\u201d, os \u00fanicos eleitos a serem salvos! Eles sofrem a tenta\u00e7\u00e3o de se isolar no seu privil\u00e9gio e de tratar os outros com uns pobres condenados! Em vez de realizarem a sua miss\u00e3o de \u201cservir \u00e0 humanidade\u201dcomo \u201cluz das na\u00e7\u00f5es\u201d, passam o tempo can\u00adtando, esperando pela vinda de Jesus, tentando puxar todos para dentro da sua igreja ou do seu grupo. Esta atitude transpa\u00adrece nos disc\u00edpulos, depois da ascens\u00e3o de Jesus. Ficavam olhando para o c\u00e9u, esquecendo a miss\u00e3o do an\u00fancio (At 1,11). A recomenda\u00e7\u00e3o do livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos \u00e9 clara: \u201cDeixe na m\u00e3o de Deus a preocupa\u00e7\u00e3o com o fim do mundo, e v\u00e1 pelo mundo para dar testemunho do Evangelho\u201d (cf. At 1,7-8)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 3. Perigo da manipula\u00e7\u00e3o que usa o Apocalipse para meter medo no povo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia de Deus \u00e9 um mist\u00e9rio fascinante de amor que atrai. Ao mesmo tempo, ela nos faz sentir nossa pequenez e pecado. No Apocalipse, a experi\u00eancia de Deus se revela em vis\u00f5es que anunciam cat\u00e1strofes. Muita gente, inclusive Daniel e Jo\u00e3o, ficam com medo diante destas vis\u00f5es (Dn 7,15; 8,17; Ap 1,17). H\u00e1 pessoas que usam estes textos para meter medo nos pobres. Manipulam as vis\u00f5es do Apocalipse para dominar as consci\u00eancias atra\u00adv\u00e9s da amea\u00e7a do castigo. Fazer isto \u00e9 uma forma de idolatria. Mas Deus n\u00e3o quer que o an\u00fancio do castigo para os maus cause medo nos bons. Sem cessar manda repetir o apelo: \u201cN\u00e3o tenham medo\u201d (Ap 1,17)!, \u201cN\u00e3o chore\u201d (Ap 5,5)! Por causa dos eleitos, Deus at\u00e9 abreviou as dores do fim dos tempos (Mc 13,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 4. Perigo de fundamentalismo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem sempre o vidente entende a vis\u00e3o que recebe (Ap 7,14; Dn 8,15). Esta obscuridade das vis\u00f5es junto com a situa\u00e7\u00e3o de sofrimento em que se encontram as pessoas traz consigo o perigo do fundamentalismo que interpreta tudo ao p\u00e9 da letra. \u201cO fundamentalismo \u00e9 uma grande tenta\u00e7\u00e3o que, em \u00e9pocas de incerte\u00adza e de inseguran\u00ad\u00e7a, se instala na mente de muita gente. Ele separa o texto da vida e da hist\u00f3ria do povo e o absolutiza como sendo a \u00fanica manifesta\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus. A vida, a hist\u00f3ria do povo, a comunidade, j\u00e1 n\u00e3o teriam mais nada a dizer sobre Deus e a sua Vontade. \u00c9 a aus\u00eancia total de consci\u00eancia cr\u00edtica. O funda\u00admentalismo distorce o sentido da B\u00edblia e, na sua interpreta\u00e7\u00e3o, alimenta o moralismo, o individualis\u00admo e o espiritualismo. \u00c9 uma vis\u00e3o alienada que agrada aos opressores, pois impede que os oprimidos tomem cons\u00adci\u00eancia da iniq\u00fcidade do sistema montado e mantido pelos poderosos\u201d Recusando o pensa\u00admento cr\u00edtico e o bom senso, o fundamentalismo pode transformar-se em causa de trag\u00e9dias. Por exemplo, durante o cerco de Jerusal\u00e9m no ano 70 depois de Cristo, grupos apocal\u00edpticos luta\u00advam entre si, exterminando-se mutuamente. Depois da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, os sobreviventes comete\u00adram suic\u00eddio coletivo em Massada. No s\u00e9culo XX j\u00e1 tivemos o suic\u00eddio coletivo de v\u00e1rios grupos fundamentalistas. O documento da Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica da igreja cat\u00f3lica, \u201cA Interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja\u201d, pu\u00adblicado em 1993, condena fortemente os desvios e os perigos do fundamentalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">10\u00aa Chave<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS TEND\u00caNCIAS NA INTERPRETA\u00c7\u00c3O DO APOCALIPSE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 1. O Apocalipse prediz o desenrolar da hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse \u00e9 visto como uma profecia da hist\u00f3ria. Prediz as etapas do Projeto de Deus, desde o seu come\u00e7o at\u00e9 o fim. Assim pensava, por exemplo, Santo Agostinho. Os que se orientam por esta teoria, interpretam as vis\u00f5es como descri\u00e7\u00f5es antecipadas dos grandes acontecimentos da hist\u00f3ria da Igreja e da humanidade. Eles encontram a\u00ed dentro alus\u00f5es, por exemplo, \u00e0 explos\u00e3o da bomba at\u00f4mica, ao avan\u00e7o e implos\u00e3o do comunismo, ao atentado ao Papa, aos terremotos, \u00e0s guerras, aos problemas ecol\u00f3gicos, etc. Tudo parece previsto. Esta maneira de ler o Apocalipse provoca a curiosidade e levou Nostradamus a elaborar suas teorias e profecias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 2. O Apocalipse fala do fim do mundo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para outros, o Apocalipse n\u00e3o descreve o desenrolar da hist\u00f3ria, mas sim o fim dela. Isto \u00e9, fala s\u00f3 das coisas que v\u00e3o acontecer no fim dos tempos, imediatamente antes da vinda de Jesus. \u00c9 o que pensam muitos grupos pentecostais. Eles se consideram \u201cos santos dos \u00faltimos dias\u201d, vivendo no fim dos tempos, prontos para acompanhar Jesus, quando ele vier nas nuvens. Da\u00ed o seu grande interesse pelo Apocalipse que \u00e9 visto como um &#8220;aviso pr\u00e9vio&#8221; de Deus \u00e0 humanidade. Eles dizem: &#8220;De 1000 passou! De 2000 n\u00e3o passar\u00e1!&#8221; As vagas s\u00e3o poucas: s\u00f3 144.000 assinalados. As suas interpreta\u00e7\u00f5es causam medo em muita gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 3. O Apocalipse quer animar as Comunidades do fim do primeiro S\u00e9culo <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse n\u00e3o foi escrito para predizer as etapas da hist\u00f3ria, nem para descrever o fim do mundo, mas sim para iluminar a situa\u00e7\u00e3o sofrida das comunidades perseguidas do fim do primeiro s\u00e9culo. \u00c9poca de Domiciano (81-96). Quer ajud\u00e1-las a entender o que estava acontecendo e, assim, reanimar sua f\u00e9, sua esperan\u00e7a e seu amor. Quer animar, consolar, situar e clarear. At\u00e9 hoje, as comunidades perseguidas experimentam tal conforto na leitura do Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 4. O Apocalipse tira Raio-X da vida humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros dizem que o Apocalipse n\u00e3o se refere \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das comunidades do fim do primeiro s\u00e9culo, nem descreve o desenrolar das etapas da hist\u00f3ria, nem fala do fim do mundo. N\u00e3o se refere a nenhuma \u00e9poca determinada da hist\u00f3ria, mas sim a <em>todas<\/em> as \u00e9pocas e a <em>todos<\/em> os acontecimentos, tanto de ontem como de hoje e de amanh\u00e3, e procura revelar neles uma dimens\u00e3o mais profunda. Ajuda os leitores a n\u00e3o parar na superf\u00edcie dos fatos, mas a olhar <em>tudo<\/em> pelo lado de dentro e descobrir a a\u00e7\u00e3o de Deus em <em>tudo<\/em> que acontece. Ter uma consci\u00eancia mais cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas quatro tend\u00eancias n\u00e3o se excluem mutuamente. Podem at\u00e9 completar-se. Importante \u00e9 o acento que se d\u00e1. Colocamos o acento na terceira. Partimos da convic\u00e7\u00e3o de que o Apocalipse foi escrito para animar as comunidades perseguidas da \u00c1sia Menor do fim do primeiro s\u00e9culo. Esta maneira de interpretar predomina entre os estudiosos hoje em dia. Ela \u00e9 nossa principal chave de leitura que ser\u00e1 esclarecida e comprovada ao longo dos roteiros e subs\u00ed\u00addios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta variedade de opini\u00f5es mostra e confirma que uma obra de arte \u00e9 sempre maior que o seu int\u00e9rprete. O poeta \u00e9 maior que o seu cr\u00edtico liter\u00e1rio. O Apocalipse de Jo\u00e3o \u00e9 maior que as teorias que o interpretam. O seu sentido n\u00e3o se esgota em nenhuma delas. As interpreta\u00e7\u00f5es passam. A obra permanece! Isto obriga o int\u00e9rprete a ser humilde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">11\u00aa Chave<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DESTINAT\u00c1RIOS, AUTOR E HIST\u00d3RIA DO TEXTO DO APOCALIPSE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. \u00c9poca e Destinat\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse foi escrito e redigido entre os anos 60 e 100. Lendo nas entrelinhas das sete cartas e colhendo as informa\u00e7\u00f5es do resto do livro, obt\u00e9m-se o seguinte quadro da situa\u00e7\u00e3o em que se encontravam as sete comunidades: persegui\u00e7\u00e3o por parte do imp\u00e9rio, infiltra\u00e7\u00e3o da ideologia imperial nas comunidades, invas\u00e3o de doutrinas estranhas, divis\u00f5es internas causadas por falsas lideran\u00e7as, conflito crescente e doloroso com os irm\u00e3os judeus e, por fim, cansa\u00e7o da caminhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 para este povo que Jo\u00e3o escreve o seu livro. Como vimos, entre eles havia os fracos e os pobres que continuavam firmes na f\u00e9 e na luta; havia os que estavam perdidos, sem enxergar o rumo; havia os que misturavam as religi\u00f5es sem entender direito o seu sentido; havia os acomodados e os ricos que tinham ca\u00eddo na rotina. Mas todos precisando de uma palavra de esclarecimento, de conforto, de cr\u00edtica ou de coragem!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.\u00a0 Autor e Motivos da carta<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor se apresenta: &#8220;Eu, Jo\u00e3o, vosso irm\u00e3o e companheiro na tribula\u00e7\u00e3o\u201d (Ap 1,9). Ele n\u00e3o invoca nenhum t\u00edtulo, nem de bispo, nem de sacerdote, nem de evangelista, nem de ap\u00f3stolo. O t\u00edtulo que vale \u00e9: &#8220;Irm\u00e3o e companheiro na tribula\u00e7\u00e3o&#8221;. Sendo ele mesmo um perseguido, conhece por dentro o drama dos companheiros e das companheiras. Por isso tem condi\u00e7\u00f5es de anim\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome <em>Jo\u00e3o<\/em> aparece 4 vezes: tr\u00eas vezes na introdu\u00e7\u00e3o (Ap 1,1.4.9) e uma vez na conclus\u00e3o (Ap 22,8). Quem \u00e9 este Jo\u00e3o? \u00c9 o Ap\u00f3stolo? \u00c9 o autor do quarto Evangelho? Uma tradi\u00e7\u00e3o do II s\u00e9culo identi\u00adfica-o com o Ap\u00f3stolo do mesmo nome. Este seria o autor do quarto Evangelho e do Apocalpse. Outra tradi\u00ad\u00e7\u00e3o, relatada por Eus\u00e9bio, historiador do IV s\u00e9culo, diz que se trata de um &#8220;anci\u00e3o&#8221; (presb\u00edtero), e dis\u00adtingue-o do Ap\u00f3stolo e do Evangelista. \u00c9 dif\u00edcil chegar a uma conclus\u00e3o. Talvez seja o seguinte. Como vimos, \u00e9 uma caracter\u00edstica do g\u00eanero liter\u00e1rio apocal\u00edptico o autor se esconder atr\u00e1s do nome de alguma persona\u00adlidade importante do passado. \u00c9 poss\u00edvel que o autor tenha se escondido atr\u00e1s do nome do ap\u00f3stolo Jo\u00e3o. Pois a mem\u00f3ria deste ap\u00f3stolo era bem viva na \u00c1sia Menor, onde foi escrito o nosso Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao que tudo indica, \u201cJo\u00e3o\u201d era coordenador das comunidades, pois, conforme transparece nas car\u00adtas, ele est\u00e1 bem por dentro da situa\u00e7\u00e3o de cada uma delas(Ap 2-3). Tem consci\u00eancia de ser porta\u00addor de uma profecia por parte de Deus para as Comunidades(Ap 22,9-10). Ele mesmo encarnou a Palavra de Deus em sua vida(Ap 10,8-11) e sofre por causa do testemunho (Ap 1,9). Por isso tem autoridade para falar. Por\u00e9m, apesar da sua autoridade, Jo\u00e3o n\u00e3o tem medo de confessar o que n\u00e3o sabe(Ap 5,4; 7,13-14). Na pol\u00eamica com os advers\u00e1rios, ele usa palavras dur\u00edssimas(Ap 2,9; 3,9) que certamente n\u00e3o usaria fora da pol\u00eamica. O editor do livro apresenta a palavra de Jo\u00e3o como sendo uma profecia e pede obedi\u00eancia(Ap 1,1-3; 22,18-19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o escreve para os irm\u00e3os\u00a0 perseguidos das sete comunidades que est\u00e3o na \u00c1sia (Ap 1,4.11). O n\u00famero <em>sete<\/em> simboliza <em>todos<\/em>. Escrevendo para as <em>sete<\/em>, Jo\u00e3o quer \u00e9 animar a <em>todas<\/em> as comunidades, inclusive as de hoje. Condi\u00e7\u00e3o para a pessoa ser atingida pela sua mensagem \u00e9 sentir-se \u201cirm\u00e3o e companheiro na tribula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. A hist\u00f3ria do texto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto do Apocalipse \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o s\u00f3 por causa das imagens estranhas, mas tamb\u00e9m por causa das costuras e rupturas que nele existem. N\u00e3o \u00e9 um texto com uma unidade harmoniosa. Parece n\u00e3o ter um plano claro. Ele d\u00e1 a impress\u00e3o de ter sido escrito em v\u00e1rias etapas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pedreiro experimentado \u00e9 capaz de descobrir as etapas da constru\u00e7\u00e3o de uma casa. Ele examina o pr\u00e9dio e diz: &#8220;A varanda da frente foi feita depois. Veja s\u00f3 os sinais na janela e na porta. A cozinha foi alargada. Olhe o piso e aquela viga l\u00e1 no teto. Para o quarto de dormir dos meninos, ele puxou o telhado e aproveitou aquele \u00e2ngulo morto. No come\u00e7o s\u00f3 havia mesmo dois quartinhos, uma cozinha apertada e um banheiro&#8221;. O Apocalipse \u00e9 como uma casa popular. Cresceu aos poucos, de acordo com as necessidades da fam\u00edlia. Alguns exegetas examinaram os sinais nas paredes, no piso e no teto do Apocalipse. Analisaram as rupturas e costuras que existem no texto, e conclu\u00edram o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. A parte mais antiga s\u00e3o os cap\u00edtulos 4\u00a0 a 11. Foi escrita, provavelmente, durante a persegui\u00e7\u00e3o de Nero (64) ou, conforme outros, na \u00e9poca da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m (70). A caminhada das comunidades \u00e9 vista como um Novo \u00caxodo. A Boa Nova \u00e9 apresentada como um an\u00fancio de liberta\u00e7\u00e3o para o povo oprimido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. No fim do governo de Domiciano (81-96), a persegui\u00e7\u00e3o voltou. Os problemas cresceram. Era necess\u00e1ria uma reflex\u00e3o mais aprofundada sobre a persegui\u00e7\u00e3o e sobre a pol\u00edtica do imp\u00e9rio romano. Para responder a esta nova problem\u00e1tica dos anos 90 foram escritos os cap\u00edtulos 12 a 22, concebidos como continua\u00e7\u00e3o e alargamento da s\u00e9tima praga do fim da primeira parte (Ap 11,14-19). A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 vista como revela\u00e7\u00e3o progressiva do julgamento de Deus. A Boa Nova \u00e9 apresentada como condena\u00e7\u00e3o progressiva dos opressores do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Em seguida, foram acrescentados os cap\u00edtulos 1-3, que d\u00e3o ao livro o aspecto de uma carta carinhosa com endere\u00e7o certo. S\u00e3o como que a varanda acolhedora da frente, onde Jo\u00e3o recebe o povo perseguido. A <em>carta<\/em> come\u00e7a com um pre\u00e2mbulo (Ap 1,4-20), que serve de introdu\u00e7\u00e3o a todo o livro do Apocalipse. A Boa Nova \u00e9 apresentada como exig\u00eancia de fidelidade e de compromisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim, um editor juntou tudo, fez o port\u00e3o de entrada (Ap 1,1-3), ajeitou o quintal dos fundos, que \u00e9 a conclus\u00e3o (Ap 22,6-21), e a casa ficou pronta! Esta \u00e9 apenas uma entre as muitas teorias que existem em torno do Apocalipse. A melhor teoria ser\u00e1 aquela que melhor explique as dificuldades liter\u00e1rias que o texto apresenta, e melhor revele a mensagem do Apocalipse para os pobres e perseguidos de hoje. Conhecer a hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o da casa \u00e9 \u00fatil e importante para a compreens\u00e3o do Apoca\u00adlipse. Muito mais importante, por\u00e9m, \u00e9 o povo poder morar na casa e sentir-se protegido pelo poder de Deus. Mora gente nela at\u00e9 hoje!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">12\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DIVIS\u00c3O DO TEXTO DO APOCALIPSE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A divis\u00e3o do texto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 1,1-3: <\/strong>PORT\u00c3O DE ENTRADA T\u00edtulo e resumo do livro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1.<\/strong> <strong>Ap 1,4 <\/strong>at\u00e9<strong> 3,22: <\/strong> AS CARTAS PARA AS SETE COMUNIDADES<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1,4-20<\/strong>:\u00a0 \u00a0\u00a0A entrada para o livro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 1,4-8  \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Sauda\u00e7\u00e3o inicial para as sete comunidades<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 1,9-20\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Origem do livro: a Vis\u00e3o Inaugural de Jesus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2,1-3,22<\/strong>: As sete Cartas para as <em>sete<\/em> Comunidades, isto \u00e9, para todas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 2,1-7 \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para \u00c9feso<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 2,8-11\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para Esmirna<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 2,12-17 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para P\u00e9rgamo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 2,18-29 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para Tiatira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 3,1-6 \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para Sardes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 3,7-13\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para Filadelfia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 3,14-22 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para Laodic\u00e9ia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.<\/strong> <strong>Ap 4,1 <\/strong>at\u00e9<strong> 11,19: <\/strong> DEUS LIBERTA O SEU POVO<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 4,1-11: <\/strong><em>Vis\u00e3o do Trono de Deus<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 5,1-14: <\/strong><em>Vis\u00e3o do Cordeiro com chaga de morte<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 6,1-7,17: <\/strong><em>Abertura dos primeiros seis selos do livro de sete selos<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 6,1-8:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 o passado: abertura dos primeiros quatro selos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 6,9-11:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 o presente: a abertura do quinto selo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 6,12-7,17:\u00a0 o futuro: abertura do sexto selo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 6,12-17:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 derrota dos opressores do povo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 7,1-17:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 miss\u00e3o do povo perseguido<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 8,1-10,7: <\/strong><em>Abertura do s\u00e9timo selo: vis\u00e3o de seis das sete pragas<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 10,8-11,13: <\/strong><em>Intervalo que prepara o segundo roteiro (costura)<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 10,8-11:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 o livrinho doce e amargo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 11,1-13:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 as duas testemunhas, Mois\u00e9s e Elias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 11,14-19: <\/strong><em>S\u00e9tima praga que marca a chegada definitiva do Julgamento de Deus<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. Ap<\/strong> <strong>12,1 <\/strong>at\u00e9<strong> 22,21:<\/strong> DEUS JULGA OS OPRESSORES DO POVO<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 12,1-17:\u00a0 \u00a0\u00a0<em>O Passado<\/em><\/strong><em>: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 a luta entre a Mulher e o Drag\u00e3o<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 13,1-14,5:\u00a0 <em>O Presente<\/em><\/strong><em>: \u00a0\u00a0\u00a0 os dois campos em luta: Besta-fera e Cordeiro<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 13,1-18:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 a besta fera: o Imp\u00e9rio Romano<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 14,1-5:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cordeiro e ex\u00e9rcito: o povo das Comunidades<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 14,6-20,15: <em>O Futuro<\/em><\/strong><em>: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 julgamento e condena\u00e7\u00e3o dos opressores do povo<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 14,6-13:\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 tr\u00eas anjos anunciam o que vai acontecer<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 14,14 a 20,15:\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0 realiza-se o an\u00fancio feito dos tr\u00eas anjos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*14,14-20:\u00a0 do 1\u00ba anjo: \u00a0\u00a0 chegada do julgamento<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong>*15,1-19,10:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 do 2\u00ba anjo:  queda de Babil\u00f4nia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*19,11-20,15:\u00a0\u00a0\u00a0 do 3\u00ba anjo:  derrota final do mal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> 21,1-22,5:\u00a0 \u00a0<em>A festa final<\/em><\/strong><em> da caminhada do povo de Deus<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> Ap 22,6-21\u00a0\u00a0 Conclus\u00e3o com recomenda\u00e7\u00f5es finais.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">13\u00aa Chave <\/span><\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>APOCALIPSE E LITURGIA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso do Apocalipse na Liturgia, o uso da Liturgia no Apocalipse. As duas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o verdadeiras. O autor do Apocalipse se inspirou nas liturgias das comunidades e, ao mesmo tempo, o seu livro era usado para animar as celebra\u00e7\u00f5es das comunidades. Canta-se muito no Apocalipse, do come\u00e7o ao fim. At\u00e9 parece um livro de canto, um manual de liturgia, a descri\u00e7\u00e3o de uma grande celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Invoca\u00e7\u00f5es, s\u00faplicas, lamentos, aclama\u00e7\u00f5es, gritos de vit\u00f3ria, sauda\u00e7\u00f5es, preces, louvores, felicita\u00e7\u00f5es, prociss\u00f5es, a\u00e7\u00f5es de gra\u00e7as, elas ocupam grande parte das p\u00e1ginas do Apocalipse. Eis algumas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a liturgia c\u00f3smica diante do Trono de Deus, envolvendo toda a cria\u00e7\u00e3o (Ap 4,4-11),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a celebra\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria do Cordeiro, envolvendo os anjos e a humanidade toda (Ap 5,8-14),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 o lamento dos perseguidos que sai debaixo do altar (Ap 6,9-11),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a prociss\u00e3o imensa da humanidade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s fontes da \u00e1gua viva (Ap 7,9-17),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a solene abertura do s\u00e9timo selo com muito incenso e ora\u00e7\u00e3o (Ap 8,2-5),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a liturgia que acompanha a s\u00e9tima trombeta anunciando a chegada do Reino (Ap 11,15-18),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a celebra\u00e7\u00e3o de louvor e a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as por ocasi\u00e3o da vit\u00f3ria do menino (Ap 12,10-12),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 o c\u00e2ntico de vit\u00f3ria dos 144.000 assinalados ao redor do Cordeiro no Monte Si\u00e3o (Ap 14,2-3),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a tr\u00edplice Boa Nova trazida por tr\u00eas anjos que anunciam a queda de Roma (Ap 14,6-13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 o c\u00e2ntico de Mois\u00e9s sobre um mar de vidro, anunciando as \u00faltimas pragas (Ap 15,2-8),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a aclama\u00e7\u00e3o que canta a justi\u00e7a de Deus por ocasi\u00e3o da terceira praga (Ap 16,5-7),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 o jogral, que lamenta, canta e celebra, por antecipa\u00e7\u00e3o, a queda do imp\u00e9rio Romano (Ap 18,1 at\u00e9 19,8)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0 a descri\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da chegada do novo c\u00e9u e da nova terra (Ap 21,3-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem canta, seus males espanta. O jeito de orar revela o jeito de crer. A liturgia \u00e9 a express\u00e3o da f\u00e9, da esperan\u00e7a e do amor da comunidade. Nela se revelam e se transmitem a imagem e a expe\u00adri\u00eancia que o povo tem de Deus, de Jesus e de si mesmo. Olhando pela janela destas celebra\u00e7\u00f5es, descobrimos dimens\u00f5es da vida daquele povo que t\u00eam grande atualidade para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">14\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>APOCALIPSE E A VINDA DE JESUS NO FIM DOS TEMPOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra <strong><em>Apocalipse<\/em><\/strong> significa <strong>re-vela\u00e7\u00e3o<\/strong>. O Apocalipse <em>re-vela<\/em> (desvela) a <em>vinda de Jesus<\/em> e a descreve de v\u00e1rias maneiras: como j\u00e1 presente nas comunidades (Ap 1,9-20); como apelo \u00e0 convers\u00e3o (Ap 2 e 3);\u00a0 como libertador do povo perseguido (Ap 4-11); como Juiz que vem destruir as for\u00e7as do mal que oprimem as comunidades (Ap 12-22). A vinda deve acontecer em breve (Ap 1,1). Ou melhor, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo e, em breve, ser\u00e1 revelada. No fim do livro, as comunidades pedem com insist\u00eancia, para que Jesus n\u00e3o demore, e gritam: <em>Vem!<\/em> (Ap 22,17). O pr\u00f3prio Jesus responde: <em>Sim, venho logo!<\/em> (Ap 22,20)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o v\u00e1rias maneiras de se entender a<em> vinda<\/em> de Jesus, mas todas elas s\u00e3o como galhos variados que nascem do mesmo tronco. Este tronco tem quatro aspectos importantes misturados entre si:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) <em><span style=\"text-decoration: underline;\">Centro e raiz de tudo<\/span><\/em>: O centro e a raiz de tudo \u00e9 o nome de Deus <em>\u00c9-Era-<span style=\"text-decoration: underline;\">Vem<\/span><\/em><strong> <\/strong>(Ap 1,4.8; 4,8). Ele <em>vem<\/em> e <em>vir\u00e1<\/em> por fidelidade ao pr\u00f3prio Nome (cf. Sl 91,14-15; 52,9). Em tudo que acontece Deus est\u00e1 <em>vindo<\/em> at\u00e9 n\u00f3s. Ao longo dos s\u00e9culos, a sua vinda se intensifica e s\u00f3 terminar\u00e1 no fim da hist\u00f3ria. A\u00ed ele se chamar\u00e1 <em>Era-\u00c9<\/em> (Ap 11,17; 16,5), e j\u00e1 n\u00e3o <em>vem<\/em> mais, pois j\u00e1 veio e a sua presen\u00e7a ser\u00e1 total, tudo em todos (1Cor 15,28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) <em><span style=\"text-decoration: underline;\">Experi\u00eancia da ressurrei\u00e7\u00e3o<\/span><\/em>: As comunidades viviam a experi\u00eancia forte da presen\u00e7a do Ressuscitado no meio delas, &#8220;no meio dos candelabros&#8221; (Ap 1,13.20). Ao mesmo tempo, viviam a expectativa intensa da sua manifesta\u00e7\u00e3o plena no fim dos tempos e queriam saber como e quando seria esta vinda: &#8220;Senhor, \u00e9 agora que vai restaurar o Reino de Israel?&#8221; (At 1,6) Jesus responde que, em vez de perguntar pela data da vinda futura, devem testemunhar a Boa Nova da vinda de Deus hoje no meio de n\u00f3s (At 1,7-8). Irrigando esta semente da presen\u00e7a da vinda hoje, apressamos o amadurecimento da hora da vinda futura (2Pd 3,11-13; 4,7-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) <em><span style=\"text-decoration: underline;\">Interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos<\/span><\/em>: A maneira dos primeiros crist\u00e3os falarem da vinda de Deus e de Jesus era uma forma de eles lerem e interpretarem os fatos da hist\u00f3ria e da vida. Era para dizer que n\u00e3o existe neutralidade. Todos n\u00f3s, de uma ou de outra maneira, estamos contribuindo para a chegada do fim, ou a favor ou contra. Estamos todos jogando no campo. N\u00e3o h\u00e1 arquibancada para assistir \u00e0 hist\u00f3ria do lado de fora. Falar da vinda era uma forma de provocar compromisso e engajamento nas pessoas (2Ts 3,10-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4) <em><span style=\"text-decoration: underline;\">Limita\u00e7\u00f5es inerentes a toda percep\u00e7\u00e3o<\/span><\/em>: Finalmente, deve-se levar em conta o aspecto particular dos primeiros crist\u00e3os que, inicialmente, esperavam a chegada do <em>Dia de Jav\u00e9<\/em> e a vinda de Jesus para logo. Foi a experi\u00eancia concreta da presen\u00e7a libertadora de Jesus Ressuscitado, que os ajudou a perceber melhor o alcance e o significado mais profundo da vinda de Jesus. Mas isto foi um processo longo que levou muitos anos, toda a segunda metade do primeiro s\u00e9culo (2Pd 3,8-10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O verdadeiro ecumenismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunidade de Filad\u00e9lfia era perseguida pelos judeus fariseus, mas, conforme a afirma\u00e7\u00e3o da carta, estes acabar\u00e3o por converter-se (Ap 3,9). Reconhecer\u00e3o que Deus ama n\u00e3o somente a eles, os judeus fariseus, mas tamb\u00e9m aos irm\u00e3os crist\u00e3os. Aqui est\u00e1 o fundamento do verdadeiro ecumenismo: n\u00e3o brigar para um ter raz\u00e3o contra o outro, nem querer converter o outro para ele aderir ao grupo da gente, mas sim, sem nenhuma segunda inten\u00e7\u00e3o, viver de tal modo o amor de Deus, a ponto de tornar-se para o outro uma Boa Not\u00edcia do amor de Deus. Viver de tal modo que o outro ter\u00e1 que reconhecer: <strong>Deus te ama<\/strong>. Quando o outro diz a mim: &#8220;Reconhe\u00e7o que Deus te ama!&#8221;, ele fala a partir do Deus que <strong><em>ele<\/em><\/strong> adora. Se ele reconhece que o Deus dele ama tamb\u00e9m a mim, dever\u00e1 reconhecer que somos irm\u00e3os. Este \u00e9 o significado profundo da afirma\u00e7\u00e3o da carta: <em>Vou entregar-te alguns da sinagoga de Satan\u00e1s que se afirmam judeus, mas n\u00e3o s\u00e3o, pois mentem. Farei com que venham prostrar-se a teus p\u00e9s e reconhe\u00e7am que eu te amo!<\/em>\u201d (Ap 3,9) N\u00e3o \u00e9 proselitismo. N\u00e3o \u00e9 superioridade. \u00c9 viv\u00eancia gratuita do amor! A mesma intui\u00e7\u00e3o, Jesus a transmite no fim da ora\u00e7\u00e3o-testamento, conservada no evangelho de Jo\u00e3o (Jo 17,20-26). Esta atitude ecum\u00eanica leva a s\u00e9rio a experi\u00eancia de Deus dos que pensam diferente de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">15\u00aa Chave <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RESUMO DA MENSAGEM DO APOCALIPSE DE JO\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Tirar o v\u00e9u dos olhos, da B\u00edblia e da hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O povo est\u00e1 impaciente e diz: &#8220;At\u00e9 quando, Senhor?&#8221; (Ap 6,10). Se Deus \u00e9 o dono do mundo, como Ele permite esta persegui\u00e7\u00e3o t\u00e3o demorada? Desmascarando a falsa propaganda do imp\u00e9rio (Ap 12,16; 13,1-18; 17,1-18), o Apocalipse tira o v\u00e9u dos <em>olhos<\/em> e aponta os sinais da vit\u00f3ria de Jesus. Usando textos do Antigo Testamento para descrever a situa\u00e7\u00e3o (Ap 4,2.8; 5,10; etc), tira o v\u00e9u da <em>B\u00edblia<\/em> e mostra que o mesmo Deus de ontem conti\u00adnua conosco hoje. Mostrando \u201cas coisas que devem acontecer muito em breve&#8221; (Ap 1,1), tira o v\u00e9u da <em>hist\u00f3ria<\/em> e situa a persegui\u00e7\u00e3o dentro do conjunto do plano da Salva\u00e7\u00e3o (cf. Subs\u00eddio 10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Deus Pai, Juiz Supremo, Senhor do Tempo e do Espa\u00e7o, Defensor da vida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perseguidos pelo Imp\u00e9rio, os crist\u00e3os est\u00e3o morrendo. A mensagem central do Apocalipse \u00e9 a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o (Ap 1,17-18). O fundamento desta f\u00e9 \u00e9 a certeza de que Deus \u00e9 o Criador do c\u00e9u e da terra, Senhor da vida e da morte (Ap 11,17-18). A ele nada \u00e9 imposs\u00edvel. Esta f\u00e9 vitoriosa transparece na vis\u00e3o majestosa do Trono do Ju\u00edz, onde Deus toma assento como Senhor da hist\u00f3ria e Criador do Universo (Ap 4,2-8). \u00c9 gra\u00e7as ao poder deste Deus que Jesus venceu (Ap 5,6-10) e que os fi\u00e9is t\u00eam coragem de crer em Jesus (Ap 1,5-6). Por isso, desde j\u00e1, eles participam na vit\u00f3ria e podem reinar junto com ele (Ap 20,4-6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. Jesus Cristo, Vencedor da morte, Defensor do povo, Senhor da Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus \u00e9 o <em>Go\u00b4\u00eal<\/em>, o parente mais pr\u00f3ximo, o irm\u00e3o mais velho, aquele que, pela entrega de si, resgata seus irm\u00e3os perseguidos (Ap 5,9). Ele \u00e9 o Defensor do povo. Pela sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o enfrentou e venceu o Satan\u00e1s, o Acusador do povo (Ap 12,10). Deus, o Juiz, ratificou a vit\u00f3ria de Jesus e o <em>Satan\u00e1s<\/em> foi jogado fora (Ap 12,7-11). Jesus tornou-se o Senhor da hist\u00f3ria (Ap 5,7). Um resumo desta mensagem central est\u00e1 na vis\u00e3o inaugural (Ap 1,9-20). O seu lembrete repetido est\u00e1 nos t\u00edtulos dados a Jesus e nas frequentes aclama\u00e7\u00f5es de vit\u00f3ria (Ap 2,1.8.12.18; 3,1.7.14; 5,5.9-10.12; 7,10. 17; 11,15; 12, 5.10; etc.). S\u00e3o como postes que conduzem o fio da mensagem ao longo das p\u00e1ginas do Apocalipse at\u00e9 \u00e0 vis\u00e3o final da Jerusal\u00e9m celeste (Ap 21-22). Co\u00admunicam \u00e0s comunidades perseguidas a certeza da presen\u00e7a de que Jesus ressuscitado est\u00e1 vivo no meio delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. O Esp\u00edrito e a Esposa dizem: \u201cVem!\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sete esp\u00edritos s\u00e3o de Deus (Ap 4,5) e tamb\u00e9m do Cordeiro (Ap 3,1). Eles est\u00e3o diante do Trono (Ap 1,4). Como fi\u00e9is mensageiros, s\u00e3o enviados por toda a terra para executar o plano de Deus (Ap 5,6). O Esp\u00edrito se comunica com as comunidades e lhes faz saber qual a vontade de Deus: \u201cQuem tem ouvidos ou\u00e7a o que o Esp\u00edrito diz \u00e0s comunidades!\u201d (Ap 2,7.11.17.29.; 3,6.13.22). Ele fala pelos profetas (Ap 19,10; 22,6), arrebata o vidente para comunicar as vis\u00f5es (Ap 1,10; 4,2; 17,3; 21,10) e suscita no ser humano o desejo de Deus e da uni\u00e3o com Ele (Ap 22,17). O n\u00famero sete indica a plenitude da presen\u00e7a de Deus no meio das comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. Persegui\u00e7\u00e3o e mart\u00edrio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Persegui\u00e7\u00e3o e sofrimento, inseguran\u00e7a, medo e perigo de morte, falta de horizonte, cansa\u00e7o, eram o p\u00e3o de cada dia do povo das comunidades (Ap 2,10; 6,9-11; 7,13-14; 12,13.17; 13,7; 16, 6; 17,6; 18,24; 20,4). Como sobreviver nesta situa\u00e7\u00e3o e testemunhar a Boa Nova de Deus? O Apoca\u00adlipse \u00e9 mensagem de esperan\u00e7a para o povo perseguido (Ap 1,9-18). Atrav\u00e9s de imagens e s\u00edmbolos, faz outra leitura dos fatos. Aquilo que aparentemente \u00e9 derrota, fraqueza e morte, na realidade, \u00e9 express\u00e3o da vit\u00f3ria de Jesus, \u00e9 pedra na constru\u00e7\u00e3o do Reino, etapa na realiza\u00e7\u00e3o do plano de Deus (Ap 5,6-10). Assim, a persegui\u00e7\u00e3o perde a sua virul\u00eancia e invencibilidade e assume a dimens\u00e3o de teste\u00admunho, de mart\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6. S\u00edmbolos do passado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso do Antigo Testamento caracteriza o Apocalipse. Um uso marcado pela familiaridade de quem se sente em casa no Antigo Testamento, pela liberdade de quem se sente herdeiro da tradi\u00e7\u00e3o e pela fidelidade de quem quer ser fiel ao compromisso da Alian\u00e7a. Sobre o sentido e o alcance dos s\u00edmbolos, veja o Subs\u00eddio 6. Sobre o uso do Antigo Testamento, veja o Subs\u00eddio 10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7. O Espec\u00edfico: a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que marca o Apocalipse e o diferencia dos outros apocalipses \u00e9 o alcance e a centralidade da f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o. A ideologia persa admitia dois princ\u00edpios absolutos que governam o mundo ou interferem na hist\u00f3ria, o bem e o mal. Os apocalipses judeus e crist\u00e3os n\u00e3o admitem este dualismo. Para eles, o que existe \u00e9 o projeto de Deus e o desvio dos que se colocam contra o projeto. O poder do mal \u00e9 real e \u00e9 respon\u00ads\u00e1vel pelo que faz, mas n\u00e3o \u00e9 dono da hist\u00f3ria nem tem autonomia total. \u00c9 um poder dependente e limitado. No fim todo o mal ser\u00e1 totalmente eliminado. A vit\u00f3ria final ser\u00e1 de Deus, ser\u00e1 do bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AP\u00caNDICE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O CONTEXTO MAIS AMPLO DA CONJUNTURA DO IMPERIO ROMANO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, o evangelho foi se espalhando. Em pouco tempo, a Boa Nova atravessou as fronteiras da Palestina e entrou pelo imp\u00e9rio romano a dentro: \u00c1sia Menor, Gr\u00e9cia, It\u00e1lia, Roma. N\u00e3o foi uma caminhada f\u00e1cil. Houve muitas dificuldades e persegui\u00e7\u00f5es, mas, apesar de tudo, o sol brilhava. O vento era favor\u00e1vel. Aquelas primeiras comunidades tinham uma espiritualidade muito viva, forte e resistente. Eram comunidades pequenas, muito pequenas, perdidas na imensid\u00e3o do imp\u00e9rio romano que abarcava o mundo, havia mais de 200 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos poucos, por\u00e9m, o c\u00e9u se cobria de nuvens. Uma tempestade se armava. Um conflito aberto com o imp\u00e9rio n\u00e3o podia demorar. A nova maneira de viver e conviver em comunidade, iniciada pelos crist\u00e3os, querendo ou n\u00e3o, amea\u00e7ava o sistema do imp\u00e9rio (Cf. At 17,6-7). Uma espiritualidade centrada na partilha de bens amea\u00e7a a quem s\u00f3 quer acumular! A viv\u00eancia da fraternidade mina por baixo o sistema de quem s\u00f3 pensa em si. De fato, uns trinta anos depois da morte de Jesus, o imperador Nero decretou a primeira grande perse\u00adgui\u00e7\u00e3o. Foi apenas o in\u00edcio dos males! Em torno do ano 90, o imperador Domiciano decreta uma nova persegui\u00e7\u00e3o. Desta vez mais violenta e mais organizada. Domiciano torturava os crist\u00e3os para que abandonassem a f\u00e9. Como explicar essa mudan\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as comunidades crist\u00e3s iniciam sua caminhada, o imp\u00e9rio romano ainda n\u00e3o tinha atingido seu apogeu. O imp\u00e9rio, que estava sendo constru\u00eddo com muita viol\u00eancia, era um aglomerado imenso de reinos, prov\u00edncias, etnias, povos, cidades, tribos, todos congregados na submiss\u00e3o ao imperador. Em caso de rebeldia n\u00e3o havia perd\u00e3o. O ex\u00e9rcito, formado pelas bem treinadas legi\u00f5es, intervinha e matava sem piedade. O imp\u00e9rio era uma grande panela de press\u00e3o, cuja temperatura come\u00e7ou a subir na segunda metade do primeiro s\u00e9culo com risco de explos\u00e3o. Tudo isto influ\u00eda na maneira de os crist\u00e3os viverem e anunciarem a Boa Nova de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Apocalipse de Jo\u00e3o surgiu neste per\u00edodo entre os anos 70 e 100. Enumeramos aqui sete fatores que mais de perto interferiram na vida das comunidades crist\u00e3s e que estimularam o surgimento de uma nova espiritualidade, capaz de sustentar a f\u00e9, a esperan\u00e7a e o amor do povo durante a tempestade e a crise da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Variedade de grupos e tend\u00eancias nas comunidades <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um eucalipto cortado nascem in\u00fameros galhos e ramos. Do tronco do Crucificado ressuscitaram in\u00fameros brotos e flores. Desde a sua origem, o cristianismo nasce diversificado. A origem desta variedade est\u00e1 na pr\u00f3pria natureza da encarna\u00e7\u00e3o e na liberdade do Esp\u00edrito que atua nas comunidades. A variedade revela a beleza do rosto de Deus. Os fatores que contribu\u00edram para fazer aparecer as diferen\u00e7as eram muitos: a variedade das culturas em que a Boa Nova se encarnava; a diversidade dos costumes dos povos; as dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas; a variedade da hist\u00f3ria de cada comunidade; os v\u00e1rios centros de irradia\u00e7\u00e3o: Jerusal\u00e9m na Jud\u00e9ia, Antioquia na S\u00edria, \u00c9feso na \u00c1sia Menor, Roma na It\u00e1lia, Alexandria no Norte da \u00c1frica, Corinto na Gr\u00e9cia; o jeito diferente dos mission\u00e1rios e das mission\u00e1rias: Tiago, Pedro, Paulo, L\u00eddia, Apolo, Maria Madalena, o casal Priscila e Aquila, e tantos outros; a variedade dos problemas que pediam respostas diferentes; as diferen\u00e7as de classe; as diferentes tomadas de posi\u00e7\u00e3o frente \u00e0 pol\u00edtica do imp\u00e9rio romano; a enorme variedade de doutrinas e religi\u00f5es que invadiam o imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, as v\u00e1rias tend\u00eancias existentes entre os judeus reapareceram nas comunidades crist\u00e3s: piedosos (hassidim ou hassideus), ess\u00eanios, zelotes, fariseus. Por exemplo, alguns ex-fariseus da comunidade de Jerusal\u00e9m, ligados a Tiago, irm\u00e3o de Jesus, se mantinham na observ\u00e2ncia da Lei, sem se misturar com os pag\u00e3os (At 15,1-2; Gl 2,7-8; 1,6-10; 9,12). Outros, como Apolo de Alexandria e os doze disc\u00edpulos que apareceram na comunidade de \u00c9feso, combinavam o batismo de Jo\u00e3o Batista com a mensagem de Jesus (At 18,24-26; 19,1-7). Outros como Paulo deixavam para tr\u00e1s a observ\u00e2ncia rigorista da Lei e com um ardor mission\u00e1rio muito grande tentavam atrair o maior n\u00famero poss\u00edvel de pag\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem sempre a variedade nascia da vontade de manifestar o Reino. \u00c0s vezes, ambi\u00e7\u00f5es pessoais, medo de ser perseguido, vis\u00f5es diferentes, conflitos e tantas outras tens\u00f5es e problemas levavam pessoas ou comunidades a acomodar a mensagem \u00e0s vantagens do momento e a anunciar o Reino conforme tend\u00eancias e medos n\u00e3o confessados. Isto come\u00e7ou a aparecer sobretudo depois dos anos setenta, quando a infiltra\u00e7\u00e3o crescente da ideologia do imp\u00e9rio ia mostrando a fragilidade das comunidades dispersas e fazia sentir a necessidade de uma organiza\u00e7\u00e3o mais consistente para elas poderem sobreviver. Esta variedade, ao mesmo tempo rica e amb\u00edgua, transparece no Apocalipse de Jo\u00e3o, sobretudo nas cartas (Ap 2-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. A revolta dos Judeus e a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda durante a vida de Jesus e sobretudo depois, as explos\u00f5es populares contra a ocupa\u00e7\u00e3o romana foram crescendo (Lc 13,1; 23,19; At 5,37; 21,38), novos partidos foram surgindo ou se organizavam: zelotes, sic\u00e1rios. A situa\u00e7\u00e3o se radicalizava. A incapacidade e a brutalidade dos governadores romanos junto com a corrup\u00e7\u00e3o e a luta pelo poder da classe dirigente da Jud\u00e9ia, deixou o povo sem prote\u00e7\u00e3o e sem alternativa, e no ano 66 explodiu numa revolta generalizada. Roma perdeu o controle da situa\u00e7\u00e3o. Estimulados pelas id\u00e9ias do movimento apocal\u00edptico, muitos viam no levante contra Roma a chegada do <em>Dia de Jav\u00e9!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sacerdotes, saduceus e anci\u00e3os, for\u00e7ados a entrar na revolta contra Roma, faziam o poss\u00edvel pa\u00adra manter o controle da situa\u00e7\u00e3o. Mas pouco adiantou. As legi\u00f5es romanas vieram e foram reconquistando a Galil\u00e9ia e a Jud\u00e9ia, \u00e0 espera do momento oportuno para o assalto final contra Jerusal\u00e9m. Enquanto isso, dentro da cidade de Jerusal\u00e9m, grupos rivais lutavam entre si pelo poder. Dois grupos de judeus, por\u00e9m, n\u00e3o quiseram participar da rebeli\u00e3o: os judeus da linha farisaica e os judeus que tinham aderido \u00e0 f\u00e9 em Jesus. Tanto para os fariseus como para os crist\u00e3os, a revolta contra Roma n\u00e3o era express\u00e3o da chegada do <em>Dia de Jav\u00e9<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco depois da P\u00e1scoa do ano 70, com a cidade de Jerusal\u00e9m ainda cheia de peregrinos e de gente que nela buscava prote\u00e7\u00e3o contra a repress\u00e3o romana, o general Tito, filho do Imperador Vespasiano, atacou com quatro legi\u00f5es. O cerco durou v\u00e1rios meses, de maio at\u00e9 agosto. Foi um ass\u00e9dio cruel de muita fome e muitas mortes. Finalmente, Jerusal\u00e9m foi tomada e totalmente destru\u00edda. O templo foi arrasado e, onde antes se ofereciam os sacrif\u00edcios a Jav\u00e9, Tito mandou oferecer sacrif\u00edcios em honra de Jupiter ou Zeus, o deus supremo dos romanos. Esta era a \u201cabomina\u00e7\u00e3o da desola\u00e7\u00e3o\u201d de que fala o discurso apocal\u00edptico de Jesus (Mc 13,14). A destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m foi um abalo para todos, fariseus e crist\u00e3os. A extrema crueldade e viol\u00eancia da repress\u00e3o romana, sem nenhuma piedade, acentuou no povo o sentimento de total impot\u00eancia diante do poder do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. O povo assiste aos golpes militares que abalam o imp\u00e9rio <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste mesmo tempo, nos anos 68 a 70, l\u00e1 em Roma, no centro do poder, no final do governo de Nero, revoltas e golpes militares se sucediam em ritmo acelerado. Em menos de dois anos houve cinco golpes militares e cinco imperadores. A confus\u00e3o era tanta que parecia o fim do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>54-68\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span style=\"text-decoration: underline;\">Nero<\/span><\/strong>, imperador: lutas internas pelo poder<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">64\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Primeira grande persegui\u00e7\u00e3o das Comunidades crist\u00e3s pelo imp\u00e9rio romano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">66-70\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Levante do povo judeu na Palestina contra a ocupa\u00e7\u00e3o romana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">68\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mar\u00e7o: o general Vindex lidera uma rebeli\u00e3o na G\u00e1lia (Fran\u00e7a)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abril: o general <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Galba<\/span><\/strong>, imperador, lidera a revolta das legi\u00f5es na Espanha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junho: suic\u00eddio de Nero<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">69\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Janeiro: o general <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Otto<\/span><\/strong>, imperador, lidera o golpe da guarda pretoriana em Roma<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Janeiro: o general <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Vit\u00e9lio<\/span><\/strong>, imperador, lidera rebeli\u00e3o das legi\u00f5es na Germ\u00e2nia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Julho: o general Vespasiano lidera rebeli\u00e3o das legi\u00f5es na Palestina e no Egito e \u00e9 proclamado imperador<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>69-79\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span style=\"text-decoration: underline;\">Vespasiano<\/span><\/strong>, imperador. Seu filho Tito assume no Oriente<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">70\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tito destr\u00f3i Jerusal\u00e9m, a Cidade Eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">72\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Derrota total em Massada dos \u00faltimos judeus que resistiam ao imp\u00e9rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. A progressiva separa\u00e7\u00e3o entre Judeus e Crist\u00e3os.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O levante dos judeus da Palestina contra Roma, em vez de ser a t\u00e3o esperada chegada do <em>Dia de Jav\u00e9, <\/em>foi a causa da destrui\u00e7\u00e3o dos grupos que dele tinham participado. S\u00f3 sobreviveram os dois grupos que n\u00e3o tinham participado: fariseus e crist\u00e3os. Terminado o confronto com Roma, ambos se consideravam os leg\u00edtimos herdeiros da promessa e come\u00e7aram a lutar entre si pela posse da grande heran\u00e7a que vinha desde Abra\u00e3o. Assim, a partir do ano 70, cresce a separa\u00e7\u00e3o entre judeus e crist\u00e3os, e o relacionamento entre os dois caminha lentamente para uma ruptura definitiva que foi acontecendo no decorrer do S\u00e9culo II. Esta ruptura entre judeus e crist\u00e3os talvez seja um dos acontecimentos mais tr\u00e1gicos de toda a hist\u00f3ria do Ocidente. Mist\u00e9rio incompreens\u00edvel! (Rm 9-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trauma que ficou da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m provocou em ambos, judeus e crist\u00e3os, uma revis\u00e3o e uma reorganiza\u00e7\u00e3o generalizada. Os fariseus se reagruparam, primeiro em Jamnia na Jud\u00e9ia, depois na Galil\u00e9ia, e come\u00e7aram a re\u00adorganiza\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo em torno da <em>Sinagoga<\/em>. O rabino Iohanan ben-Zakai fundou a assembl\u00e9ia de Jamnia, onde foram estabelecidas as normas para definir quem \u00e9 judeu e quem n\u00e3o \u00e9; quem pode ser rabino e quem n\u00e3o pode ser. Foi elaborada tamb\u00e9m a lista dos livros que deviam ser reconhecidos como sagrados, patrim\u00f4nio da f\u00e9 judaica. Nesta lista n\u00e3o figuravam os livros escritos ou traduzidos no ambiente da di\u00e1spora, nem os do ambiente dos apocal\u00edpticos que tinham resistido contra a elite de Jerusal\u00e9m. Devido \u00e0 r\u00e1pida divulga\u00e7\u00e3o da Boa Nova de Jesus entre os pr\u00f3prios judeus, a reorganiza\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo teve um cunho de defesa contra os judeus crist\u00e3os que pretendiam ser os herdeiros das promessas de Deus a Abra\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste mesmo per\u00edodo, tamb\u00e9m os crist\u00e3os se reorganizavam em torno da <em>Igreja<\/em>. E tamb\u00e9m entre eles a reorganiza\u00e7\u00e3o se fez, em parte, em oposi\u00e7\u00e3o aos irm\u00e3os judeus que os acusavam de infidelidade \u00e0 Lei de Deus e os exclu\u00edam da sinagoga. Os crist\u00e3os aceitaram como inspirados v\u00e1rios livros escritos ou traduzidos no ambiente da di\u00e1spora: os dois livros dos Macabeus, as novelas populares de Judite, Tobias, alguns fragmentos de Ester, os livros de Sabedoria, do Eclesi\u00e1stico e de Baruc e alguns trechos acrescentados ao livro de Daniel: a hist\u00f3ria de Suzana (Dn 13) e a lenda de Bel e do Drag\u00e3o (Dn 14). S\u00e3o os assim chamados livros deutero-can\u00f4nicos. Mas a maior parte da literatura apocal\u00edptica tamb\u00e9m n\u00e3o entrou no C\u00e2non dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conflito entre judeus e crist\u00e3os repercutiu no conflito entre os crist\u00e3os e o imp\u00e9rio, seja pela influ\u00eancia dos judeus junto \u00e0s autoridades romanas, seja pela confus\u00e3o que identificava crist\u00e3os e judeus como sendo da mesma religi\u00e3o. Este ambiente pol\u00eamico se reflete no Apocalipse (Ap 2,9; 3,9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. As religi\u00f5es, o culto ao imperador e a ideologia imperial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda metade do primeiro s\u00e9culo, houve um forte renascimento das nacionalidades e das religi\u00f5es dos povos subjugados pelo imp\u00e9rio romano. Eram religi\u00f5es ou doutrinas de dois tipos, muitas vezes misturadas entre si. Umas de linha <em>mist\u00e9rica<\/em>. <strong>Mysterion<\/strong> \u00e9 uma palavra grega que significa <em>segredo,<\/em> algo <em>escondido que se revela<\/em>. Para uma pessoa poder entrar em contato com a divindade, estas religi\u00f5es ofereciam aos seus iniciados uma participa\u00e7\u00e3o em <em>ritos e cultos<\/em> secretos. Outras eram de linha <em>gn\u00f3stica<\/em>. Da\u00ed vem o nome <em>gnosticismo. <\/em><strong>Gnose<\/strong> \u00e9 uma palavra grega que quer dizer <em>conheci\u00admento<\/em>. Para uma pessoa poder entrar em contato com a divindade, estas religi\u00f5es ofereciam aos seus iniciados <em>conhecimentos<\/em> <em>superiores<\/em>. Havia v\u00e1rios graus de inicia\u00e7\u00e3o e de aprofundamento. Era uma tend\u00eancia religiosa muito divulgada, que criava nos seus membros uma certa consci\u00eancia de elite. Os grupos gn\u00f3sticos divulgavam a teoria dualista, onde o <em>esp\u00edrito,<\/em> que tem o conheci\u00admento (gnose), \u00e9 superior \u00e0 <em>mat\u00e9ria<\/em>, ao corpo, que abate e deprime o esp\u00edrito. O ideal \u00e9 o esp\u00edrito se libertar do peso do corpo. Por isso os mais exaltados negavam a encarna\u00e7\u00e3o, n\u00e3o aceitavam que Jesus tivesse vindo na carne (2Jo 7) e desprezavam o matrim\u00f4nio (1Tm 4,3) e o trabalho manual (2Ts 3,11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crescimento destas religi\u00f5es com seus cultos e mist\u00e9rios revela o vazio que existia. O seu avan\u00e7o representava uma amea\u00e7a de desintegra\u00e7\u00e3o para o imp\u00e9rio. Para fazer frente a este perigo a propaganda imperial soube usar a pr\u00f3pria religiosidade popular como fator de unidade do imenso imp\u00e9rio. Ela ensinava que a <em>Paz dos Deuses <\/em>tinha irrompido no mundo atrav\u00e9s da <strong><em>Pax Romana<\/em><\/strong><em>,<\/em> cu\u00adjo promotor divino era o pr\u00f3prio Imperador, chamado <em>Deus et Dominus, <\/em>Deus e Senhor. Era a religi\u00e3o a servi\u00e7o dos interesses da ideologia dominante (Ap 13,4.14), a <em>romaniza\u00e7\u00e3o<\/em> da religi\u00e3o popular!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A propaganda fazia do Imperador e da cidade de Roma seres divinos. A terra inteira deveria adorar ao imperador como se fosse um deus (Ap 13,4.12.14). Ele chegava a ser apresentado como um ressuscitado (Ap 13,3.12.14). A propaganda imperial atingia o povo na vida di\u00e1ria atrav\u00e9s de muitos canais. Atrav\u00e9s do com\u00e9rcio, favorecido por uma administra\u00e7\u00e3o eficiente com cobran\u00e7a de tributos, taxas e impostos. Atrav\u00e9s da cultura grega com seu estilo de vida e com a organiza\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica das suas cidades. Atrav\u00e9s de gin\u00e1sios de esporte e jogos ol\u00edmpicos cada quatro anos. Atrav\u00e9s da difus\u00e3o das novas id\u00e9ias, propagadas pelos fil\u00f3sofos ambulantes gn\u00f3sticos e outros. Atrav\u00e9s dos costumes bem populares do <em>P\u00e3o e Circo<\/em> e da distribui\u00e7\u00e3o da carne oferecida aos \u00eddolos. Atrav\u00e9s da estrat\u00e9gia militar e da trucul\u00eancia na repress\u00e3o aos revoltosos. Atrav\u00e9s da religi\u00e3o com seu <em>pan-theon<\/em>, templos, est\u00e1tuas, pr\u00e1ticas de magia, prociss\u00f5es, festas, sua mitologia e o culto aos her\u00f3is. Na \u00c1sia Menor chegou-se a eleger um alto funcion\u00e1rio para promover as festas anuais e os jogos pelo anivers\u00e1rio do imperador. Religi\u00e3o e pol\u00edtica era uma coisa s\u00f3. Os cap\u00edtulos 13, 17 e 18 do Apocalipse de Jo\u00e3o confirmam e completam este quadro. Eles mostram como a ideologia entrava na vida do povo atrav\u00e9s das grandes obras de impacto causando admira\u00e7\u00e3o (Ap 13,13-14); atrav\u00e9s do consumo de artigos de luxo para a classe dominante (Ap 18,11-13); atrav\u00e9s do controle econ\u00f4mico (Ap 13,16-17); atrav\u00e9s do culto obrigat\u00f3rio ao imperador (Ap 13,15); atrav\u00e9s da alian\u00e7a do poder central com as lideran\u00e7as locais, os reis da terra (Ap 17,12-13); atrav\u00e9s das armas e da persegui\u00e7\u00e3o (Ap 17,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista econ\u00f4mico, os templos funcionavam como bancos e centros financeiros. Al\u00e9m disso, o culto aos \u00eddolos nesses templos empregava muita gente: agricultores para tomar conta das fazendas dos templos e criar os animais para os sacrif\u00edcios; comerciantes para a compra e venda destes animais; curtumes da pele dos animais sacrificados e, conseq\u00fcentemente, fabrica\u00e7\u00e3o de pergaminho para livros; fabrica\u00e7\u00e3o das vestes sagradas, do incenso e outros utens\u00edlios necess\u00e1rios para as celebra\u00e7\u00f5es e prociss\u00f5es; provedores de lenha; carregadores de \u00e1gua; fabrica\u00e7\u00e3o de est\u00e1tuas para vender aos peregrinos; acomoda\u00e7\u00e3o para os milhares de peregrinos nas in\u00fameras festas ao longo do ano; prepara\u00e7\u00e3o das festas; organiza\u00e7\u00e3o dos jogos ol\u00edmpicos cada quatro anos em honra dos deuses; associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores, cada qual com sua divindade protetora e com suas refei\u00e7\u00f5es sagradas. Quem se aventurava a ser contra o culto dos \u00eddolos, corria o perigo de perder o emprego e de ser hostilizado por parentes e amigos, cuja seguran\u00e7a econ\u00f4mica dependia deste sistema do culto aos \u00eddolos (At 19,23-40).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era quase imposs\u00edvel algu\u00e9m viver sem participar deste culto, como hoje \u00e9 muito dif\u00edcil algu\u00e9m viver ou sobreviver sem nunca entrar num shoppingcenter, os novos templos do consumo. Por exemplo, na \u00c1sia Menor, havia uma certa concorr\u00eancia entre as cidades para conseguir o privil\u00e9gio de ser eleita cidade-campe\u00e3 do culto ao imperador. A cidade eleita que melhor incentivasse a religi\u00e3o imperial recebia o t\u00edtulo de \u201cCidade Fiel\u201d, era chamada <em>neokoros<\/em>, e recebia benef\u00edcios e vantagens, como foi o caso da cidade de Esmirna. A comunidade crist\u00e3 de Esmirna procurava ser <em>fiel <\/em>de outra maneira (Ap 2,10). Para poder ser eleita como Cidade Fiel a cidade tinha que dar prova de que todos os seus habitantes eram a favor do culto ao imperador. Caso na cidade houvesse um grupo contr\u00e1rio, este era perseguido e hostilizado por ser contra o &#8220;progresso&#8221; da cidade. Aqui est\u00e1 um dos motivos principais da persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os de que fala o Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6. O conflito interno nas comunidades crist\u00e3s <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim do primeiro s\u00e9culo, como uma esp\u00e9cie de <em>Nova Era, <\/em>a religi\u00e3o da <em>Pax Romana<\/em> junto com as outras tend\u00eancias religiosas invadiam tamb\u00e9m as comunidades crist\u00e3s produzindo nelas v\u00e1rias tend\u00eancias e formula\u00e7\u00f5es, tanto na doutrina como na liturgia e na organiza\u00e7\u00e3o. Havia os Nicola\u00edtas (Ap 2,6.15), o grupo de Bala\u00e3o (Ap 2,14), o de Jezabel (Ap 2,20), os \u201canti-cristos\u201d que n\u00e3o aceitavam a encarna\u00e7\u00e3o (1Jo 2,22; 4,2-3; 2Jo 7), os que se apresentavam como judeus e n\u00e3o eram (Ap 2,9; 3,9), os que se apresentavam como <em>ap\u00f3stolos<\/em> e n\u00e3o eram (Ap 2,2). Nem tudo estava claro para todos. As fronteiras n\u00e3o eram n\u00edtidas. A situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava muito confusa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema j\u00e1 vinha de longe. No tempo do ap\u00f3stolo Paulo, naquelas mesmas comunidades da Gr\u00e9cia e da \u00c1sia, alguns achavam que agora, sendo seguidores e seguidoras de Jesus, j\u00e1 n\u00e3o poderiam participar de nada que estivesse relacionado com o culto aos \u00eddolos, como, por exemplo, comer a carne que vinha dos sacrif\u00edcios nos templos ou marcar presen\u00e7a nas celebra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Outros achavam o contr\u00e1rio. Para estes tais gestos eram neutros. Seria como participar hoje da cerim\u00f4nia do hasteamento da bandeira nas escolas. Tudo isto criava muitos problemas e tens\u00f5es, tanto nas comunidades como nas fam\u00edlias. Nas suas cartas Paulo ajudava as comunidades a olhar o problema do ponto de vista da liberdade da consci\u00eancia dos filhos de Deus. Assim, dava \u00e0s pessoas a liberdade para discernir se comiam ou n\u00e3o da carne oferecida aos \u00eddolos (1Cor 8,1-13; 10,23-33; Rm 14,1-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nos anos seguintes, de 60 a 90, muita coisa foi mudando. Cresceu o culto ao imperador. Domiciano queria templos dedicados \u00e0 deusa Roma em todas as cidades e celebra\u00e7\u00e3o p\u00fablica das grandes datas do imp\u00e9rio. O gnosticismo tinha aumentado a sua influ\u00eancia e divulgava a id\u00e9ia de que a carne oferecida aos \u00eddolos, sendo uma coisa material, n\u00e3o afetava o esp\u00edrito e, portanto, podia ser comida sem afetar a f\u00e9 em Jesus. Al\u00e9m disso, depois dos acontecimentos dos anos sessenta, tais como, a persegui\u00e7\u00e3o de Nero (64), a morte dos ap\u00f3stolos Pedro e Paulo (67), e a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m (70), as id\u00e9ias apocal\u00edpticas se espalhavam com rapidez entre judeus e crist\u00e3os nas comunidades da Gr\u00e9cia e da \u00c1sia e questionavam a facilidade com que as comunidades fundadas por Paulo favoreciam uma certa abertura com rela\u00e7\u00e3o ao imp\u00e9rio. O pr\u00f3prio Paulo n\u00e3o tinha sido morto por essas <em>autoridades constitu\u00eddas,<\/em> \u00e0s quais ele mandava obedecer (Rm 13,1)? De fato, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava clara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deve ter sido f\u00e1cil discernir o caminho certo. Nem todos pensavam do mesmo jeito. Algumas comunidades para expressar sua f\u00e9 em Jesus Cristo assumiam elementos, tanto dos <em>gn\u00f3sticos<\/em> e <em>mist\u00e9ricos<\/em> como da religi\u00e3o do imp\u00e9rio, por exemplo, o hino ao Cristo c\u00f3smico (Ef 3,1-14; Cl 1,15-20). Outras assumiam uma atitude de defesa contra a invas\u00e3o das doutrinas estranhas, como transparece no Apocalipse, na carta aos Colossenses (Cl 2,8) e nas cartas Pastorais (1Tm 1,3-7; 4,1-2; 2Tm 2,16-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As amea\u00e7as do imp\u00e9rio, as press\u00f5es da propaganda imperial, o medo de persegui\u00e7\u00e3o e de hostilidades (Hb 10,32-34), a falta de uma an\u00e1lise cr\u00edtica da realidade e a ingenuidade pol\u00edtica de muitos crist\u00e3os, tudo isso levava alguns a voltar atr\u00e1s (Hb 6,6) ou a encontrar nas cartas de Paulo e nas id\u00e9ias gn\u00f3sticas uma justificativa para n\u00e3o se op\u00f4r publicamente ao imp\u00e9rio e encontrar uma forma de conviv\u00eancia. Se a mat\u00e9ria e o corpo n\u00e3o t\u00eam valor, assim diziam os gn\u00f3sticos, ent\u00e3o n\u00e3o tem import\u00e2ncia nenhuma voc\u00ea queimar um pouco de incenso em honra do imperador, dobrar os joelhos diante de uma imagem da deusa Roma ou participar de uma orgia sexual numa celebra\u00e7\u00e3o de uma dessas divindades romanas. Isso \u00e9 coisa do corpo, da mat\u00e9ria! N\u00e3o atinge o esp\u00edrito fiel da pessoa, nem significa renegar a f\u00e9 em Jesus. Coisas materiais e corporais desse tipo n\u00e3o afetam em nada o esp\u00edrito que se mant\u00e9m puro e sem mancha. Assim alguns ensinavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conflito b\u00e1sico com o imp\u00e9rio n\u00e3o era tanto a persegui\u00e7\u00e3o direta e sangrenta, mas sim a quase impercept\u00edvel infiltra\u00e7\u00e3o crescente da ideologia do imp\u00e9rio na vida di\u00e1ria e no modo de pensar e de viver das comunidades. Isto se concretizava sobretudo na compra da carne oferecida aos \u00eddolos, na participa\u00e7\u00e3o em algum ato de culto ao imperador ou em alguma prociss\u00e3o em honra das divindades romanas, na aceita\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias gn\u00f3sticas, etc. Lideran\u00e7as como Bala\u00e3o (Ap 2,14) e Jezabel (Ap 2,10) favoreciam esta confus\u00e3o ing\u00eanua. A mesma atitude de simpatia com as autoridades do imp\u00e9rio transparece em alguns outros textos da mesma \u00e9poca. A carta a Tito continua pedindo submiss\u00e3o aos magistrados e \u00e0s autoridades (Tt 3,1) e outros pedem que se fa\u00e7am pedidos, ora\u00e7\u00f5es, s\u00faplicas e a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as por todos os homens, pelos reis e todos que det\u00eam autoridade (1Tm 2,1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante deste avan\u00e7o amea\u00e7ador da ideologia imperial e diante da confus\u00e3o de id\u00e9ias existente entre os pr\u00f3prios crist\u00e3os, a espiritualidade do Apocalipse de Jo\u00e3o reage com for\u00e7a. Ela n\u00e3o concorda com este tipo de racioc\u00ednio, e chama tudo isto de <em>prostitui\u00e7\u00e3o<\/em> (Ap 2,14.21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7. O Apocalipse e a persegui\u00e7\u00e3o por parte do imp\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo real da <em>Pax Romana<\/em> era legitimar e expandir o dom\u00ednio romano, favorecer o com\u00e9rcio interna\u00adcional, garantir a cobran\u00e7a tranq\u00fcila dos impostos e tributos e, assim, intensificar a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e do poder em Roma. Resultado: escraviza\u00e7\u00e3o crescente nas periferias e excesso de luxo no centro em Roma (Ap 18,9-20). De um lado, sofrimento e revoltas. Do outro, insensibilidade, aliena\u00e7\u00e3o e afrouxamento dos costumes (Rm 1,18-32). Paulo define bem a situa\u00e7\u00e3o quando diz: <em>Eles mant\u00eam a verdade prisioneira da injusti\u00e7a<\/em> (Rm 1,18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto os povos subjugados cumprissem suas obriga\u00e7\u00f5es para com o imp\u00e9rio, n\u00e3o eram molestados. Sua obriga\u00e7\u00e3o era pagar o tributo, os impostos e as taxas, n\u00e3o fazer guerra entre si, fornecer soldados para o ex\u00e9rcito romano, reconhecer a autoridade divina do imperador e cultuar as divindades romanas. O mesmo valia para as comunidades crist\u00e3s. Enquanto n\u00e3o prejudicassem os interesses do Estado, podiam viver e crescer. Na hora, por\u00e9m, em que apresentassem qualquer amea\u00e7a para o poder do Estado, come\u00e7avam a ser perseguidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m definir melhor o que se entende por persegui\u00e7\u00e3o. Na Am\u00e9rica Latina, de 1960 para c\u00e1, n\u00e3o houve persegui\u00e7\u00e3o expl\u00edcita decretada contra os crist\u00e3os por parte dos governos dos v\u00e1rios pa\u00edses. Mas nestes mesmos 40 anos, de 1960 at\u00e9 2000, houve centenas e centenas de m\u00e1rtires na Am\u00e9rica Latina, a qual, aparentemente, continua sendo um Continente pacato, onde a Igreja vive em paz, sem persegui\u00e7\u00e3o da parte dos governos. Assim, mesmo n\u00e3o tendo havido persegui\u00e7\u00e3o expl\u00edcita no fim do primeiro s\u00e9culo na \u00e9poca de Domiciano, muita gente foi morta. As alus\u00f5es no livro do Apocalipse s\u00e3o demasiadas para serem negligenciadas ou desfeitas como sendo de menor import\u00e2ncia: Ap 1,9; 2,3.10.13; 6,9-11; 7,13-14; 11,7-8; 12,11.13.17; 13,7.15; 16,6; 17,6; 18,24; 20,4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falamos em persegui\u00e7\u00e3o pelo imp\u00e9rio romano, n\u00e3o falamos s\u00f3 das grandes persegui\u00e7\u00f5es deflagradas pelo governo central de Roma. Estas at\u00e9 que n\u00e3o foram muitas, ao menos no primeiro s\u00e9culo. Mas sim de todo tipo de conflito que os crist\u00e3os tiveram com o sistema do Imp\u00e9rio, mantido no mundo inteiro atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia estrita das leis do imp\u00e9rio, atrav\u00e9s da propaganda e da manipula\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o e atrav\u00e9s da for\u00e7a das armas. Isto \u00e9, conflitos com a pol\u00edcia, com a justi\u00e7a, com a opini\u00e3o p\u00fablica, com a propaganda, com a religi\u00e3o oficial, com as autoridades locais, com os grupos de interesse ou de press\u00e3o, com os vizinhos. A maneira de viver e de conviver dos crist\u00e3os, querendo ou n\u00e3o, incomodava aos que preferiam seguir a linha da ideologia dominante do imp\u00e9rio e, por isso mesmo, era causa de hostilidades e de persegui\u00e7\u00f5es de todo tipo. Os crist\u00e3os viviam na contram\u00e3o da <em>Pax Romana<\/em> e do culto ao Imperador. A propaganda dizia: O imperador \u00e9 Deus e Senhor. Os crist\u00e3os diziam: Jesus \u00e9 o \u201cRei dos reis, Senhor dos senhores\u201d (Ap 19,16). No livro dos Atos, mesmo n\u00e3o havendo um conflito aberto com o imp\u00e9rio, nele j\u00e1 aparece a semente da futura persegui\u00e7\u00e3o, a saber, a facilidade com que as institui\u00e7\u00f5es do imp\u00e9rio podiam ser utilizadas contra os que defendiam a justi\u00e7a e a verdade (At 16,19-23; 17,5-9.13-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conseq\u00fc\u00eancia desta press\u00e3o ideol\u00f3gica cada vez mais forte, havia tamb\u00e9m persegui\u00e7\u00e3o sangrenta. Juntando todos os ind\u00edcios do Apocalipse a este respeito, obt\u00e9m-se um quadro de muita gravidade, em que as pessoas corriam perigo de vida pelo simples fato de serem crist\u00e3s: em P\u00e9rgamo houve o mart\u00edrio de Antipas (2,13); a comunidade de \u00c9feso era perseguida por causa do Nome de Jesus (Ap 2,3); na comunidade de Esmirna, alguns j\u00e1 foram presos (Ap 2,10); a de Filad\u00e9lfia, apesar de fraca, n\u00e3o renegou o nome (Ap 3,8); o pr\u00f3prio Jo\u00e3o, no momento de escrever sua mensagem, estava preso (Ap 1,9); no quinto selo, que reflete a situa\u00e7\u00e3o das comunidades, ouve-se o grito dos que foram mortos por causa do testemunho que deram da Palavra. Era perigoso e dif\u00edcil sustentar a f\u00e9. O controle do imp\u00e9rio era total. A repress\u00e3o era tanta, que ningu\u00e9m podia escapar da sua vigil\u00e2ncia (Ap 13,16). Quem n\u00e3o apoiava o regime, era exclu\u00eddo do mercado e n\u00e3o podia vender nem comprar nada (Ap 13,17; Hb 10,32-35). Quem n\u00e3o concordava com as id\u00e9ias da ideologia era perseguido. Fala-se de comercializa\u00e7\u00e3o de vidas humanas (Ap 18,13) e de persegui\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte (Ap 12,11.13.17; 13,7.15; 16,6; 17,6; 18,24; 20,4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta era a conjuntura no fim do primeiro s\u00e9culo. Assim, com a chegada do fim do primeiro s\u00e9culo, parecia ter chegado tamb\u00e9m o fim da caminhada das comunidades. Todas as portas estavam fechadas. Todo o poder do mundo se voltava contra os crist\u00e3os. Muitos abandonavam o Evangelho e passavam para o lado do imperio. Na comunidade se dizia: &#8220;Jesus \u00e9 o SENHOR!&#8221; Mas l\u00e1 fora, quem mandava mesmo como senhor todo-poderoso era o imperador de Roma! Ora, \u00e9 nesta situa\u00e7\u00e3o confusa de persegui\u00e7\u00e3o, em que tudo parecia perdido, que foi feita a reda\u00e7\u00e3o final do Apocalipse de Jo\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>INTRODU\u00c7\u00c3O AO APOCALIPSE DE S\u00c3O JO\u00c3O: QUINZE CHAVES DE LEITURA. 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