{"id":212,"date":"2012-12-04T10:58:19","date_gmt":"2012-12-04T12:58:19","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=212"},"modified":"2012-12-04T10:58:19","modified_gmt":"2012-12-04T12:58:19","slug":"direitos-humanos-no-aglomerado-da-serra-em-belo-horizonte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/direitos-humanos-no-aglomerado-da-serra-em-belo-horizonte\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><span style=\"color: #993300;\"><strong>Direitos Humanos no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Bruno Cardoso<a href=\"file:\/\/\/G:\/Visita%20de%20Direitos%20Humanos%20no%20Aglomerado%20da%20Serra%20-%20por%20Bruno%20Cardoso%20-%2001%2012%202012.doc#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 28 de novembro de 2012,\u00a0representantes de entidades Defensoras dos Direitos Humanos, do Instituto de Direitos Humanos, do CONEDH<a href=\"file:\/\/\/G:\/Visita%20de%20Direitos%20Humanos%20no%20Aglomerado%20da%20Serra%20-%20por%20Bruno%20Cardoso%20-%2001%2012%202012.doc#_ftn2\">[2]<\/a> e outros, inclusive eu, visitamos \u00a0no aglomerado da Serra, bem Belo Horizonte, MG, a Dona Zelita, mulher negra com cerca de 60 anos, moradora h\u00e1 mais de 40 anos do Aglomerado.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>M\u00e3e de muitos filhos. Mostrou um rosto estampado pelo sofrimento de uma vida de luta, amargado mais ainda pelo sofrimento destes dias: teve o filho ca\u00e7ula morto por uma a\u00e7\u00e3o policial na \u00faltima segunda-feira, dia 26\/11\/2012. Fato estampado nos jornais e TVs, no m\u00eas de Zumbi dos Palmares e da consci\u00eancia negra, mais um jovem negro de periferia assassinado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fizemos um primeiro contato por telefone. \u201c<em>Dona Zelita, somos dos Direitos Humanos, queremos conversar com a senhora, levar a nossa solidariedade<\/em>\u201d. \u00a0Ela respondeu: \u201c<em>Venham sim, estarei aguardando voc\u00eas<\/em>.\u201d Desligou o telefone, solu\u00e7ando de choro. Passamos pela Vila Cafezal, uma senzala da atualidade, e chegamos \u00e0 Pra\u00e7a do Cardoso, que estava repleta de policiais militares. Al\u00e9m de viaturas, tinha um \u00f4nibus da tropa de choque encostado. Clima tenso. Fomos entrando pela vila at\u00e9 chegarmos \u00e0 rua onde dona Zelita estava nos esperando. Recebeu-nos e saiu correndo para comprar refrigerante e biscoito. Em seguida, chamou-nos para subir at\u00e9 a sua casa. Fomos subindo um beco, uns degraus bem acentuados, escorregadios pelas chuvas. Logo, ela disse: <em>\u201cOlhem essa casa simples aqui,<\/em> <em>\u00e0 direita. Era do meu filho. Vejam que \u00e9 casa pobre, poucos c\u00f4modos, tem at\u00e9 goteiras! Vejam se isso \u00e9 casa de traficante como est\u00e3o dizendo nos jornais\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuando o caminho, chegamos \u00e0 casa de dona Zelita. Fomos apresentados \u00e0 jovem vi\u00fava, e logo vimos os quatro filhos que ficaram \u00f3rf\u00e3os de pai. Dois meninos &#8211; um de onze meses e outro de dois anos &#8211; e duas meninas, uma de quatro anos e outra, de seis. A av\u00f3 lamentou que o filho de dois anos, apesar da pouca idade, tinha ficado falando que o pai tinha sido acertado na cabe\u00e7a. Com o cora\u00e7\u00e3o cortado de dor, sentamos. Foi-nos oferecido o guaran\u00e1, os biscoitos. Dona Zelita come\u00e7ou a nos contar: \u201c<em>Ele estava chegando do trabalho, tinha trabalhado o dia inteiro como pedreiro. Chegou, tomou banho e saiu para rua. Passou um tempo quando me gritaram: \u201cZelita, mataram o Neca!\u201d Sa\u00ed correndo desesperada e fui ver meu filho. Quando cheguei ao local, ele estava coberto por um len\u00e7ol. N\u00e3o deixaram que eu o visse, mas insisti. \u00c9 meu filho e eu vou ver, levantei o len\u00e7ol e vi. Era meu filho. Tanto trabalho para criar, e terminar desse jeito<\/em>&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1grimas escorreram em nossos rostos.\u00a0 Um tempo de sil\u00eancio, interrompido pela pergunta: \u201c<em>Mas como aconteceu<\/em>?\u201d Ela respondeu: \u201c<em>Ele estava descendo e encontrou com o policial, que apontou pra cabe\u00e7a dele e atirou<\/em>. O policial ficou dizendo: \u201c<em>Fiz besteira, fiz besteira<\/em>\u201d, e desceu correndo o morro. <em>Depois come\u00e7ou a chegar aquele monte de policiais: ROTAM, GATE, Batalh\u00e3o de Choque, at\u00e9 helic\u00f3ptero. O povo ficou revoltado e come\u00e7ou a atirar pedras, queimaram \u00f4nibus protestando. A pol\u00edcia revidou atirando balas de borracha. Acertaram at\u00e9 um jornalista.\u00a0Eu n\u00e3o queria que tivessem queimado o \u00f4nibus, atrapalha o povo que vai trabalhar, ficam sem \u00f4nibus<\/em>.\u201d E continuou: \u00a0\u00a0\u201c<em>O policial que matou meu filho foi o mesmo que prendeu meu outro filho meses atr\u00e1s. Ele n\u00e3o tinha feito nada. Vieram de madrugada, invadiram a casa, e disseram que a arma era dele. Est\u00e1 j\u00e1 h\u00e1 sete meses na cadeia por isso! \u00a0Esse ano est\u00e1 sendo muito dif\u00edcil, um filho preso e outro morto<\/em>&#8230;\u201d Mais l\u00e1grimas. \u00a0\u201c<em>N\u00e3o quero que nenhuma m\u00e3e passe pelo que estou passando<\/em>.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trazendo consolo, chega uma vizinha e exclama: \u201c<em>Zelita, perdoe-me, porque eu n\u00e3o tive coragem de ir ao cemit\u00e9rio ontem. Vim agora te dar o meu abra\u00e7o. Pode contar com o que precisar<\/em>.\u201d Em seguida, outra senhora chegou tamb\u00e9m prestando solidariedade. Dona Zelita apresentou-nos dizendo: \u201cEles s\u00e3o dos direitos humanos.\u201d Uma das vizinhas disse: \u201c<em>Fazem ronda aqui por volta das 23 horas. Se tem algu\u00e9m no beco, mandam correr, jogam pedras. Acertou a cabe\u00e7a de algu\u00e9m certa vez e quase matou. Outra vez pegaram a filha de fulano. Ela estava tomando cerveja, n\u00e3o acharam drogas nem nada. Bateram nela dentro do carro. Aqui somos tratados assim&#8230; Estamos pensando em fazer uma marcha pela paz. N\u00e3o pode ficar assim.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conversa se alongou. Escutamos bastante, sabendo que mais que um depoimento, ali o odor da solidariedade aliviava a dor. Prometemos fazer os encaminhamentos devidos. Ao final, demos as m\u00e3os, rezamos um Pai Nosso, pedindo a Deus Justi\u00e7a e Paz. Que nos livre de toda viol\u00eancia e de todo mal. Na despedida, recebemos de dona Zelita um abra\u00e7o apertado e um sorriso recheado de l\u00e1grimas de agradecimento pela visita.\u00a0\u201cNa visita de voc\u00eas, Deus nos visita\u201d, revelou dona Zelita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00edmos com a sensa\u00e7\u00e3o de que muito ainda deve ser feito. \u00c9 vis\u00edvel que a indigest\u00e3o da ditadura continua ainda provocando seus arrotos. Mas vamos continuando, ainda construiremos uma sociedade onde reine a justi\u00e7a e fraternidade, onde as fam\u00edlias possam viver em paz. Mais uma vez restou claro como o sol do meio dia para n\u00f3s: n\u00e3o \u00e9 pela repress\u00e3o que combateremos a viol\u00eancia e conquistaremos justi\u00e7a e paz.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, 04 de dezembro de 2012.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"file:\/\/\/G:\/Visita%20de%20Direitos%20Humanos%20no%20Aglomerado%20da%20Serra%20-%20por%20Bruno%20Cardoso%20-%2001%2012%202012.doc#_ftnref1\">[1]<\/a> Agente da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 CPT\/MG &#8211; e conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos do Estado de Minas Gerais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"file:\/\/\/G:\/Visita%20de%20Direitos%20Humanos%20no%20Aglomerado%20da%20Serra%20-%20por%20Bruno%20Cardoso%20-%2001%2012%202012.doc#_ftnref2\">[2]<\/a> Conselho Estadual dos Direitos Humanos do Estado de Minas Gerais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direitos Humanos no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. Bruno Cardoso[1] No dia 28 de novembro de 2012,\u00a0representantes de entidades Defensoras dos Direitos Humanos, do Instituto de Direitos Humanos, do CONEDH[2] e outros, inclusive eu,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-212","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}