{"id":219,"date":"2012-12-25T23:41:00","date_gmt":"2012-12-26T01:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=219"},"modified":"2012-12-25T23:41:00","modified_gmt":"2012-12-26T01:41:00","slug":"natal-a-estrela-de-belem-nos-que-sofrem-e-lutam","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/natal-a-estrela-de-belem-nos-que-sofrem-e-lutam\/","title":{"rendered":"NATAL: A ESTRELA DE BEL\u00c9M NOS QUE SOFREM E LUTAM."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Natal: a estrela de Bel\u00e9m nos que sofrem e lutam.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Maria do Ros\u00e1rio de Oliveira Carneiro<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/GILVANDER\/Documents\/Natal%20-%20a%20estrela%20de%20Bel%C3%A9m%20nos%20que%20sofrem%20e%20lutam%20-%20de%20Maria%20do%20Ros%C3%A1rio%20-%2025%2012%202012.doc#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"text-align: justify;\">Todo ano \u00e9 mais ou menos assim: quando chega o per\u00edodo chamado natal, uma ang\u00fastia povoa meu cora\u00e7\u00e3o e meu ser mais profundo. <\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Semelhante a todos os humanos, tenho minhas contradi\u00e7\u00f5es, lutas externas e internas para me manter firme naquilo que compreendo ser fundamental na vida, como a solidariedade e o compromisso com as pessoas injusti\u00e7adas e a defesa de um planeta sustent\u00e1vel, tamb\u00e9m detentor de direitos, mas, n\u00e3o posso negar minha indigna\u00e7\u00e3o com as contradi\u00e7\u00f5es que se acentuam no tempo de natal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de meditar, resolvi escrever uma Mensagem de Natal, que \u00e9 mais uma espera por um Natal contra o capitalismo, o mercado idolatrado e o consumo desenfreado que tem se apropriado do natal, como se apropriou da for\u00e7a de trabalho dos\/as trabalhadores\/ras, da religi\u00e3o, da biodiversidade e de tantos valores da humanidade e, sobretudo, das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebi que minha ang\u00fastia come\u00e7ou a se acentuar desde o m\u00eas de outubro quando, ao atravessar, de \u00f4nibus coletivo ou a p\u00e9 o Centro de Belo Horizonte, MG, j\u00e1 se percebia acentuadamente, a mudan\u00e7a no com\u00e9rcio, as propagandas, os enfeites e o investimento na ilumina\u00e7\u00e3o das ruas, as chamadas para a compra de presentes e confraterniza\u00e7\u00f5es de Natal. Com isso as not\u00edcias sobre a expectativa de vendas para o natal e todo um investimento nas mais variadas \u00e1reas de vendas. Cada dia, de outubro at\u00e9 dezembro, aumentava-se o n\u00famero de pessoas e de autom\u00f3veis e nas \u00faltimas semanas tornou-se quase que invi\u00e1vel caminhar pelas cal\u00e7adas no centro da capital mineira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas pareciam desesperadas. N\u00e3o se viam e nem se olhavam. O foco estava nas lojas, nos presentes, nas compras e andavam carregadas de sacolas e d\u00edvidas, conseq\u00fcentemente. Chamou-me aten\u00e7\u00e3o a quantidade de crian\u00e7as acompanhando os adultos nesta aventura desenfreada de consumo em um aprendizado completo, como quem se alfabetizava para manter o mercado endeusado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A princ\u00edpio, como militante crist\u00e3 que tenta vivenciar os princ\u00edpios da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, havia pensado em escrever uma mensagem de Natal revelando como em minha luta no dia a dia tenho experimentado o Natal, como tenho visto nascer a vida, a esperan\u00e7a, o que posso chamar de divino nas experi\u00eancias humanas. Depois de meditar nestes \u00faltimos dias e vivenciar esta profunda ang\u00fastia indignada, ao entrar nas filas da vida, resolvi expressar, nesta Mensagem de Natal, onde talvez ainda n\u00e3o seja Natal, onde se faz urgente conclamar o olhar solid\u00e1rio das pessoas. Quem dera se o olhar de toda a gente ao inv\u00e9s de se fixar nas vitrines, nas lojas, no consumo, se fixasse nestes lugares, as Bel\u00e9ns, as manjedouras, os pres\u00e9pios de nossos dias, que aguardam a chegada do Natal, embora estes lugares sejam permeados do divino. Quem dera estes olhares viessem de forma organizada ajudar na supera\u00e7\u00e3o de toda forma de individualismo e transformado em lutas coletivas por justi\u00e7a social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho convivido com as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e as pessoas catadoras de material recicl\u00e1vel que clamam por direito na sua forma mais fundamental que \u00e9 o direito a vida com respeito e dignidade. No Brasil, dentro de um ano e poucos meses, \u00e9 alarmante o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua que foram assassinadas de maneiras mais cru\u00e9is poss\u00edveis, inclusive tendo seus corpos queimados. Tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, apesar de uma pol\u00edtica nacional institu\u00edda, muitos estados e munic\u00edpios n\u00e3o garantem os direitos destas pessoas. Falta uma pol\u00edtica de moradia digna na maioria das cidades brasileiras que contemple esta popula\u00e7\u00e3o. Os equipamentos de acolhimento \u2013 abrigos p\u00fablicos -, em sua maioria, est\u00e3o superlotados e utilizam de uma metodologia que dificulta a emancipa\u00e7\u00e3o destas pessoas. O preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o impedem de ver nestas pessoas o Jos\u00e9, a Maria, a Tereza que se encontram nas ruas, que tem uma hist\u00f3ria de vida, que tem dignidade e direitos como qualquer outro ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua n\u00e3o querem ser \u201cacolhidas\u201d com interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria, como tem sido pensadas as pol\u00edticas de combate \u00e0s drogas em quase todo o Brasil, for\u00e7adas a tratamentos mascarados de sa\u00fade, mas que s\u00e3o de controle e higienista, de limpeza social. Estas pessoas parecem adormecidas, mas tamb\u00e9m est\u00e3o organizadas e sabem de seus direitos. Em sua maioria s\u00e3o pessoas livres e detentoras de muitas experi\u00eancias e conhecimentos. Esperam por um olhar solid\u00e1rio, uma oportunidade que de fato esteja na \u00f3tica dos direitos fundamentais como moradia, sa\u00fade, trabalho, vida em comunidade, respeito e liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No encontro com as pessoas catadoras de material recicl\u00e1vel vejo a resist\u00eancia e a valentia de um grupo de trabalhadores e trabalhadoras que encontraram uma alternativa de trabalho no que a sociedade chama de lixo e descarta. Estas pessoas tamb\u00e9m prestam um servi\u00e7o p\u00fablico limpando a cidade e dando ao lixo um destino sustent\u00e1vel, gerando trabalho, inclus\u00e3o social e diminui\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o ecologistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da cata\u00e7\u00e3o no Brasil e no mundo, realizada por esta categoria de trabalhadores, \u00e9 remota. Eles e elas precederam a qualquer iniciativa pol\u00edtica nesta \u00e1rea e, de maneira aut\u00f4noma e organizada, mantiveram-se firmes e resistentes nesta luta. S\u00e3o pessoas que ainda acreditam no sistema de trabalho associativo e em cooperativas, onde os valores da solidariedade, da \u00e9tica e da justi\u00e7a social n\u00e3o s\u00e3o eliminados, como os s\u00e3o na l\u00f3gica do mercado capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, o crescimento da ind\u00fastria da reciclagem, como uma \u00e1rea rent\u00e1vel na economia, tem feito com que o trabalho dos catadores fique cada vez mais amea\u00e7ado pela especula\u00e7\u00e3o do lucro das grandes empresas, inclusive as transnacionais que atuam nesta \u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, atualmente, cresce uma onda de programas dos governos de Estados, atrav\u00e9s de processo licitat\u00f3rio na modalidade Parceria P\u00fablico Privada (PPP) para o destino final dos res\u00edduos s\u00f3lidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes programas de governos, al\u00e9m de violar a hist\u00f3ria milenar de trabalho dos catadores de material recicl\u00e1vel, sem nenhum reconhecimento pelo servi\u00e7o prestado a toda sociedade, sem garantia do direito ao trabalho digno e sem o reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de catadores como meios alternativos de trabalhos, com forte \u00edndice de inclus\u00e3o social, existe a grande possibilidade de queima do lixo por meio da tecnologia da incinera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudos apontam que a incinera\u00e7\u00e3o do lixo \u00e9 altamente prejudicial \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e ao meio ambiente e a legisla\u00e7\u00e3o brasileira e internacional de que o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio n\u00e3o permite mais este tipo de tecnologia. Mas, manobras jur\u00eddicas e pol\u00edticas est\u00e3o sendo feitas e avan\u00e7ando cada vez mais em Estados como Minas Gerais e Bras\u00edlia, dentre outros, enquanto o povo, adormecido, contempla as luzes de natal, abastecem o ego com as compras, o consumo e as \u201cconfraterniza\u00e7\u00f5es\u201d e alimenta expectativas para a copa do mundo de 2014.\u00a0 Este grupo de trabalhadores e trabalhadoras, denominado catadores de materiais recicl\u00e1veis, como a estrela que guiou os magos at\u00e9 a manjedoura, est\u00e1 apontando para onde est\u00e1 a vida dizendo n\u00e3o \u00e0 incinera\u00e7\u00e3o e \u00e0 coleta de lixo mecanizada e dizendo sim para a reciclagem, a compostagem e a coleta seletiva solid\u00e1ria do lixo. Reciclagem com o reconhecimento do trabalho dos catadores, garantindo-lhes dignidade e o fortalecimento de suas organiza\u00e7\u00f5es como associa\u00e7\u00f5es e cooperativas. Seguir a intui\u00e7\u00e3o dos catadores contra a incinera\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos s\u00f3lidos ser\u00e1 seguir a estrela que guiou os magos at\u00e9 a manjedoura onde nasceu o menino Jesus. Este grupo de trabalhadores est\u00e1 alertando para a chegada de Herodes que pode vir tamb\u00e9m com o nome de incinera\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da milenar classe trabalhadora de catadores de material recicl\u00e1vel, assim como o aumento da polui\u00e7\u00e3o e o aumento de doen\u00e7as das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o poderia deixar de falar da luta das comunidades de resist\u00eancia que reivindicam a moradia digna. Em  Belo Horizonte, as ocupa\u00e7\u00f5es que se tornaram comunidades, como Dandara, Camilo Torres, Irm\u00e3 Dorothy, Eliana Silva e Zilah Sp\u00f3sito\/Helena Greco tamb\u00e9m sinalizam como a estrela guia do oriente. Tenho visitado e participado da vida destas comunidades e tenho sido testemunha da for\u00e7a e da resist\u00eancia deste povo que optou por outro caminho por causa da inexist\u00eancia de uma pol\u00edtica p\u00fablica eficiente de moradia para as pessoas que possuem rendas inferiores a tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o mercado do lixo que amea\u00e7a os trabalhadores da reciclagem, o mercado imobili\u00e1rio pisa nas fam\u00edlias que recebem de zero a tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos. E quem vive com esta renda, tendo que pagar aluguel, encontra a sa\u00edda em se juntar, se organizar, ocupar os terrenos abandonados, que n\u00e3o cumprem a fun\u00e7\u00e3o social, e construir moradia, comunidades e pessoas emancipadas, fazendo valer os preceitos constitucionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fico indignada porque nestas comunidades, consideradas irregulares pelo poder p\u00fablico, s\u00e3o negados \u00e0s milhares de fam\u00edlias, crian\u00e7as, mulheres e idosos, os servi\u00e7os de \u00e1gua e energia. Em nenhuma delas, em Belo Horizonte, apesar das tentativas, foram instalados estes servi\u00e7os. V\u00e1rios j\u00e1 foram os casos de acidentes com energia porque as pessoas se v\u00eaem obrigadas a instalarem os servi\u00e7os clandestinamente. Sabem que tem o direito garantido na Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, que esta n\u00e3o imp\u00f5e limites, mas que por uma vontade (ou falta de vontade) pol\u00edtica este direito \u00e9 negado, mesmo que estas pessoas solicitem e estejam dispostas a, como qualquer outra pessoa, pagarem pelo servi\u00e7o prestado. Da mesma maneira \u00e9 dificultado o direito a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o. Assim como na gruta de Bel\u00e9m, nas ocupa\u00e7\u00f5es urbanas h\u00e1 poucas l\u00e2mpadas. \u00c9 no meio das trevas, com pouqu\u00edssimas luzes, que o divino no humano nasce. Excesso de luzes \u00e9 coisa de Jerusal\u00e9m, a cidade de Herodes, o rei que manda matar as crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Experimento tamb\u00e9m a necessidade de se fazer Natal nas filas do Sistema \u201c\u00danico\u201d de Sa\u00fade (SUS). N\u00e3o \u00e9 \u00fanico, porque h\u00e1 outro privado. Por n\u00e3o possuir plano de sa\u00fade, outro dia, sentindo-me mal, fui ao posto de sa\u00fade pr\u00f3ximo do lugar onde moro e a atendente perguntou meu endere\u00e7o. Ao responder &#8211; era uma segunda feira -, ela me disse que n\u00e3o era o meu dia e que eu tinha que retornar na quinta-feira. Indignada, perguntei se havia m\u00e9dico e ela me disse que sim. Ent\u00e3o me sentei e disse que s\u00f3 sairia dali depois que o m\u00e9dico me atendesse. Esta n\u00e3o era a primeira vez que havia sido recebido assim e tinha not\u00edcias atrav\u00e9s das fam\u00edlias e pessoas com as quais convivo de que esta \u00e9 a regra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho conversado com as pessoas que utilizam o SUS e tenho escutado o clamor desta gente. Tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 para entender como que os postos de sa\u00fade n\u00e3o funcionam nos finais de semana e feriados em Belo Horizonte. \u00c9 como se as pessoas fossem proibidas de adoecer nos finais de semana. Durante a semana tem os dias marcados para atendimento e nos finais de semana e feriados nem pensar. Conhe\u00e7o pessoas que est\u00e3o h\u00e1 anos aguardando uma cirurgia ou um exame. S\u00f3 em Belo Horizonte, mais de 15 mil pessoas est\u00e3o na fila de espera de uma cirurgia h\u00e1 anos, fila da humilha\u00e7\u00e3o. Outro dia, uma amiga que estava muito doente no interior, tinha que vir com urg\u00eancia para Belo Horizonte porque onde estava n\u00e3o podia fazer os exames, precisou entrar na justi\u00e7a e s\u00f3 mediante uma liminar judicial, conseguiu um vaga em um hospital da regi\u00e3o metropolitana, pois nem com decis\u00e3o judicial foi encontrada vaga em BH.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem passa pela chamada \u00e1rea hospitalar de Belo Horizonte tamb\u00e9m pode ver e ouvir o clamor. Dezenas de pessoas que vem do interior porque n\u00e3o existe um investimento digno em sa\u00fade p\u00fablica nos munic\u00edpios. As prefeituras, ao inv\u00e9s de garantirem uma boa pol\u00edtica de sa\u00fade local, pagam transportes para trazer as pessoas para Belo Horizonte. Na maioria s\u00e3o pessoas que est\u00e3o fazendo quimioterapia ou radioterapia, transfus\u00e3o de sangue, cirurgias, exames etc. Vem e ficam esperando, seja no hospital ou na rua. S\u00e3o muitas as pessoas que ficam na \u00e1rea hospitalar, na rua (quem n\u00e3o tem parentes em Belo Horizonte) aguardando a hora do retorno para sua cidade. Imagine voc\u00ea, doente, tendo que se submeter a cansativas viagens e esperas quando poderia ser atendido em sua pr\u00f3pria cidade e ter, ali mesmo, o direito garantido de cuidar da sa\u00fade. Mas cad\u00ea os 10% do Or\u00e7amento da Uni\u00e3o para a sa\u00fade p\u00fablica? Anualmente, s\u00e3o repassados cerca de 250 bilh\u00f5es de reais para os banqueiros credores da d\u00edvida p\u00fablica. Isso \u00e9 a\u00e7\u00e3o dos Herodes de plant\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro Natal que precisa chegar \u00e9 o respeito com as pessoas que utilizam o transporte p\u00fablico. N\u00e3o ag\u00fcento mais ler o Jornal do \u00d4nibus, que \u00e9 afixado nos transportes coletivos de Belo Horizonte, um quadro que se chama \u201cGentileza Urbana\u201d. Outro dia estava escrito mais ou menos o seguinte: \u201cgentileza urbana \u00e9 n\u00e3o sentar nos degraus, atrapalhando a subida ou descida dos demais passageiros\u201d. Perguntei para mim mesma em sil\u00eancio: ser\u00e1 que algu\u00e9m se perguntou por que as pessoas sentam nos degraus? Pensei em sugerir o seguinte: gentileza urbana \u00e9 ter transporte coletivo suficiente e de qualidade para que todas as pessoas viajem sentadas, inclusive com o sinto de seguran\u00e7a e a cadeirinha para crian\u00e7as t\u00e3o exigidas nos transportes privados. Por que os pobres ou os que andam a p\u00e9 e de \u00f4nibus podem viajar \u201csem seguran\u00e7a\u201d? As crian\u00e7as podem ir penduradas nos \u00f4nibus, passarem se arrastando por debaixo da roleta, assim como as mulheres gr\u00e1vidas, os idosos, o povo cansado depois de um dia inteiro de trabalho duro podem viajar em p\u00e9 e se aprumando entre as arrancadas, freadas e paradas? A seguran\u00e7a exigida nos transportes privados em nome da prote\u00e7\u00e3o a vida n\u00e3o vale para as pessoas que andam nos transportes p\u00fablicos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 quem experimenta esperar pelos \u00f4nibus em Belo Horizonte &#8211; acredito que em outras metr\u00f3poles n\u00e3o deve ser diferente -, sabe o quanto \u00e9 duro e desumano depender do transporte coletivo. Tenho esperado \u00f4nibus, por exemplo, na Avenida Ant\u00f4nio Carlos, onde recentemente foi feita uma mega obra de duplica\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m j\u00e1 viu como est\u00e1 o povo que espera por \u00f4nibus na Avenida Ant\u00f4nio Carlos? O povo est\u00e1 encurralado em lugares apertados entre carros e poeira, em um sol escaldante e numa espera que dificilmente \u00e9 menor que cinq\u00fcenta minutos. Depois de muito tempo, a prefeitura colocou uma cobertura e um \u201cbanco\u201d para as pessoas sentarem. A sombra da cobertura ora cai no meio da pista onde passam os autom\u00f3veis, ora cai no meio da pista onde passam os \u00f4nibus, nunca cai sobre as pessoas. Quanto aos bancos, cabem umas quatro pessoas, mas colocaram em uma altura tal que s\u00e3o poucas as pessoas que conseguem sentar. Al\u00e9m disso, o risco de acidentes \u00e9 muito grande nestes pontos, sobretudo nos hor\u00e1rios de pico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como advogada popular, militante dos direitos humanos, n\u00e3o poderia deixar de falar tamb\u00e9m da necessidade de se fazer Natal no poder judici\u00e1rio. As lutas do povo injusti\u00e7ado do campo e da cidade dificilmente, quando se recorre ao poder judici\u00e1rio, s\u00e3o vistas como reivindica\u00e7\u00f5es justas. Em Minas Gerais, em 2012, o juiz da Vara Agr\u00e1ria expediu dezenas de liminares de reintegra\u00e7\u00e3o de posse contra centenas de fam\u00edlias sem-terra que insistem em permanecer no campo, produzir alimentos sem agrot\u00f3xicos e lutar por Reforma Agr\u00e1ria. De igual maneira s\u00e3o criminalizados os defensores de direitos humanos e os militantes dos movimentos sociais e populares. S\u00e3o muitos os que est\u00e3o amea\u00e7ados de morte e de pris\u00e3o, e os que foram presos nos \u00faltimos meses. Torna-se urgente fazer Natal nas fileiras do povo organizado que, com ousadia, metem o p\u00e9 no barranco e luta pelos seus sagrados direitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, trouxe apenas algumas lutas que tem povoado meu cora\u00e7\u00e3o e me colocado na busca coletiva de um verdadeiro Natal. Sabemos que existem tantos outros clamores. Esta sociedade que tem olhos abertos para as luzes do natal do mercado, para as vitrines, o com\u00e9rcio e o consumo parece cega diante dos clamores das pessoas injusti\u00e7adas e do meio ambiente agredido. Nesta Mensagem de Natal, desejo, de cora\u00e7\u00e3o, que possamos retirar o olhar das vitrines, do consumo, dos presentes e confraterniza\u00e7\u00f5es particulares e construirmos olhares coletivos para o que de fato \u00e9 Natal: vida com dignidade para todas as pessoas, justi\u00e7a social, respeito e reconhecimento de que em cada pessoa humana est\u00e1 o divino nos visitando. \u00c9 hora de seguir a estrela guia apontada pelo povo que sofre toda forma de injusti\u00e7a, mas, de p\u00e9, luta. Esta estrela aponta para a chegada de uma nova vida que sup\u00f5e luta coletiva, ternura, solidariedade, resist\u00eancia e emancipa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Belo Horizonte, MG, Brasil, 25 de dezembro de 2012.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/GILVANDER\/Documents\/Natal%20-%20a%20estrela%20de%20Bel%C3%A9m%20nos%20que%20sofrem%20e%20lutam%20-%20de%20Maria%20do%20Ros%C3%A1rio%20-%2025%2012%202012.doc#_ftnref1\">[1]<\/a> Advogada Popular, integrante da Rede de Apoio e Solidariedade \u00e0s Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas de Belo Horizonte, MG; da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 CPT -; da Rede dos Advogados Populares \u2013 RENAP -; trabalha com Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Rua e Catadores de Material Recicl\u00e1vel; e-mail: <a href=\"mailto:mrosariodeoliveira@yahoo.com.br\">mrosariodeoliveira@yahoo.com.br<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natal: a estrela de Bel\u00e9m nos que sofrem e lutam. Maria do Ros\u00e1rio de Oliveira Carneiro[1] Todo ano \u00e9 mais ou menos assim: quando chega o per\u00edodo chamado natal, uma ang\u00fastia povoa meu cora\u00e7\u00e3o e<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-219","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=219"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=219"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=219"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=219"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}