{"id":2362,"date":"2018-07-17T17:51:08","date_gmt":"2018-07-17T20:51:08","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=2362"},"modified":"2018-07-17T17:51:08","modified_gmt":"2018-07-17T20:51:08","slug":"na-luta-pela-terra-sujeito-social-classe-e-ideologia-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/na-luta-pela-terra-sujeito-social-classe-e-ideologia-do-trabalho\/","title":{"rendered":"Na luta pela terra: Sujeito social, Classe e Ideologia do Trabalho"},"content":{"rendered":"<p><strong>Na luta pela terra: Sujeito social, Classe e Ideologia do Trabalho.\u00a0<\/strong>Por Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2363 alignleft\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Terra-para-quem-nela-trabalha.jpg\" alt=\"\" width=\"231\" height=\"218\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se compreende por \u2018sujeito social\u2019, \u2018classe\u2019 e \u2018ideologia do trabalho\u2019? Em uma pesquisa de doutorado sobre a Luta pela Terra enquanto Pedagogia de Emancipa\u00e7\u00e3o Humana buscamos deixar claro, entre muitos conceitos, qual o conceito de \u2018sujeito social\u2019, de \u2018classe\u2019, de \u2018ideologia do trabalho\u2019 como meio para se enriquecer. Em di\u00e1logo com Roseli Caldart, usamos a express\u00e3o \u201c<em>sujeito social<\/em> para indicar uma coletividade que constr\u00f3i sua identidade (coletiva) no processo de organiza\u00e7\u00e3o e de luta pelos seus pr\u00f3prios interesses (<em>direitos<\/em>, acr\u00e9scimo nosso) sociais\u201d (CALDART, 2012, p. 37). Destacamos que o termo <em>identidade<\/em> traz consigo a no\u00e7\u00e3o de ess\u00eancia que se refere a <em>algo que \u00e9<\/em>. Por isso, considerando que a luta pela terra trata-se de algo sempre din\u00e2mico e complexo, pensamos ser melhor afirmar que os Sem Terra constroem de forma coletiva uma <em>identifica\u00e7\u00e3o<\/em>, uma esp\u00e9cie de identidade aberta<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Mais do que \u2018interesses\u2019 sociais, a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e centenas de outros movimentos camponeses lutam por direitos sociais, entre os quais \u00e9 primordial o direito \u00e0 terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreendemos que o conceito de <em>classe<\/em> \u00e9 fundamental para a an\u00e1lise da luta pela terra.\u00a0 Ao conceituar <em>classe<\/em>, precisamos distinguir o que se compreende por classe, ciente de que para Marx os conceitos n\u00e3o s\u00e3o fixos e est\u00e1ticos, pois a dial\u00e9tica se expressa no movimento pr\u00f3prio dos conceitos. Edward Thompson faz a seguinte distin\u00e7\u00e3o: \u201cClasse n\u00e3o \u00e9, como gostariam alguns soci\u00f3logos, uma categoria est\u00e1tica: tais e tais pessoas situadas nesta e naquela rela\u00e7\u00e3o com os meios de produ\u00e7\u00e3o, mensur\u00e1veis em termos positivistas ou quantitativos. Classe, na tradi\u00e7\u00e3o marxista, \u00e9 (ou deve ser) uma categoria est\u00e1tica descritiva de pessoas em uma rela\u00e7\u00e3o no decurso do tempo e das maneiras pelas quais se tornam conscientes de suas rela\u00e7\u00f5es, como se separam, unem, entram em conflito, formam institui\u00e7\u00f5es e transmitem valores de modo classista. Neste sentido, classe \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e3o \u201cecon\u00f4mica\u201d quanto \u201ccultural\u201d; \u00e9 imposs\u00edvel favorecer um aspecto em detrimento do outro, atribuindo-se uma prioridade te\u00f3rica\u201d (THOMPSON, 2001, p. 260).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideologia dominante e hegem\u00f4nica tem muito poder. \u201cA ideologia dominante tem uma capacidade muito maior de estipular aquilo que pode ser considerado como crit\u00e9rio leg\u00edtimo de avalia\u00e7\u00e3o do conflito, na medida em que controla efetivamente as institui\u00e7\u00f5es culturais e pol\u00edticas da sociedade\u201d (M\u00c9SZ\u00c1ROS, 1996, p. 15). Para compreendermos a Luta pela Terra enquanto Pedagogia de Emancipa\u00e7\u00e3o Humana, \u00e9 preciso entender a ideologia do trabalho como meio para se enriquecer. No livro <em>O Cativeiro da Terra<\/em>, Jos\u00e9 de Souza Martins diz que \u201cal\u00e9m da disponibilidade de terras, era necess\u00e1ria a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra de trabalhadores dispostos a aceitar o mesmo trabalho que at\u00e9 ent\u00e3o era feito pelo escravo. Trabalhar para vir a ser propriet\u00e1rio de terra foi a f\u00f3rmula definida para integrar o imigrante na produ\u00e7\u00e3o do caf\u00e9\u201d (MARTINS, 2013, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00e3o desmascarar a ideologia do trabalho como meio para adquirir riqueza, \u201cinaugurando um novo secador de caf\u00e9, um fazendeiro de Campinas promoveu uma grande comemora\u00e7\u00e3o devidamente hierarquizada, que \u00e9 significativa indica\u00e7\u00e3o a respeito: \u201c\u00e0 tarde foi servido, no terreiro da fazenda, um grande jantar aos escravos &#8230; [&#8230;] \u00c0s 6 horas da tarde foi servido o banquete aos convidados, na sala de jantar &#8230; [&#8230;] \u00c0s 7 horas foi servido, em outra sala do pr\u00e9dio, o lauto jantar aos colonos &#8230;\u201d Os do terreiro, os de fora, n\u00e3o eram iguais aos de dentro da casa. Mas dentro da casa havia o jantar do fazendeiro e o jantar do colono, o que come antes e o que come depois. Embora desiguais, fazendeiro e imigrante s\u00e3o vinculados entre si por uma igualdade b\u00e1sica, a identidade de quem come na casa-grande. Nesse plano, o imigrante est\u00e1 contraposto \u00e0 senzala\u201d (MARTINS, 2013, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pedra fundamental da ideologia do trabalho como caminho para o enriquecimento afirma que pelo trabalho se conquista autonomia e liberdade, mas isso n\u00e3o acontece na maioria dos indiv\u00edduos da classe trabalhadora e nem na maioria dos camponeses, porque a ideologia do trabalho \u201cencobre e obscurece o conte\u00fado principal da rela\u00e7\u00e3o entre o patr\u00e3o e o empregado. Por meio dela, o trabalho n\u00e3o \u00e9 considerado principalmente como uma atividade que enriquece o patr\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, o trabalho \u00e9 considerado como uma atividade que cria a riqueza pr\u00f3pria e, ao mesmo tempo, pode liberar o trabalhador da tutela do patr\u00e3o\u201d (MARTINS, 2013, p. 203).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto crucial do problema, que gera uma injusti\u00e7a estrutural e justifica a explora\u00e7\u00e3o do trabalhador pela classe patronal, \u00e9 que \u201co capital (a riqueza) n\u00e3o \u00e9 visto nem concebido como produto do trabalho de outros, isto \u00e9, como produto do trabalho do oper\u00e1rio despojado dos meios de produ\u00e7\u00e3o, do confronto e do antagonismo entre o capital e o trabalho, personificado no capitalista e no prolet\u00e1rio. Ao contrario, o capital \u00e9 concebido como produto do trabalho do pr\u00f3prio capitalista\u201d (MARTINS, 2013, p. 203-204).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A classe se forma quando um grupo de trabalhadores, pela experi\u00eancia vivenciada ou herdada, descobre que, irmanados, est\u00e3o submetidos todos ao mesmo processo de explora\u00e7\u00e3o e, por isso, assumem uma identidade que os re\u00fane na defesa dos seus direitos e na resist\u00eancia contra e para al\u00e9m do sistema do capital. &#8220;A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experi\u00eancias comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se op\u00f5em) dos seus&#8221; (THOMPSON, 1987, p. 10).\u00a0 Pelas contradi\u00e7\u00f5es do sistema do capital, o sentimento de perten\u00e7a \u00e0 classe trabalhadora ou ao campesinato acontece quando pela pr\u00f3pria experi\u00eancia a\/o trabalhador\/a percebe que \u00e9 apenas formal e abstrata a liberdade que a classe dominante diz que ele tem. Se fosse real a liberdade alardeada pelos capitalistas, a\/o trabalhador\/a teria v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es. Entretanto, ao longo da hist\u00f3ria do capitalismo, a\/o trabalhador\/a n\u00e3o teve a op\u00e7\u00e3o de escolha entre muitos. Somente os patr\u00f5es tiveram\/t\u00eam liberdade porque tiveram\/t\u00eam \u00e0 sua frente um batalh\u00e3o de famintos pronto a ser contratado por qualquer pre\u00e7o que mitigue sua fome di\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancia <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CALDART, Roseli Salete. <strong>Pedagogia do Movimento Sem Terra. <\/strong>4\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARTINS, Jos\u00e9 de Souza. <strong>O Cativeiro da Terra. <\/strong>9\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00c9SZ\u00c1ROS, Istv\u00e1n. <strong>O Poder da Ideologia<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Ensaio, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">THOMPSON, Edward Palmer. <strong>As peculiaridades dos ingleses e outros artigos<\/strong>. NEGRO, Antonio Luigi; SILVA, Sergio (org.). Campinas, S\u00e3o Paulo: Unicamp, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <strong>A Forma\u00e7\u00e3o da Classe Oper\u00e1ria Inglesa: <\/strong>A \u00c1rvore da Liberdade. Vol. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 17\/7\/2018.<\/p>\n<p><strong>Obs<\/strong>.: Os v\u00eddeos, abaixo, ilustram o texto, acima.<\/p>\n<p><strong>1 &#8211; MST e Povo das Ocupa\u00e7\u00f5es urbanas unidos na luta por terra e moradia. 23\/08\/2014.<\/strong><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_19415\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9V659ZDyGfM?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><strong>2 &#8211; Ocupa\u00e7\u00e3o Carolina Maria de Jesus\/MLB, Belo Horizonte\/MG: 200 fam\u00edlias\/pr\u00e9dio de 14 andares. 06\/9\/2017.<\/strong><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_79871\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rL66O04fkiY?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><strong>3 &#8211; Dona Vilma, 73 anos, em Belo Horizonte, MG: DESPEJO VAI. DONA VILMA FICA. 2\u00aa Parte. 10\/4\/2018.<\/strong><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_52332\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B_HocvaQEDc?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG.\u00a0 E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Manuel Castells, nos livros <em>O poder da identidade<\/em>, Vol. I e Vol. II, analisa a sociedade em rede e traz uma discuss\u00e3o atualizada sobre os novos movimentos socais ao falar de \u2018identidade de projeto\u2019. Cf. CASTELLS, Manuel. <strong>O poder da identidade<\/strong>. Vol. I. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2002. E, CASTELLS, Manuel. <strong>O poder da identidade<\/strong>. Vol. II. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na luta pela terra: Sujeito social, Classe e Ideologia do Trabalho.\u00a0Por Gilvander Moreira[1] O que se compreende por \u2018sujeito social\u2019, \u2018classe\u2019 e \u2018ideologia do trabalho\u2019? 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