{"id":2557,"date":"2018-08-21T16:27:27","date_gmt":"2018-08-21T19:27:27","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=2557"},"modified":"2018-08-21T16:27:27","modified_gmt":"2018-08-21T19:27:27","slug":"na-pesquisa-escrever-compreende-ou-prende","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/na-pesquisa-escrever-compreende-ou-prende\/","title":{"rendered":"Na pesquisa, escrever compreende ou prende?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Na pesquisa, escrever compreende ou prende?\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2558 alignleft\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Dific\u00edlimo-\u00e9-o-ato-de-escrever-300x141.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"141\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Dific\u00edlimo-\u00e9-o-ato-de-escrever-300x141.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Dific\u00edlimo-\u00e9-o-ato-de-escrever-768x361.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Dific\u00edlimo-\u00e9-o-ato-de-escrever.jpg 850w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/strong>Por Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que uma pesquisa seja instrumento de transforma\u00e7\u00e3o na perspectiva emancipat\u00f3ria, precisamos investigar as causas complexas \u2013 cocausas &#8211; n\u00e3o apenas imediatas, mas tamb\u00e9m as mediatas e principalmente as condi\u00e7\u00f5es materiais objetivas, bem como as rela\u00e7\u00f5es entre os v\u00e1rios problemas, buscando as raz\u00f5es de fundo para que os processos de luta por direitos humanos fundamentais aconte\u00e7am de tal maneira que persiga a indica\u00e7\u00e3o de vari\u00e1veis nas quais \u00e9 poss\u00edvel empreender lutas de emancipa\u00e7\u00e3o humana. Isso implica em sistematizar as experi\u00eancias pesquisadas, c\u00f4nscio de que o decisivo \u00e9 \u201centender, compreender, interpretar a fundo o que ocorreu, quais foram suas causas, quais as consequ\u00eancias, quais os efeitos secund\u00e1rios e as ra\u00edzes dos fen\u00f4menos. Devemos tamb\u00e9m interpretar quais t\u00eam sido as contradi\u00e7\u00f5es, as continuidades e as descontinuidades, as coer\u00eancias e as incoer\u00eancias\u201d (HOLLIDAY, 2006, p. 230).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sistematizar experi\u00eancias teorizando-as pode ter v\u00e1rias serventias, entre as quais destacamos: a) ter uma compreens\u00e3o profunda da experi\u00eancia, com o fim de qualificar nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica na luta por direitos; b) compartilhar com outras pr\u00e1ticas semelhantes as descobertas reveladas pelas nossas experi\u00eancias; c) enriquecer a reflex\u00e3o te\u00f3rica produzindo novos conhecimentos com base nos conhecimentos que surgem das pr\u00e1ticas concretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Construir uma tese implica compreender o \u2018objeto-sujeito\u2019 pesquisado. O que \u00e9 compreens\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 algo que apenas se associa ao exerc\u00edcio de uma t\u00e9cnica ou de um m\u00e9todo. Segundo Hans-Georg Gadamer (1997), \u201ca compreens\u00e3o \u00e9 um encontro \u2013 no sentido existencialista do termo \u2013 e um confronto com algo essencialmente diferente de n\u00f3s\u201d (GON\u00c7ALVES, 2006, p. 253). Compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de distanciamento de nossa pr\u00f3pria cosmovis\u00e3o, mas acima de tudo, \u201cuma fus\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de uma am\u00e1lgama de nossos horizontes com os horizontes dos outros\u201d (GON\u00c7ALVES, 2006, p. 253).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa participante acontece enquanto a luta por direitos continua, em um processo permanente. Cada a\u00e7\u00e3o pensada e realizada pode ser geradora de novos conhecimentos e abrir novos caminhos a serem trilhados. \u201cExiste entre a pesquisa e a a\u00e7\u00e3o uma intera\u00e7\u00e3o permanente. A produ\u00e7\u00e3o do conhecimento se realiza atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o da realidade social\u201d (LE BORTEF, 1987, p. 72).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisamos uma quest\u00e3o social com finalidade pedag\u00f3gica, mas considerando os meandros sociol\u00f3gicos da quest\u00e3o investigada. As pessoas pesquisadas falam, comunicam ao\/\u00e0 pesquisador\/a, por express\u00e3o oral. Ao se transcreverem as entrevistas que registraram a express\u00e3o oral das pesquisadas e dos pesquisados pode ocorrer um processo de acrisolamento e perda de v\u00e1rios aspectos que poderiam enriquecer os dados colhidos. Perdem-se os sons, os odores, as imagens, os gestos, os relevos e os gostos. Temos sempre que perguntar: Qual \u00e9 o efeito produzido pela transcri\u00e7\u00e3o da palavra falada? O que o\/a pesquisador\/a ganha ou perde, escrevendo-a? Est\u00e1 aqui uma rela\u00e7\u00e3o do tipo analista e analisando: \u201co cliente e o pesquisado falam; o analista e o pesquisador tomam notas e interpretam\u201d (LE BOTERF, 1987, p. 79). N\u00e3o foi sem motivo que o fil\u00f3sofo S\u00f3crates n\u00e3o se cansava de dialogar com a juventude, por meio da mai\u00eautica, e se recusou a escrever. Plat\u00e3o optou por filosofar por meio de di\u00e1logos: para n\u00e3o se distanciar da palavra falada e para n\u00e3o acrisolar a linguagem na escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Problematizamos a quest\u00e3o da escrita em uma sociedade, hoje, profundamente marcada pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A desconfian\u00e7a na escrita \u00e9 um tema recorrente ao longo da hist\u00f3ria do pensamento ocidental. Desde Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, os fil\u00f3sofos tenderam a considerar a escrita como uma fachada exterior e vis\u00edvel para a realidade interior e sonora das palavras faladas. Plat\u00e3o, no F\u00e9don, faz S\u00f3crates declarar que a escrita n\u00e3o oferece mais que \u201ca apar\u00eancia e n\u00e3o a realidade da sabedoria\u201d (PLAT\u00c3O, 1973 apud INGOLD, 2008, p. 5). No artigo \u201cPare, Olhe, Escute! Vis\u00e3o, Audi\u00e7\u00e3o e Movimento Humano\u201d, Ingold diz: \u201cpara Rousseau, a escrita n\u00e3o era \u201cnada al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o da fala\u201d\u201d (ROUSSEAU apud INGOLD, 2008, p. 5). Para Bloomfeld, a escrita era \u201cmeramente uma forma de registrar a linguagem por meio de marcas vis\u00edveis\u201d, enquanto de acordo com Saussure, \u201ca linguagem e a escrita s\u00e3o dois sistemas distintos de signos: o segundo existe com o \u00fanico objetivo de representar o primeiro\u201d (BLOOMFELD; SAUSSURE apud INGOLD, 2008, p. 5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todas essas afirma\u00e7\u00f5es, existe uma prioriza\u00e7\u00e3o impl\u00edcita da audi\u00e7\u00e3o sobre a vis\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 os olhos veem, mas os ouvidos tamb\u00e9m veem. Segundo Ingold (2008, p. 6), Marshall McLuhan argumentou que a inven\u00e7\u00e3o da imprensa conduziu a uma era inteiramente nova na hist\u00f3ria da cultura humana, marcada pela domin\u00e2ncia absoluta do olho e, com ela, a um vi\u00e9s em dire\u00e7\u00e3o a uma maneira de pensar que se pretende objetiva e anal\u00edtica e que segue um caminho linear de conex\u00f5es l\u00f3gicas expl\u00edcitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GON\u00c7ALVES, Elisa Pereira. Pesquisar, participar: sensibilidades p\u00f3s-modernas. In: BRAND\u00c3O, Carlos Rodrigues; STRECK, Danilo R. (Org.). <strong>Pesquisa participante: o saber da partilha<\/strong>. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Aparecida\/SP: Ideias &amp; Letras, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HOLLIDAY, Oscar Jara. Sistematiza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias: algumas aprecia\u00e7\u00f5es. In: BRAND\u00c3O, Carlos Rodrigues; STRECK, Danilo R. (Org.). <strong>Pesquisa participante: o saber da partilha<\/strong>. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Aparecida\/SP: Ideias &amp; Letras, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">INGOLD, Tim. Pare, Olhe, Escute! Vis\u00e3o, Audi\u00e7\u00e3o e Movimento Humano. In: <strong>Ponto Urbe<\/strong> <strong>3<\/strong>, 2008. <a href=\"https:\/\/journals.openedition.org\/pontourbe\/1925\">https:\/\/journals.openedition.org\/pontourbe\/1925<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LE BOTERF, Guy. Pesquisa participante: propostas e reflex\u00f5es metodol\u00f3gicas. In: BRAND\u00c3O, Carlos Rodrigues (Org.). <strong>Repensando a pesquisa participante<\/strong>. 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 21\/8\/2018.<\/p>\n<p><strong>Obs<\/strong>.: Os v\u00eddeos, abaixo, ilustram o texto, acima.<\/p>\n<p><strong>1 &#8211; Defesa do ambiente, garantia de vida\/Dom Mauro Morelli\/2\u00aa Pr\u00e9-Romaria\/XXI Romaria\/\u00c1guas\/Terra\/MG. 05\/8\/2018.<\/strong><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_48306\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Vx3CWLjovuk?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><strong>2 &#8211; Do Agrot\u00f3xico para a Agroecologia\/1\u00aa Pr\u00e9-Romaria da XXI Romaria\/\u00c1guas e Terra\/MG\/Arcos\/23\/6\/2018.<\/strong><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_38910\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hG6P0PuNeT4?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><strong>3 &#8211; Pelo Rio Par\u00e1, por terra e contra Aterro sanit\u00e1rio &#8211; Ocupa\u00e7\u00e3o Nova Jerusal\u00e9m: Nova Serrana\/MG. 29\/7\/2018.<\/strong><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_21013\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3e4otsYeCqM?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG.<\/p>\n<p>E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na pesquisa, escrever compreende ou prende?\u00a0Por Gilvander Moreira[1] &nbsp; Para que uma pesquisa seja instrumento de transforma\u00e7\u00e3o na perspectiva emancipat\u00f3ria, precisamos investigar as causas complexas \u2013 cocausas &#8211; 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