{"id":3250,"date":"2018-12-04T21:40:47","date_gmt":"2018-12-04T23:40:47","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3250"},"modified":"2019-01-13T19:13:27","modified_gmt":"2019-01-13T21:13:27","slug":"inicio-da-luta-pela-terra-no-sul-de-minas-memoria-inspiradora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/inicio-da-luta-pela-terra-no-sul-de-minas-memoria-inspiradora\/","title":{"rendered":"In\u00edcio da luta pela terra no sul de Minas: mem\u00f3ria inspiradora."},"content":{"rendered":"<p><strong>In\u00edcio da luta pela terra no sul de Minas: mem\u00f3ria inspiradora.<\/strong><\/p>\n<p>Por Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_3255\" aria-describedby=\"caption-attachment-3255\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3255 size-medium\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PA-Primeiro-do-sul-em-jpeg-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PA-Primeiro-do-sul-em-jpeg-300x225.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PA-Primeiro-do-sul-em-jpeg-768x576.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PA-Primeiro-do-sul-em-jpeg.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3255\" class=\"wp-caption-text\">Vis\u00e3o parcial da Agrovila do Assentamento Primeiro do Sul, em Campo do Meio, sul de Minas Gerais, do MST, dia 09\\9\\2016. Foto: frei Gilvander<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dia 02 de julho de 1997, o primeiro acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais (MST) no sul de Minas Gerais, no munic\u00edpio de Campo do Meio, na fazenda Jatob\u00e1, se tornou oficialmente o PA Primeiro do Sul. Com \u00e1rea de 864 hectares, conserva 40% de seu territ\u00f3rio como mata nativa preservada em serras e grotas, \u00e1reas declinadas, dif\u00edceis de ser cultivadas.\u00a0 Segundo S\u00edlvio Neto,\u00a0 \u201cEm 40% da \u00e1rea do assentamento as fam\u00edlias assentadas n\u00e3o mexem, pois \u00e9 reserva de mata nativa\u201d. A maior parte do assentamento \u00e9 constitu\u00edda de terras f\u00e9rteis, lugares onde havia muita \u00e1gua, mas as \u00e1guas est\u00e3o diminuindo. A mata nativa do Assentamento se liga a uma mata existente nas terras da ex-usina Ariadn\u00f3polis, somando cerca de mil hectares que tem sido moradia \u2013 <em>habitat<\/em> \u2013 de uma infinidade de animais e p\u00e1ssaros que migraram de muitas outras regi\u00f5es devastadas ambientalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto estava abandonada, a fazenda Jatob\u00e1 se tornou \u00e1rea de turismo de ca\u00e7a ilegal. O assentado Sebasti\u00e3o M\u00e9lia Marques nos informa que \u201cnos finais de semana, vinham pessoas de v\u00e1rias cidades da regi\u00e3o com caminh\u00e3o cheio de cavalo e cachorros para ca\u00e7ar veado, on\u00e7a e paca. No primeiro final de semana ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o, as fam\u00edlias do acampamento Primeiro do Sul viram os turistas de ca\u00e7a chegarem e ficaram observando o que eles faziam. No segundo final de semana, ap\u00f3s planejar, os camponeses Sem Terra acampados chegaram de repente onde os turistas estavam armando barracas e fazendo churrasco e perguntaram: \u201cO que voc\u00eas est\u00e3o fazendo aqui?\u201d Eles alegaram que estavam acostumados a vir nos finais de semana ca\u00e7ar nas matas da fazenda Jatob\u00e1. Com os instrumentos de trabalho nas m\u00e3os \u2013 enxada, foice, machado e fac\u00e3o -, os Sem Terra disseram: \u201cn\u00f3s vamos chamar a pol\u00edcia para vir aqui lavrar um Boletim de Ocorr\u00eancia. Antes disso, voc\u00eas n\u00e3o poder\u00e3o ir embora\u201d. Um dos ca\u00e7adores se identificou como sendo delegado e pediu para n\u00e3o chamar a pol\u00edcia, pois iria acabar com a carreira dele. Outros disseram que se os Sem Terra n\u00e3o chamassem a pol\u00edcia, nunca mais eles voltariam. Assim, os ca\u00e7adores foram liberados e nunca mais voltaram a ca\u00e7ar nas matas do PA Primeiro do Sul. Dessa forma, pusemos fim \u00e0 matan\u00e7a de animais na mata e \u00e0 ilegalidade que reinava h\u00e1 quase uma d\u00e9cada nas terras do que \u00e9 hoje o PA Primeiro do Sul.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No PA Primeiro do Sul v\u00ea-se a contradi\u00e7\u00e3o entre a agricultura do agroneg\u00f3cio e a agricultura camponesa, que precisa de \u00e1rvores e, por isso, os camponeses as preservam. \u201cAl\u00e9m da reserva florestal de 40% do territ\u00f3rio do assentamento, em todos os lotes h\u00e1 muitas \u00e1rvores. Essa \u00e9 uma caracter\u00edstica da agricultura camponesa: ela precisa de \u00e1rvores. O agroneg\u00f3cio, em uma forma antiecol\u00f3gica, devasta tudo. Quanto mais mecaniza\u00e7\u00e3o menos \u00e1rvores\u201d (S\u00edlvio Neto, da coordena\u00e7\u00e3o do MST).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PA Primeiro do Sul iniciou-se com quarenta fam\u00edlias assentadas em quarenta lotes, pois das 80 fam\u00edlias que participaram da ocupa\u00e7\u00e3o quarenta desistiram antes da conquista do assentamento. Atualmente, ap\u00f3s vinte e um anos de muita luta e muitas vit\u00f3rias, o Assentamento conta com mais de 50 fam\u00edlias, sendo mais de dez de filhas e filhos de assentadas e assentados que se casaram e resolveram permanecer no campo ou voltaram para o campo, porque na cidade estavam sofrendo muito sem perspectivas de futuro. Essas mais de dez fam\u00edlias fizeram casas nos lotes dos pais. Das quarenta fam\u00edlias assentadas, ap\u00f3s 21 anos, somente quinze perseveram no assentamento desde o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o. Vinte e cinco fam\u00edlias, o que equivale a 62,5%, desistiram por v\u00e1rios motivos, entre os quais v\u00e1rias fam\u00edlias oriundas de regi\u00f5es de clima quente n\u00e3o se adaptaram ao clima frio do sul de Minas e a demora na libera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos que viabilizam a produ\u00e7\u00e3o e a perman\u00eancia no campo. Sebasti\u00e3o M\u00e9lia Marques nos explica: \u201cPerdemos muitas fam\u00edlias, porque n\u00e3o conseguiram desenvolver a produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o acostumaram com o jeito de vida aqui no campo, no sul de Minas. Perdemos 25 fam\u00edlias das que foram assentadas no in\u00edcio do Assentamento. O fator que mais contribui para a desist\u00eancia das fam\u00edlias \u00e9 a demora do governo em liberar os cr\u00e9ditos para o financiamento da produ\u00e7\u00e3o, o que dificulta muito a vida no campo. As fam\u00edlias vieram de fazendas de caf\u00e9 onde ganhavam apenas um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Sal\u00e1rio esse entregue totalmente no armaz\u00e9m e na farm\u00e1cia. Chegaram aqui na Ocupa\u00e7\u00e3o apenas com quatro pares de roupas em uma sacola. Vieram praticamente sem nada. Somente ap\u00f3s dois anos, recebemos o primeiro cr\u00e9dito, que \u00e9 o Fomento no valor de R$1.500,00, na \u00e9poca, para comprar ferramentas e alimentos. Tivemos que fazer campanha de arrecada\u00e7\u00e3o de alimentos na regi\u00e3o para sustentar as fam\u00edlias aqui do PA Primeiro do Sul at\u00e9 iniciarmos a produ\u00e7\u00e3o de ab\u00f3bora e de verduras, que \u00e9 o que se produz mais r\u00e1pido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0s fam\u00edlias assentadas s\u00e3o discutidas na coordena\u00e7\u00e3o do assentamento e em assembleias gerais. Por exemplo, a defini\u00e7\u00e3o de quais fam\u00edlias continuariam morando nas casas da agrovila e quem iria construir suas casas nos lotes foi discutida. Deliberou-se em vota\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s discuss\u00e3o, que as fam\u00edlias Sem Terra que preferissem permanecer nas resid\u00eancias da agrovila do PA Primeiro do Sul receberiam lotes menores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias que tiveram que construir suas pr\u00f3prias casas. A maior parte das casas constru\u00eddas fora da agrovila, nos lotes, foi por autoconstru\u00e7\u00e3o, realizada por meio de mutir\u00f5es entre as fam\u00edlias dos assentados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio os acampados formaram uma horta coletiva em tr\u00eas hectares de terra, horta que foi a base mais r\u00e1pida para produzir alimentos para as fam\u00edlias. S\u00edlvio Neto nos informa: \u201cO que garantiu a alimenta\u00e7\u00e3o no Acampamento Primeiro do Sul e o in\u00edcio do Assentamento foi basicamente peixe, ab\u00f3bora e hortali\u00e7as. Peixe da barragem de Furnas, &#8211; que fica distante apenas quatro quil\u00f4metros -, ab\u00f3bora e hortali\u00e7as, porque produzem r\u00e1pido\u201d. O excedente era vendido na cidade para adquirir dinheiro para comprar outras coisas. As fam\u00edlias acampadas recebiam tamb\u00e9m cestas b\u00e1sicas doadas por pessoas e organiza\u00e7\u00f5es apoiadoras da luta pela terra. Padres e pastores fizeram campanha de cesta b\u00e1sica para ajudar no sustento das fam\u00edlias. \u201cNaquela \u00e9poca, a pobreza era muito grande. A gente batia nas portas e as pessoas ajudavam\u201d, informa Sebasti\u00e3o M\u00e9lia Marques. \u201cComo os acampados eram trabalhadores boias-frias na regi\u00e3o, e, por isso, conheciam muita gente, conseguimos arrumar um trator arrendado para nos ajudar a preparar a terra para plantarmos feij\u00e3o, milho e arroz. A gente pagava o trator trabalhando como boias-frias nas fazendas pr\u00f3ximas daqui. No in\u00edcio, colhemos muito arroz. Quando a gente chegou aqui, choveu um m\u00eas sem parar, mas isso n\u00e3o acontece mais. A falta de chuva est\u00e1 sendo a regra aqui na regi\u00e3o\u201d (Vadilsom Manoel Da Silva, Sem Terra assentado no PA Primeiro do Sul).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No PA Primeiro do Sul, os quarenta lotes n\u00e3o t\u00eam o mesmo tamanho: variam de 12 a 19 hectares, dependendo da topografia \u2013 \u201cterra com maior declive \u00e9 menos agricult\u00e1vel\u201d -, da exist\u00eancia de fontes d\u2019\u00e1gua e de \u00e1reas de reserva florestal. Esse crit\u00e9rio foi proposto pelo MST e, ap\u00f3s discuss\u00e3o em assembleia, foi aprovado pelas fam\u00edlias. O INCRA teve que acatar os crit\u00e9rios que as fam\u00edlias tinham definido sobre a partilha da terra, conforme relato de Sebasti\u00e3o M\u00e9lia Marques: \u201cComo o INCRA demora muito para vir demarcar os lotes, a gente mesmo se organizou na divis\u00e3o da terra. Formamos a coordena\u00e7\u00e3o e os setores. Na coordena\u00e7\u00e3o, a gente discutiu qual o tamanho de terra necess\u00e1rio para cada pessoa sobreviver ali. As pr\u00f3prias fam\u00edlias discutiram o tamanho (\u201cEu acho que 12 hectares pra n\u00f3is \u00e9 suficiente\u201d). A\u00ed a gente perguntou: E a terra mais inferior? (\u201cAh n\u00e3o, a\u00ed teria que ser quinze, ou dezoito hectares\u201d). A\u00ed se chegou num consenso que o lote na terra melhor devia ter 12 hectares e na terra inferior, 15 ou mais hectares. Assim foi decidido por n\u00f3s aqui no Primeiro do Sul, que tem o menor lote com 12 hectares e o lote maior com 19 hectares. Medimos a terra com uma corda, um lote para cada fam\u00edlia. Quando o INCRA chegou aqui, j\u00e1 estava cada fam\u00edlia no seu lote produzindo de acordo com as pr\u00f3prias fam\u00edlias que chegaram e foram cultivando\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PA Primeiro do Sul possui uma \u00e1rea de 27 hectares para uso coletivo para cria\u00e7\u00e3o de gado que n\u00e3o cabe nos lotes familiares. H\u00e1 tamb\u00e9m uma agrovila, que \u00e9 \u00e1rea comum, onde moram 27 fam\u00edlias. As crian\u00e7as e os adolescentes est\u00e3o estudando na cidade de Campo do Meio, distante 21 quil\u00f4metros. Uma Kombi recolhe as crian\u00e7as nos lotes e as leva at\u00e9 a agrovila. Um \u00f4nibus de linha passa na agrovila, \u00e0s 6h da manh\u00e3 e leva as crian\u00e7as dos lotes e as da agrovila para a escola na cidade. As crian\u00e7as voltam de \u00f4nibus ap\u00f3s as 11h. \u00c0 tardezinha, o \u00f4nibus leva adolescentes e jovens para estudarem na cidade de Campo do Meio \u00e0 noite e por volta das 23h retornam para o Assentamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na agrovila do PA Primeiro do Sul h\u00e1 uma igreja para celebrar cultos e uma escola para alfabetiza\u00e7\u00e3o de jovens e adultos. Uma garagem para tratores, que estava abandonada, foi transformada em Centro Comunit\u00e1rio, onde as fam\u00edlias assentadas fazem as assembleias e os cursos sobre pol\u00edtica, agroecologia, produ\u00e7\u00e3o, discuss\u00e3o de projetos, organiza\u00e7\u00e3o para as lutas, visitas de estudantes, pesquisadores e rede de apoio. A luta das fam\u00edlias assentadas do PA Primeiro do Sul conquistou um m\u00e9dico cl\u00ednico geral e uma enfermeira do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), do Programa de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, que atende a pessoas com problemas de sa\u00fade na agrovila do PA Primeiro do Sul uma manh\u00e3 por m\u00eas. Com a receita em m\u00e3os, as pessoas t\u00eam que comprar o rem\u00e9dio nas farm\u00e1cias da cidade, porque pouqu\u00edssimos rem\u00e9dios s\u00e3o fornecidos na farm\u00e1cia do hospital p\u00fablico de Campo do Meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Belo Horizonte, MG, 04\/12\/2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>In\u00edcio da luta pela terra no sul de Minas: mem\u00f3ria inspiradora. 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