{"id":3313,"date":"2024-12-05T11:45:00","date_gmt":"2024-12-05T14:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3313"},"modified":"2024-12-05T14:38:42","modified_gmt":"2024-12-05T17:38:42","slug":"advento-palavra-de-deus-no-deserto-e-nao-nos-palacios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/advento-palavra-de-deus-no-deserto-e-nao-nos-palacios\/","title":{"rendered":"Lc 3,1-6 &#8211; ADVENTO, PALAVRA DE DEUS NO \u201cDESERTO\u201d E N\u00c3O NOS PAL\u00c1CIOS. Por frei Gilvander"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lc 3,1-6 &#8211;\u00a0<\/strong><strong>ADVENTO, PALAVRA DE DEUS NO \u201cDESERTO\u201d E N\u00c3O NOS PAL\u00c1CIOS. <\/strong>Por frei Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_2451\" aria-describedby=\"caption-attachment-2451\" style=\"width: 487px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2451 \" src=\"http:\/\/www.cptmg.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Advento-via-CPT-MG-2018-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"365\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2451\" class=\"wp-caption-text\">Foto montagem: N\u00e1dia A. O. Sene.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Advento. Ventos natalinos soprando. De onde e para onde? Que tipo de vento? Para n\u00e3o sermos enleados no turbilh\u00e3o e no redemoinho do consumo exacerbado que, em uma sociedade capitalista, a idolatria do mercado provoca no final de cada ano, faz bem recordarmos na B\u00edblia, o Evangelho de Lucas (Lc), especialmente Lc 3,1-6. Os dois primeiros cap\u00edtulos do Evangelho de Lucas referem-se ao nascimento e \u00e0s inf\u00e2ncias de Jo\u00e3o Batista e de Jesus de Nazar\u00e9. Provavelmente, em uma primeira vers\u00e3o, o Evangelho de Lucas iniciou no cap\u00edtulo 3 mostrando inicialmente o contexto no qual a Palavra de Deus \u00e9 dirigida a Jo\u00e3o, que se tornar\u00e1 o Batista, o precursor de Jesus de Nazar\u00e9. Eloquente \u00e9 que o evangelista Lucas faz quest\u00e3o de abrir o Evangelho mostrando quem estava nos poderes pol\u00edtico e religioso na \u00e9poca em que \u201c<em>a palavra de Deus foi dirigida a Jo\u00e3o, no deserto<\/em>\u201d (Lc 3,2b). Lucas informa: \u201c<em>Fazia quinze anos que Tib\u00e9rio era imperador de Roma. P\u00f4ncio Pilatos era governador da Judeia. Herodes governava a Galileia. O Tetrarca Filipe reinava sobre a Itureia e a Tracon\u00edtide. E o tetrarca Lis\u00e2nias reinava sobre a Abilene<\/em>\u201d (Lc 3,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abre-se a primeira vers\u00e3o do Evangelho de Lucas dizendo nas entrelinhas: Aten\u00e7\u00e3o! Veja quem estava no poder pol\u00edtico na \u00e9poca em que \u201ca palavra de Deus foi dirigida a Jo\u00e3o no deserto\u201d (Lc 3,2b)! O imperialismo romano grassava: escravid\u00e3o e injusti\u00e7a tribut\u00e1ria era o que imperava. O imperador Tib\u00e9rio dominava sob poucos questionamentos mais de 60 milh\u00f5es de pessoas j\u00e1 por quinze anos. Tempo longo de subjuga\u00e7\u00e3o dos povos das col\u00f4nias, entre os quais estavam os povos da Palestina onde Jo\u00e3o Batista e Jesus de Nazar\u00e9 nasceram e exerceram miss\u00e3o libertadora. O rei Herodes Agripa, dez anos mais tarde, escreveu ao Imperador Cal\u00edgula tra\u00e7ando o perfil de Pilatos: &#8220;Pilatos \u00e9 naturalmente inflex\u00edvel e intoler\u00e1vel, corrupto, atos de insulto, de rapina, de ultrajes ao povo, de arrog\u00e2ncia, assassino de inocentes e violento selvagem.&#8221; Essa informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nos leva a pensar que provavelmente Pilatos n\u00e3o foi um governador fraco que \u201clavava as m\u00e3os\u201d diante de situa\u00e7\u00f5es complexas e espinhosas. Pilatos era violentador de direitos do povo. \u00c0s vezes, se confundem os tr\u00eas reis Herodes que dominaram o povo na \u00e9poca de Jo\u00e3o Batista, de Jesus e das primeiras comunidades crist\u00e3s, pois os tr\u00eas Herodes aparecem no Segundo Testamento b\u00edblico com o mesmo nome. O historiador que participou da Guerra Judaica que levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Templo de Jerusal\u00e9m e da cidade de Jerusal\u00e9m por volta do ano 70 no s\u00e9culo I, Fl\u00e1vio Josefo (37-100 d.C.) nos informa que o primeiro Herodes, chamado o Grande, (des)governou durante 33 anos toda a Palestina de 37 a 4 a.C. Ele aparece no nascimento de Jesus. Ele mandou assassinar as crian\u00e7as de Bel\u00e9m (Mt 2,1.16). Herodes, \u201co Grande\u201d, era um idumeu estrangeiro, que antes de ser Rei da Palestina inteira, foi comandante militar da Galileia (47-37 a.C.). Ele enfrentou e matou Ezequias, o famoso l\u00edder dos revolucion\u00e1rios, que atuava na Galileia. O segundo Herodes, chamado Antipas, filho menor de Maltace e de Herodes, o Grande, (des)governou durante 43 anos a Galileia, a parte norte e f\u00e9rtil da Palestina, de 4 a.C. a 39 E.C. Ele aparece como c\u00famplice da morte de Jesus (Lc 23,7). Herodes Antipas foi o mandante do assassinato do profeta Jo\u00e3o Batista (Mc 6,14-29). O terceiro Herodes, chamado Agripa, (des)governou com \u2018m\u00e3o de ferro\u2019 durante 4 anos toda a Palestina, de 41 a 44 d.C. Segundo o livro de Atos dos Ap\u00f3stolos, Herodes Agripa perseguiu e violentou as primeiras comunidades crist\u00e3s, comunidades de pessoas oprimidas e exploradas (At 12,20). Ele foi o mandante do assassinato do ap\u00f3stolo Tiago, irm\u00e3o de Jo\u00e3o (At 12,2). O tetrarca Filipe (des)governou sua regi\u00e3o durante 38 anos, de 4 a.C., at\u00e9 34 d.C. A designa\u00e7\u00e3o \u2018tetrarca\u2019 se refere, originalmente, ao que reinava sobre a quarta parte de um determinado territ\u00f3rio. Controlavam seus \u2018feudos\u2019. Eram coron\u00e9is cada um em sua regi\u00e3o, para dizer em uma linguagem de Victor Nunes Leal, autor da cl\u00e1ssica obra <em>Coronelismo, Enxada e voto<\/em>. Segundo Fl\u00e1vio Josefo, as regi\u00f5es de Pereia e Galileia davam \u00e0 corte de Herodes cerca de 200 talentos por ano<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Um \u2018talento\u2019 indica uma grande soma de dinheiro. 01 talento = 26 Kg e 436 gramas (Cf. Mt 18,24). Segundo c\u00e1lculos de alguns estudiosos, um trabalhador como aquele da \u2018par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha\u2019, de Mt 20,1-16, que recebeu um den\u00e1rio por um dia de trabalho, deveria trabalhar mais de quinze anos para conseguir juntar um \u00fanico talento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s apresentar quem eram os poderosos do poder pol\u00edtico, o evangelista Lucas faz quest\u00e3o de apresentar quem eram os poderosos do poder religioso: \u201c<em>An\u00e1s e Caif\u00e1s eram sumos sacerdotes<\/em>\u201d (Lc 3,2a), n\u00e3o contemporaneamente. An\u00e1s, filho de Set, foi nomeado sumo sacerdote pelo governador romano P. Sulp\u00edcio Quirino (Cf. Lc 2,2) no ano 6 d.C., e se manteve no cargo at\u00e9 que foi deposto no ano 15 d.C. Seus sucessores foram: Ismael, filho de Fiabi (ano 15 d.C.,); Eleazar, filho do pr\u00f3prio An\u00e1s (anos 16 e 17); Sim\u00e3o, filho de Camit (anos 17 e 18) e finalmente, Jos\u00e9, genro de An\u00e1s, apelidado de Caif\u00e1s, foi sumo sacerdote de 18 a 36 d.C. O quarto evangelho menciona Caif\u00e1s duas vezes, como &#8220;o que era sumo sacerdote naquele ano&#8221; (Jo 11,49; 18,13b), isto \u00e9, no ano da morte de Jesus. Deve-se notar tamb\u00e9m que se atribui a An\u00e1s o t\u00edtulo de &#8220;sumo sacerdote&#8221; (Jo 18,13a.19). Em At 4,6, Lucas volta a mencionar An\u00e1s como &#8220;sumo sacerdote&#8221;, enquanto que Caif\u00e1s aparece simplesmente como um dos &#8220;dos que pertencia \u00e0 fam\u00edlia de sumos sacerdotes\u201d. Segundo o historiador Fl\u00e1vio Josefo, depois de perder o sumo sacerd\u00f3cio, nos bastidores, An\u00e1s continuou a ser, por muitos anos, o homem forte da aristocracia sacerdotal e do Sin\u00e9drio, poder religioso teocr\u00e1tico comandado pelo sumo sacerdote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imprescind\u00edvel notar que \u201c<em>a Palavra de Deus foi dirigida a Jo\u00e3o (o Batista) no deserto<\/em>\u201d (Lc 3,2b), em uma \u00e9poca em que o povo estava sendo violentado nos seus direitos e subjugado pelo imperialismo romano, por reis repressores e opressores e por chefes do poder religioso que lamentavelmente eram c\u00famplices das opress\u00f5es dos poderes pol\u00edtico e econ\u00f4mico. \u00c9 nesse contexto que \u201c&#8230; <em>a Palavra de Deus foi dirigida a Jo\u00e3o Batista, no deserto<\/em>\u201d (Lc 3,2). Quem era o Jo\u00e3o a quem a palavra de Deus foi dirigida? Jo\u00e3o se tornou um grande l\u00edder popular e religioso que convocava o povo para empreender um radical processo de convers\u00e3o e se comprometer com a supera\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais (Lc 3,3-5). Onde a palavra de Deus foi ouvida? No \u2018deserto\u2019! N\u00e3o em deserto geogr\u00e1fico onde o sol \u00e9 escaldante e s\u00f3 existe areia, mas nos desertos sociol\u00f3gicos e existenciais: nas periferias, nas ocupa\u00e7\u00f5es, no meio dos camponeses, nas aldeias ind\u00edgenas, nos territ\u00f3rios dos Povos e Comunidades Tradicionais, no meio dos milh\u00f5es de pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, no meio do povo negro, nos terreiros e nos centros religiosos de matriz afrobrasileiras, todos violentados pelos que defendem \u201ca ordem e o progresso\u201d, cultuam a teologia da prosperidade e abusam do nome de Deus para acumular capital e tranquilizar consci\u00eancias que elegem fascistas para o poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Batista terminou sendo martirizado, pois se doou integralmente \u00e0 causa da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem desigualdades sociais, econ\u00f4micas e culturais. Ap\u00f3s nascer sem-terra, sem-teto, em uma col\u00f4nia, sob o imperialismo e na contram\u00e3o dos podres poderes, Jesus de Nazar\u00e9 experimentou no seu pr\u00f3prio corpo as agruras e as viol\u00eancias perpetradas pelo imperialismo romano, pelos reis dominadores e por um sin\u00e9drio (poder religioso) encastelado em mordomias e c\u00famplices de opress\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Ao saber que Jo\u00e3o Batista tinha sido preso (Mc 1,14) e posto em uma penitenci\u00e1ria de seguran\u00e7a m\u00e1xima, Jesus de Nazar\u00e9 iniciou sua miss\u00e3o p\u00fablica que visava liberta\u00e7\u00e3o integral de todos e tudo, o que passa pela constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa, solid\u00e1ria, democr\u00e1tica politicamente, sustent\u00e1vel ecologicamente e ecum\u00eanica religiosamente. Jesus de Nazar\u00e9 viveu a vida consolando os aflitos e incomodando os opressores. Os oprimidos da \u00e9poca (pastores e magos) viram naquele menino que nascia em uma ocupa\u00e7\u00e3o na periferia da cidadezinha de Bel\u00e9m Deus nos visitando (Lc 2,1-20), Deus conosco, em n\u00f3s e em todas as pessoas, sem exce\u00e7\u00e3o! Enfim, feliz quem busca ouvir a Palavra de Deus nos \u2018desertos\u2019 de hoje, junto aos Jo\u00e3o Batistas da atualidade, e vira as costas ao que \u00e9 ecoado dos pal\u00e1cios do Estado (Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio), do capital (Empresas transnacionais), do poder midi\u00e1tico e dos templos luxuosos que mais tramam viol\u00eancia contra o povo e todos os biomas do que constroem pol\u00edticas p\u00fablicas para o bem comum. \u201cToda carne ver\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o\u201d (Lc 3,6), pontua o evangelista Lucas. Ou seja, ningu\u00e9m pode ser exclu\u00eddo e nem discriminado do projeto do Deus da vida, que \u00e9 o projeto de Jesus Cristo: vida para todos e tudo, e conviv\u00eancia respeitosa. N\u00e3o basta ter natal feliz. \u00c9 preciso sermos natal, presen\u00e7a da luz e da for\u00e7a divina nos \u2018desertos\u2019 de hoje e ao lado dos Jo\u00e3os de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BH, 05\/12\/2024.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> JOSEFO, Fl\u00e1vio. Antiguidades Judaicas, XVIII, 11, 4, n. 318; cf. Guerra Judaica I, 33, 8, nn. 668-669.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lc 3,1-6 &#8211;\u00a0ADVENTO, PALAVRA DE DEUS NO \u201cDESERTO\u201d E N\u00c3O NOS PAL\u00c1CIOS. Por frei Gilvander Moreira[1] Advento. Ventos natalinos soprando. De onde e para onde? Que tipo de vento? 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