{"id":3473,"date":"2018-12-30T11:41:10","date_gmt":"2018-12-30T13:41:10","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3473"},"modified":"2018-12-31T09:47:26","modified_gmt":"2018-12-31T11:47:26","slug":"%ef%bb%bftributo-a-irma-alberta-girardi-mae-dos-pobres-e-dos-direitos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/%ef%bb%bftributo-a-irma-alberta-girardi-mae-dos-pobres-e-dos-direitos-humanos\/","title":{"rendered":"\ufeffTributo a Irm\u00e3 Alberta Girardi, M\u00e3e dos Pobres e dos Direitos Humanos."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Tributo a Irm\u00e3 Alberta Girardi, M\u00e3e dos Pobres e dos Direitos Humanos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"276\" height=\"183\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Irm\u00e3-Alberta.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3474\"\/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/100nonni.com\">http:\/\/100nonni.com<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Aos 97 anos, com o s\u00edmbolo de compromisso com os mais pobres em um dos dedos &#8211; anel de tucum -, morreu e ressuscitou na madrugada de hoje, dia 30 de dezembro de 2018, IRM\u00c3 ALBERTA GIRARDI &#8211; Dina Girardi era o nome de batismo dela -, verdadeiramente uma MULHER PROF\u00c9TICA que viveu colocando em pr\u00e1tica a Op\u00e7\u00e3o pelos Pobres. Como integrante da Congrega\u00e7\u00e3o das Pequenas Irm\u00e3s Mission\u00e1rias da Caridade (ORIONITAS), Irm\u00e3 Alberta viveu e lutou a vida toda consolando os aflitos e injusti\u00e7ados e incomodando os opressores.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nirm\u00e3 Alberta, conhecida por seu vasto trabalho em favor dos mais pobres, dentre\neles os trabalhadores rurais sem-terra, os irm\u00e3os de rua e as crian\u00e7as, foi\nmais uma vez reconhecida por seu trabalho. Ap\u00f3s ganhar em 2007 o pr\u00eamio Franz\nde Castro Holzwwarth da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), foi agraciada tamb\u00e9m\ncom o Pr\u00eamio Especial dos Direitos Humanos, concedido durante a Primeira Mostra\nde Direitos Humanos em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3 Alberta Girardi nasceu em Quarto de Altino, Veneza, It\u00e1lia, no dia 24 de outubro de 1921, um ano antes da ascens\u00e3o do fascismo em seu pa\u00eds . Chegou ao Brasil em janeiro de 1970, em plena ditadura militar, e foi enviada diretamente \u00e0 cidade de Aragua\u00edna, ent\u00e3o estado de Goi\u00e1s, onde trabalhou at\u00e9 1986. Trabalhou em uma casa de acolhida para migrantes e logo se deparou com o sofrimento dos posseiros, expulsos da terra concedida com documentos do bispo, de Porto Nacional, por falta de cart\u00f3rio.&nbsp;O projeto da ditadura militar-civil-empresarial era mecanizar o campo. Com esse projeto de mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura, os fazendeiros foram expulsando os pobres violentamente. Diante dessa realidade, da necessidade de defender os pobres do campo, nasceu em 1975 a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), vinculada \u00e0 CNBB (Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil). Em 1979, irm\u00e3 Alberta se envolveu na luta do povo campon\u00eas. \u201cConvivi com padre Josimo Moraes Tavares. A realidade imposta pela ditadura era a de que n\u00e3o se devia proteger os pobres e quer\u00edamos fazer isso. Fui amea\u00e7ada de morte tamb\u00e9m\u201d, lembra Irm\u00e3 Alberta. Ela trabalhou com o padre Josimo, muito admirado por ela, at\u00e9 dia 10 de maio de 1986, momento em que ele foi assassinado em Imperatriz, no Maranh\u00e3o. Padre Josimo, jovem sacerdote com 33 anos de idade, era coordenador da CPT no Bico do Papagaio, um territ\u00f3rio no estado do Tocantins que abrange 25 munic\u00edpios. Irm\u00e3 Alberta foi companheira de Padre Josimo na luta pela terra e em defesa dos camponeses violentados pelo latif\u00fandio e pelos latifundi\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"274\" height=\"184\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Irm\u00e3-Alberta-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3475\"\/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/100nonni.com\">http:\/\/100nonni.com<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3 Alberta teve que deixar a cidade quando o padre Josimo Tavares, seu companheiro de trabalho pastoral, foi assassinado a mando de cinco fazendeiros. Irm\u00e3 Alberta havia tamb\u00e9m sido jurada de morte.  <br>Ela se refugiou em Curralinho, no estado do Par\u00e1, onde trabalhou durante nove anos. L\u00e1 trabalhou em um pequeno hospital, e teve que fazer as vezes de vig\u00e1rio, j\u00e1 que a cidade n\u00e3o contava com p\u00e1roco, atuando na forma\u00e7\u00e3o de catequistas, trabalhando nas pastorais da fam\u00edlia, dos doentes e da juventude. Posteriormente, trabalhou junto \u00e0s Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) ribeirinhas da Ilha de Maraj\u00f3, no Par\u00e1, e em outras localidades. Em 1997 foi transferida para S\u00e3o Paulo e trabalhou na CPT (Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, \u00f3rg\u00e3o da CNBB hoje presidida por Dom Andr\u00e9, bispo da Diocese de Rui Barbosa, BA). <\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, chegou a S\u00e3o Paulo, continuou contribuindo com a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra,  e ali conheceu a Fraternidade Povo de Rua, come\u00e7ando com seus volunt\u00e1rios as visitas feitas durante a noite aos moradores em situa\u00e7\u00e3o de rua. Foi nesse per\u00edodo tamb\u00e9m que passou a colaborar com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e passou a atuar no setor de Direitos Humanos.&nbsp;Tio Mauro, ex-pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua da capital de S\u00e3o Paulo, recorda: \u201cLembro da Irm\u00e3 Alberta e da Irm\u00e3 Nelsy que se colocaram entre n\u00f3s e a pol\u00edcia em uma ocupa\u00e7\u00e3o violenta em 2003. Aquelas fabulosas irm\u00e3s diziam que, para nos repelir, a pol\u00edcia deveria primeiro passar por cima delas. Hero\u00ednas! Agora, gra\u00e7as a ela, vivo com minha fam\u00edlia na aldeia da reforma agraria dedicada a Tomas Baldu\u00edno, cultivo meu campo e confio no futuro dos meus filhos\u201d, contou o agora assentado da reforma agr\u00e1ria ao projeto 100 nonni.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; <br>Em di\u00e1logo com o site do projeto 100 Nonni ela contou uma de suas experi\u00eancias de ocupa\u00e7\u00e3o de terra:&nbsp;\u201cOcupamos um terreno ao lado de uma penitenci\u00e1ria em um sub\u00farbio da Grande S\u00e3o Paulo. Eu, com meu h\u00e1bito de freira, estava diante da pol\u00edcia ao lado de um advogado chamado Bruno. Um capit\u00e3o da pol\u00edcia me perguntou o que estava fazendo naquele lugar. &#8216;O meu dever&#8217;, respondi. Eu tamb\u00e9m cumpro meu dever, ele retrucou. Chovia muito. Eram as duas da madrugada. Os policiais est\u00e3o acostumados a enfrentar a viol\u00eancia com viol\u00eancia. Uma m\u00e3e tinha duas crian\u00e7as no colo. Peguei uma delas e avancei! Um policial me fez cair com a criancinha. Nos empurravam at\u00e9 o asfalto e depois iam embora. N\u00f3s volt\u00e1vamos imediatamente. Era terra livre, do governo, mas os guardas da pris\u00e3o haviam se apossado dela para criar ovelhas e cavalos. Diziam que a terra era deles. Chamaram de novo a Pol\u00edcia Militar que nos empurrou pela segunda vez. Ent\u00e3o voltamos no dia seguinte com o dobro de fam\u00edlias. Come\u00e7amos a construir as barracas t\u00edpicas dos sem-terra, usando grandes sacos de pl\u00e1stico preto sobre uma arma\u00e7\u00e3o de madeira, com redes para dormir. Resistimos, recuamos, voltamos outras vezes\u2026 Nunca desistimos. Por fim conseguimos obter a resid\u00eancia provis\u00f3ria. Hoje, muitos anos depois, l\u00e1 pode ser encontrado um assentamento com 70 fam\u00edlias, 400 pessoas, com lotes de 3 a 4 hectares para cada n\u00facleo familiar, morando em casas de alvenaria feitas no regime de mutir\u00e3o. Cultivam acerola, caqui, abacate, laranjas, bananas\u2026 Aqueles camponeses s\u00e3o todos meus irm\u00e3os\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3 Alberta chegou a morar em acampamento de trabalhadores rurais Sem Terra por dois anos. Hoje, no km 27 da Rodovia Anhanguera h\u00e1 um assentamento que leva seu nome: a Comuna da Terra Irm\u00e3 Alberta, que, ali\u00e1s, foi fonte de inspira\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o da Ocupa\u00e7\u00e3o Rururbana Dandara, em Belo Horizonte, MG, que hoje conta com 2.500 fam\u00edlias j\u00e1 constituindo um bairro organizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3\nAlberta nunca esqueceu sua origem: \u201cQuando eu tinha uns oito anos, a It\u00e1lia j\u00e1\nestava sob o fascismo de Benito Mussolini. Era um regime cruel e meu pai era\ncontra. Vivia meio escondido, mas sempre na luta. Isso ficou gravado na minha\nmem\u00f3ria e me fez ter muita admira\u00e7\u00e3o por ele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano antes de partir para a eternidade, Irm\u00e3 Alberta disse em entrevista Revista Fam\u00edlia Crist\u00e3<a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>: \u201cMinha miss\u00e3o foi cumprida. Se pudesse voltar atr\u00e1s, voltaria a viver e lutar ao lado dos sem-terra. A vida com eles resume um pouco a minha vida de miss\u00e3o.\u201d Parafraseando Bertold Brecht, dizemos: &#8220;H\u00e1 mulheres que lutam um dia e s\u00e3o boas, h\u00e1 outras que lutam um ano e s\u00e3o melhores, h\u00e1 as que lutam muitos anos e s\u00e3o muito boas. Mas h\u00e1 as que lutam toda a vida e s\u00e3o imprescind\u00edveis. Irm\u00e3 Alberta foi e continuar\u00e1 sendo imprescind\u00edvel em n\u00f3s, na luta!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Obrigado, Irm\u00e3 Alberta Girardi. Al\u00e9m de partilhar vida em plenitude, voc\u00ea continuar\u00e1 viva em n\u00f3s na luta. Irm\u00e3 Alberta, presente sempre na luta!<\/p>\n\n\n\n<p>Por\nfrei Gilvander Moreira, da CPT\/MG.<\/p>\n\n\n\n<p>Belo\nHorizonte, MG, 30\/1\/22018.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Cf. a entrevista na \u00edntegra aqui: <a href=\"https:\/\/www.paulinas.org.br\/familia-crista\/?system=news&amp;action=read&amp;id=14331 \">https:\/\/www.paulinas.org.br\/familia-crista\/?system=news&amp;action=read&amp;id=14331 <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tributo a Irm\u00e3 Alberta Girardi, M\u00e3e dos Pobres e dos Direitos Humanos. 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