{"id":3921,"date":"2019-04-01T16:10:09","date_gmt":"2019-04-01T19:10:09","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3921"},"modified":"2019-04-01T16:39:59","modified_gmt":"2019-04-01T19:39:59","slug":"%ef%bb%bfcarta-aberta-das-pastorais-sociais-do-campo-na-luta-por-justica-agraria-e-socioambiental-em-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/%ef%bb%bfcarta-aberta-das-pastorais-sociais-do-campo-na-luta-por-justica-agraria-e-socioambiental-em-minas-gerais\/","title":{"rendered":"\ufeffCarta aberta das Pastorais Sociais do Campo na luta por justi\u00e7a agr\u00e1ria e socioambiental, em Minas Gerais."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Carta aberta das\nPastorais Sociais do Campo na luta por justi\u00e7a agr\u00e1ria e socioambiental, em\nMinas Gerais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Assim fala o Senhor Deus: grita forte, sem cessar&#8230; e denuncia os crimes&#8230; ent\u00e3o invocar\u00e1s o Senhor e ele te atender\u00e1<\/em>\u201d (Isa\u00edas 58,1.9a)<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Pastorais_Campo_4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3922\" width=\"642\" height=\"231\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Pastorais_Campo_4.jpg 960w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Pastorais_Campo_4-300x108.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Pastorais_Campo_4-768x277.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 642px) 100vw, 642px\" \/><figcaption><em>Logotipos das Pastorais Sociais C\u00e1ritas, CPP, CIMI, SPM e CPT.<\/em> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Com as boas energias das lutas do m\u00eas de\nmar\u00e7o, especialmente do Dia Internacional das Mulheres, 08 de mar\u00e7o, as\nPastorais Sociais do Campo, em Minas Gerais \u2013 Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT),\nConselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI), Conselho de Pastoral dos Pescadores e\ndas Pescadoras (CPP), C\u00e1ritas Regional MG, Pastoral da Juventude Rural (PJR),\nServi\u00e7o de Pastoral dos Migrantes (SPM) e Pastoral Afro da Arquidiocese de\nMariana \u2013 v\u00eam a p\u00fablico, irmanadas na luta, denunciar e anunciar o que segue.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Minas Gerais, a viol\u00eancia no campo campeia desde 22 de abril de 1.500, no entrela\u00e7amento de propriedade capitalista da terra, renda e poder. O estado de Minas Gerais foi sede da capital brasileira Vila Rica, ainda no s\u00e9culo XVIII, em um processo de ac\u00famulo das riquezas forjado desde a invas\u00e3o pelos portugueses europeus, com o genoc\u00eddio de nossos parentes ancestrais. Os mais de cem povos ind\u00edgenas que habitavam o territ\u00f3rio mineiro hoje est\u00e3o resumidos a pouco mais de 15 mil ind\u00edgenas, em 17 territ\u00f3rios, constituindo apenas 14 povos &#8211; Xacriab\u00e1, Aran\u00e3, Maxacali, Xucuru-cariri, Patax\u00f3, Patax\u00f3 H\u00e3-h\u00e3-h\u00e3e, Puris, Pankararu, Krenak, Mukurin, Catu-Aw\u00e1-Arach\u00e1, Kiriri, Kamak\u00e3 Mongoi\u00f3, Tux\u00e1 e Kaxix\u00f3 \u2013 na luta pelos seus territ\u00f3rios para que sejam resgatados e demarcados de forma integral<a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p>Em Minas Gerais, o chamado agroneg\u00f3cio\nsurge com a imposi\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica agr\u00edcola que pregava a moderniza\u00e7\u00e3o da\nagricultura, moderniza\u00e7\u00e3o colonizadora e violentadora. Este modelo veio permitir\nque grandes empresas estrangeiras introduzissem insumos qu\u00edmicos no mercado\nbrasileiro, obtendo grandes lucros e tornando-nos dependentes de um \u2018pacote\u2019\ntecnol\u00f3gico imposto. Assim, nasce a Japan International Cooperation Agency\n(JICA) com o Programa de Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER) promovendo as\natividades do complexo agroindustrial. O ecossistema dos cerrados foi\nsubstitu\u00eddo por extensas \u00e1reas de monoculturas do caf\u00e9, da cana-de-a\u00e7\u00facar, da\nsoja e dos maci\u00e7os homog\u00eaneos do eucalipto.<a href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 grav\u00edssima essa expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio\nno bioma dos cerrados, o que implica em devasta\u00e7\u00e3o de \u2018uma floresta invertida\u2019.\nCarlos Walter Porto Gon\u00e7alves e outros pesquisadores dizem: \u201cOs Cerrados se\ncaracterizam por ser \u201cuma floresta invertida\u201d, como insistia uma das maiores\nautoridades em conhecimento dos Cerrados, o agr\u00f4nomo\/ge\u00f3grafo Carlos Eduardo\nMazzetto Silva (o saudoso Mazzan), pois para cada volume de biomassa sobre a\nsuperf\u00edcie, os Cerrados t\u00eam at\u00e9 sete vezes mais biomassa abaixo do solo\u201d (PORTO\nGON\u00c7ALVES, 2014, p. 92). <\/p>\n\n\n\n<p>As extensas planta\u00e7\u00f5es de soja\ncontaminam com agrot\u00f3xicos as nascentes dos c\u00f3rregos e dos rios, al\u00e9m de serem\ntamb\u00e9m respons\u00e1veis pelo confinamento dos pequenos agricultores nos grot\u00f5es das\nencostas dos gerais, \u201cencurralando-os\u201d com as monoculturas da soja ou do\neucalipto.<\/p>\n\n\n\n<p>Repudiamos este agroneg\u00f3cio, cuja\nprodu\u00e7\u00e3o em larga escala, \u00e9 feita em grandes extens\u00f5es de terra (latif\u00fandio),\ncom sofisticada tecnologia em quase monop\u00f3lio de empresas transnacionais, com uso\nindiscriminado de agrot\u00f3xico e, muitas vezes, com m\u00e3o de obra em condi\u00e7\u00f5es\nan\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o. Ap\u00f3s o desmatamento da maior parte dos cerrados,\nimplantada onde existiam os cerrados, a monocultura de eucalipto resseca a\nterra, seca nascentes, escorra\u00e7a os p\u00e1ssaros, expulsa os camponeses que s\u00e3o\nobrigados a vender suas pequenas propriedades por falta d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte dos conflitos de terra em\nMinas acontece em terras devolutas. Al\u00e9m das demandas das fam\u00edlias sem-terra,\nexistem no estado de Minas Gerais mais de 800 \u00e1reas de remanescentes de\nquilombos que est\u00e3o em processo de autorreconhecimento, reivindicando titula\u00e7\u00e3o\ne demarca\u00e7\u00e3o. Apenas entre 2004 e 2007, foram reconhecidas pela Funda\u00e7\u00e3o\nPalmares, em Minas Gerais, 81 comunidades quilombolas.<a href=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> N\u00e3o h\u00e1 em Minas Gerais\nnenhuma comunidade quilombola titulada, o que \u00e9 uma injusti\u00e7a que clama aos\nc\u00e9us. No Maranh\u00e3o h\u00e1 mais de 80 comunidades quilombolas tituladas e no Par\u00e1\nmais de 50. <\/p>\n\n\n\n<p>Minas Gerais \u00e9 o \u00fanico estado que tem\nMinas no nome, minas de \u00e1gua e de min\u00e9rio, mas as grandes mineradoras, como a\nVALE, est\u00e3o causando um colapso nas condi\u00e7\u00f5es de vida da maior parte dos\nmunic\u00edpios do estado, pois a minera\u00e7\u00e3o devastadora socioambientalmente chegou \u00e0\nexaust\u00e3o! Somente em rompimentos de barragens (crimes e trag\u00e9dias anunciadas), j\u00e1\n&nbsp;matou milhares de vidas humanas em uma\ncrueldade sem limites! Em 1717, negros escravizados j\u00e1 eram soterrados nas\ngrutas de minera\u00e7\u00e3o em Vila Rica; em meados de 1844, na Mina de Cata Branca,\nmunic\u00edpio de Itabirito, \u00e0 \u00e9poca, alvo da explora\u00e7\u00e3o aur\u00edfera, por uma empresa\nbrit\u00e2nica chamada Saint John del Rey Mining Company, houve o desabamento da\ngaleria explorada e o soterramento de centenas de oper\u00e1rios escravos.\nEmpres\u00e1rios ingleses mandaram inundar a galeria para matar afogados nossos\nirm\u00e3os negros soterrados que gritavam por socorro. Em 21 de novembro de 1867,\nna Mina de Morro Velho, no munic\u00edpio de Nova Lima, um desabamento matou 17 negros\nescravizados e um trabalhador ingl\u00eas. Mais recentemente, rompimentos de\nbarragens, nas minas de Fernandinho (1986) e Herculano (2014), em Itabirito;\nRio Verde (2001), no distrito de Macacos, em Nova Lima; e da Minera\u00e7\u00e3o Rio\nPomba (2008), em Mira\u00ed, redundaram em dezenas de outras mortes e preju\u00edzos\nirrevers\u00edveis ao meio ambiente de Minas Gerais. Em Bento Rodrigues, Mariana,\ndia 05\/11\/2015, o rompimento de barragem matou na hora 19 pessoas e, depois, em\ntr\u00eas anos, outras 30 pessoas morreram por causa dos traumas e consequ\u00eancias;\nmatou o rio Doce at\u00e9 \u00e0 sua foz, adoecendo pessoas e exterminando a atividade\npesqueira com todo um modo de vida tradicional. Dia 25\/01\/2019, em Brumadinho, com\nlicen\u00e7a do Estado, a mineradora VALE, criminosa reincidente, com o crime\ntrag\u00e9dia de rompimentos de outras barragens, matou mais de 310 pessoas, matou o\nRio Paraopeba e apunhalou mais ainda o j\u00e1 golpeado Rio S\u00e3o Francisco. V\u00e1rias\npessoas j\u00e1 morreram ap\u00f3s o crime iniciado dia 25\/01\/2019, em Brumadinho, por\nfalta de estrada para chegar ambul\u00e2ncia, por ataque card\u00edaco, &nbsp;entre outras ocorr\u00eancias relacionadas \u00e0s\nconsequ\u00eancias desse crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, as Pastorais\nSociais do Campo, em Minas Gerais, irmanadas na luta ao lado das camponesas e\ncamponeses, experimentam, no estado, a dolorosa pol\u00edtica de retrocesso de\ndireitos b\u00e1sicos inerentes \u00e0 vida, nos n\u00edveis de governos federal e estadual. O\ngoverno Romeu Zema est\u00e1 alinhado \u00e0s pol\u00edticas privatistas do governo Bolsonaro\nsob interesse do capital, e coloca a terra, a irm\u00e3 \u00e1gua e os recursos da terra a\nservi\u00e7o da tirania dos capitalistas. Enquanto isso, povos e comunidades\ntradicionais e o povo superexplorado do campo e da cidade seguem na mira da\nviol\u00eancia contra suas exist\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais que os grandes empres\u00e1rios\ndisseminem agrot\u00f3xicos e devasta\u00e7\u00e3o socioambiental, as Pastorais Sociais do\nCampo continuam junto com as Comunidades Camponesas que seguem resistindo, testemunhando\nque o caminho da vida para todos e todas passa, necessariamente, pela\nconstru\u00e7\u00e3o de uma Sociedade do Bem Viver e Bem Conviver. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>PORTO\nGON\u00c7ALVES, Carlos Walter; CUIN, Danilo Pereira; LEAL, Leandro Teixeira; NUNES\nSILVA, Marlon. Dos Cerrados e de suas riquezas. In: Conflitos no Campo Brasil\n2014. Goi\u00e2nia: CPT Nacional, p. 88-95, 2014. <\/p>\n\n\n\n<p>Assinam esta Carta aberta:<\/p>\n\n\n\n<p>Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP)<\/p>\n\n\n\n<p>Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI)<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e1ritas Brasileira Regional MG<\/p>\n\n\n\n<p>Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT\/MG)<\/p>\n\n\n\n<p>Servi\u00e7o Pastoral dos Migrantes (SPM)<\/p>\n\n\n\n<p>Pastoral da Juventude Rural (PJR)<\/p>\n\n\n\n<p>Pastoral Afro Brasileira da Arquidiocese\nde Mariana.<\/p>\n\n\n\n<p>Belo Horizonte, MG, 1\u00ba de abril de 2019.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Cf. <a href=\"http:\/\/www.cedefes.org.br\/povos-indigenas-destaque\/\">http:\/\/www.cedefes.org.br\/povos-indigenas-destaque\/<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a>\nA Lei Federal n\u00ba 5106, de 02\/9\/1966, sancionada pelo general Castelo Branco, concedia&nbsp;incentivos fiscais&nbsp;a empresas e fazendeiros \u2013 abatimento\nde at\u00e9 50% do Imposto de Renda para pessoas f\u00edsicas e jur\u00eddicas &#8211; que implementassem\nmonocultura de eucalipto nos cerrados.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a>\nCf. Sobre hist\u00f3ria e resist\u00eancia dos quilombolas em Minas Gerais, cf. CEDEFES\n(Org.). <strong>Comunidades quilombolas de Minas\nGerais no s\u00e9culo XXI: hist\u00f3ria e resist\u00eancia<\/strong>. Belo Horizonte:\nAut\u00eantica\/CEDEFES, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta aberta das Pastorais Sociais do Campo na luta por justi\u00e7a agr\u00e1ria e socioambiental, em Minas Gerais. \u201cAssim fala o Senhor Deus: grita forte, sem cessar&#8230; e denuncia os crimes&#8230; ent\u00e3o invocar\u00e1s o Senhor e<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3922,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,47,38,49,48,39,35,27,30,25,29,33,43],"tags":[],"class_list":["post-3921","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-direito-a-agua","category-direito-a-saude","category-direito-a-terra","category-direitos-das-mulheres","category-direitos-dos-povos-indigenas","category-direitos-dos-quilombolas","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-luta-pela-terra-e-reforma-agraria","category-movimentos-sociais-populares","category-nota-publica","category-pedagogia-emancipatoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3921","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3921"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3921\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3924,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3921\/revisions\/3924"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3922"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}