{"id":4320,"date":"2019-06-18T15:31:33","date_gmt":"2019-06-18T18:31:33","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=4320"},"modified":"2019-06-18T15:31:36","modified_gmt":"2019-06-18T18:31:36","slug":"tributo-a-dom-moacyr-grechi-homem-imprescindivel-nas-cebs-cimi-cpt-igreja-com-opcao-pelos-pobres-e-na-luta-por-uma-sociedade-justa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/tributo-a-dom-moacyr-grechi-homem-imprescindivel-nas-cebs-cimi-cpt-igreja-com-opcao-pelos-pobres-e-na-luta-por-uma-sociedade-justa\/","title":{"rendered":"Tributo a Dom Moacyr Grechi, homem imprescind\u00edvel nas CEBs, CIMI, CPT, Igreja com Op\u00e7\u00e3o pelos Pobres e na luta por uma sociedade justa."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Tributo a Dom Moacyr Grechi, homem imprescind\u00edvel nas CEBs, CIMI, CPT, Igreja com Op\u00e7\u00e3o pelos Pobres e na luta por uma sociedade justa. <\/strong>Por Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Dom_Moacir_Grechi.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4321\" width=\"644\" height=\"398\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Dom_Moacir_Grechi.jpg 590w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Dom_Moacir_Grechi-300x186.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 644px) 100vw, 644px\" \/><figcaption>Dom Moacyr Grechi. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o \/ CPT.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na tarde do dia 17 de junho de 2019, com\n83 anos, Dom Moacyr Grechi, partiu para a vida plena, terna e eterna. Nascido\ndia 19 de janeiro de 1936, na cidade de Turvo, SC, Dom Moacyr Grechi se tornou membro\nda Ordem dos Servos de Maria. Foi nomeado bispo pelo papa Paulo VI, em 1972, e\ndirigiu a ent\u00e3o Prelazia de Rio Branco, AC, at\u00e9 1998, durante 26 anos, quando\nfoi promovido a arcebispo de Porto Velho, Rond\u00f4nia. Trabalhando no Acre e em\nRond\u00f4nia, ele se destacou pela atua\u00e7\u00e3o em defesa dos ind\u00edgenas, dos seringueiros\ne dos camponeses. Dom Moacyr denunciou a viol\u00eancia agr\u00e1ria e ambiental na\nregi\u00e3o amaz\u00f4nica e lutou pela puni\u00e7\u00e3o dos assassinos de Chico Mendes, que\nconheceu na milit\u00e2ncia das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base).&nbsp;Um dos\nfundadores do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI), da Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e\nPaz de Rond\u00f4nia e da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), durante oito anos, Dom\nMoacyr Grechi foi presidente da CPT, cargo que ampliou sua proje\u00e7\u00e3o como um dos\nprincipais nomes da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Dom\nMoacyr denunciou Hildebrando Pascoal, condenado a mais de 100 anos de pris\u00e3o,\nporque se tornou \u201co assassino da motosserra\u201d, ex-coronel da pol\u00edcia militar do\nAcre que se tornou deputado do PFL e mandava matar seringueiros e camponeses com\nrequintes de crueldade, serrando alguns com motosserra, inclusive. Como arcebispo da arquidiocese\nde Porto Velho, Dom Moacyr foi o anfitri\u00e3o do 12\u00ba Intereclesial das CEBs que\naconteceu em Porto Velho, de 21 a 25 de julho de 2009 e teve como Tema: <strong><em>CEBs:\nEcologia e Miss\u00e3o \u2013 Do ventre da terra, o grito que vem da Amaz\u00f4nia<\/em><\/strong>.\n&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que j\u00e1 era admirador de Dom Moacyr Grechi\ndesde 1985 quando comecei a ouvir sobre a atua\u00e7\u00e3o pastoral libertadora dele, tive\na grande alegria de participar ao lado de Dom Moacyr Grechi de um Semin\u00e1rio\nNacional das CEBs em Porto Velho, em 2008, e depois do 12\u00ba Intereclesial das\nCEBs. Inesquec\u00edvel ver e testemunhar como Dom Moacyr, ap\u00f3s sofrer dois graves\nacidentes de tr\u00e2nsito, se apoiando em uma muleta, era admirado e querido pelo\npovo das CEBs. Todo mundo queria abra\u00e7\u00e1-lo. Tornou-se um refr\u00e3o do 12\u00ba Intereclesial\ndas CEBs uma das afirma\u00e7\u00f5es que Dom Moacyr gostava de repetir: \u201c<em>Gente pequena, fazendo coisas pequenas, em\nlugares n\u00e3o importantes, conseguem mudan\u00e7as extraordin\u00e1rias<\/em>\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>De 12 a 17 de julho de 2015, Dom Moacyr\nGrechi acolheu em Porto Velho, Rond\u00f4nia, o IV Congresso Nacional da CPT. Sua\npresen\u00e7a no meio dos 1000 camponeses animava o compromisso da CPT mesmo no\nin\u00edcio de uma noite escura que se abatia sobre o povo brasileiro. Ao saudar\nos\/as camponeses, nesse IV Congresso da CPT, Dom Moacyr profeticamente alertava\na todos\/as: \u201c<em>N\u00e3o se afastem das ra\u00edzes da\nCPT e nem da m\u00edstica do Evangelho de Jesus Cristo, nosso fundamento<\/em>\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2008, Dom Moacyr&nbsp;Grechi concedeu\nentrevista <strong>\u00e0 jornalista\nZez\u00e9 Weiss, autora do livro <\/strong><em>Vozes\nda Floresta<\/em>, Editora Xapuri. Transcreveremos, abaixo, parte do depoimento de\nDom Moacyr que est\u00e1 publicado no livro acima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Cheguei\nao Acre em 1971, para cuidar Prelazia do Acre e Purus, hoje Diocese de Rio\nBranco, justo no momento em que come\u00e7ava a rea\u00e7\u00e3o dos seringueiros e posseiros\npara ficar nas suas terras. Sou natural de Santa Catarina, mas nessa \u00e9poca eu\nera o superior da ordem religiosa dos Servos de Maria, com sede em S\u00e3o Paulo, e\nera tamb\u00e9m o provincial respons\u00e1vel pelo Acre.&nbsp; Com a morte do bispo, o\nPapa me indicou para ser o novo bispo da Prelazia. Sorte minha, porque foi o\npovo do Acre que me ensinou a ser crist\u00e3o, a ser bispo, a me comprometer com o\nlado justo. Esse povo que eu hoje considero como a minha pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O\nAcre me quer muito e me honra com muitas homenagens. Tem um instituto do\ngoverno com o meu nome, tem tamb\u00e9m um povoado, uma vila, um lugar do povo\nchamado Vila Dom Moacyr, onde acontece uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada, porque na placa\ndo \u00f4nibus que vai para essa vila est\u00e1 escrito s\u00f3 Dom Moacyr. Ent\u00e3o o povo fica\nfalando: cad\u00ea Dom Moacyr? Dom Moacyr j\u00e1 vem? Dom Moacyr j\u00e1 passou? E hoje deve\nestar diferente, mas no come\u00e7o muita gente ficava em d\u00favida se era o bispo ou o\n\u00f4nibus que estava demorando, que estava vindo, ou que estava voltando. Essa \u00e9\napenas uma das muitas hist\u00f3rias da minha amizade e da minha aprendizagem com o\npovo do Acre. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Lembro-me\nda vez em que um grupo de m\u00e3es foi me pedir para visitar um seringal perto de\nRio Branco, o Ipiranga, onde o dono estava sendo denunciado por cometer atos de\nviol\u00eancia contra os seus filhos e os seus maridos. As m\u00e3es, os parentes, vieram\ntr\u00eas vezes \u00e0 minha casa pedir socorro, e eu nunca ia. At\u00e9 que, na terceira\nvisita deles, um dos homens mais velhos, um senhor de mais de 80 anos, olhou\nbem pra mim e disse: Dom Moacyr, o senhor \u00e9 o bispo, o senhor \u00e9 a autoridade,\nsenhor \u00e9 quem sabe, mas eu sou mais velho, e se eu fosse o senhor eu j\u00e1 tinha\nido l\u00e1 conferir se o que estamos falando \u00e9 verdade ou n\u00e3o. Eu pra n\u00e3o ficar de\nfrouxo fui, e essa visita mudou muito a minha vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em\nRio Branco, tomei como miss\u00e3o organizar as Comunidades Eclesiais de Base por\ntoda a Prelazia. As CEBs eram c\u00e9lulas de evangeliza\u00e7\u00e3o, de ora\u00e7\u00e3o e de\nfraternidade, mas eram tamb\u00e9m onde se formava a consci\u00eancia para a organiza\u00e7\u00e3o\nsindical e, um pouco mais tarde, para a forma\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores.\nForam as CEBs que prepararam as bases do movimento social para a constru\u00e7\u00e3o dos\nsindicatos e do Partido. Com o tempo, em todo lugar da Prelazia havia uma CEB.\nEm Assis Brasil, as CEBs eram t\u00e3o fortes que esse acabou sendo o \u00fanico lugar\nonde o Lula nunca perdeu uma elei\u00e7\u00e3o. Nos tempos dif\u00edceis ele perdia no Brasil\ntodo, mas em Assis Brasil o Lula sempre ganhou.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Com\ntudo isso a Igreja Cat\u00f3lica acabou sendo uma esp\u00e9cie de \u00fatero materno para a\ngesta\u00e7\u00e3o de um sindicalismo independente e lutador, cujos l\u00edderes depois\nformaram o PT. Alguns me diziam: \u201cMas Dom Moacyr, n\u00e3o pode, o senhor tem que\nser um bispo de todos, o senhor n\u00e3o pode ser um bispo do PT.\u201d Em resposta, eu\nsempre dizia e digo que apenas prestava meu apoio \u00e0s&nbsp; pessoas generosas\nque exerciam sua f\u00e9 crist\u00e3 lutando por paz e por justi\u00e7a social. Eu entendia\naquele povo pobre que fazia o PT para conquistar mais direitos, porque eles j\u00e1\ntinham percebido que o sindicato s\u00f3 vai at\u00e9 certo ponto. E deu certo, porque\nat\u00e9 hoje o Acre tem um dos PTs mais bonitos do Brasil, um PT que conseguiu\nmudar o rosto do Acre, que foi capaz de chegar ao poder sem se afastar do povo\ne das lutas populares.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Assim\nque, quando chegou o Jo\u00e3o Maia para fundar os Sindicatos, o pessoal j\u00e1 estava\npreparado. Nesse tempo as reuni\u00f5es do sindicato eram feitas sempre em ambiente\nde igreja, a pol\u00edcia era corrupta at\u00e9 o osso, os pol\u00edticos uns incapazes, e o\nEx\u00e9rcito um bando de gente com medo do comunismo e da subvers\u00e3o, a maioria\ndeles sem saber o que era isso, mas com medo. Era um tempo em que a viol\u00eancia\ncontava com a total coniv\u00eancia das autoridades, em que a pol\u00edcia era corrupta e\nvendida, e em que o Ex\u00e9rcito vivia apavorado. O Jo\u00e3o Maia \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o\npode nunca ser esquecida, porque ele foi um homem corajoso que teve o valor de\norganizar os seringueiros dentro dessa conjuntura totalmente desfavor\u00e1vel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O\nJo\u00e3o Maia era um Delegado da CONTAG que veio ao Acre para fundar os sindicatos.\nEle era um ex-seminarista alegre e brincalh\u00e3o que gostava de falar em Latim\ncomigo. Ele tinha uma marca, que era o di\u00e1logo com todos, e ele sempre me\ndizia: Dom Moacyr, aprende isso \u2013 o di\u00e1logo \u00e9 a chave da sobreviv\u00eancia nessa\nterra. Ele lutava por um sindicalismo independente, mas nem por isso deixava de\nconversar com o governador, com a pol\u00edcia, com o Ex\u00e9rcito. Ele formou\nexcelentes lideran\u00e7as, fundou muitos sindicatos, era&nbsp; destemido e ousado.\nFoi dele a ideia&nbsp;criativa de prender os jagun\u00e7os durante o Mutir\u00e3o que os\nsindicatos fizeram em Boca do Acre. Junto com o Jo\u00e3o Maia estava sempre o Pedro\nMarques, advogado muito bom de luta, muito did\u00e1tico, que tinha um jeito muito\nespecial de ensinar o Estado da Terra e o C\u00f3digo Civil para os seringueiros.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu\nme lembro do dia em que o Jo\u00e3o Maia me pediu para emprestar um sal\u00e3o da Igreja\npara fazer a assembleia de funda\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de\nRio Branco. Como eu sabia que vinham muitos, como de fato chegaram mais de 1000\nseringueiros e posseiros, eu acabei cedendo a pr\u00f3pria Catedral. Do lado de\ndentro estavam os trabalhadores, e do lado de fora estava o Ex\u00e9rcito armado com\nescudos e metralhadoras, cercando os trabalhadores como se estivessem cercando\nbandidos. Como se os seringueiros n\u00e3o estivessem apenas lutando com compromisso\ne com f\u00e9 para mudar um pouco o rumo das coisas que afetavam suas vidas. Era um\ntempo muito duro, com o Ex\u00e9rcito em cima, sempre tentando intimidar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Teve\numa reuni\u00e3o na minha casa, da CPT com o CIMI, que o Ex\u00e9rcito tentou gravar. Uma\nfreira muito esperta viu um gravador pequeninho na janela, e esse gravador era\ndo Ex\u00e9rcito. Como eu era Presidente Nacional da CPT \u2013 passei oito anos da\nditadura militar como presidente da CPT \u2014 o Mino Carta deu uma nota no jornal\n\u201cA Rep\u00fablica\u201d registrando o incidente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Anos\ndepois as den\u00fancias de que eu vivia marcado para morrer se confirmaram. Muito\ndoente, o Tufik Assmar, dono da Rede Globo no Acre, por uma necessidade de\nconsci\u00eancia mandou me chamar e disse: \u201cDom Moacyr, o senhor \u00e9 meu amigo, e eu\nn\u00e3o posso morrer sem que o senhor saiba que teve um momento em que um militar\nme visitou para informar que estavam se preparando para matar o senhor, e eu\ndisse a ele que n\u00e3o, que nem pensar, que se matassem o senhor eu botava a boca\nno mundo, eu contava para o Brasil inteiro.\u201d E imagina que a Globo come\u00e7ou l\u00e1\nna minha casa, uma emissora muito pobre.&nbsp; &nbsp;Vinha a Copa com todo\nmundo querendo ver os jogos e o Assmar, que era um grande propriet\u00e1rio de\nterras, mas que estava come\u00e7ando no campo da comunica\u00e7\u00e3o, me pediu para\ninstalar os seus equipamentos de baixa qualidade no quarto da minha casa, que\nera o ponto mais alto da cidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Esse\nfoi um tempo em que crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os \u2013 no Centro de Defesa dos Direitos\nHumanos tinha at\u00e9 um ateu confesso, e tinha o Abrahim Farhat, o nosso Ll\u00e9, de\norigem libanesa, e em Xapuri tinha o Bacurau, um hanseniano que n\u00e3o tinha m\u00e3o\nnem p\u00e9, totalmente dedicado, enfim, pessoas que se juntaram aos seringueiros e\nposseiros para lutar pela manuten\u00e7\u00e3o da terra. Foi o povo da igreja, o Nilson\nMour\u00e3o, um menin\u00e3o que depois se tornou muito importante porque fazia a liga\u00e7\u00e3o\nda f\u00e9 com o aspecto pol\u00edtico, o Padre Paulino e o Padre Pac\u00edfico, junto com os\ncomunistas e com um advogado do INCRA chamado Juraci que fizeram o Catecismo da\nTerra, um folheto barato e simples, com apenas cinco perguntas e cinco\nrespostas, mas que foi o primeiro instrumento de resist\u00eancia dentro da\nfloresta. Quem n\u00e3o sabia ler pregava na parede da casa e quando chegava um\ncapataz dizendo \u2013 o senhor tem que sair, porque essa terra agora tem outro\ndono, a resposta sempre era: n\u00e3o senhor, eu n\u00e3o saio, o senhor veja a\u00ed o que\nmeu direito est\u00e1 escrito no Catecismo da Terra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quando\nconheci o Chico Mendes, ele era um participante das CEBS, mas sem grande fervor\nreligioso. Algumas vezes ele acompanhava a mim e \u00e0s irm\u00e3s nas visitas\npastorais, outras vezes ele at\u00e9 rezava o ter\u00e7o conosco nas comunidades, mas o\nque ele queria mesmo era falar de pol\u00edtica e de organiza\u00e7\u00e3o. Desde a primeira\nvez que o vi j\u00e1 estava claro que ele tinha uma certa forma\u00e7\u00e3o. Depois ele mesmo\nme contou como foi alfabetizado e iniciado na pol\u00edtica por uma certa pessoa que\nviveu na regi\u00e3o. Mas como sindicalista era praticamente um desconhecido at\u00e9 ser\neleito secret\u00e1rio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, durante a\nassembleia de funda\u00e7\u00e3o, em 1973, e ele s\u00f3 se tornou a principal lideran\u00e7a do\nmovimento depois do assassinato do Wilson Pinheiro em 1980.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O\nChico Mendes come\u00e7ou na luta como todo seringueiro, brigando pela posse, para\npermanecer na terra, para ficar na floresta.&nbsp; Foram um pouco as\ncircunst\u00e2ncias que fizeram dele essa lideran\u00e7a t\u00e3o excepcional. Al\u00e9m do preparo\nideol\u00f3gico, ele tinha aquele jeito natural de falar e de se entender com todo\nmundo. Em Xapuri nessa \u00e9poca tinham tr\u00eas padres, o padre Jos\u00e9, o padre Ot\u00e1vio e\no padre Cl\u00e1udio. O padre Jos\u00e9 sempre foi contra ele, mas os padres Ot\u00e1vio e\nCl\u00e1udio eram seus amigos, sempre o favoreceram. Mesmo assim, ele falava igual\ncom os tr\u00eas, ele fazia quest\u00e3o de dialogar tamb\u00e9m com o padre Jos\u00e9 que n\u00e3o se\nengra\u00e7ava com ele. Mas o Chico Mendes foi fruto tamb\u00e9m de um momento de\nsensibilidade ambiental pela qual o mundo estava passando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No\ncome\u00e7o nem o Chico Mendes, nem ningu\u00e9m falava de defesa da floresta como um\ntodo. Nessa evolu\u00e7\u00e3o para o aspecto ecol\u00f3gico, para levar o pensamento dos\nseringueiros para as pessoas de fora da floresta, o Chico Mendes contou com um\napoio muito importante da Mary Allegretti. Eu nem sempre concordei com ela, mas\npara ser justo eu tenho que reconhecer que a Mary contribuiu muito para que o\nChico Mendes se transformasse nesse s\u00edmbolo de luta pac\u00edfica em defesa da\nAmaz\u00f4nia conhecido no mundo todo. Imediatamente depois da morte dele, eu fui\nconvidado para a Europa e na It\u00e1lia eu quase n\u00e3o dava conta de tanta gente\nquerendo saber mais sobre a luta dele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em\nParis, participei de uma grande confer\u00eancia pela paz, onde o Chico Mendes foi\ncolocado junto com Desmond Tutu, Gandhi e Martin Luther King como um dos quatro\ngrandes defensores da paz no mundo. E pensar que o Chico Mendes tantas vezes\nfoi me ver, foi na minha casa dizer que estava para morrer, que se sentia muito\namea\u00e7ado, que tinha certeza que n\u00e3o ia viver\u2026 E eu brincava com ele, dizia: \u201cmorre\nnada, Chico, esses cabras n\u00e3o t\u00eam coragem de te pegar.\u201d Mas ele come\u00e7ou a fu\u00e7ar\nfundo, e acabou encontrando provas contra as pessoas que amea\u00e7avam ele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um\ndia o Chico Mendes chegou l\u00e1 em casa com uma carta precat\u00f3ria de pris\u00e3o\npreventiva contra o Darli Alves, o mesmo que depois assumiu como mandante do\nassassinato dele. \u201cDom Moacyr, pra quem \u00e9 que a gente entrega isso?\u201d Eu fui com\nele entregar a tal carta precat\u00f3ria para a Pol\u00edcia Federal que, em vez de agir\nr\u00e1pido, acabou demorando at\u00e9 que a coisa transpirou, chegou nos ouvidos do\nDarli, e pouco tempo depois o Chico foi assassinado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Hoje\nsou o Arcebispo da Diocese de Porto Velho, que tem 84.000 km2. Aqui tamb\u00e9m os\npovos das lutas t\u00eam muito carinho por mim, mas a organiza\u00e7\u00e3o popular ainda n\u00e3o cresceu\ntanto quanto cresceu no Acre. Aqui houve uma coloniza\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea e s\u00f3\nagora, dez anos depois da minha chegada, vejo as primeiras lideran\u00e7as nascidas\nno Estado. Aqui temos pela frente uma dura caminhada, porque agora v\u00eam as\nusinas hidrel\u00e9tricas, e a Amaz\u00f4nia continua sendo tratada como col\u00f4nia pelo\nresto do Brasil, que \u00e9 menor do que a Amaz\u00f4nia. O resto do Brasil est\u00e1\nacostumado a tirar tudo da Amaz\u00f4nia, e a n\u00e3o deixar nada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Com\nas usinas do Madeira, est\u00e1 acontecendo o mesmo de sempre. V\u00e3o ser feitos 4.000\nkm de rede para levar toda a energia das usinas direto para o sul do Brasil,\nenquanto que n\u00f3s aqui vamos continuar usando energia a \u00f3leo diesel para levar a\nluz at\u00e9 o Acre. Essa nova gera\u00e7\u00e3o vai ter que lutar muito para que a energia\nvinda da Amaz\u00f4nia ilumine pelo menos um pequeno peda\u00e7o da floresta. S\u00f3 assim a\nenergia tirada da \u00e1gua dos nossos grandes rios poder\u00e1 evitar o triste destino\nda madeira, do boi e da soja, cuja explora\u00e7\u00e3o sempre destr\u00f3i e sempre maltrata\na Amaz\u00f4nia<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, pelas fa\u00edscas de espiritualidade\nprof\u00e9tica apresentadas acima, intu\u00edmos que a atua\u00e7\u00e3o de Dom Moacyr Grechi ao\nlogo de toda sua vida o caracteriza de fato como um homem imprescind\u00edvel, como se\nreferia o revolucion\u00e1rio Bertolt Brecht a quem perseverava na luta a vida toda.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Belo Horizonte, MG, 18\/6\/2019.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Obs<\/strong>.: Abaixo, v\u00eddeo\nque versa sobre o assunto apresentado, acima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tributo\na Dom Moacyr Grechi, homem imprescind\u00edvel nas CEBs, CIMI, CPT &#8230; 18\/6\/2019<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_60009\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JF2cd4bjbvU?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>\nFrei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG;\nlicenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas;\nassessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais\nPopulares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\n<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\nFacebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tributo a Dom Moacyr Grechi, homem imprescind\u00edvel nas CEBs, CIMI, CPT, Igreja com Op\u00e7\u00e3o pelos Pobres e na luta por uma sociedade justa. Por Gilvander Moreira[1] Na tarde do dia 17 de junho de 2019,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4321,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,40,46,44,49,39,35,27,30,25,29,43,26,18],"tags":[],"class_list":["post-4320","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-cidade","category-direito-a-cultura-popular","category-direito-a-memoria","category-direito-a-terra","category-direitos-dos-povos-indigenas","category-direitos-dos-quilombolas","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-luta-pela-terra-e-reforma-agraria","category-movimentos-sociais-populares","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao","category-videos-de-frei-gilvander"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4320"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4320\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4322,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4320\/revisions\/4322"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4321"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}