{"id":483,"date":"2023-09-23T09:54:00","date_gmt":"2023-09-23T12:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=483"},"modified":"2023-09-23T09:55:37","modified_gmt":"2023-09-23T12:55:37","slug":"mateus-201-16-parabola-dos-trabalhadores-da-vinha-justica-anticapitalista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/mateus-201-16-parabola-dos-trabalhadores-da-vinha-justica-anticapitalista\/","title":{"rendered":"Mateus 20,1-16: par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha, justi\u00e7a anticapitalista."},"content":{"rendered":"<p><strong>Mateus 20,1-16: par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha, justi\u00e7a anticapitalista. <\/strong><\/p>\n<p>Por frei Gilvander Lu\u00eds Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-484 aligncenter\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Trabalho-escravo-pr\u00e1tica-do-agroneg\u00f3cio-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Trabalho-escravo-pr\u00e1tica-do-agroneg\u00f3cio-300x225.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Trabalho-escravo-pr\u00e1tica-do-agroneg\u00f3cio.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Enquanto tomava caf\u00e9 da manh\u00e3 em uma lanchonete na beira de uma estrada, voltando de um curso b\u00edblico do CEBI na cidade de Coluna, MG, &#8211; o assunto tinha sido as Primeiras Comunidades Crist\u00e3s e nossa pr\u00e1tica crist\u00e3 -, vi e ouvi em uma TV um integrante da alta hierarquia da igreja cat\u00f3lica tecer coment\u00e1rios sobre o Evangelho lido, hoje, dia 24 de setembro de 2017, segundo o calend\u00e1rio lit\u00fargico, salvo exce\u00e7\u00f5es, em todas as celebra\u00e7\u00f5es da igreja cat\u00f3lica. Trata-se do Evangelho de Mateus 20,1-16: a par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha. Achei horrorosa a interpreta\u00e7\u00e3o feita: fundamentalista, espiritualizante e retirando toda eloq\u00fc\u00eancia do contexto hist\u00f3rico abordado pela par\u00e1bola. Senti-me impelido a socializar outra interpreta\u00e7\u00e3o de Mt 20,1-16 na perspectiva das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e das Pastorais Sociais. Ei-la, abaixo.<\/p>\n<p>A par\u00e1bola narrada em Mateus 20,1-16 \u00e9 a dos trabalhadores na vinha. Diz que \u201cum pai de fam\u00edlia saiu cedo para contratar trabalhadores para sua vinha\u201d (Mt 20,1). Tornou-se dono de uma vinha, mas continuava sendo acima de tudo pai. Come\u00e7ou a contratar trabalhadores por volta das 6 horas da manh\u00e3. Contratou outros \u00e0s 9 horas, outros \u00e0s 12, \u00e0s 15 horas, etc. Combinou que pagaria um den\u00e1rio para cada um. \u00c0 tarde, \u00e0 busca de mais trabalhadores, observou que muitos ainda continuavam na pra\u00e7a porque ningu\u00e9m os tinha contratado (Mt 20,7). Os \u00faltimos contratados trabalharam apenas uma hora. Como prescreve a B\u00edblia, ao final do dia de trabalho, o sal\u00e1rio deve ser pago (Tiago 5,4). O pai e dono da vinha disse ao seu administrador para pagar um den\u00e1rio para cada um, conforme o combinado, come\u00e7ando pelos \u00faltimos. Os contaminados pelo esp\u00edrito da meritocracia do capitalismo reclamaram: \u201cN\u00e3o \u00e9 justo os que trabalharam apenas uma hora receber valor igual a n\u00f3s que trabalhamos mais\u201d (Mt 20,12). Eis, em s\u00edntese, o relato da par\u00e1bola.<\/p>\n<p>Por que o pai e dono da vinha agiu de forma justa? O dono da vinha disse \u00e0queles que foram contratados para o trabalho \u00e0s nove horas da manh\u00e3: \u201cV\u00e3o para minha vinha, e eu lhes pagarei o que for justo\u201d (Mt 20,4). Assim como No\u00e9 e Jos\u00e9, o pai e dono da vinha da par\u00e1bola primava por ser justo, mas n\u00e3o justi\u00e7a legalista do <em>status quo<\/em>. Segundo a par\u00e1bola todos recebem igualmente. Os que trabalharam o dia inteiro e os que trabalharam uma hora apenas. Que justi\u00e7a \u00e9 essa, que incomoda quem tem o esp\u00edrito\/ideologia do capitalismo na cabe\u00e7a? Para se entender a par\u00e1bola, contudo, \u00e9 necess\u00e1rio prestar aten\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo de Mt 20,6-7. O dono da vinha pergunta aos trabalhadores que se encontram na pra\u00e7a \u00e0s cinco horas da tarde: \u201cPor que voc\u00eas est\u00e3o a\u00ed o tempo todo sem fazer nada?\u201d E a resposta vem na hora: \u201cPorque ningu\u00e9m nos contratou\u201d. Desemprego j\u00e1 existia naquela \u00e9poca&#8230; Assim como nas cidades h\u00e1 sempre o local onde se podem contratar trabalhadores: um ponto de encontro entre desempregados e quem precisa de trabalhadores, na pra\u00e7a estava quem procurava emprego. Se fossem irrespons\u00e1veis, estariam em casa dormindo. Mas se est\u00e1 na pra\u00e7a, significa que est\u00e3o procurando emprego. Podemos imaginar quem teria sido deixado l\u00e1 na pra\u00e7a, sem ser contratado: as pessoas enfraquecidas, quem sabe alguns doentes, quem sabe deficientes ou idosos (hoje, dir\u00edamos, jovens inexperientes, adultos com idade avan\u00e7ada j\u00e1 sem a for\u00e7a da juventude, homossexuais, negros, analfabetos, os \u201cdespreparados para o mercado\u201d, etc)&#8230;<\/p>\n<p>Como praticar uma justi\u00e7a que n\u00e3o reproduza os esquemas de discrimina\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o? O pagamento igual justamente vem nessa dire\u00e7\u00e3o: quem trabalhou menos tem as mesmas necessidades que as demais pessoas! Todos t\u00eam fam\u00edlia e despesas semelhantes. No Brasil devemos lutar para que todos recebam um sal\u00e1rio \u2013 renda m\u00ednima -, independentemente se est\u00e3o ou n\u00e3o trabalhando. A radicalidade desta par\u00e1bola faz pensar em tantas pr\u00e1ticas que se apresentam como justas. Em uma sociedade forjada em cima de desigualdades para se conquistar igualdade \u00e9 preciso tratar de forma desigual os desiguais. Para as comunidades do Evangelho de Mateus o desafio era praticar uma justi\u00e7a maior: a partir da miseric\u00f3rdia. \u00c9 o que se define no julgamento decisivo: veja Mt 25,31-46: \u201cEu estava com fome, nu, preso&#8230;\u201d! Ser\u00e1 justo quem se comprometer com a causa dos famintos, dos encarcerados, dos injusti\u00e7ados.<\/p>\n<p>Os ensinamentos de Jesus se distinguem dos ensinamentos dos fariseus ritualistas, dos escribas e saduceus. A justi\u00e7a do reino de Deus \u2013 Deus da vida para todos e tudo &#8211; pretende superar aquela dos fariseus, escribas e saduceus, e acolher quem estava sendo injusti\u00e7ado. Para isso foi necess\u00e1rio romper com esquemas j\u00e1 estabelecidos, formas comuns de se viver e interpretar a Lei. Isso para ser fiel \u00e0queles que as comunidades tinham certeza de que estavam presentes nos pequeninos.<\/p>\n<p>Segundo c\u00e1lculos de alguns estudiosos, um trabalhador como aquele da par\u00e1bola de Mt 20,1-16, que recebeu um den\u00e1rio por um dia de trabalho, levaria mais de quinze anos para conseguir juntar um \u00fanico talento! As par\u00e1bolas devem ser interpretadas como par\u00e1bolas, mas n\u00e3o podemos esquecer que s\u00e3o constru\u00eddas com tijolos da realidade hist\u00f3rica. Por isso as par\u00e1bolas falam de desemprego (veja Mt 20,1-16) e de trabalho duro (Mt 13,1-9.24-33.47-50).<\/p>\n<p>Enfim, a par\u00e1bola narrada em Mateus 20,1-16 \u00e9 mais um dos textos em que as primeiras comunidades crist\u00e3s expressam sua compreens\u00e3o e experi\u00eancia de justi\u00e7a, que n\u00e3o mede as pessoas pelo que elas produzem \u2013 n\u00e3o se mede por meritocracia -, mas por aquilo de que precisam. Se todas t\u00eam necessidades iguais, logo o sal\u00e1rio deve ser igual para todos, independentemente se foi contratado antes ou depois, se produziu mais ou menos. Quem est\u00e1 contaminado pelo esp\u00edrito do capitalismo \u2013 sistema sat\u00e2nico e m\u00e1quina de moer vidas \u2013 n\u00e3o consegue entender a par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha: par\u00e1bola anticapitalista que aponta para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade verdadeiramente justa a partir das necessidades das pessoas e n\u00e3o a partir do m\u00e9rito que muitas vezes \u00e9 constru\u00eddo \u00e0 custa do sangue de outros.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 24\/9\/2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP\/SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; e-mail:&nbsp;gilvanderlm@gmail.com&nbsp;\u2013<a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a> &#8211; &nbsp;<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &nbsp;\u2013&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a> &nbsp;\u2013 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mateus 20,1-16: par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha, justi\u00e7a anticapitalista. 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