{"id":5,"date":"2008-08-20T10:11:07","date_gmt":"2008-08-20T13:11:07","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=5"},"modified":"2008-08-20T10:11:07","modified_gmt":"2008-08-20T13:11:07","slug":"entre-o-vestir-e-calcar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/entre-o-vestir-e-calcar\/","title":{"rendered":"Entre o vestir e cal\u00e7ar, onde est\u00e1 Deus"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<h1 align=\"center\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Entre o vestir e o cal\u00e7ar, onde est\u00e1  Deus?<\/span><\/h1>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Pistas para uma pedagogia de luta por  transforma\u00e7\u00e3o socioambiental, inspirada nos trabalhadores que militam nos mundos  da produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ado e de vestu\u00e1rio.<br \/><\/strong><\/span><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>(Artigo  publicado no livro <\/strong><\/span><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>O VESTIR E O CAL\u00c7AR \u2013  perspectivas da rela\u00e7\u00e3o sa\u00fade e trabalho<\/strong><\/span><\/em><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>, Jos\u00e9 Reginaldo In\u00e1cio e Celso  Amorim Salim (org.), Ed. Cris\u00e1lida, Belo Horizonte, 2010, pp.  439-459.)<\/strong><\/span><\/span><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Gilvander Lu\u00eds  Moreira<\/strong><\/span><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftn1\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>[1]<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<h1><span style=\"font-size: 10pt;\">O  artigo \u201cEntre o vestir e o cal\u00e7ar, onde est\u00e1 Deus?\u201d, a partir da Pesquisa sobre  acidente de trabalho em setor cal\u00e7adista e de vestu\u00e1rio, realizada pela  FUNDACENTRO\/SESI, analisa a realidade dos trabalhadores e lan\u00e7a pistas para uma  pedagogia de luta por transforma\u00e7\u00e3o socioambiental, inspirada nos trabalhadores  que militam nos mundos da produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ado e  vestu\u00e1rio.    <!--more-->  <br \/><\/span><\/h1>\n<h1><span style=\"font-size: 10pt;\">Al\u00e9m da  perspectiva ecol\u00f3gica, consideramos a relev\u00e2ncia da f\u00e9 na vida dos  trabalhadores, sabendo que f\u00e9, em si mesma, \u00e9 algo amb\u00edguo, pode libertar ou  oprimir. No fundo, n\u00e3o basta ter f\u00e9. Depende de que tipo de f\u00e9 se cultiva. A  quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 ter ou n\u00e3o ter f\u00e9, mas que tipo de f\u00e9 se deve ter. Dois  aspectos fundamentais foram considerados ao longo da reflex\u00e3o:<\/span><\/h1>\n<p>a)&nbsp;a ideia de incorporarmos a f\u00e9 libertadora como um instrumento  que&nbsp;pode&nbsp;levar \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o do valor da vida, a n\u00e3o submiss\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es  que degradem o ambiente de trabalho, a sa\u00fade e a seguran\u00e7a do\/a trabalhador\/a.  Aqui se trata de ter a f\u00e9 de Jesus de Nazar\u00e9 e n\u00e3o apenas ter f\u00e9 em Jesus;<\/p>\n<p>b) e, em sentido inverso, a f\u00e9 ing\u00eanua, se&nbsp;manipulada, pode ser  alienante e levar&nbsp;trabalhadores a aceitarem a condi\u00e7\u00e3o de explorados como uma  miss\u00e3o e at\u00e9 merecimento, e s\u00e3o fatores propulsores a quadros de degrada\u00e7\u00e3o das  condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e seguran\u00e7a que podem gerar e manter doen\u00e7as e acidentes no  trabalho, al\u00e9m de crucificar ainda mais o meio ambiente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>1- Iniciando a conversa<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta do t\u00edtulo deste texto  \u2013 \u201cEntre o vestir e o cal\u00e7ar, onde est\u00e1 Deus?\u201d \u2013 brotou espontaneamente em mim  ap\u00f3s a leitura dos relat\u00f3rios da \u201cPesquisa sobre acidente de trabalho em setor  cal\u00e7adista e de vestu\u00e1rio, realizada pela FUNDACENTRO\/SESI\u201d. Para in\u00edcio de  reflex\u00e3o, apresento, abaixo, uma s\u00edntese de alguns \u201cdados\u201d que me chamaram a  aten\u00e7\u00e3o durante a leitura da Pesquisa e a partir dos quais pretendo \u201cresponder\u201d  \u00e0 pergunta\/t\u00edtulo deste artigo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>2 &#8211; Ponto de  partida:<\/strong> <strong>Fatores  estressantes<\/strong><\/p>\n<p>A  Pesquisa chega a uma conclus\u00e3o eloquente:<\/p>\n<p>\u201cOs  trabalhadores dos setores cal\u00e7adista e de vestu\u00e1rio, por v\u00e1rios motivos, s\u00e3o  trabalhadores afeitos \u00e0s atividades investigadas nas \u00e1reas previamente  selecionadas e est\u00e3o sujeitos a elevado n\u00famero de fatores adversos e  estressantes, tornando-os frequentemente expostos \u00e0 ocorr\u00eancia de acidentes do  trabalho. (grifo nosso) Isso sem desconsiderar quest\u00f5es proeminentes dos espa\u00e7os  extramuros, que acabam adicionando novos elementos aos riscos intr\u00ednsecos de seu  processo de trabalho, como a viol\u00eancia, o tr\u00e2nsito e outros problemas  urbanos.\u201d<\/p>\n<p>A Pesquisa, publicada em agosto  de 2007, foi realizada com base em dados de <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"2002 a\">2002 a<\/st1:metricconverter> 2004. Aqui  j\u00e1 constatamos uma defasagem significativa, pois \u00e9 muito prov\u00e1vel que a  realidade de agora, ano 2010, seja diferente. Pela intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho e  por causa do desemprego estrutural, \u00e9 prov\u00e1vel que os acidentes de trabalho em  2010 sejam maiores do que os verificados no tri\u00eanio <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"2002 a\">2002 a<\/st1:metricconverter> 2004.<\/p>\n<p>O que \u00e9 legalmente considerado  acidente de trabalho?<\/p>\n<p>Segundo a Lei Acident\u00e1ria n\u00ba  8.213, de 1991, acidente do trabalho \u00e9 todo aquele que ocorre pelo exerc\u00edcio do  trabalho a servi\u00e7o da empresa, \u201cprovocando les\u00e3o corporal ou perturba\u00e7\u00e3o  funcional que cause a morte, a perda ou a redu\u00e7\u00e3o, permanente ou tempor\u00e1ria, da  capacidade para o trabalho\u201d (Art. 19). Tamb\u00e9m seriam acidentes do trabalho,  \u201coutras entidades m\u00f3rbidas\u201d<a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftn2\">[2]<\/a>,  como, por exemplo, as doen\u00e7as profissionais, os acidentes ligados ao trabalho,  embora este n\u00e3o seja a \u00fanica causa capaz de contribuir para a morte ou a les\u00e3o  do trabalhador\u201d \u2013 no caso, do trabalhador segurado \u2013 assim como \u201ctodos os  acidentes ocorridos no local de trabalho decorrentes de atos intencionais ou n\u00e3o  de terceiros ou companheiros de trabalho; os desabamentos; as inunda\u00e7\u00f5es; os  inc\u00eandios e outros casos fortuitos ou decorrentes de for\u00e7a maior; as doen\u00e7as  provenientes de contamina\u00e7\u00e3o acidental no exerc\u00edcio da atividade; os acidentes,  ainda que ocorridos fora do hor\u00e1rio ou local de trabalho, na execu\u00e7\u00e3o de ordem  da empresa, mesmo para estudos ou realiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os externos; no percurso  da resid\u00eancia para o local de trabalho, ou deste para aquela\u201d. (Art. 20 e  21).<\/p>\n<p>No entanto, para que o  acidente \u2013 ou doen\u00e7a \u2013 seja qualificado como acidente do trabalho \u00e9 fundamental  a sua caracteriza\u00e7\u00e3o pela per\u00edcia m\u00e9dica do INSS \u2013 Instituto Nacional de  Seguridade Social -, respons\u00e1vel pelo reconhecimento t\u00e9cnico do nexo causal  entre o acidente e a les\u00e3o, a doen\u00e7a e o trabalho ou a <em>causa mortis <\/em>e o  acidente. Aqui est\u00e1 uma grande restri\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 prov\u00e1vel que muitos acidentes  de trabalho n\u00e3o entrem nas estat\u00edsticas, porque o trabalhador acaba por n\u00e3o  fazer a per\u00edcia m\u00e9dica junto ao INSS, pelo excesso de burocracia e, muitas  vezes, por falta de tempo h\u00e1bil para ir at\u00e9 ao m\u00e9dico do INSS.<\/p>\n<p>Por sua vez, os  \u201cacidentes do trabalho registrados\u201d, de acordo com o AEAT<a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftn3\">[3]<\/a>,  seriam t\u00e3o somente aqueles \u201ccujas comunica\u00e7\u00f5es s\u00e3o protocolizadas e  caracterizadas administrativa e tecnicamente. Essas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o obtidas a  partir da tabula\u00e7\u00e3o das Comunica\u00e7\u00f5es de Acidentes do Trabalho \u2013 CATs -,  cadastradas nas unidades de atendimento da Previd\u00eancia Social, e mediante a  Internet, segundo o tipo de acidente<em>\u201d<\/em>, a ser qualificado e classificado  em uma das categorias discriminadas em lei.<\/p>\n<p>A pesquisa teve como base  as Comunica\u00e7\u00f5es de Acidente do Trabalho \u00e0s ag\u00eancias do INSS com foco se  concentrando nas Micro e Pequenas Empresas \u2013 MPE -, referentes aos casos  liquidados de acidentes e doen\u00e7as do trabalho no per\u00edodo de <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"2002 a\">2002 a<\/st1:metricconverter> 2004.<\/p>\n<p>S\u00e3o consideradas  microempresas aquelas com at\u00e9 19 empregados na ind\u00fastria e at\u00e9 9 empregados no  com\u00e9rcio e no setor de servi\u00e7os. De outro lado, as pequenas empresas s\u00e3o  definidas como sendo aquelas que possuem, na ind\u00fastria, de <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"20 a\">20 a<\/st1:metricconverter> 99 empregados  e, no com\u00e9rcio e servi\u00e7o, de <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"10 a\">10 a<\/st1:metricconverter> 49  empregados.<\/p>\n<p>Qual  foi a abrang\u00eancia da Pesquisa?<\/p>\n<p>\u201cEntre  trabalhadores do setor cal\u00e7adista foram levantadas informa\u00e7\u00f5es sobre 1978  registros de acidentes do trabalho nas modalidades t\u00edpico, trajeto e doen\u00e7a do  trabalho, relativas ao per\u00edodo <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"2002 a\">2002 a<\/st1:metricconverter> 2004. Esses  registros reportam-se, com exce\u00e7\u00e3o do polo de Franca, <st1:personname productid=\"em S\uffe3o Paulo\">em S\u00e3o Paulo<\/st1:personname>, aos polos cal\u00e7adistas de  Nova Serrana, <st1:personname productid=\"em Minas Gerais\">em Minas  Gerais<\/st1:personname>; S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, <st1:personname productid=\"em Santa Catarina\">em Santa Catarina<\/st1:personname>; Novo Hamburgo  e Sapiranga, no Rio Grande do Sul; Fortaleza, no Cear\u00e1; Birigui, no Estado de  S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Todas as unidades que mantinham em seus respectivos  arquivos os registros dos acidentes de trabalho das \u00e1reas selecionadas foram  visitadas, no total de treze Ag\u00eancias, assim distribu\u00eddas: oito Ag\u00eancias em  Fortaleza, CE, uma <st1:personname productid=\"em Nova Serrana\">em Nova  Serrana<\/st1:personname>, MG, uma <st1:personname productid=\"em S\uffe3o Jo\uffe3o Batista\">em S\u00e3o Jo\u00e3o Batista<\/st1:personname>, SC, uma  <st1:personname productid=\"em Novo Hamburgo\">em Novo  Hamburgo<\/st1:personname>, RS, uma em Sapiranga, RS e, finalmente, uma em  Birigui, SP. Especificamente, as informa\u00e7\u00f5es relativas aos munic\u00edpios de Nova  Serrana e S\u00e3o Jo\u00e3o Batista encontravam-se centralizadas nas Ag\u00eancias do INSS dos  munic\u00edpios de Bom Despacho, MG e Tijucas, SC, respectivamente.<a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftn4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>As Micro e Pequenas Empresas representam 30% do  total de estabelecimentos do setor de cal\u00e7ados. Os estabelecimentos com maior  n\u00famero de v\u00ednculos em tais empresas est\u00e3o nos estados do Rio Grande do Sul  (41,36%), S\u00e3o Paulo (28,50%) e Minas Gerais (15,62%) e se destacam nos  munic\u00edpios de Franca, SP, Nova Serrana, MG e Novo Hamburgo, RS.\u201d<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Se os acidentes de trabalho do polo cal\u00e7adista de  Franca tivessem sido acrescentados \u00e0 pesquisa, \u00e9 \u00f3bvio que a quantidade  aumentaria significativamente, pois Franca \u00e9 um dos principais polos cal\u00e7adistas  do Brasil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Diz a Pesquisa: \u201cNota-se uma importante concentra\u00e7\u00e3o  dos acidentes na faixa et\u00e1ria entre <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"16 a\">16 a<\/st1:metricconverter> 34 anos,  equivalendo a 70,1% do total.\u201d Isso induz a concluirmos que os trabalhadores do  setor de cal\u00e7ados s\u00e3o predominantemente jovens. Por que n\u00e3o h\u00e1 um n\u00famero maior  de trabalhadores acima dos 34 anos? Ser\u00e1 porque a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho  exige maior agilidade f\u00edsica e mental, o que leva as micro e pequenas empresas  do setor a contratarem prioritariamente jovens?<\/p>\n<p>Qual a regi\u00e3o do corpo mais atingida nos acidentes  verificados? \u201cO \u201cferimento do punho e da m\u00e3o<a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftn5\">[5]<\/a>\u201d,  que teve uma participa\u00e7\u00e3o sobre o total de 30,2% (TAB. 7). Enfim, apenas os  traumatismos envolvendo a m\u00e3o, como parte espec\u00edfica do corpo atingida,  fizeram-se presentes em 70,2% dos acidentes de trabalho levantados junto \u00e0s  ind\u00fastrias de cal\u00e7ados nas \u00e1reas selecionadas.<\/p>\n<p>Quais as m\u00e1quinas que mais causaram acidentes no  ramo de cal\u00e7ados? Foram basicamente quatro: prensa, injetora, balancim de corte  e costura. (TAB. 13)<\/p>\n<p>Os dados da Pesquisa, \u00e0 primeira vista, tendem a  focalizar o\/a trabalhador\/a como se fosse uma \u201cm\u00e1quina\u201d viva mostrando que  \u201cpe\u00e7as\u201d dela foram afetadas. Cumpre n\u00e3o perder de vista que, por tr\u00e1s da frieza  dos dados estat\u00edsticos, sempre h\u00e1 muita dor, muito drama, desespero, muito  sofrimento. H\u00e1 seres humanos, dignidade humana sendo afetada, fam\u00edlias  envolvidas e afetadas direta e indiretamente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h4>3 \u2013 A partir de onde  refletir<\/h4>\n<p>Como  participante e assessor de lutas por transforma\u00e7\u00e3o socioambiental e como algu\u00e9m  que acredita que um mist\u00e9rio de Amor \u2013 o Deus da vida \u2013 envolve a vida de todos  os seres humanos, minerais, animais e vegetais, tentaremos propor elementos que  subsidiem a constru\u00e7\u00e3o de uma Espiritualidade da Transforma\u00e7\u00e3o socioambiental  nos mundos do trabalho e do capital nos setores cal\u00e7adista e de vestu\u00e1rio. A  Pesquisa feita pela FUNDACENTRO\/SESI revela o submundo dos que suam para  oferecer vestimenta e cal\u00e7ar o povo, seja no Brasil ou no exterior.<\/p>\n<p>J\u00e1  presenciamos coment\u00e1rios\/conversas entre trabalhadores admitindo que as  condi\u00e7\u00f5es de vida que levavam eram prova de que Deus&nbsp;zelava por eles e de que a  situa\u00e7\u00e3o do ambiente de trabalho&nbsp;e o sal\u00e1rio tratavam-se, na verdade, de uma  prova dessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da perspectiva ecol\u00f3gica, \u00e9 imprescind\u00edvel considerarmos a  relev\u00e2ncia da f\u00e9 na vida dos trabalhadores. Sabemos muito bem que f\u00e9, em si  mesma, \u00e9 algo amb\u00edguo, pode libertar ou oprimir. No fundo, n\u00e3o basta ter f\u00e9.  Depende de que tipo de f\u00e9 se cultiva. A quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 ter ou n\u00e3o ter f\u00e9,  mas que tipo de f\u00e9 se deve ter. Dois aspectos s\u00e3o fundamentais:<\/p>\n<p>a)&nbsp;a ideia de incorporarmos a f\u00e9 libertadora como um instrumento  que&nbsp;pode&nbsp;levar \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o do valor da vida, a n\u00e3o submiss\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es  que degradem o ambiente de trabalho, a sa\u00fade e a seguran\u00e7a do\/a trabalhador\/a.  Aqui se trata de ter a f\u00e9 de Jesus de Nazar\u00e9 e n\u00e3o apenas ter f\u00e9 em Jesus;<\/p>\n<p>b) e, em sentido inverso, a f\u00e9 ing\u00eanua, se&nbsp;manipulada, pode ser  alienante e levar&nbsp;trabalhadores a aceitarem a condi\u00e7\u00e3o de explorados como uma  miss\u00e3o e at\u00e9 merecimento, e s\u00e3o fatores propulsores a quadros de degrada\u00e7\u00e3o das  condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e seguran\u00e7a que podem gerar e manter doen\u00e7as e acidentes no  trabalho, al\u00e9m de crucificar ainda mais o meio ambiente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Diante de  condi\u00e7\u00f5es de trabalho que geram tantos \u201cacidentes\u201d<a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftn6\">[6]<\/a> (isso \u00e9 eufemismo?) perguntamos \u201cOnde est\u00e1 Deus entre o vestir e o cal\u00e7ar?\u201d<\/p>\n<p>Tentaremos  esbo\u00e7ar neste texto elementos de uma espiritualidade libertadora, um facho de  luz que talvez possa contribuir para superarmos (se n\u00e3o, pelo menos diminuir  consideravelmente) as estat\u00edsticas dram\u00e1ticas que escondem muita dor e  sofrimento para milhares de pessoas. N\u00e3o podemos ficar olhando somente nos dados  da pesquisa, que s\u00e3o importantes, mas tamb\u00e9m podem esconder realidades profundas  que devem ser reveladas. Ao levantarmos o olhar, at\u00f4nitos, perplexos e confusos,  perguntamos: Que est\u00e1 acontecendo? O que fazer?<\/p>\n<p>A hora \u00e9  perigosa. O capital gradativamente est\u00e1 aprofundando a explora\u00e7\u00e3o dos  trabalhadores, for\u00e7ando-os a trabalhar no limite e serem sacrificados no altar  do deus capital\/ o \u00eddolo mercado. As oficinas micro e pequenas, al\u00e9m das m\u00e9dias  e grandes, de produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ado e vestu\u00e1rio, n\u00e3o s\u00e3o, de forma disfar\u00e7ada,  altares dedicados ao deus capital-mercado, que exigem o sacrif\u00edcio de uns &#8211; os  acidentados &#8211; com ferroadas que liberam sangue instantaneamente e a maioria dos  trabalhadores lentamente sendo sacrificados? Que deus est\u00e1 por tr\u00e1s dos motores  das f\u00e1bricas que sacrificam tantos trabalhadores, derramando l\u00e1grimas e  enlutando fam\u00edlias? Quantos por cento dos trabalhadores dos setores cal\u00e7adista e  de vestu\u00e1rio se pudessem escolher, optariam por outro tipo de trabalho? Quantos  est\u00e3o ali por voca\u00e7\u00e3o? Quantos est\u00e3o ali porque s\u00e3o for\u00e7ados a aceitar o emprego  que apareceu para garantir o sustento da fam\u00edlia? Essas perguntas derivam de um  olhar teol\u00f3gico-pastoral que considera os trabalhadores, acima de tudo, como  seres humanos, portadores da luz e da for\u00e7a divinas. O Deus que quer vida para  todos (e para tudo) n\u00e3o aceita a redu\u00e7\u00e3o das pessoas a meras m\u00e1quinas que  produzem mercadoria. O sonho de Jav\u00e9, o Deus solid\u00e1rio e libertado, \u00e9<\/p>\n<p>\u201ccriar um novo  c\u00e9u e uma nova terra. A\u00ed n\u00e3o haver\u00e1 mais choro ou clamor. A\u00ed n\u00e3o haver\u00e1 mais  crian\u00e7as que vivam alguns dias apenas, nem velhos que n\u00e3o cheguem a completar  seus dias, pois ser\u00e1 ainda jovem quem morrer com cem anos&#8230; Construir\u00e3o casas e  nelas habitar\u00e3o, plantar\u00e3o vinhas e comer\u00e3o seus frutos. Ningu\u00e9m construir\u00e1 para  outro morar, ningu\u00e9m plantar\u00e1 para outro comer, porque a vida do meu povo ser\u00e1  longa como a das \u00e1rvores, meus escolhidos poder\u00e3o usufruir o que suas m\u00e3os  fabricarem. Ningu\u00e9m trabalhar\u00e1 inutilmente, ningu\u00e9m gerar\u00e1 filhos para morrerem  antes do tempo, porque todos ser\u00e3o a descend\u00eancia dos aben\u00e7oados de Jav\u00e9,  juntamente com seus filhos&#8230; O lobo e o cordeiro pastar\u00e3o juntos.\u201d (na B\u00edblia,  Isa\u00edas 65,19b-25a).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O modelo de  Economia vigente na sociedade brasileira e na maior parte do mundo atual, o  chamado capitalismo neoliberal, ou o chamem como quiserem, tem afundado o mundo  em uma desigualdade social cada dia mais escandalosa e \u00e9 respons\u00e1vel por uma  imensa destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica que, se continuar neste caminho, vai destruir o  planeta Terra e inviabilizar a vida sobre a Terra, nossa \u00fanica casa comum. Todos  sabemos que, etimologicamente, o termo <em>Economia<\/em> tem o mesmo prefixo de  <em>Ecologia. O prefixo \u201c<\/em>eco\u201d vem  do grego \u201c<em>oikos<\/em>\u201d e quer dizer \u201ccasa\u201d. No sentido mais profundo,  Economia significa a norma de administra\u00e7\u00e3o da casa (<em>oikos<\/em>) comum, para que todos possam  viver dignamente. Hoje, a Economia neoliberal \u00e9 justamente o contr\u00e1rio disso. Ao  inv\u00e9s de cuidar da casa (o planeta Terra), a destr\u00f3i. Por isso, n\u00e3o existe  possibilidade de uma \u00c9tica Ecol\u00f3gica e Solid\u00e1ria dentro desse universo de um  mercado excludente e de uma Economia competitiva.<\/p>\n<p>Eis uma grande  novidade: uma tend\u00eancia a dar unidade \u00e0s lutas por transforma\u00e7\u00e3o social com as  lutas por preserva\u00e7\u00e3o ambiental, tamb\u00e9m sob inspira\u00e7\u00e3o de uma espiritualidade  libertadora. Est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o a inseparabilidade das lutas em defesa da  ecologia e das lutas em prol dos direitos sociais. Essa unidade est\u00e1 sendo  constru\u00edda, gra\u00e7as, muitas vezes, a uma espiritualidade libertadora. Logo, para  construirmos seguran\u00e7a e sa\u00fade nos mundos do Capital e do Trabalho dos setores  cal\u00e7adista e de vestu\u00e1rio, \u00e9 indispens\u00e1vel compromisso com a luta por constru\u00e7\u00e3o  de uma sociedade sustent\u00e1vel, o que passa necessariamente por resgate n\u00e3o apenas  de um meio ambiente saud\u00e1vel e equilibrado, mas tamb\u00e9m de um ambiente inteiro  saud\u00e1vel e equilibrado. Aqui a dimens\u00e3o espiritual de toda pessoa humana,  especificamente dos trabalhadores, n\u00e3o pode ser ignorada e muito menos  desprezada. Urge cultivar a dimens\u00e3o espiritual tamb\u00e9m. \u00c9 necess\u00e1ria  transforma\u00e7\u00e3o socio-ambiental-religiosa e espiritual, o que implica viver o  verdadeiro e mais profundo sentido de religi\u00e3o e passa por uma espiritualidade  libertadora. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o defendemos a import\u00e2ncia de qualquer tipo de f\u00e9 nas  lutas sociais e por sustentabilidade. Repetimos, uma f\u00e9 ing\u00eanua por alienar as  pessoas e transform\u00e1-las em pessoas resignadas e conformadas diante de tanto  sofrimento. Percebemos a import\u00e2ncia vital de uma f\u00e9 libertadora que ajuda a  criar consci\u00eancia cr\u00edtica e criadora, a fazer an\u00e1lise da conjuntura com mais  lucidez, percebendo as causas mais profundas dos sofrimentos que se abatem sobre  grande parte dos trabalhadores\/trabalhadoras.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>4 &#8211; Deus est\u00e1 nos trabalhadores em  movimento<\/strong><\/p>\n<p>A dura realidade dos trabalhadores dos  setores cal\u00e7adista e de vestu\u00e1rio preocupa sindicatos e sindicalistas id\u00f4neos;  tanto \u00e9 que realizaram a pesquisa sobre&nbsp;  acidentes de trabalho, encaminharam a elabora\u00e7\u00e3o de um livro que  subsidiar\u00e1 lutas concretas pela supera\u00e7\u00e3o das dores e sofrimentos causados  nesses setores. Buscar\u00e3o sa\u00fade, seguran\u00e7a e paz neste mundo do trabalho. A luta  de sindicatos e sindicalistas id\u00f4neos por transforma\u00e7\u00e3o socioambiental faz-nos  lembrar uma luta narrada na B\u00edblia, a luta do movimento das parteiras que, ao  combinarem ternura e coragem, iniciaram o processo de liberta\u00e7\u00e3o dos pobres  escravizados pelo imp\u00e9rio dos fara\u00f3s do Egito, h\u00e1 uns 32  s\u00e9culos.<\/p>\n<p>As mulheres  parteiras do Egito \u2013 a B\u00edblia registra os nomes de duas: S\u00e9fora e Fu\u00e1 (\u00caxodo  1,8-22) -, diante de uma Medida Provis\u00f3ria (= Decreto-Lei) do fara\u00f3 que visava  fazer controle de natalidade e para isto mandava matar, no momento do  nascimento, as crian\u00e7as do sexo masculino, organizaram-se e fizeram greve,  desobedi\u00eancia civil e religiosa. Elas eram animadas por duas for\u00e7as: pelo amor \u00e0  vida, pois eram parteiras, e pelo temor de Deus, cujo nome \u00e9 Jav\u00e9, presen\u00e7a  libertadora no meio do povo. \u201cN\u00e3o vamos respeitar uma lei autorit\u00e1ria do imp\u00e9rio  dos fara\u00f3s. O Deus da vida quer respeito \u00e0 pessoa e n\u00e3o concorda com a matan\u00e7a  de crian\u00e7as e com nenhuma opress\u00e3o\u201d, diziam em seus cora\u00e7\u00f5es as Mulheres do  \u201csistema de sa\u00fade\u201d do imperialismo eg\u00edpcio. Diz a B\u00edblia: \u201cDeus estava com as  parteiras. O povo se tornou numeroso e muito poderoso (\u00caxodo 1,20), isto \u00e9,  crescia em quantidade e <st1:personname productid=\"em qualidade. As\">em qualidade. As<\/st1:personname> parteiras fizeram  tamb\u00e9m desobedi\u00eancia religiosa, porque o fara\u00f3 dizia que ele era o representante  de Deus na terra. Diante de uma lei de morte, as parteiras descobriram que o  fara\u00f3 era um farsante que n\u00e3o podia representar Deus entre elas. Os movimentos  sociais populares, entre os quais est\u00e1 o sindicalismo combativo, s\u00e3o leg\u00edtimos  herdeiros do Movimento das parteiras do Egito. O mesmo Deus que impulsionou as  parteiras est\u00e1 com militantes que se comovem com o sofrimento impingido a tantos  trabalhadores, fervem o sangue de indigna\u00e7\u00e3o, organizam lutas concretas e as  p\u00f5em em pr\u00e1tica, muitas vezes sofrendo a persegui\u00e7\u00e3o que sempre se abate sobre  os profetas. Ontem, as parteiras lutavam contra o imp\u00e9rio dos fara\u00f3s; hoje,  militantes populares lutam contra o imp\u00e9rio do capital que insiste em sacrificar  nos seus altares muitas vidas.<\/p>\n<p>O clamor que sobe aos c\u00e9us, diante da enorme  quantidade de \u201cacidentes\u201d de trabalho nos setores de cal\u00e7ado e de vestu\u00e1rio &#8211;  dentro de um modelo econ\u00f4mico capitalista neoliberal com uma gula sem fim por  lucro, com intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho (metas escorchantes, produ\u00e7\u00e3o cada vez  mais acelerada) &#8211; lembra o povo pedindo ao rei Robo\u00e3o, filho do rei Salom\u00e3o, que  diminu\u00edsse o peso que o rei tinha colocado nas costas do povo. O rei Robo\u00e3o,  desprezando o conselho sensato dos mais experientes, seguiu a opini\u00e3o de um  grupo de jovens que tinha sido criado junto com ele no pal\u00e1cio e respondeu: \u201c<em>Onde meu pai batia com cordas, eu bato com  corrente de ferro. O meu dedo m\u00ednimo \u00e9 mais pesado que a bunda do meu pai! Meu  pai castigou voc\u00eas com a\u00e7oites, e eu a\u00e7oitarei voc\u00eas com escorpi\u00f5es<\/em>!\u201d (Cf.  na B\u00edblia, 1<sup>o<\/sup> livro de Reis 12,1-16). Resultado: diante da estupidez  do rei, o povo se revoltou e se separou da monarquia de Jud\u00e1. Assim iniciou a  primeira de uma s\u00e9rie de cis\u00f5es que aconteceriam na na\u00e7\u00e3o de Israel com  consequ\u00eancias que perduram at\u00e9 hoje. Hoje, ainda, a mesma terra \u00e9 disputada por  judeus e palestinos \u00e0 custa de muito sangue. Todo aumento de opress\u00e3o gera  rebeli\u00f5es que podem se transformar em lutas libert\u00e1rias ou gerar mais  consequ\u00eancias dram\u00e1ticas para o povo. Toda injusti\u00e7a clama por uma luta para se  conquistar justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Qual o papel  da preserva\u00e7\u00e3o ambiental e de uma espiritualidade libertadora na luta por sa\u00fade  e seguran\u00e7a no mundo do trabalho? Pensemos um pouco a partir da B\u00edblia, onde se  diz logo no seu in\u00edcio que \u201co Esp\u00edrito de Deus paira sobre as \u00e1guas\u201d. (G\u00eanesis  1,2) \u00c1gua \u00e9 fonte e meio de vida, patrim\u00f4nio da humanidade. N\u00e3o pode continuar  sendo tratada como mercadoria. No texto b\u00edblico acima referido, \u00e1gua \u00e9 s\u00edmbolo  da realidade. Tudo que existe, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 \u00e1gua transformada. \u201cPaira  sobre as \u00e1guas\u201d significa \u201cchoca, aquece toda realidade, infunde for\u00e7a e energia  de vida\u201d. Um h\u00e1lito de vida, de for\u00e7a, de energia vital, permeia, envolve e  perpassa todas as criaturas, sendo a \u00e1gua uma das rainhas entre as criaturas.  Logo, sem preserva\u00e7\u00e3o das nascentes e dos cursos d\u2019\u00e1gua imposs\u00edvel diminuir os  acidentes de trabalho.<\/p>\n<p>O  pseudodesenvolvimento humano, o t\u00e3o badalado crescimento econ\u00f4mico, s\u00f3 para uma  minoria e n\u00e3o para todos, est\u00e1 colocando em risco a harmonia e conviv\u00eancia da  multiplicidade de seres vivos na natureza.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5 &#8211; E agora, Deus? &#8211; Por uma espiritualidade libertadora  nas lutas de transforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Um olhar a  partir da f\u00e9 no Deus da vida, seja Jav\u00e9 para os judeus e crist\u00e3os ou Al\u00e1 para os  mu\u00e7ulmanos, ou seja l\u00e1 que nome receba, \u00e9 fundamental para a implementa\u00e7\u00e3o de  transforma\u00e7\u00e3o socioambiental no mundo do trabalho de quem produz cal\u00e7ado e  vestu\u00e1rio. Uma postura de rever\u00eancia e de encantamento, um sil\u00eancio que nos faz  entrar em sintonia com o mist\u00e9rio que envolve lutas t\u00e3o complexas, pode ser  decisivo na efetiva\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es socioambientais e, especificamente,  conquista de sa\u00fade, seguran\u00e7a e paz no mundo do trabalho dos setores cal\u00e7adista  e de vestu\u00e1rio, entre tantos outros. N\u00e3o basta garantir leis trabalhistas. N\u00e3o  s\u00e3o suficientes projetos pol\u00edticos compensadores. Uma espiritualidade  libertadora \u00e9 vital nessas lutas, pois o Deus que salva gratuitamente, por amor,  \u00e9 o mesmo Deus que cria todos e tudo no processo de evolu\u00e7\u00e3o, liberta os  oprimidos, preserva a biodiversidade e respeita a imensa diversidade de  culturas. Mas Deus salva em n\u00f3s, atrav\u00e9s de n\u00f3s. \u00c9 a luz divina brilhando no  humano e em toda biodiversidade que guia os processos libert\u00e1rios. A m\u00edstica  b\u00edblica recupera a unidade perdida entre ser humano e natureza, o que \u00e9  imprescind\u00edvel para termos \u00eaxito nas lutas por transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A  biodiversidade se funda na experi\u00eancia trinit\u00e1ria de Deus, a melhor comunidade  aberta \u00e0 diversidade. A riqueza e a exuber\u00e2ncia da natureza se baseiam em uma  multiplicidade de formas de vidas que se interagem gerando uma grande  sinfonia.&nbsp; O capitalismo \u00e9  antitrinit\u00e1rio, n\u00e3o admite o diferente, o plural e a democracia real. Jesus  Cristo prop\u00f5e e testemunha a constru\u00e7\u00e3o do reino de Deus n\u00e3o s\u00f3 para as pessoas,  mas tamb\u00e9m para todas os seres vivos e bens naturais. A utopia anunciada pelo  profeta Isa\u00edas &#8211; \u201cum novo c\u00e9u e uma nova terra\u201d \u2013 contempla uma profunda  transforma\u00e7\u00e3o socioambiental e \u00e9 impulsionada por uma espiritualidade  libertadora. Novas rela\u00e7\u00f5es entre o ser humano e todos os seres vivos, novas  estruturas e novas rela\u00e7\u00f5es entre Capital e Trabalho. \u00c9 preciso superar o  antropocentrismo e o capitalismo, que s\u00e3o irm\u00e3os opressores de toda a  biodiversidade. O ser humano \u201cendeusado\u201d e capitalista, como rei da cria\u00e7\u00e3o,  est\u00e1 sendo o maior depredador de tudo e opressor da maioria do povo.<\/p>\n<p>A m\u00e3e da biodiversidade \u00e9 a  \u00e1gua. No princ\u00edpio era a \u00e1gua; e a \u00e1gua se fez \u201ccarne\u201d: criaturas todas do  universo. N\u00e3o somos apenas filhos e filhas da \u00e1gua. Somos mais. Somos \u00e1gua que  sente, que canta, que pensa, que ama, que deseja, que cria &#8230; Deus cria a partir das \u00e1guas. S\u00f3  podemos ser cocriadores a partir das \u00e1guas. Quem n\u00e3o defende, respeita e n\u00e3o tem  uma rela\u00e7\u00e3o de venera\u00e7\u00e3o e de encantamento para com as \u00e1guas n\u00e3o pode ser  criativo. Estar\u00e1 jogando no time dos assassinos da nossa m\u00e3e, irm\u00e3 e nosso  pr\u00f3prio ser: a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Uma espiritualidade libertadora  que inspira e move lutas por direitos humanos, enfim por transforma\u00e7\u00e3o  socioambiental passa por diversos elementos, entre os quais destacamos:<\/p>\n<p>1. compreender a experi\u00eancia do povo da B\u00edblia;<\/p>\n<p>2. dizer e revelar a verdade;<\/p>\n<p>3. atuar ao lado dos trabalhadores e n\u00e3o s\u00f3 lutar por  eles;<\/p>\n<p>4. evitar os eufemismos;<\/p>\n<p>5. \u201cnaturalizar\u201d o ser humano e \u201cdivinizar\u201d o meio  ambiente;<\/p>\n<p>6. \u201cdar nomes aos bois\u201d;<\/p>\n<p>7. optar pelos pobres com vis\u00e3o hol\u00edstica;<\/p>\n<p>8. n\u00e3o abrir m\u00e3o da profecia;<\/p>\n<p>9. ter a coragem de n\u00e3o mistificar media\u00e7\u00f5es e  institui\u00e7\u00f5es;<\/p>\n<p>10. libertar-se do discurso religioso tradicional;<\/p>\n<p>11. ser corpo pessoal, social, ecol\u00f3gico e espiritual;<\/p>\n<p>12. resgatar o sentido original de religi\u00e3o;<\/p>\n<p>13. perceber que toda crise \u00e9 f\u00e9rtil tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A seguir, apresentaremos para  concluir a abordagem do nosso tema \u2013 entre o vestir e o cal\u00e7ar, onde est\u00e1 Deus?  &#8211; uma pequena reflex\u00e3o sobre esses treze pontos na esperan\u00e7a de que possamos  perceber onde est\u00e1 o Deus da Vida entre o vestir e o cal\u00e7ar; que \u00eddolo (deus  falso) move um mercado que exige tantos sacrificados nos altares da produ\u00e7\u00e3o de  cal\u00e7ado e vestu\u00e1rio; e que atitudes e posturas de vida devemos assumir para  contribuirmos para que os trabalhadores dos setores de cal\u00e7ado e de vestu\u00e1rio  possam ter mais vida e liberdade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.1 \u2013 Experi\u00eancia b\u00edblica<\/strong><\/p>\n<p>O povo da B\u00edblia, fruto do  encontro ecum\u00eanico de in\u00fameros povos e classes de oprimidos, nasceu de \u201ctribos\u201d  que viviam em uma regi\u00e3o semi\u00e1rida, ou mesmo no deserto. No Oriente M\u00e9dio, o  viver est\u00e1 mais ligado \u00e0s fontes de \u00e1gua, que s\u00e3o raras, do que apenas \u00e0 terra  no sentido de territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A \u00e1gua est\u00e1 relacionada com os principais eventos fundantes do  povo da B\u00edblia: na cria\u00e7\u00e3o, no dil\u00favio, na sa\u00edda do Egito, na entrada da terra  prometida etc. Qualquer projeto b\u00edblico s\u00f3 se sustenta perto de fontes de \u00e1gua,  de rios ou cisternas. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para se fazer reforma agr\u00e1ria no seco\u201d, repete a  todo instante o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra &#8211; MST. Poder\u00edamos  dizer tamb\u00e9m: \u201cN\u00e3o d\u00e1 para conquistar sa\u00fade, seguran\u00e7a e paz no mundo do  trabalho dos trabalhadores dos setores cal\u00e7adista e de vestu\u00e1rio, sem  preserva\u00e7\u00e3o ambiental, sem uma sociedade sustent\u00e1vel\u201d. Na B\u00edblia h\u00e1 uma  associa\u00e7\u00e3o da \u00e1gua com a Palavra de Deus. Ao povo, Deus deu \u00e1gua de beber de um  rochedo, e durante quarenta anos, lhe garantiu o p\u00e3o de cada dia e a \u00e1gua para  beber.<\/p>\n<p>Segundo o relato b\u00edblico de  G\u00eanesis 2,1-10.15, a terra \u00e9 vocacionada para ser um jardim de Deus e o ser  humano, um jardineiro. Para povos de regi\u00f5es \u00e1ridas, a primeira obra de Deus foi  viabilizar a chuva sobre a terra e irrigar uma regi\u00e3o quase des\u00e9rtica. Um dia, a  falta da \u00e1gua gerou a seca e a fome em toda a regi\u00e3o de Cana\u00e3. Os hebreus foram  obrigados a migrar para o Egito (G\u00eanesis 47). L\u00e1 se multiplicaram e foram  oprimidos pelo imp\u00e9rio dos fara\u00f3s (\u00caxodo 1). Os hebreus escravos gritaram a Deus  e este veio libert\u00e1-los, conduzindo-os da escravid\u00e3o para a terra da liberdade,  passando pelo Mar Vermelho que se abriu em duas partes deixando-os passar, em  meio \u00e0s \u00e1guas, a p\u00e9 enxuto (\u00caxodo 14). Fato semelhante aconteceu quando, mais  tarde, conduzidos por Josu\u00e9, o povo constitu\u00eddo no deserto atravessou o rio  Jord\u00e3o, a p\u00e9 enxuto, para entrar na posse da terra de Cana\u00e3 (na B\u00edblia, livro de  Josu\u00e9 3-4). \u00c9 claro que o relatado neste par\u00e1grafo \u00e9 a superf\u00edcie do texto. Os  relatos b\u00edblicos n\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3ria no sentido de descri\u00e7\u00e3o de fatos acontecidos,  mas s\u00e3o teologias, querem passar uma mensagem: animar o povo na caminhada de  liberta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o querem dizer exatamente como foi que aconteceu, mas revelar que  Deus estava presente nas brechas da hist\u00f3ria, onde o povo, organizado e com uma  f\u00e9 libertadora, fez hist\u00f3ria. Combateu o bom combate e fez a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A B\u00edblia testemunha um  mist\u00e9rio em torno dos po\u00e7os de \u00e1gua. \u201cTodo deserto cont\u00e9m um po\u00e7o escondido\u201d,  disse o Pequeno Pr\u00edncipe. Em uma regi\u00e3o \u00e1rida, cada fonte, cada olho d\u2019\u00e1gua,  cada po\u00e7o, \u00e9 quase um milagre. Toda fonte \u00e9 sinal forte da b\u00ean\u00e7\u00e3o divina, um  presente de seu amor. As fontes fazem parte da promessa de Deus para o seu povo:  \u201c<em>O Senhor teu Deus te far\u00e1 entrar em um bom pa\u00eds, uma terra cheia de  torrentes, de fontes e de \u00e1guas subterr\u00e2neas que jorram na plan\u00edcie e na  montanha..<\/em>.\u201d (na B\u00edblia, Deuteron\u00f4mio 8,7-8). Quais e onde est\u00e3o os po\u00e7os  misteriosos e escondidos no \u201cdeserto\u201d do ch\u00e3o\/povo brasileiro e,  especificamente, no mundo do trabalho dos trabalhadores dos setores de cal\u00e7ados  e vestu\u00e1rio? Feliz quem descobrir quais s\u00e3o e onde est\u00e3o esses \u201cpo\u00e7os  misteriosos e escondidos\u201d; e beber dessa fonte partilhando com os colegas de  classe!<\/p>\n<p>Como profetizas, as \u00e1guas  consolam os cansados, saciam os sedentos, lavam os suados pelo trabalho,  revigoram as for\u00e7as dos desanimados, mas tamb\u00e9m as \u00e1guas clamam por respeito e  por justi\u00e7a. Os rios fervem o sangue de indigna\u00e7\u00e3o contra cidades desgovernadas,  empresas e pessoas poluidoras que tratam \u201co sangue da Terra\u201d como se fossem  privadas receptoras de res\u00edduos t\u00f3xicos. Ai de quem mata as nascentes, asfixia  os mananciais e envenena os rios!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.2 &#8211; Revelar a  verdade<\/strong><\/p>\n<p>Para continuar o processo  de transforma\u00e7\u00e3o socioambiental, movido por uma espiritualidade libertadora, em  curso ora no Brasil e no mundo, urge dizer a verdade, o que implica assumir o  risco de morrer por causa da verdade dita e defendida. A verdade consola quem  est\u00e1 sendo ferido e injusti\u00e7ado, mas d\u00f3i como uma espada no cora\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1  arquitetando esquemas de explora\u00e7\u00e3o. Dizer a verdade \u00e9 puxar o tapete de quem  est\u00e1 andando a cavalo nos trabalhadores e no ambiente inteiro. Doar a vida pela  verdade, eis um desafio nobre a ser abra\u00e7ado. N\u00e3o apenas dizer a verdade, mas  ter a grandeza de, se preciso for, doar a vida pelo pr\u00f3ximo \u2013 todas as  criaturas, filhos e filhas de Deus.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que se formos  perguntar aos patr\u00f5es quais as causas de um n\u00famero elevado de acidentes no  trabalho, eles, provavelmente, dir\u00e3o \u201ca culpa \u00e9 dos trabalhadores; s\u00e3o  distra\u00eddos, mal preparados tecnicamente. Trazem para a oficina muitos problemas  que deveriam ser resolvidos l\u00e1 fora. Reclamam muito e produzem pouco&#8230;\u201d  Cantilena desse tipo n\u00e3o pode mais seduzir nem trabalhador e nem sindicalista  s\u00e9rio e id\u00f4neo. As causas dos acidentes s\u00e3o complexas e m\u00faltiplas. Encontrar a  verdade mais profunda sobre as causas de tantos acidentes \u00e9 imprescind\u00edvel para  se encaminharem lutas concretas que resultem em mais bem-estar do povo  trabalhador.<\/p>\n<p>Estamos em uma sociedade  da mentira disfar\u00e7ada de verdade. Precisamos superar a no\u00e7\u00e3o de verdade formal  que vem da filosofia cl\u00e1ssica. Verdade n\u00e3o \u00e9 apenas adequa\u00e7\u00e3o do conceito ao  objeto. Se digo que pedra \u00e9 pedra \u00e9 verdade formal, mas se digo que pedra \u00e9 p\u00e3o  \u00e9 mentira, mas, como testemunhou Jesus de Nazar\u00e9, pedras podem ser transformadas  em p\u00e3o, ou vice-versa. Nem tudo que reluz \u00e9 ouro. Verdade, conforme nos ensinam  as comunidades do Evangelho de Jo\u00e3o, \u00e9 o que liberta. \u201cA verdade vos libertar\u00e1\u201d,  trombeteiam aos quatro ventos as comunidades do Evangelho de Jo\u00e3o (Jo 8,32).<\/p>\n<p>Dom Oscar Romero, no dia  22 de abril de 1979, profetizava: \u201cCarregar a capacidade da verdade \u00e9 sofrer o  tormento interior que sofriam os profetas. Porque \u00e9 muito mais f\u00e1cil pregar a  mentira, calar a verdade [&#8230;], para ter poder. Que tenta\u00e7\u00e3o mais horr\u00edvel para  a Igreja!\u201d Podemos acrescentar: Semear a mentira! Que tenta\u00e7\u00e3o horr\u00edvel para  tantos sindicatos e sindicalistas, para tantos trabalhadores que optam por  salvar somente a pr\u00f3pria pele, muitas vezes, comprometendo a vida de tantos  colegas!<\/p>\n<p>Revelar a verdade implica  um processo que inclui diversas a\u00e7\u00f5es integradas e bem articuladas:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>a) <\/strong><strong>Informar<\/strong>. A despeito da avalanche de informa\u00e7\u00f5es que  s\u00e3o jogadas em cima das pessoas atualmente, vivemos em uma sociedade da  desinforma\u00e7\u00e3o. Ou seja, informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa comunica\u00e7\u00e3o. Temos propaganda  demais, informa\u00e7\u00e3o de menos. Grande parte das not\u00edcias est\u00e1 dentro da l\u00f3gica da  m\u00eddia vassala e c\u00famplice do sistema neoliberal que usa os meios de comunica\u00e7\u00e3o  para criar opini\u00e3o p\u00fablica sobre assuntos que interessam \u00e0 elite serem tratados  da forma como beneficia o <em>status quo <\/em>capitalista. Logo, lutar pela  democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 algo imprescind\u00edvel para que a verdade dos fatos  aflore. Enquanto n\u00e3o fizermos uma reforma agr\u00e1ria no ar n\u00e3o teremos reforma  agr\u00e1ria na terra e nem conseguiremos superar as graves injusti\u00e7as que esfolam os  empobrecidos, exclu\u00eddos e crucifica a natureza. <\/li>\n<li><strong>b) <\/strong><strong>Buscar as principais informa\u00e7\u00f5es para subsidiar as lutas  concretas \u00e9 fundamental<\/strong>. N\u00e3o bastam boas inten\u00e7\u00f5es e um objetivo sublime. \u00c9  preciso estar municiado de informa\u00e7\u00f5es verdadeiras e reais sobre o que se est\u00e1  questionando. Exemplo: Em depoimento na Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito da  Assembleia Legislativa de Minas Gerais \u2013 ALMG -, que investigava as a\u00e7\u00f5es da  mineradora Minera\u00e7\u00f5es Brasileiras Reunidas (MBR), hoje VALE (do Rio Doce), em  Minas, iniciamos <ins datetime=\"2010-02-02T14:54\" cite=\"mailto:Gilvander\">o <\/ins>noss<ins datetime=\"2010-02-02T14:54\" cite=\"mailto:Gilvander\">o depoimento<\/ins> mostrando fotos da Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica de Fechos (<st1:personname productid=\"em Nova Lima\">em Nova Lima<\/st1:personname>, MG), um verdadeiro  santu\u00e1rio, uma d\u00e1diva de Deus e da Cria\u00e7\u00e3o. Denunciamos a MBR\/VALE tamb\u00e9m por  ter invadido a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica de Fechos. A empresa fez, sem nenhuma  autoriza\u00e7\u00e3o, (se pedisse, n\u00e3o conseguiria, pois \u00e9 vedado por lei ambiental), na  Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica, duas pequenas estradas, arrancou vegeta\u00e7\u00e3o nativa e abriu  grandes feridas na terra. As fotos exibidas durante o meu depoimento mostraram  imagens da Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica de Fechos antes da invas\u00e3o da MBR, e depois, com  cortes de \u00e1rvores, caminhos abertos na terra e restos de terra no local.  Apresentamos tamb\u00e9m c\u00f3pia de um Boletim de Ocorr\u00eancia (B.O) feito na ocasi\u00e3o a  pedido da ge\u00f3loga da COPASA, Val\u00e9ria Caldas Barbosa. No documento, a Pol\u00edcia  Militar constatou interven\u00e7\u00e3o em uma \u00e1rea de 2 mil m\u00b2, pr\u00f3xima ao curso d\u00b4\u00e1gua,  sem autoriza\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o ambiental. No B.O, consta que a responsabilidade da  interven\u00e7\u00e3o foi assinada pelo engenheiro ambiental da MBR, Carlos Eduardo Leite.  &#8220;A MBR invadiu uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o ambiental de acesso muito restrito. At\u00e9  cientistas para entrarem l\u00e1 precisam da autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. Isso \u00e9 crime ou  n\u00e3o?&#8221;, questionamos diante dos deputados mineiros na CPI da mineradora MBR\/VALE. <\/li>\n<\/ol>\n<p>Na  mesma linha est\u00e1 a Pesquisa sobre acidentes de trabalho nos setores cal\u00e7adista e  de vestu\u00e1rio, realizada pela FUNDACENTRO\/SESI, a pedido de sindicatos de  trabalhadores, que contribuiu muito para revelar verdades que muitas vezes  estavam abafadas por not\u00edcias oficiais. Os v\u00e1rios artigos que integram este  livro tamb\u00e9m, sem d\u00favida nenhuma, revelar\u00e3o muitas informa\u00e7\u00f5es que precisam vir  \u00e0 luz do dia. Urge revelar que cal\u00e7ado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cal\u00e7ado e que vestu\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3  vestu\u00e1rio. Por tr\u00e1s de cal\u00e7ado e vestu\u00e1rio pode estar muito sangue derramado e  muita injusti\u00e7a perpetrada em nome do deus capital.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol>\n<li><strong>c) <\/strong><strong>Participar dos Movimentos Sociais Populares<\/strong>. Hoje, h\u00e1  dois movimentos <st1:personname productid=\"em luta. Os\">em luta.  Os<\/st1:personname> movimentos sociais populares lutam pela transforma\u00e7\u00e3o  socioambiental. O movimento da elite brasileira insiste em manter o sistema  capitalista, causa maior das mazelas que desolam os pobres e destr\u00f3i a  biodiversidade.<\/li>\n<li><strong>d) <\/strong><strong>Coer\u00eancia com projeto defendido<\/strong>. \u00c9 imprescind\u00edvel hoje  a encarna\u00e7\u00e3o da \u00e9tica e da honestidade, o que passa pela coer\u00eancia entre  discurso feito e pr\u00e1tica vivenciada. Coer\u00eancia entre grandes lutas e testemunho  pessoal. Coer\u00eancia n\u00e3o deve ser apenas coer\u00eancia \u00e9tica. Se fosse, a pessoa  militante crist\u00e3 deveria defender sempre os mesmos projetos ao longo de toda a  sua hist\u00f3ria. A coer\u00eancia deve ser tamb\u00e9m pol\u00edtica, espiritual e din\u00e2mica.  Muitas vezes para ser coerente temos que mudar, pois a realidade \u00e9 din\u00e2mica.<\/li>\n<li><strong>e) <\/strong><strong>Ser  l\u00edder democr\u00e1tico, popular e ecum\u00eanico<\/strong>. N\u00e3o d\u00e1 mais para perder o cheiro dos  pobres que lutam de forma organizada. \u00c9 preciso conviver, partilhar as agruras e  as lutas, o dia a dia dos pobres. Isso \u00e9 ant\u00eddoto e vacina que evitam coopta\u00e7\u00e3o  ou trai\u00e7\u00e3o dos projetos populares.<strong>&nbsp;<\/strong><\/li>\n<li><strong>f) <\/strong><strong>Mudan\u00e7a estrutural<\/strong>. Na grande parte dos dois mil anos  de hist\u00f3ria do cristianismo, um jeito de viver a religi\u00e3o \u00e9 lutar pela  transforma\u00e7\u00e3o pessoal, atrav\u00e9s de exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 convers\u00e3o pessoal. Mas, j\u00e1 no  in\u00edcio do terceiro mil\u00eanio, conclu\u00edmos que a maioria das pessoas continuam mais  desfiguradas que transfiguradas. Desconfiamos que houve um equ\u00edvoco ao  ignorar&nbsp; o seguinte princ\u00edpio: se o  problema \u00e9 estrutural, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser s\u00f3 pessoal. Para problema  estrutural, solu\u00e7\u00e3o estrutural. Para problema pessoal, solu\u00e7\u00e3o pessoal. Para  problema pessoal e estrutural, mudan\u00e7a estrutural e pessoal. N\u00e3o podemos tamb\u00e9m  ficar amarrados no dualismo estrutura X pessoa, como cachorro correndo atr\u00e1s do  pr\u00f3prio rabo. \u00c9 falso o dilema: mudar primeiro a pessoa para obtermos mudan\u00e7a  estrutural ou transformar as estruturas para conseguirmos mudan\u00e7a pessoal. O  grande e saudoso profeta dom H\u00e9lder C\u00e2mara, no filme \u201cO Santo Rebelde\u201d diz alto  e em bom som: \u201cH\u00e1 estruturas externas e estruturas internas. O mais dif\u00edcil de  mudar s\u00e3o as estruturas internas.\u201d A luta socioambiental indica que as duas  lutas s\u00e3o uma s\u00f3 luta ou uma estimula a outra, s\u00e3o duas faces da mesma moeda,  n\u00e3o podem ser separadas. Gandhi nos alerta: \u201cComece por voc\u00ea mesmo a mudan\u00e7a que  prop\u00f5e ao mundo\u201d. Devemos acrescentar: \u201cmas n\u00e3o pare em voc\u00ea mesmo\/a. Envolva-se  gradativamente nas lutas por mudan\u00e7as no mundo.\u201d <\/li>\n<\/ol>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>5.3  &#8211; Atuar <span style=\"text-decoration: underline;\">com<\/span> os pobres e n\u00e3o <span style=\"text-decoration: underline;\">para<\/span> os pobres<\/strong><\/p>\n<p>Para  que aconte\u00e7a transforma\u00e7\u00e3o social com dimens\u00e3o ecol\u00f3gica e espiritual n\u00e3o basta  trabalhar <span style=\"text-decoration: underline;\">para<\/span> os pobres, os trabalhadores. \u00c9 imprescind\u00edvel atuar  <span style=\"text-decoration: underline;\">com<\/span> os pobres de forma que se tornem protagonistas das lutas. Como  exemplo, podemos citar a atua\u00e7\u00e3o do MST e da ASMARE (Associa\u00e7\u00e3o dos Catadores de  Materiais Recicl\u00e1veis) de Belo Horizonte. Os l\u00edderes do MST t\u00eam for\u00e7a e s\u00e3o  respeitados, porque h\u00e1 um grande movimento popular que os respalda e do qual  eles s\u00e3o porta-vozes. \u201cA for\u00e7a vem da luta coletiva\u201d, diz os Sem Terra do MST.  Os catadores de papel\u00e3o, em Belo Horizonte e em tantas cidades do Brasil, eram  como ossos ressequidos conforme descrito na B\u00edblia, no livro do profeta Ezequiel  (Ez 37,1-14), mas foi s\u00f3 algu\u00e9m come\u00e7ar a uni-los e coloc\u00e1-los em rela\u00e7\u00e3o, pouco  a pouco irrompeu uma for\u00e7a espiritual que transformou os marginalizados em  protagonistas da ASMARE, uma grande Associa\u00e7\u00e3o dos Catadores de Materiais  Recicl\u00e1veis que faz um trabalho libertador em Belo Horizonte, com mais de 350  fam\u00edlias, e j\u00e1 irradiando sua a\u00e7\u00e3o e exemplo para dezenas de cidades mineiras e  do Brasil. Al\u00e9m de limpar e cuidar da cidade, est\u00e3o se construindo. Quem conhece  de perto as fam\u00edlias participantes da ASMARE sente o quanto uma espiritualidade  libertadora os acompanha na organiza\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de um grande trabalho de  transforma\u00e7\u00e3o socioambiental. \u201c<em>Ad\u00e3o e Eva  tinham a miss\u00e3o de cuidar do para\u00edso. Sonhamos e lutamos para transformar a  cidade em um para\u00edso bom de se viver. Jesus se preocupava com a sa\u00fade das  pessoas. Ao limpar a cidade, n\u00f3s queremos contribuir para que as pessoas tenham  mais sa\u00fade<\/em>\u201d, arremata dona Geralda, uma das coordenadoras da ASMARE.<\/p>\n<p>No  meio dos trabalhadores das micro, pequenas e m\u00e9dias empresas dos setores de  cal\u00e7ado e vestu\u00e1rio n\u00e3o pode ser diferente. Lutar ao lado dos trabalhadores que  suam a camisa para cal\u00e7ar e vestir o povo brasileiro, eis uma cl\u00e1usula  necess\u00e1ria para se obter \u00eaxito na grande empreitada que \u00e9 conquistar sa\u00fade,  seguran\u00e7a e paz no mundo da produ\u00e7\u00e3o do cal\u00e7ado e do  vestu\u00e1rio.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.4  &#8211; N\u00e3o \u00e0 linguagem eufem\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem!  Cuidado com os eufemismos, discursos generalistas e inconsequentes. Entre as  v\u00e1rias viol\u00eancias cometidas hoje est\u00e1 a vulgariza\u00e7\u00e3o da linguagem e a pr\u00e1tica de  eufemismo que servem mais para colocar esparadrapo em cima de ferida ou panos  quentes em quest\u00f5es que precisam ser enfrentadas sem tergiversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A linguagem mais  libertadora das iniciativas libert\u00e1rias \u00e9, muitas vezes e de forma sutil,  cooptada pelos \u201cfuncion\u00e1rios\u201d do sistema neoliberal. Muita gente fala em  comunidade, em participa\u00e7\u00e3o, em cidadania, em direitos humanos, em respeito ao  meio ambiente, em desenvolvimento sustent\u00e1vel, em ecumenismo, mas, preto no  branco, esvazia-se o sentido libert\u00e1rio dessas categorias. Por exemplo, as  empresas mineradoras estufam o peito e adoram dizer que est\u00e3o fazendo  desenvolvimento sustent\u00e1vel, mas, na pr\u00e1tica, est\u00e3o colocando verniz em um  projeto altamente depredador.<\/p>\n<p>A express\u00e3o  \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o <st1:personname productid=\"em si. Ou\">em si. Ou<\/st1:personname> \u00e9 desenvolvimento ou \u00e9  sustent\u00e1vel, pois \u201cdesenvolvimento\u201d est\u00e1 na linha do progresso econ\u00f4mico,  crescimento tecnol\u00f3gico, dom\u00ednio da natureza, sugar ao m\u00e1ximo os bens naturais.  Isso se contrap\u00f5e a \u201csustent\u00e1vel\u201d, algo que passa por preserva\u00e7\u00e3o, conviv\u00eancia  harm\u00f4nica entre os diferentes, biodiversidade, ecossistema, bioma.<\/p>\n<p>As empresas  eucaliptadoras, eufemisticamente chamadas de empresas reflorestadoras, falam em  \u201cfloresta de eucalipto\u201d o que \u00e9 outra contradi\u00e7\u00e3o, pois floresta implica a  exist\u00eancia de uma imensa variedade de plantas, uma rica biodiversidade. A  monocultura de eucalipto constitui sim em um deserto verde, pois s\u00f3 existe  eucalipto. O resto \u00e9 dizimado.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os eufemismos  mais usados no mundo da produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ado e de vestu\u00e1rio? \u00c9 imprescind\u00edvel  identific\u00e1-los e desmascarar quem adora us\u00e1-los, pois existem em todos os  setores da vida social e obedecem aos interesses do <em>status quo<\/em>, escondem verdades. Com a  palavra quem est\u00e1 com a m\u00e3o na massa na produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ados e vestu\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.5  &#8211; \u201cNaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d do ser humano e \u201cdiviniza\u00e7\u00e3o\u201d do meio  ambiente<\/strong><\/p>\n<p>Encantamento, rever\u00eancia,  respeito e compromisso com todas as criaturas. Eis uma m\u00edstica que potencializa  as lutas por transforma\u00e7\u00e3o socioambiental que podem alavancar melhorias na  qualidade de vida dos trabalhadores que cal\u00e7am e vestem tanta gente, e mobiliam  tantos lares.<\/p>\n<p>Antigamente,  muitas culturas estavam ligadas ao culto da natureza, vista como divina. Hoje,  redescobrimos na terra, na \u00e1gua e em todo ser vivo, um sinal da presen\u00e7a do  mist\u00e9rio amoroso que envolve o universo. O amor que faz do universo uma  comunidade de vida. Que se denomine Deus ou n\u00e3o, esta energia amorosa nos chama  a sermos n\u00f3s mesmos sementes e criaturas fecundas dessa amoriza\u00e7\u00e3o do planeta  Terra. Cada vez mais as pessoas que seguem algum caminho religioso sabem que a  religi\u00e3o s\u00f3 vale a pena se ajudar a humanidade a viver o processo de amoriza\u00e7\u00e3o.  Foi o que viveu Lao-Ts\u00e9, Buda, Mois\u00e9s, Jesus de Nazar\u00e9, Maom\u00e9 e todos os homens  e mulheres de espiritualidade libertadora.<\/p>\n<p>O documento  ecum\u00eanico \u201cOs pobres possuir\u00e3o a Terra\u201d, assinado por muitos bispos e pastores  de diversas Igrejas crist\u00e3s, afirma: \u201cToda forma de vida e todos os seres vivos  possuem um valor intr\u00ednseco de bondade e t\u00eam direito ao respeito\u201d<a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftn7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Eis um desafio  que est\u00e1 colocado para a humanidade: criar uma rela\u00e7\u00e3o de conviv\u00eancia e cuidado  consigo mesma, uns com os outros e com a natureza &#8211; a terra, a \u00e1gua e todo ser  vivo -, a partir de uma consci\u00eancia de perten\u00e7a e interdepend\u00eancia. \u00c9 hora de  cultivarmos encantamento, rever\u00eancia, respeito e compromisso com todas as  criaturas.<\/p>\n<p>Existe uma  \u00e9tica ecol\u00f3gica quando superamos a rela\u00e7\u00e3o de dono e propriet\u00e1rio da terra, dos  animais e das plantas para a rela\u00e7\u00e3o de que somos gerentes e zeladores da  comunidade de vida a que pertencemos como membros.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.6  &#8211; \u201cDar nomes aos bois\u201d \u00e9 necess\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Presas por  limites pessoais, comprometidas com pessoas ligadas ao sistema  opressor-depredador, incoerentes, amarradas, desejando \u201cagradar gregos e  troianos\u201d, muitas pessoas que lutam por transforma\u00e7\u00e3o socioambiental n\u00e3o querem  chamar para cima de si antipatia, incompreens\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es. Assim se  comportando, restringem em muito a radicalidade de muitas lutas, pois muitos  optam por \u201cn\u00e3o dar nomes aos bois\u201d. Por exemplo, critica-se a monocultura do  eucalipto, mas n\u00e3o se diz que as respons\u00e1veis maiores s\u00e3o a multinacional  Aracruz Celulose e as eucaliptadoras PLANTAR, FLORESTAMINAS, CENIBRA etc. \u00c9  \u00f3bvio que n\u00e3o se deve dar \u201cnomes aos bois\u201d a todo o momento, a qualquer grupo e  de qualquer maneira. Luta contra o poder domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz apenas com  palavras, discursos, conselhos e ora\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso causar desordem,  desobedi\u00eancia civil, pois o sistema opressor-depredador se funda na ordem e na  seguran\u00e7a somente para uma minoria.<\/p>\n<p>Dar nomes aos bois \u00e9  condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para fazer avan\u00e7ar o processo de transforma\u00e7\u00e3o  socioambiental, inclusive no mundo do trabalho, e vivenciar o sentido primeiro  de religi\u00e3o. O desafio \u00e9 profetizar de forma correta, para as pessoas certas e  na hora certa. E ser profeta diante de tantos abusos contra a natureza n\u00e3o \u00e9 das  tarefas mais dif\u00edceis. Basta lembrar Nelson Rodrigues que dizia: &#8220;G\u00eanio, santo ou <strong>profeta<\/strong> \u00e9 aquele que enxerga o  \u00f3bvio\u201d.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>5.7  &#8211; Op\u00e7\u00e3o pelos pobres com vis\u00e3o hol\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 mais para  continuar apostando na op\u00e7\u00e3o pelos pobres como se fez na primeira fase da  Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, quando se primava pela transforma\u00e7\u00e3o social, o que  implicaria superar o capitalismo e construir uma sociedade socialista. Op\u00e7\u00e3o  pelos pobres era basicamente op\u00e7\u00e3o de classe, pois se tinha o pobre econ\u00f4mico  como o pobre por excel\u00eancia. Hoje a op\u00e7\u00e3o pelos pobres precisa ser radicalizada  incluindo uma vis\u00e3o hol\u00edstica, pois estamos diante de pobre no plural: o  desempregado, um pobre econ\u00f4mico; a mulher, uma pobre diante do machismo e do  patriarcalismo; o negro, um pobre diante do racismo; as pessoas portadoras de  defici\u00eancia, pobres diante de uma sociedade da est\u00e9tica e da apar\u00eancia; a Terra,  uma pobre agredida pelo agroneg\u00f3cio (monoculturas, minera\u00e7\u00e3o, uso abusivo de  agrot\u00f3xicos); a \u00e1gua, uma pobre diante de um sistema de produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a  considera como fonte de vida, mas como mercadoria; os trabalhadores dos setores  de cal\u00e7ado e de vestu\u00e1rio, pobres diante de seus patr\u00f5es e da infernal  parafern\u00e1lia de produ\u00e7\u00e3o acelerada que imp\u00f5e o <em>slogan<\/em> \u201cproduzir, produzir, produzir  &#8230;\u201d cada vez mais, com o menor custo e na maior velocidade para saciar o deus  mercado que devora mercadorias e tritura tantas vidas humanas. S\u00e3o tantos  pobres! Ter a grandeza de articular lutas que incluam todos e resgate a  dignidade de todos \u00e9 o que pode garantir transforma\u00e7\u00e3o socioambiental e  religiosa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.8  &#8211; N\u00e3o abrir m\u00e3o da profecia<\/strong><\/p>\n<p>Tenho ouvido muito de  pessoas sens\u00edveis e sonhadoras: \u201cN\u00e3o abra m\u00e3o da profecia.\u201d Esta nos traz  esperan\u00e7a, d\u00e1 sentido ao (con)viver e fortalece a utopia de que estamos  construindo um outro mundo&nbsp; que,  transformado e transfigurado, ser\u00e1 um santu\u00e1rio do reino de Deus. Por\u00e9m importa  profetizar no sentido mais profundo e n\u00e3o \u00e0 Nostradamus. A palavra \u2018profeta\u2019 vem  do grego <strong><em>pro<\/em><\/strong>, que significa <em>em lugar de; <strong>feta<\/strong><\/em> vem de  <em>f\u00e8mi<\/em>, que significa <em>falar<\/em>. Profeta ou profetisa \u00e9 algu\u00e9m que n\u00e3o  fala em nome pr\u00f3prio, mas em nome do outro que o enviou. Profeta \u00e9 porta-voz de  Deus, <em>fala em nome de Deus<\/em>. Profetizar \u00e9 proferir uma palavra que fere a  realidade, consolando os aflitos e incomodando os acomodados. A miss\u00e3o prof\u00e9tica  exige uma uni\u00e3o muito \u00edntima com Deus para poder ser seu porta-voz e transmitir  a sua palavra. N\u00e3o d\u00e1 para se ter uni\u00e3o \u00edntima com Deus sem conviv\u00eancia profunda  com todas as criaturas, reconhecendo-as como \u201cimagem e semelhan\u00e7a de Deus\u201d, a  partir dos pobres, os preferidos de Deus. A miss\u00e3o prof\u00e9tica pode brotar da  experi\u00eancia de Deus, e pode gerar uma nova maneira de conviver com todas as  criaturas, admitindo-as como filhas e filhos de Deus.<\/p>\n<p>Pertencemos a uma \u00fanica  comunidade de vida. Vivemos em uma \u00fanica casa comum, o planeta Terra. Fazemos  parte, interagimos, existimos <st1:personname productid=\"em rede. Ningu\uffe9m\">em rede. Ningu\u00e9m<\/st1:personname> est\u00e1 isolado.  Todos dependemos uns dos outros. Ningu\u00e9m \u00e9 autosuficiente. \u201cEu sou feliz \u00e9 na  comunidade\u201d, diz a sabedoria popular com uma f\u00e9 simples e intuitiva. \u201c<em>Eu sou apenas um peda\u00e7o de pessoa. Pessoa \u00e9  a comunidade. Quero ser inteiro. Por isso n\u00e3o abro m\u00e3o de participar da  comunidade\u201d<\/em> \u00addizia um campon\u00eas das Comunidades Eclesiais de Base do Cear\u00e1. A  vida em comunidade torna-se prof\u00e9tica, torna-se porta-voz da Boa Nova de Deus  que Jesus testemunhou. Torna-se an\u00fancio de esperan\u00e7a para os pobres, oprimidos e  todas as criaturas vitimadas. Em comunidades e em movimentos sociais populares,  em sindicatos aut\u00eanticos, denunciamos a injusti\u00e7a de sistemas e pessoas  opressoras e depredadoras. Enfim, o profeta ou a profetisa ouve os sussurros  (cochichos) de Deus no meio das rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre as pessoas e  com todas as criaturas na busca por mais vida e liberdade para todos e tudo. E  pelo seu jeito de ser e agir, comunica os apelos ouvidos, o que gera  fraternidade.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de ouvir o apelo prof\u00e9tico da m\u00fasica <em>Meu  Pa\u00eds<\/em>, de Zez\u00e9 di Camargo e Luciano, que diz assim:&nbsp; \u201cAqui n\u00e3o falta sol \/ Aqui n\u00e3o falta chuva \/  A terra faz brotar qualquer semente \/ Se a m\u00e3o de Deus \/ Protege e molha o nosso  ch\u00e3o \/ Por que ser\u00e1 que t\u00e1 faltando p\u00e3o? \/ Se a natureza nunca reclamou da gente  \/ Do corte do machado, a foice, o fogo ardente \/ Se nessa terra tudo que se  planta d\u00e1 \/ <strong>Que \u00e9 que h\u00e1, meu pa\u00eds? \/ O que \u00e9 que h\u00e1? <\/strong>\/ Tem algu\u00e9m  levando lucro \/ Tem algu\u00e9m colhendo o fruto \/ Sem saber o que \u00e9 plantar \/ <strong>T\u00e1  faltando consci\u00eancia \/ T\u00e1 sobrando paci\u00eancia \/ T\u00e1 faltando algu\u00e9m gritar<\/strong> \/  Feito um trem desgovernado \/ Quem trabalha t\u00e1 ferrado \/ Nas m\u00e3os de quem s\u00f3  engana \/ Feito mal que n\u00e3o tem cura \/ Est\u00e3o levando \u00e0 loucura \/O pa\u00eds que a  gente ama &#8230;\u201d<\/p>\n<p><strong>5.9  &#8211; Ter a coragem de n\u00e3o mistificar media\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Se o Partido dos  Trabalhadores e os sindicatos de trabalhadores foram (ou ainda s\u00e3o em parte) uma  media\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 assegurado que continuar\u00e3o sendo por muito tempo. \u00c9 preciso  abra\u00e7ar as mesmas causas de outras posi\u00e7\u00f5es e em novas trincheiras. \u00c9 preciso  deixar parte da agenda pessoal para o acidental e urgente. N\u00e3o ser totalmente  programado.<\/p>\n<p>\u201cSe transforma ficando na  \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\u201d ou saindo?\u201d perguntava padre Toninho. Depende. Ficar onde e como?  Sair para onde e continuar como? Jesus e o ap\u00f3stolo Paulo (e seus disc\u00edpulos e  disc\u00edpulas) nasceram na sinagoga, mas sa\u00edram e assumiram outros are\u00f3pagos. O  debate que est\u00e1 se iniciando entre os que continuam acreditando em institui\u00e7\u00f5es  que foram libertadoras e os que preferem criar outras institui\u00e7\u00f5es, ap\u00f3s um  tempo de hostiliza\u00e7\u00e3o interna, ser\u00e1 muito frut\u00edfero e poder\u00e1 contribuir na  implementa\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00f5es socioambientais e especificamente em melhorias  para os trabalhadores que cal\u00e7am e vestem o povo e mobiliam milh\u00f5es de casas, no  Brasil e no exterior.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.10  \u2013 Libertar-se do discurso religioso tradicional<\/strong><\/p>\n<p>Desvencilhar-se das  grades do linguajar grego-ocidental profundamente dualista, eis outro desafio.  Transformar nas dimens\u00f5es social, ambiental e religiosa exige libertar-se do  discurso (e da pr\u00e1tica) religioso tradicional, pois este condiciona em muito  nossa vis\u00e3o e acaba por desviar a aten\u00e7\u00e3o de muitos assuntos que s\u00e3o cruciais.  Quando focalizamos as express\u00f5es religiosas, corremos o risco de n\u00e3o ver outras  express\u00f5es religiosas que n\u00e3o s\u00e3o consideradas como tais. Se ficarmos observando  s\u00f3 o sagrado, corremos o risco de n\u00e3o ver a sacralidade presente no profano.  Ali\u00e1s, o profano \u00e9 o que h\u00e1 de mais sagrado. O Deus da vida est\u00e1 entre o vestir  e o cal\u00e7ar. Est\u00e1 l\u00e1 consolando o trabalhador esfolado. Est\u00e1 l\u00e1 denunciando  viol\u00eancias e desrespeito aos direitos humanos. Enfim, est\u00e1 l\u00e1 questionando e  desmascarando o deus capital\/mercado que, como vampiro, vive \u00e0 custa de muito  sangue. Mas o Deus da vida n\u00e3o se faz presente de forma m\u00e1gica, nem de cima para  baixo. O Deus da vida est\u00e1 l\u00e1 ao redor da prensa, da injetora, do balancim de  corte e costura, em face humana, suando, batalhando, alegrando-se, \u00e0s vezes,  angustiado e &#8230; sendo solid\u00e1rio com os colegas na luta por dias melhores.<\/p>\n<p>Se olharmos apenas a  superficialidade das lutas sociais e ecol\u00f3gicas, teremos mais dificuldade de  perceber a presen\u00e7a de uma espiritualidade libertadora que inspira e alimenta  tantas lutas. No mais profundo de cada militante socioambiental, no interior de  um trabalhador altru\u00edsta, de um sindicalista \u00e9tico, est\u00e1 tamb\u00e9m uma nova forma  de experimentar a rela\u00e7\u00e3o com Deus, o mist\u00e9rio de amor que nos envolve. \u00c0s  vezes, \u00e9 nominado; \u00e0s vezes, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.11 &#8211; Somos corpo pessoal,  social, ecol\u00f3gico e espiritual<\/strong><\/p>\n<p>Nosso corpo pessoal \u00e9 um  universo composto de uma infinidade de \u00f3rg\u00e3os, c\u00e9lulas, \u00e1tomos, part\u00edculas  subat\u00f4micas etc. Quando em harmonia, os \u00f3rg\u00e3os do corpo humano est\u00e3o todos  tecendo rela\u00e7\u00f5es de complementariedade, coopera\u00e7\u00e3o, corresponsabilidade e  gratuidade. A Cria\u00e7\u00e3o comp\u00f5e um corpo infinitamente diverso e plural, onde a  biodiversidade se constr\u00f3i com rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o e complementariedade. Os  seres humanos comp\u00f5em o corpo social. Para contribuirmos no processo de  transforma\u00e7\u00e3o socioambiental e espiritual faz muito bem inspirarmo-nos tamb\u00e9m na  teia da vida vivida nos corpos pessoal, social e ecol\u00f3gico. H\u00e1 um fio vital e  invis\u00edvel, que tudo liga. A isso chamamos dimens\u00e3o espiritual da vida.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.12 &#8211; O que deve ser  Religi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Transforma\u00e7\u00e3o socioambiental e religiosa exige desvencilhar  tamb\u00e9m da no\u00e7\u00e3o de religi\u00e3o como institui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com dogmas, doutrinas,  ritos e regras a serem seguidas. Redescobrir o sentido mais profundo de religi\u00e3o  \u00e9 imprescind\u00edvel. Por isso faz bem prestar aten\u00e7\u00e3o na etimologia da palavra  religi\u00e3o. Segundo sua etimologia, no seu sentido mais profundo, Religi\u00e3o (que  vem do latim) \u00e9 <em>re-ligare; re-l\u00e9gere;  re-el\u00edgere:<\/em><\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">5.12.1 &#8211; Religi\u00e3o verdadeira nos <\/span><em><span style=\"font-size: 10pt;\">re-liga (re-ligare): <\/span><\/em><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">a)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  com Deus, nossa fonte  primeira &#8211; o  mist\u00e9rio de amor maior e inef\u00e1vel, que nos envolve, nos permeia, nos perpassa e  nos liga a todos e a tudo (Sl 138);<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">b)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  com o outro (o  pr\u00f3ximo) &#8211;  prioritariamente com marginalizados e exclu\u00eddos, ajudando-nos a estabelecer  v\u00ednculos efetivos, afetivos e de comunica\u00e7\u00e3o para que possamos viver e conviver;<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">c)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  com a natureza \/ toda a  Cria\u00e7\u00e3o &#8211; a m\u00e3e  terra, a irm\u00e3 \u00e1gua, o irm\u00e3o sol, o irm\u00e3o oxig\u00eanio, plantas, animais etc: a  Religi\u00e3o nos integra na grande <\/span><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">comunidade da vida<\/span><\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">.<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">d)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  Com n\u00f3s mesmos \u2013 com o  nosso Eu Profundo, no seu  sentido mais genu\u00edno, a Religi\u00e3o nos guia at\u00e9 o mais profundo de n\u00f3s mesmos,  nossos medos e sonhos, nossas for\u00e7as e fraquezas; por ela transborda o imenso e  belo potencial de vida existente em n\u00f3s e no nosso entorno: beleza, for\u00e7a e  energia vital.<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">5.12.2 &#8211; Religi\u00e3o verdadeira nos ensina a <\/span><em><span style=\"font-size: 10pt;\">re-ler  (re-l\u00e9gere)<\/span><\/em><span style=\"font-size: 10pt;\">:<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">&#8211; ler  de novo, interpretar, com senso cr\u00edtico e criativo, a realidade do que somos e a  que nos envolve. Reavaliar o sentido que damos \u00e0 vida, nossas posturas, acertos  e desacertos. Em nossa caverna global, sob a batuta da m\u00eddia, funciona, a todo  vapor, a ind\u00fastria do senso comum, do entretenimento f\u00fatil e da desinforma\u00e7\u00e3o.  Not\u00edcias sem valor para uma vida de mais qualidade nos anestesiam e nos  intoxicam. Os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o supervalorizam o negativo, o ex\u00f3tico,  as trag\u00e9dias de apelo sensacionalista, fomentando a cegueira e a paralisia  social. \u00c9 preciso reler, \u201creinterpretar\u201d, n\u00e3o se acostumar, n\u00e3o banalizar, n\u00e3o  ser ing\u00eanuos\/as. \u00c9 preciso desconfiar de muitas coisas que nos s\u00e3o apresentadas.  \u00c9 preciso discernir. &#8220;<\/span><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Como \u00e9 que voc\u00eas  n\u00e3o sabem interpretar o tempo presente?<\/span><\/em><span style=\"font-size: 10pt;\">&#8221; (Evangelho de Lucas  12,56).<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">5.12.3 &#8211; Religi\u00e3o verdadeira \u00e9 tamb\u00e9m <\/span><em><span style=\"font-size: 10pt;\">eleger de novo  (re-el\u00edgere):<\/span><\/em><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt;\">&#8211; escolher  melhor, fazer op\u00e7\u00f5es libertadoras e \u00e9ticas diante dos desafios que se colocam  para n\u00f3s.<\/span><\/h2>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Cultivar um tipo de religi\u00e3o, no sentido original, \u00e9 um grande  desafio, tamb\u00e9m porque vivemos tempos de fundamentalismos, de c\u00e9us povoados de  anjos e entidades, de dem\u00f4nios por todos os lados, de gritaria de deuses, de  promessas, de busca insaci\u00e1vel de b\u00ean\u00e7\u00e3os, de prociss\u00f5es, de peregrina\u00e7\u00f5es, de  necessidade de expia\u00e7\u00e3o, de moralismos, de religi\u00f5es sem Deus, de salva\u00e7\u00f5es sem  escatologia, de cristianismos <em>light<\/em>, de liberta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o v\u00e3o muito  al\u00e9m da autoestima.<\/p>\n<p>Enfim, uma espiritualidade libertadora inclui o resgate do  sentido original de religi\u00e3o, inspira e anima as lutas por transforma\u00e7\u00e3o  socioambiental que, por sua vez, questionam as espiritualidades tradicionais e  tradicionalistas e reclamam a viv\u00eancia de espiritualidade libertadora.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5.13  &#8211; A crise \u00e9 f\u00e9rtil<\/strong><\/p>\n<p>Diante das graves  estat\u00edsticas de \u201cacidentes\u201d de trabalho nos setores de produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ado e  vestu\u00e1rio, diante do tsunami de injusti\u00e7as sociais e de devasta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica em  progress\u00e3o geom\u00e9trica sentimos, muitas vezes, uma grande impot\u00eancia. Parece que  estamos caminhando para um apocalipse da vida sobre nossa \u00fanica casa comum, o  planeta \u00c1gua, erroneamente chamado de planeta Terra. Mas a fina flor da  experi\u00eancia b\u00edblica indica-nos que os momentos de crise s\u00e3o profundamente  f\u00e9rteis. \u201cO deserto \u00e9 f\u00e9rtil\u201d, dizia dom H\u00e9lder C\u00e2mara. H\u00e1 potencialidades que  precisam ser desenvolvidas.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental reconhecer que estamos participando de processos,  de uma caminhada constitu\u00edda de uma infinidade de passos, que devem ser  articulados entre si. Se ficarmos contemplando apenas o tamanho e a pretensa  for\u00e7a do Golias, n\u00e3o perceberemos a for\u00e7a e a grandeza presentes no pequeno  Davi. Os trabalhadores dos setores de cal\u00e7ado e de vestu\u00e1rio, se isolados, s\u00e3o  fracos, mas se unidos e organizados, em comiss\u00f5es ou em sindicatos aut\u00eanticos,  podem derrubar muitos Golias e revelar a for\u00e7a e a luz do pequeno Davi que  existe em cada um\/a de n\u00f3s. O sistema opressor e depredador \u00e9 um gigante, mas  tem p\u00e9s de barro. A hist\u00f3ria demonstra que, quando menos se esperam, guinadas  s\u00e3o dadas e os ventos come\u00e7am a soprar em outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim, esperamos ter contribu\u00eddo para se perceber \u201conde est\u00e1  Deus entre o vestir e o cal\u00e7ar\u201d e lan\u00e7ar pistas para uma pedagogia para luta de  transforma\u00e7\u00e3o socioambiental tamb\u00e9m no mundo do trabalho, nos setores cal\u00e7adista  e de vestu\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Gilvander Lu\u00eds Moreira, frei carmelita (da Ordem do Carmo)<\/p>\n<p>Comunidade Carmelitana Edith Stein<\/p>\n<p>Rua Iracema Souza Pinto, 695 \u2013 bairro Planalto<\/p>\n<p>CEP: 31720-510 &#8211; BELO HORIZONTE \u2013 MG<\/p>\n<p>E-mail: <a href=\"mailto:gilvander@igrejadocarmo.com.br\">gilvander@igrejadocarmo.com.br<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvander.org.br\">www.twitter.com\/gilvander.org.br<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div><br clear=\"all\" \/>  <\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<p><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftnref1\">[1]<\/a> Frei e padre carmelita; mestre <st1:personname productid=\"em Exegese B\uffedblica\">em Exegese B\u00edblica<\/st1:personname> pelo  Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico, de Roma; professor de Exegese e Teologia B\u00edblica  do Evangelho de Lucas e Atos dos Ap\u00f3stolos e Introdu\u00e7\u00e3o ao Novo Testamento, no  Instituto Santo Tom\u00e1s de Aquino \u2013 ISTA -, em Belo Horizonte, MG, e no Semin\u00e1rio  S\u00e3o Jos\u00e9, da Arquidiocese de Mariana, MG; assessor de Comunidades Eclesiais de  Base \u2013 CEBs -, Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 CPT -, Movimento dos Trabalhadores  Rurais Sem Terra \u2013 MST -, Via Campesina, Centro Ecum\u00eanico de Estudos B\u00edblicos \u2013  CEBI &#8211; e Servi\u00e7o de Anima\u00e7\u00e3o B\u00edblica \u2013 SAB. E-mail: <a href=\"mailto:gilvander@igrejadocarmo.com.br\">gilvander@igrejadocarmo.com.br<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftnref2\">[2]<\/a> Em complemento, o Anexo II do Regulamento da  Previd\u00eancia Social, aprovado pelo Decreto n\u00ba 3.048, de maio de 1999, classifica  os \u201caspectos m\u00f3rbidos\u201d relacionadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, segundo as  defini\u00e7\u00f5es constantes no Art. 20 da Lei n\u00ba 8.213 sobre \u201cdoen\u00e7a profissional\u201d e  \u201cdoen\u00e7a do trabalho\u201d.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftnref3\">[3]<\/a> Anu\u00e1rio  Estat\u00edstico de Acidentes do Trabalho: AEAT 2000.Bras\u00edlia: MTE\/MPAS, 2002, p.13  (Subse\u00e7\u00e3o A \u2013<\/p>\n<p>acidentes  do trabalho registrados).<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftnref4\">[4]<\/a> Infelizmente,  por falta de autoriza\u00e7\u00e3o formal competente e em tempo h\u00e1bil, n\u00e3o foi poss\u00edvel  pesquisar o p\u00f3lo<\/p>\n<p>cal\u00e7adista  de Franca, <st1:personname productid=\"em S\uffe3o Paulo.\">em S\u00e3o  Paulo.<\/st1:personname><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftnref5\">[5]<\/a> Fratura, traumatismo  superficial, Queimadura e corros\u00e3o, Les\u00e3o por esmagamento, Amputa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica  &#8230;<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftnref6\">[6]<\/a> Coloco entre aspas \u2013 \u201cacidentes\u201d \u2013 porque se buscarmos as causas mais profundas  dos acidentes, possivelmente, descobriremos que n\u00e3o s\u00e3o acidentes no estrito  sentido do termo, mas s\u00e3o \u201ccrimes anunciados\u201d por condi\u00e7\u00f5es materiais e  psicol\u00f3gicas a que os trabalhadores s\u00e3o submetidos que acidentes s\u00e3o  previs\u00edveis, trag\u00e9dia anunciada.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"file:\/\/\/D:\/HOMEPAGES%20NO%20AR%2027%2007%202010\/Gilvander%2027%2007%202010\/Entreovestir.htm#_ftnref7\">[7]<\/a> &#8211; BISPOS E PASTORES SINODAIS DO  BRASIL, \u201c<strong>Os Pobres possuir\u00e3o a Terra\u201d, <\/strong>Ed. CEBI, Ed. Sinodal, Ed. Paulinas, 2006, n\u00famero 82, p. 45.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o vestir e o cal\u00e7ar, onde est\u00e1 Deus? Pistas para uma pedagogia de luta por transforma\u00e7\u00e3o socioambiental, inspirada nos trabalhadores que militam nos mundos da produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ado e de vestu\u00e1rio.(Artigo publicado no livro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-5","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}