{"id":5992,"date":"2020-04-10T13:19:17","date_gmt":"2020-04-10T16:19:17","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=5992"},"modified":"2020-04-10T13:19:19","modified_gmt":"2020-04-10T16:19:19","slug":"o-futuro-pos-coronavirus-ja-esta-em-disputa-por-eliane-brum%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-futuro-pos-coronavirus-ja-esta-em-disputa-por-eliane-brum%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"O futuro p\u00f3s-coronav\u00edrus j\u00e1 est\u00e1 em disputa. Por Eliane Brum\ufeff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O futuro p\u00f3s-coronav\u00edrus j\u00e1 est\u00e1 em disputa. Por Eliane Brum<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Como impedir que o capitalismo, que j\u00e1 nos roubou o presente, nos roube tamb\u00e9m o amanh\u00e3?<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/COVID-19-para-El-Pa\u00eds-1024x715.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5993\" width=\"475\" height=\"331\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/COVID-19-para-El-Pa\u00eds-1024x715.jpg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/COVID-19-para-El-Pa\u00eds-300x209.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/COVID-19-para-El-Pa\u00eds-768x536.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/COVID-19-para-El-Pa\u00eds.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><figcaption>Um homem passa por um grafitti de Jair Bolsonaro durante a pandemia de coronav\u00edrus, no Rio de Janeiro, dia 07\/4\/2020. Foto: SILVIA IZQUIERDO \/ AP <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: El Pa\u00eds \u2013 08\/04\/2020.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, os que hoje estamos vivos, nunca enfrentamos uma amea\u00e7a como o novo\ncoronav\u00edrus. Se tantos repetem que o mundo nunca mais ser\u00e1 o mesmo, qual \u00e9\nent\u00e3o o mundo que queremos?<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m se iluda. Enquanto a pandemia \u00e9 enfrentada, essa resposta j\u00e1\nest\u00e1 sendo disputada. \u00c9 ela que vai determinar o futuro pr\u00f3ximo. Lutar pela\nvida amea\u00e7ada pelo v\u00edrus \u00e9 o imperativo da emerg\u00eancia. \u00c9 preciso, por\u00e9m, fazer\nalgo ainda mais dif\u00edcil: lutar pelo futuro p\u00f3s-v\u00edrus. Se n\u00e3o o fizermos, a\nretomada da \u201cnormalidade\u201d ser\u00e1 a volta da brutalidade cotidiana que s\u00f3 \u00e9\n\u201cnormal\u201d para poucos, uma normalidade arrancada da vida dos muitos que\ndiariamente t\u00eam seus corpos esgotados. O rompimento do \u201cnormal\u201d, provocado pelo\nv\u00edrus, pode ser a oportunidade para desenhar uma sociedade baseada em outros\nprinc\u00edpios, capaz de barrar a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica e promover justi\u00e7a social. O\npior que pode nos acontecer depois da pandemia ser\u00e1 justamente voltar \u00e0\n\u201cnormalidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As grandes corpora\u00e7\u00f5es j\u00e1 come\u00e7am a se mover para garantir o controle do\nque vir\u00e1. Na semana passada, as companhias de petr\u00f3leo foram recebidas por\nDonald Trump&nbsp;na Casa Branca. N\u00e3o foram discutir como salvar os mais pobres\ndos efeitos da pandemia. No Reino Unido, as companhias de avia\u00e7\u00e3o fazem lobby\npor subs\u00eddio governamental e, claro, desregulamenta\u00e7\u00e3o. Tampouco elas foram se\nreunir para tomar ch\u00e1 e discutir investimentos na \u00e1rea social.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do novo coronav\u00edrus, at\u00e9 baluartes da imprensa liberal,\ncomo&nbsp;<em>The Economist<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Financial Times<\/em>, ambos\nnascidos no ber\u00e7o do capitalismo, t\u00eam anunciado que \u00e9 preciso dar um passo\natr\u00e1s.&nbsp;Maior interven\u00e7\u00e3o do Estado&nbsp;e pol\u00edticas como renda m\u00ednima&nbsp;e\ntaxa\u00e7\u00e3o de fortunas, antes consideradas \u201cex\u00f3ticas\u201d por esses segmentos, t\u00eam\nsido elencadas na abordagem do novo contrato social no mundo p\u00f3s-pandemia.\nConceder um pouco para garantir que nada mude no essencial \u00e9 um truque antigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o v\u00edrus, descobrimos que aqueles que afirmavam ser imposs\u00edvel parar\nde produzir, reduzir o n\u00famero de voos, aumentar os investimentos dos governos e\nmudar radicalmente os h\u00e1bitos apenas mentiam.&nbsp;O mundo mudou em menos de tr\u00eas\nmeses&nbsp;em nome da vida. \u00c9 tamb\u00e9m em nome da vida que precisamos manter as\nboas pr\u00e1ticas que surgiram deste per\u00edodo e pressionar como nunca antes por\noutro tipo de sociedade, tecida com outros fios.<\/p>\n\n\n\n<p>A tarefa \u00e9 inadi\u00e1vel. Se n\u00e3o fizermos isso, o mundo p\u00f3s-coronav\u00edrus ser\u00e1\nainda mais brutal e o colapso clim\u00e1tico se aprofundar\u00e1. Para o exterm\u00ednio da\nnatureza n\u00e3o h\u00e1 nem jamais haver\u00e1 vacina. Nosso futuro depende de enterrar o\nsistema capitalista que exauriu o planeta&nbsp;e nos trouxe at\u00e9 o tempo das\npandemias. E para isso tamb\u00e9m n\u00e3o serve o comunismo que explorou, destruiu\nvidas, corroeu a natureza e oprimiu os corpos. Precisamos encontrar outros caminhos.\nE r\u00e1pido. Muitos dizem que \u00e9 ing\u00eanuo. Outros dizem que \u00e9 imposs\u00edvel. O que \u00e9\ning\u00eanuo \u00e9 sentar na cadeira de pregos que se tornou o presente e esperar os\nefeitos da brutal superexplora\u00e7\u00e3o da natureza (terminar de) deformar a face do\nplaneta. Imposs\u00edvel \u00e9 seguirmos vivendo como temos vivido.<\/p>\n\n\n\n<p>O isolamento f\u00edsico&nbsp;tem que ser usado para produzir pensamento\nsocial e para atuar coletivamente, em rede. Este artigo, dividido em duas\npartes, \u00e9 uma colabora\u00e7\u00e3o para o debate do futuro que precisa ser travado no\npresente. Agora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1) No Brasil, todos os caminhos levam ao neoliberalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O presente, no Brasil, \u00e9 uma armadilha. Temos um antipresidente \u2013 e a\nantipresid\u00eancia \u00e9 um conceito criado pelo bolsonarismo&nbsp;\u2013 que faz oposi\u00e7\u00e3o\nao seu pr\u00f3prio governo. A t\u00e9cnica ficou clara desde o in\u00edcio do mandato, mas\nganhou contornos dram\u00e1ticos na pandemia, quando Jair Bolsonaro abriu guerra\ncontra seu pr\u00f3prio ministro da Sa\u00fade. A nega\u00e7\u00e3o da realidade, como m\u00e9todo de\nmanuten\u00e7\u00e3o do poder, tem v\u00e1rios efeitos sobre a popula\u00e7\u00e3o. Um deles \u00e9 ocupar o\nnotici\u00e1rio e sequestrar o debate.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de debater a amea\u00e7a mais urgente, estamos travando o falso debate\nlan\u00e7ado contra os brasileiros por Bolsonaro: isolamento ou n\u00e3o isolamento, ou\nsa\u00fade versus economia. \u00c9 o que acontece quando se elege um homem que, no\npassado, planejou explodir bombas nos quart\u00e9is para pressionar por aumento\nsalarial. As bombas de Bolsonaro hoje s\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o, visam ao caos e\ntamb\u00e9m podem matar.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 ainda maior porque a nega\u00e7\u00e3o da realidade tamb\u00e9m produz\nrealidade. Neste caso, n\u00e3o s\u00f3 a de colocar a popula\u00e7\u00e3o em risco, mas tamb\u00e9m a\nde fazer acreditar que h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o real. Essa ilus\u00e3o que cresce no Brasil, at\u00e9\npor desespero, pode comprometer o futuro de forma irrevers\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Jair Bolsonaro (sem partido) renunciar, o que parece bastante\nimprov\u00e1vel no momento, ou se for impedido, o que tamb\u00e9m ainda parece distante,\nquem assume \u00e9 o vice. Hamilton Mour\u00e3o&nbsp;\u00e9 um general quatro estrelas da\nreserva que at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o era considerado golpista, devido a v\u00e1rias declara\u00e7\u00f5es\np\u00fablicas. Ainda na campanha, chegou a dizer, em entrevista \u00e0 GloboNews, que em\n\u201ccaso de anarquia\u201d um presidente pode dar um \u201cautogolpe\u201d com \u201co emprego das\nfor\u00e7as armadas\u201d. Comparado a Bolsonaro, at\u00e9 um pitbull torna-se \u201cmoderado\u201d. \u00c9 o\nque vem acontecendo com Mour\u00e3o, como escrevi mais de um ao atr\u00e1s. <\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro na hierarquia \u00e9 Rodrigo Maia&nbsp;(DEM). Al\u00e9m de indiciado\npela Pol\u00edcia Federal por corrup\u00e7\u00e3o, o presidente da C\u00e2mara dos Deputados \u00e9\ntotalmente identificado com o neoliberalismo que nos trouxe at\u00e9 a situa\u00e7\u00e3o\natual e com as for\u00e7as mais conservadoras do pa\u00eds, com exce\u00e7\u00e3o (por enquanto)\ndos evang\u00e9licos de resultados. O que tornou Maia um exemplo de modera\u00e7\u00e3o e\ncompet\u00eancia para o que chamam de \u201cmercado\u201d foi realizar a reforma\nprevidenci\u00e1ria que, se era necess\u00e1ria, claramente o modelo aprovado n\u00e3o foi nem\no melhor nem o mais justo para os trabalhadores, que tiveram suas vidas ainda\nmais precarizadas. Maia, a quem at\u00e9 o advento do bolsonarismo parte dos\nbrasileiros preferia ver pelas costas (ou na cadeia), tornou-se uma esp\u00e9cie de\nor\u00e1culo do bom senso, o que mostra o n\u00edvel do abismo em se encontra o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o temos os novos candidatos a estadistas, na figura dos\ngovernadores de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro.&nbsp;Jo\u00e3o Doria&nbsp;(PSDB) e\nWilson Witzel&nbsp;(PSC). Doria, o gerente privatizador, e Witzel, defensor da\nviol\u00eancia policial nas favelas. At\u00e9 ontem, ambos eram unha e carne com\nBolsonaro. Ou vogal e consoante, no caso de Doria, que se elegeu como\n\u201cBolsodoria\u201d. Para conter a pandemia, eles apenas seguem em seus estados as\norienta\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias internacionais, mas, como fazer o \u00f3bvio \u00e9 fazer o oposto\ndo que Bolsonaro prega, despontam como defensores do povo contra o bolsov\u00edrus.\nT\u00eam os olhos grudados na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro presta um grande servi\u00e7o aos ex-melhores amigos. Em S\u00e3o Paulo,\nespecialmente, ele livra Doria de explicar o pouco investimento na rede de sa\u00fade\np\u00fablica pelo seu partido, que comanda o Estado h\u00e1 mais de 25 anos. Na ponta, \u00e9\nessa falta de investimento no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) que vai resultar em\nmortes por coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o pa\u00eds, o falso debate eclipsa o verdadeiro debate. A pandemia\ntornou expl\u00edcita a import\u00e2ncia do estatuto p\u00fablico da sa\u00fade. E revelou toda a\nmonstruosidade da PEC-95, a do teto dos gatos p\u00fablicos do governo de Michel\nTemer&nbsp;(MDB), t\u00edpica pol\u00edtica neoliberal de Estado m\u00ednimo, que tirou\nbilh\u00f5es da sa\u00fade. Grande parte desta conta est\u00e1 sendo paga agora. Com vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>No atestado de \u00f3bito, as v\u00edtimas ter\u00e3o \u201cmorte por coronav\u00edrus\u201d. Mas, em\nparte dos casos, o que as ter\u00e1 matado \u00e9 a precariza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica, o\naumento da desigualdade e da mis\u00e9ria nos \u00faltimos anos, a falta de investimento\nem saneamento e moradia digna. E, finalmente, o fato de que h\u00e1 uma parte da\npopula\u00e7\u00e3o que segue exposta ao v\u00edrus porque n\u00e3o lhes \u00e9 permitido parar de\ntrabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem da armadilha em que o Brasil est\u00e1 enfiado \u00e9 a do ministro da\nSa\u00fade, Luiz Henrique Mandetta. Ao afrontar o chefe e tomar medidas \u00f3bvias na\npandemia, Mandetta se tornou o novo her\u00f3i nacional. Todos os erros, como\ndemorar a providenciar testes, m\u00e1scaras e outros equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, s\u00e3o\nperdoados. Principal opositor de seu ministro, Bolsonaro tamb\u00e9m presta um\ngrande servi\u00e7o a ele. E a seu pr\u00f3prio governo, j\u00e1 que, qualquer que seja o\nresultado, pode ser atribu\u00eddo ou distanciado do governo. Essa \u00e9 a esperteza de\nabarcar a situa\u00e7\u00e3o e a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos quem \u00e9 o novo her\u00f3i nacional, hoje adulado e apoiado por todos os campos ideol\u00f3gicos. Mandetta, conhecido defensor dos ruralistas, na sa\u00fade se manifestou frontalmente contra o programa Mais M\u00e9dicos<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/mais-medicos\/\" target=\"_blank\"><em>s<\/em><\/a>\u00a0e militou contra o aborto. Tamb\u00e9m j\u00e1 lamentou a fragmenta\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias causadas pela Lei do Div\u00f3rcio. Dilma Rousseff demarcou muito menos terras ind\u00edgenas que seus antecessores, uma das raz\u00f5es porque recebe severas cr\u00edticas de ind\u00edgenas e ativistas do meio ambiente. Ainda assim, Mandetta achou que a presidenta exagerava. \u201cA presidente est\u00e1 dirigindo a sua raiva contra os produtores rurais, colocando todo o seu querer mal ao Brasil no agroneg\u00f3cio\u201d, discursou no plen\u00e1rio, em 2016. No ano seguinte, foi um cr\u00edtico feroz da Carne Fraca, opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal que investigou as irregularidades nos frigor\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo her\u00f3i brasileiro aponta onde est\u00e1 o Brasil. Cada um conclua. A\noposi\u00e7\u00e3o real, como j\u00e1 se tornou expl\u00edcito, \u00e9 fraca. E n\u00e3o consegue mostrar\nqual \u00e9 a sua grande diferen\u00e7a, muito menos convencer a popula\u00e7\u00e3o de que \u00e9\ndiferente. Enroscada com Lula e com o PT, ou brigando com Lula e com o PT, a\nesquerda deixou de disputar o pa\u00eds. Acha que disputa, \u00e9 claro, mas ningu\u00e9m\nliga. O desempenho mais s\u00f3lido \u00e9 o do Psol, mas o partido ecoa apenas num\nn\u00famero pequeno de brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa dizer que a esquerda seria uma solu\u00e7\u00e3o, na medida em\nque parte significativa da esquerda brasileira segue cimentada no s\u00e9culo 20,\ntotalmente alienada das grandes quest\u00f5es atuais, como a crise clim\u00e1tica e a\ndestrui\u00e7\u00e3o da vida natural no planeta. Quem fez oposi\u00e7\u00e3o de fato, no Brasil\npr\u00e9-pandemia dos \u00faltimos anos, foram grupos identit\u00e1rios: mulheres, jovens,\nnegros e ind\u00edgenas. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, mas n\u00e3o tem partidos pol\u00edticos como\nprotagonistas. E ainda \u00e9 preciso ter partidos pol\u00edticos para fazer a disputa do\nfuturo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, no per\u00edodo p\u00f3s-pandemia, ou mesmo durante a pandemia, j\u00e1 que n\u00e3o\nse sabe se ela acaba, todos os caminhos levam \u00e0 direita neoliberal. Este \u00e9 o\nburaco diante do Brasil. \u00c9 tamb\u00e9m o buraco em muitos pa\u00edses \u2013 grande parte\ndeles atolados na crise das democracias ocidentais, alguns \u00e0s voltas com os\nd\u00e9spotas eleitos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil tem, portanto, dois gigantescos desafios. O primeiro \u00e9 impedir\nque o v\u00edrus mate milhares de brasileiros.&nbsp;N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que ser\u00e3o os\nmais pobres que morrer\u00e3o mais. Os que n\u00e3o t\u00eam casas compat\u00edveis com o\nisolamento; os que t\u00eam sido obrigados pelos patr\u00f5es a trabalhar;&nbsp;os que\nforam demitidos; os que vivem de bicos, na informalidade, e j\u00e1 n\u00e3o conseguem\ntrabalhar. Os que n\u00e3o v\u00e3o conseguir se alimentar com os 600 reais que o governo\nest\u00e1 oferecendo. Os que n\u00e3o t\u00eam esgoto, n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua e logo n\u00e3o ter\u00e3o tamb\u00e9m\ncomida. Os que ficarem doentes e n\u00e3o encontrarem vagas na rede p\u00fablica de\nsa\u00fade, sabotada nos \u00faltimos anos em nome da privatiza\u00e7\u00e3o e do lobby dos planos\nprivados de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>O aux\u00edlio emergencial de 600 reais para os informais&nbsp;\u00e9 mais uma\nprova do buraco paradoxalmente grande \u2013 e ao mesmo tempo claustrof\u00f3bico \u2013 em\nque o pa\u00eds est\u00e1 enfiado. Diante dos 200 reais inicialmente propostos pelo\nministro da Economia Paulo Guedes, de repente 600 reais passaram a soar com\nnotas de dec\u00eancia. O valor, por\u00e9m, \u00e9 totalmente indecente. Ningu\u00e9m vive no\nBrasil com dignidade m\u00ednima com 600 reais. Para a outra metade dos\ntrabalhadores, a que t\u00eam carteira assinada,&nbsp;o governo permitiu cortes de\njornada e de sal\u00e1rios. <\/p>\n\n\n\n<p>Para quem se enrosca com o significado de neoliberal, \u00e9 isso. Vale a\npena pesquisar para encontrar defini\u00e7\u00f5es mais sofisticadas e completas. Em um\npar\u00e1grafo, o que pode ser dito \u00e9 que os neoliberais acreditam que o Estado deve\ninterferir o m\u00ednimo poss\u00edvel e que o Mercado se autorregula. Para isso, \u00e9\nfundamental enfraquecer as representa\u00e7\u00f5es de trabalhadores e a palavra para\ntudo \u00e9 \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Privatizar, desregulamentar, flexibilizar \u2013 estes s\u00e3o\nos verbos favoritos do neoliberalismo. Perceba ent\u00e3o que toda vez que\n\u201cflexibilizaram\u201d algo no Brasil, foram os trabalhadores urbanos e rurais, os\nind\u00edgenas, a natureza e outras esp\u00e9cies que se ferraram. Ao trabalhador\nprecarizado e com cada vez menos direitos deram o nome bonito e moderno de\n\u201cempreendedor\u201d. Livre e aut\u00f4nomo para morrer trabalhando. E, se n\u00e3o conseguiu\n\u201cempreender\u201d, as raz\u00f5es para o fracasso tamb\u00e9m lhe pertencem. Veja agora voc\u00ea,\nque \u00e9 \u201cempreendedor\u201d, em que situa\u00e7\u00e3o est\u00e1. E veja se \u00e9 isso que voc\u00ea quer\ncontinuar a ser.<\/p>\n\n\n\n<p>No est\u00e1gio neoliberal do capitalismo todas as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o, ao mesmo\ntempo, reduzidas ao consumo \u2013 e submetidas ao consumo. O que define cada\n\u201cindiv\u00edduo\u201d \u00e9 sua capacidade de consumir. Suas escolhas se reduzem a escolher\nentre produtos, marcas, pre\u00e7os, cores, formatos; sua liberdade \u00e9 a de consumir\no que sua renda permitir e a de desejar se exaurir mais para ter mais dinheiro\npara consumir. Toda a vida \u00e9 mediada por mercadorias e, acima de qualquer outra\nidentidade, voc\u00ea \u00e9 consumidor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste sistema que o planeta, supostamente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos\nconsumidores, foi consumido; que esp\u00e9cies inteiras foram destru\u00eddas e outras\nsubjugadas para terem seus corpos consumidos em produ\u00e7\u00e3o industrial. \u00c9 assim\nque voc\u00ea nasce para, consumindo seu corpo e seu tempo, se consumir. E \u00e9 assim\nque os humanos se tornaram, a partir da revolu\u00e7\u00e3o industrial, que iniciou um\nprocesso cada vez mais veloz de emiss\u00e3o de CO2 pela queima de combust\u00edveis\nf\u00f3sseis (carv\u00e3o, petr\u00f3leo etc), uma for\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Pressionadas pelo colapso da natureza que provocaram e pela evid\u00eancia de\nque haver\u00e1 mais pandemias, as grandes corpora\u00e7\u00f5es que controlam o mundo e\naqueles que se beneficiam delas tentam agora reinventar o sistema de\ndestrui\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 fizeram no passado, para continuar no controle. T\u00eam muita\nchance de conseguir.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, Bolsonaro fez o servi\u00e7o de esticar tanto os limites, que\ntornou todas as for\u00e7as conservadoras ao seu redor aceit\u00e1veis. N\u00e3o sei o quanto\nele percebe que este \u00e9 o seu principal papel. O fato \u00e9 que o executa\nbrilhantemente. Cada vez que se comporta como um man\u00edaco, faz figuras que at\u00e9\nontem causariam arrepios despontarem como estadistas. Antes dele, um Mour\u00e3o na\npresid\u00eancia era inimagin\u00e1vel depois de mais de 20 anos de ditadura militar.\nAntes dele, Rodrigo Maia era s\u00f3 mais um representante tradicional\u00edssimo de um\nCongresso marcado por corrup\u00e7\u00e3o e fisiologia. Antes dele, Doria e Witzel, cada\num no seu estilo, jamais receberiam aplausos de parte da esquerda ou afagos de\nLula. Antes dele, Mandetta era um pol\u00edtico preocupado em apoiar projetos\ncorporativos de setores da sa\u00fade e fazer lobby para ruralistas. Gra\u00e7as a\nBolsonaro e \u00e0 incompet\u00eancia da oposi\u00e7\u00e3o real, todos eles nos lideram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que vai ser, ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil tem dois enfrentamentos urgentes para fazer: a disputa do\npresente, que \u00e9 o novo coronav\u00edrus, e a disputa do futuro, que se d\u00e1 tamb\u00e9m\nagora, no presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfrentar uma pandemia num pa\u00eds em que desigualdade e pobreza extrema\naumentaram nos \u00faltimos anos pelas pol\u00edticas neoliberais \u00e9 um imenso desafio.\nMas talvez seja ainda maior o desafio de imaginar um futuro que n\u00e3o seja a\nvolta de uma normalidade que s\u00f3 era normal para os privilegiados de sempre. Na\narmadilha que se tornou o pa\u00eds, todos os caminhos levam ao mesmo lugar. Os personagens\nque disputam o presente e o futuro dentro da estrutura do Estado s\u00e3o no fundo\ntodos iguais \u2013 ou pelo menos muito parecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como aprender com o coronav\u00edrus a criar um futuro que n\u00e3o seja mais\naniquila\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Parece quase imposs\u00edvel quando todas as sa\u00eddas est\u00e3o barradas pelas\ntropas neoliberais. Elas j\u00e1 se organizam para chicotear a popula\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a\npandemia, com o imperativo de produzir para poder superar a recess\u00e3o e retomar\no dogma do crescimento. J\u00e1 tivemos ind\u00edcios de que o coronav\u00edrus ser\u00e1 usado para\nimpor perdas de direitos e de liberdades. A China, com seu comunismo\ncapitalista (sim, isso \u00e9 poss\u00edvel), ampliou ainda mais sua vigil\u00e2ncia desp\u00f3tica\nsobre a popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 apenas um sinal do que est\u00e1 por vir.<\/p>\n\n\n\n<p>Em breve, pode apostar, os governos v\u00e3o pedir o sacrif\u00edcio de todos, que\nnunca \u00e9 o de todos, mas o dos de sempre. Prestem aten\u00e7\u00e3o ao significado que\nser\u00e1 dado \u00e0 palavra \u201cretomada\u201d \u2013 e pensem no que ser\u00e1 retomado. A pandemia \u00e9\nnova. Os m\u00e9todos dos que trouxeram o planeta at\u00e9 este estado de coisas, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece imposs\u00edvel disputar o futuro nessas condi\u00e7\u00f5es. Mas tudo o que\ntemos \u00e9 encontrar um caminho para minar a criatura chamada capitalismo, que no\nnosso tempo se expressa pelo neoliberalismo, e impedir que se regenere. Mais do\nque nunca, hoje lutamos pela vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2) Temos que barrar os senhores do mundo antes de eles conseguirem dar o\ngolpe (mais uma vez)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tempos os pensadores ocidentais n\u00e3o se empenhavam tanto em\ninterpretar um momento. Faz todo o sentido. Nada \u00e9 \u2013 ou foi \u2013 maior do que essa\npandemia como amea\u00e7a global capaz de mudar tudo em um segundo. Inclusive o\nolhar dos humanos sobre si mesmos, ao descobrir a esp\u00e9cie, esta que sempre se\nconsiderou dona do planeta, amea\u00e7ada por um ser microsc\u00f3pico. J\u00e1 existe pelo\nmenos um livro com colet\u00e2nea de artigos de fil\u00f3sofos sobre o coronav\u00edrus e seus\nefeitos. H\u00e1 uma diferen\u00e7a, por\u00e9m. H\u00e1 os pensadores que compreenderam a crise\nclim\u00e1tica e h\u00e1 os que seguem \u00e0s voltas com dilemas do s\u00e9culo 20, como grande\nparte da esquerda mundial, e que n\u00e3o foram afetados pelas ang\u00fastias da \u00e9poca\natual.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os pensadores conectados com a emerg\u00eancia do clima, o franc\u00eas\nBruno Latour \u00e9 o autor de uma das melhores contribui\u00e7\u00f5es para pensar o momento\nj\u00e1 como a\u00e7\u00e3o. O&nbsp;texto foi traduzido&nbsp;pela fil\u00f3sofa brasileira D\u00e9borah\nDanowski, outra pensadora relevante sobre o contexto atual. Em sua an\u00e1lise,\nLatour assim define a li\u00e7\u00e3o posta pelo novo coronav\u00edrus: \u201cA primeira li\u00e7\u00e3o do\ncoronav\u00edrus \u00e9 tamb\u00e9m a mais espantosa. De fato, ficou provado que \u00e9 poss\u00edvel,\nem quest\u00e3o de semanas, suspender, em todo o mundo e ao mesmo tempo, um sistema\necon\u00f4mico que at\u00e9 agora nos diziam ser imposs\u00edvel desacelerar ou redirecionar.\nA todos os argumentos apresentados pelos ecologistas sobre a necessidade de\nalterarmos nosso modo de vida, sempre se opunha o argumento da for\u00e7a\nirrevers\u00edvel do \u2018trem do progresso\u2019, que nada era capaz de tirar dos trilhos,\n\u2018em virtude\u2019, dizia-se, da \u2018globaliza\u00e7\u00e3o\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E aponta o risco: \u201cQualquer motorista sabe que, para ter alguma chance\nde se salvar fazendo uma r\u00e1pida manobra no volante, sem sair da estrada, \u00e9\nmelhor primeiro desacelerar\u2026 Infelizmente, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os ecologistas que veem\nnessa pausa s\u00fabita no sistema de produ\u00e7\u00e3o globalizado uma grande oportunidade\nde fazer avan\u00e7ar seu programa de aterrissagem. Os adeptos da globaliza\u00e7\u00e3o,\naqueles que, em meados do s\u00e9culo 20, inventaram a ideia de escapar das\nrestri\u00e7\u00f5es planet\u00e1rias, tamb\u00e9m veem nela uma excelente oportunidade de se\ndesvencilhar ainda mais radicalmente do que resta de obst\u00e1culos \u00e0 sua fuga para\nfora do mundo. Para eles, essa \u00e9 uma oportunidade boa demais de se livrar do\nresto do Estado social, da rede de seguran\u00e7a dos mais pobres, do que ainda\nresta de regulamenta\u00e7\u00e3o contra a polui\u00e7\u00e3o e, mais cinicamente ainda, de se\nlivrar de toda essa gente em excesso que atulha o planeta. (\u2026) Os adeptos da\nglobaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o perigosos porque eles sabem que perderam, sabem que a nega\u00e7\u00e3o\ndas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o poder\u00e1 continuar indefinidamente, que n\u00e3o h\u00e1 mais\nnenhuma chance de conciliar seu \u2018desenvolvimento\u2019 com os v\u00e1rios \u2018envelopes\u2019 do\nplaneta com os quais a economia ter\u00e1 que se haver mais cedo ou mais tarde. Isto\n\u00e9 o que os torna dispostos a tentar de tudo para se aproveitar mais uma\n(\u00faltima?) vez das condi\u00e7\u00f5es excepcionais, para poder durar um pouco mais e\nproteger a si pr\u00f3prios e aos seus filhos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes que algu\u00e9m levante a balela do desenvolvimento \u201csustent\u00e1vel\u201d como\na panaceia capaz de colocar o capitalismo de novo nos trilhos, vale escutar\noutro pensador, este ind\u00edgena. Autor de&nbsp;<em>Ideias para adiar o fim do\nmundo<\/em>&nbsp;(Companhia das Letras), Ailton Krenak&nbsp;provocou \u00f3dio e\nranger de dentes tempos atr\u00e1s, ao afirmar que \u201csustentabilidade era vaidade\npessoal\u201d. Toda corpora\u00e7\u00e3o, incluindo as mais destrutivas, tem hoje um gerente\nde sustentabilidade. Faz parte da capacidade de coopta\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o do\ncapitalismo. Sempre uma cretinice a mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o, j\u00e1 com a pandemia atravessando o globo, Krenak assim explicou\nna abertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, ao falar sobre\nperspectivas anticoloniais: \u201cN\u00f3s vivemos precariamente uma rela\u00e7\u00e3o de consumir\no que a m\u00e3e natureza nos proporciona. E n\u00f3s sempre fizemos um uso do que a\nnossa m\u00e3e nos proporciona da maneira mais folgada poss\u00edvel. At\u00e9 que um dia n\u00f3s\nnos constitu\u00edmos numa constela\u00e7\u00e3o t\u00e3o imensa de gente que consome tudo, que a\nnossa m\u00e3e natureza falou: pera\u00ed, voc\u00eas est\u00e3o a fim de acabar geral com tudo que\npode existir, aqui, como equil\u00edbrio e como possibilidade daquilo que \u00e9 fluxo da\nvida? Voc\u00eas v\u00e3o esquadrinhar a produ\u00e7\u00e3o da vida e decidir quantos peda\u00e7os de\nvida cada um pode obter? E, nessa desigualdade escandalosa, voc\u00eas v\u00e3o sair por\na\u00ed administrando a \u00e1gua, o oxig\u00eanio, a comida, o solo? E ent\u00e3o [a natureza]\ncome\u00e7ou a botar limites \u00e0 nossa ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma maneira que os humanos fizeram para administrar isso foi criando a\nideia, por exemplo, de que existe um meio ambiente e que esse universo \u00e9 uma\ncoisa que voc\u00ea pode gerenciar. E dentro desse meio ambiente alguns fluxos\nvitais podem ser medidos, avaliados e habilitados, alguns deles inclusive com\nselos de sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea tirar \u00e1gua do aqu\u00edfero Guarani, por exemplo, uma \u00e1gua de muito\nboa qualidade, e se voc\u00ea engarrafar direitinho, voc\u00ea \u00e9 uma empresa sustent\u00e1vel.\nMas quem disse que tirar \u00e1gua do aqu\u00edfero Guarani \u00e9 sustent\u00e1vel? Voc\u00ea pratica\numa viol\u00eancia na origem e recebe um selo sustent\u00e1vel no caminho. E assim com a\nmadeira. Isso \u00e9 uma sacanagem, n\u00e3o tem esse papo de \u00e1gua sustent\u00e1vel e n\u00e3o tem\nesse papo de madeira sustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz ent\u00e3o a verdade terr\u00edvel, que \u00e9 tamb\u00e9m o ponto de partida de\nqualquer proposta para o futuro que formos capazes de esbo\u00e7ar: \u201cN\u00f3s somos uma\nciviliza\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel, n\u00f3s somos insustent\u00e1veis. Como \u00e9 que ent\u00e3o vamos\nproduzir alguma coisa em equil\u00edbrio?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o desafio.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que novo coronav\u00edrus der uma brecha, Os profetas do neoliberalismo\ncome\u00e7ar\u00e3o a sua prega\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 preciso produzir e crescer!\u201d. N\u00e3o h\u00e1 dogma maior\nna economia do que o do crescimento. Milhares de economistas perder\u00e3o seu\nemprego no ramo da astrologia econ\u00f4mica caso o dogma do crescimento seja\ndesmascarado. Crescer \u00e9 o imperativo de todo pa\u00eds. Quem n\u00e3o lembra do \u201cfazer o\nbolo da economia crescer para ent\u00e3o repartir o bolo\u201d que o ministro da ditadura\ne astr\u00f3logo econ\u00f4mico maior do Brasil, Delfim Netto, repetia no regime de\nexce\u00e7\u00e3o? Mais tarde, com a expans\u00e3o do neoliberalismo, nem isso. Bastava que os\nmais pobres soubessem que, se o pa\u00eds crescesse, alguma coisinha poderia\neventualmente sobrar pra eles.<\/p>\n\n\n\n<p>O dogma do crescimento \u00e9 constru\u00eddo sobre uma mentira: a possibilidade\nde explorar infinitamente os recursos de um planeta com recursos finitos.\nBastam dois neur\u00f4nios para entender que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. E a\u00ed vem o outro dogma,\no da sustentabilidade, como se fosse poss\u00edvel tornar sustent\u00e1vel o que, em sua\nestrutura, \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o dogma do crescimento faz \u00e9 proteger os privil\u00e9gios dos muito\nricos: o problema deixa de ser a distribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria das riquezas\nexistentes e passa a ser o crescimento insuficiente, que n\u00e3o permite garantir o\nsuficiente para todos. O imperativo de crescer \u00e9 repetido \u00e0 exaust\u00e3o para\nencobrir a injusti\u00e7a estrutural: a desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de riquezas.\nCarregando seu corpo exaurido, mesmo o pobre passa a acreditar que sua mis\u00e9ria\n\u00e9 provocada por falta de crescimento. Sem reparar que nos momentos em que o tal\nbolo cresceu, as fatias se tornaram maiores para os que j\u00e1 eram donos do bolo e\nsobrou para ele, quando muito, a farofa da cobertura.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, o 1% mais rico concentra quase um ter\u00e7o da renda (28,3%), o\nque d\u00e1 ao pa\u00eds o t\u00edtulo de vice-campe\u00e3o mundial em desigualdade, segundo o\n\u00faltimo Relat\u00f3rio de Desenvolvimento Humano da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas\n(ONU). O Brasil s\u00f3 perde para o Catar \u2013 e apenas por 0,7%. Cinco bilion\u00e1rios\nbrasileiros concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre do pa\u00eds, segundo\nestudo da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental brit\u00e2nica Oxfam, publicado em 2018.\nCinco pessoas concentram a mesma renda que 100 milh\u00f5es de brasileiros. Este \u00e9 o\nproblema. N\u00e3o \u00e9 por falta de explora\u00e7\u00e3o da natureza que o pa\u00eds \u00e9 tremendamente\ndesigual. Ao contr\u00e1rio. O esgotamento dos suportes de vida do planeta \u00e9 um dos\nprincipais geradores de pobreza e de desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O dogma do crescimento, que faz as engrenagens do capitalismo girar, foi\ndeterminante para produzir a emerg\u00eancia clim\u00e1tica. O que a emerg\u00eancia clim\u00e1tica\ntorna expl\u00edcito \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel \u201ccrescer\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio mudar radicalmente\no modo de vida porque, como diz a jovem Greta Thunberg, &nbsp;\u201cnossa casa est\u00e1 em chamas\u201d. Diante do\nsuperaquecimento global e da perda de ecossistemas vitais, realmente imperativo\n\u00e9 distribuir as riquezas existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse conte\u00fado explosivo que faz com que as grandes corpora\u00e7\u00f5es que\ndominam o planeta apoiem negacionistas do clima como Donald Trump e Jair\nBolsonaro. Com esses d\u00e9spotas eleitos disseminando mentiras e distraindo o\nmundo com falsos problemas, elas ganham tempo. J\u00e1 sabem que n\u00e3o d\u00e1 mais para\nseguir, mas far\u00e3o o imposs\u00edvel para ganhar o m\u00e1ximo enquanto for poss\u00edvel.\nGuardadas as propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 como a ind\u00fastria do cigarro: negou os malef\u00edcios por\nd\u00e9cadas, contra todas as pesquisas cient\u00edficas, e ganhou dinheiro produzindo\nc\u00e2ncer enquanto deu. Ainda hoje, contabiliza cifras bilion\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio que nossa gera\u00e7\u00e3o tem pela frente \u00e9 imenso. E ser\u00e1 duro. Muito\nduro. Como a crise clim\u00e1tica se desenrola num outro tempo, o encontro com a\nrealidade era sempre adiado pela maioria, apesar dos gritos dos cientistas e\ndos jovens. Os negacionistas foram eleitos porque grande parte da popula\u00e7\u00e3o\nmundial quer continuar negando o ineg\u00e1vel junto com eles. Ent\u00e3o o v\u00edrus\nescancara a realidade. Dele n\u00e3o d\u00e1 para fugir, j\u00e1 que fugir \u00e9 morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>O que temos hoje \u00e9 uma janela de realidade, o momento em que todos,\nabsolutamente todos, s\u00e3o obrigados a se encontrar com a verdade. \u00c9 por isso que\nBolsonaro se tornou ainda mais pirot\u00e9cnico. Para manter o poder ele precisa\nfalsificar a realidade. Vinha conseguindo, e o v\u00edrus arrancou de uma vez essa\npossibilidade. Diz ent\u00e3o que \u201co v\u00edrus n\u00e3o \u00e9 tudo isso que dizem\u201d. Porque,\napavorado, sabe que o v\u00edrus \u00e9 muito mais. Diante da verdade da morte, nenhuma\nmentira vinga.<\/p>\n\n\n\n<p>Bruno Latou assim anuncia o impasse&nbsp;da janela aberta pelo\ncoronav\u00edrus: \u201cSe a oportunidade serve para eles, serve para n\u00f3s tamb\u00e9m. Se tudo\npara, tudo pode ser recolocado em quest\u00e3o, infletido, selecionado, triado,\ninterrompido de vez ou, pelo contr\u00e1rio, acelerado. Agora \u00e9 que \u00e9 a hora de\nfazer o balan\u00e7o de fim de ano. \u00c0 exig\u00eancia do bom senso: \u2018Retomemos a produ\u00e7\u00e3o\no mais r\u00e1pido poss\u00edvel\u2019, temos de responder com um grito: \u2018De jeito nenhum!\u2019. A\n\u00faltima coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que possamos seguir esse debate, reproduzo aqui as perguntas que\nele lan\u00e7a para cada um e para o coletivo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAproveitemos a suspens\u00e3o for\u00e7ada da maior parte das atividades para\nfazer um invent\u00e1rio daquelas que gostar\u00edamos que n\u00e3o fossem retomadas e\ndaquelas que, pelo contr\u00e1rio, gostar\u00edamos que fossem ampliadas. Responda \u00e0s\nseguintes perguntas, primeiro individualmente e depois coletivamente:<\/p>\n\n\n\n<p>1) Quais as atividades agora suspensas que voc\u00ea gostaria que n\u00e3o fossem\nretomadas?<\/p>\n\n\n\n<p>2) Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial \/ sup\u00e9rflua \/\nperigosa \/ sem sentido e de que forma o seu desaparecimento \/ suspens\u00e3o \/\nsubstitui\u00e7\u00e3o tornaria outras atividades que voc\u00ea prefere mais f\u00e1ceis \/\npertinentes. (Fa\u00e7a um par\u00e1grafo separado para cada uma das respostas listadas\nna pergunta 1).<\/p>\n\n\n\n<p>3) Que medidas voc\u00ea sugere para facilitar a transi\u00e7\u00e3o para outras\natividades daqueles trabalhadores \/empregados \/ agentes \/ empres\u00e1rios que n\u00e3o\npoder\u00e3o mais continuar nas atividades que voc\u00ea est\u00e1 suprimindo?<\/p>\n\n\n\n<p>4) Quais as atividades agora suspensas que voc\u00ea gostaria que fossem\nampliadas \/ retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?<\/p>\n\n\n\n<p>5) Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna\noutras atividades que voc\u00ea prefere mais f\u00e1ceis \/ harmoniosas \/ pertinentes e\najuda a combater aquelas que voc\u00ea considera desfavor\u00e1veis. (Fa\u00e7a um par\u00e1grafo\nseparado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).<\/p>\n\n\n\n<p>6) Que medidas voc\u00ea sugere para ajudar os trabalhadores \/ empregados \/agentes\n\/ empres\u00e1rios a adquirir as capacidades \/ meios \/ receitas \/ instrumentos para\nretomar \/ desenvolver \/ criar esta atividade?<\/p>\n\n\n\n<p>Acrescento \u00e0 lista uma pergunta minha. N\u00e3o h\u00e1 nada que as grandes\ncorpora\u00e7\u00f5es que controlam o planeta, assim como os pol\u00edticos neoliberais que os\nrepresentam nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias do Estado, temam mais do que a desobedi\u00eancia\ncivil. No Brasil, as esmolas que concedem para que os mais pobres sobrevivam \u00e0\npandemia t\u00eam por objetivo estancar a possibilidade do \u201ccaos social\u201d ou de uma\n\u201cconvuls\u00e3o social\u201d. Ou seja: o povo nas ruas e j\u00e1 sem nada a perder.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o final de 2018, o movimento que mais balan\u00e7ou a \u201cnormalidade\u201d que\nos senhores do mundo tanto prezam foi a desobedi\u00eancia civil dos adolescentes,\nque se recusaram a ir para a escola a cada sexta-feira. No ato da greve\nescolar, eles denunciavam que os adultos roubaram o seu futuro ao n\u00e3o fazer o\nnecess\u00e1rio para conter o colapso clim\u00e1tico. Sem futuro, para que estudar? Como\ns\u00e3o crian\u00e7as e adolescentes, esta era a desobedi\u00eancia civil dispon\u00edvel. E como\nfuncionou.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a minha pergunta \u00e9: qual poderia ser a melhor a\u00e7\u00e3o de\ndesobedi\u00eancia civil neste momento?<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil de Bolsonaro, sabemos que nossa principal desobedi\u00eancia civil\n\u00e9 sobreviver. Mas, para al\u00e9m de nos mantermos vivos, como podemos desobedecer\naos produtores de morte para criarmos um futuro onde possamos existir com todos\nos outros?<\/p>\n\n\n\n<p>Encerro com Ailton Krenak, porque acho que as melhores ideias vir\u00e3o dos\npensadores ind\u00edgenas, daqueles que sabem como viver sem esgotar o planeta e sem\nproduzir iniquidades. Ele diz: \u201cO pr\u00f3prio enunciado de alguma coisa que vir\u00e1\ndepois anima nosso sentido de viver. \u00c9 a ideia de adiar o fim do mundo. N\u00f3s\nadiamos o fim de cada mundo, a cada dia, exatamente criando um desejo de\nverdade de nos encontrarmos amanh\u00e3, no final do dia, no ano que vem. Esses\nmundos encapsulados uns nos outros que nos desafiam a pensar um poss\u00edvel\nencontro das nossas exist\u00eancias \u2013 \u00e9 um desafio maravilhoso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos?<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Artigo publicado\ndia 08\/4\/2020 originalmente em <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-04-08\/o-futuro-pos-coronavirus-ja-esta-em-disputa.html\">https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-04-08\/o-futuro-pos-coronavirus-ja-esta-em-disputa.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futuro p\u00f3s-coronav\u00edrus j\u00e1 est\u00e1 em disputa. Por Eliane Brum Como impedir que o capitalismo, que j\u00e1 nos roubou o presente, nos roube tamb\u00e9m o amanh\u00e3?[1] Fonte: El Pa\u00eds \u2013 08\/04\/2020. 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