{"id":6653,"date":"2020-05-23T19:11:14","date_gmt":"2020-05-23T22:11:14","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=6653"},"modified":"2020-05-23T19:11:17","modified_gmt":"2020-05-23T22:11:17","slug":"%ef%bb%bfo-universo-encarnacao-do-espirito-artigo-de-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/%ef%bb%bfo-universo-encarnacao-do-espirito-artigo-de-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"\ufeffO universo, encarna\u00e7\u00e3o do Espirito. Artigo de marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O universo,\nencarna\u00e7\u00e3o do Espirito<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(<em>Para uma resposta \u00e0 Laudato si\u2019 a partir da inser\u00e7\u00e3o nas espiritualidades origin\u00e1rias<\/em>). Por Marcelo Barros<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Xam\u00e3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6654\" width=\"518\" height=\"343\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Xam\u00e3.jpg 512w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Xam\u00e3-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 518px) 100vw, 518px\" \/><figcaption>Xamanismo. Imagem: Yotutube\/Reprodu\u00e7\u00e3o <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desde a <em>Pacem in Terris<\/em> do papa Jo\u00e3o XXIII (1963) at\u00e9 os nossos dias,\nprovavelmente, nenhuma outra enc\u00edclica pontif\u00edcia tenha alcan\u00e7ado tal\npopularidade e recebido tanta aceita\u00e7\u00e3o da humanidade quanto a <em>Laudato sii<\/em> do papa Francisco, em 2015.\nDo mesmo modo, que a <em>Pacem in Terris<\/em>,\ntamb\u00e9m esta carta sobre o cuidado (a salvaguarda) da casa comum foi dirigida a\ntodas as pessoas de boa vontade. Como bispo de Roma e a partir da\nespiritualidade crist\u00e3, o papa Francisco procura dialogar com os mais diversos\ncaminhos espirituais. S\u00f3 para dar um exemplo, prop\u00f5e como mestre de\nespiritualidade ecol\u00f3gica um m\u00edstico mu\u00e7ulmano medieval (L. S. 233). <\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2015, quando a carta foi publicada\nat\u00e9 agora, apesar de terem se passado apenas cinco anos, a realidade do mundo\nmudou muito e exige novas leituras e complementa\u00e7\u00f5es \u00e0 carta do papa. H\u00e1 cinco\nanos, a humanidade n\u00e3o imaginava viver a pandemia do Coronav\u00edrus e uma\nconcentra\u00e7\u00e3o sempre mais escandalosa da riqueza. &nbsp;Quase todos os cientistas est\u00e3o de acordo que\no coronav\u00edrus teve um efeito mais devastador por causa da destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\ndo planeta. Toda a humanidade pode ver como em apenas um m\u00eas de quarentena, em\ntodos os continentes, a natureza come\u00e7ou a se refazer. No entanto, a pequena\nelite que domina a Pol\u00edtica e a Economia n\u00e3o d\u00e3o sinais de que buscam caminhos\nnovos e diferentes para a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade.&nbsp; Outro dado que n\u00e3o pode deixar de ser salientado\n\u00e9 que, nesta d\u00e9cada mais recente, na Am\u00e9rica Latina e em v\u00e1rias outras partes\ndo mundo, salvo alguns poucos governos, a maioria dos respons\u00e1veis pelo destino\ndo mundo se alinha a ideais fascistas e de extrema direita.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p><strong>1 \u2013 O que em cinco anos a enc\u00edclica tem ajudado. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A <em>Laudato\nsi<\/em> foi divulgada em maio de 2015. Naquele momento, a ONU preparava uma nova\nConfer\u00eancia sobre o Clima, que se realizaria em dezembro do mesmo ano. Embora o\nencontro em Paris e o acordo estabelecido entre os pa\u00edses foram modestos, sem\nd\u00favida, a enc\u00edclica do papa provocou maior interesse da sociedade civil sobre o\ntema em discuss\u00e3o na ONU e revelou que a busca de solu\u00e7\u00f5es para a\nsustentabilidade do planeta n\u00e3o pode mais ser deixada apenas nas m\u00e3os de\ngovernantes e especialistas. <\/p>\n\n\n\n<p>A enc\u00edclica nos prop\u00f5e aprofundar uma <em>educa\u00e7\u00e3o e espiritualidade ecol\u00f3gica <\/em>(n.\n202 ss), ou seja, nos formar para <em>a\nalian\u00e7a entre o ser humano e o ambiente (<\/em>n. 209). Isso n\u00e3o se far\u00e1 sem uma\nverdadeira \u201c<em>convers\u00e3o ecol\u00f3gica<\/em>\u201d (n.\n216). Conceitos, como <em>Ecologia Integral<\/em>\ne o que o papa chamou de \u201c<em>convers\u00e3o\necol\u00f3gica<\/em>\u201d, (em alguns c\u00edrculos de ecologistas se chamaria de \u201c<em>regenera\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d), s\u00e3o elementos que antes eram\nrestritos a escritos e confer\u00eancias de alguns intelectuais e peritos. Agora,\ngra\u00e7as \u00e0 <em>Laudato si<\/em> se tornaram\npatrim\u00f4nios da humanidade. <\/p>\n\n\n\n<p>A crise mundial mais recente provocada\npela pandemia do Coronav\u00edrus parece refor\u00e7ar o isolamento de cada pa\u00eds que\nfechou suas fronteiras. Apesar de que o mundo inteiro sofre as consequ\u00eancias da\npandemia, as sociedades nacionais continuam se arriscando na dire\u00e7\u00e3o de uma\ndessocializa\u00e7\u00e3o galopante e parecem se degenerar em meras \u201c<em>sociedades de indiv\u00edduos. <\/em>Nesta\nconjuntura atual<em>,<\/em> \u00e9 cada vez mais\natual e mesmo urgente retomar a insist\u00eancia da enc\u00edclica de que \u201ctudo est\u00e1\ninterligado\u201d (LS, 10-237) e ainda tentar que as sociedades atuais do mundo se\ntransformar em uma \u201c<em>\u00fanica &nbsp;civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; mundo\u201d<\/em> (Fumarco, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, no plano do mundo social e\npol\u00edtico, a enc\u00edclica acabou provocando alguma mudan\u00e7a de sensibilidade. Nos\nambientes da Igreja Cat\u00f3lica e de outras Igrejas, principalmente com o S\u00ednodo\npara a Amaz\u00f4nia, alguma coisa come\u00e7a a mudar. N\u00e3o podemos afirmar que o\npensamento teol\u00f3gico e pastoral do papa Francisco tenha encontrado boa acolhida\nou provocado mudan\u00e7as na maioria das dioceses do mundo. Nem mesmo a proposta de\numa espiritualidade ecol\u00f3gica parece ter encontrado alguma tradu\u00e7\u00e3o mais\nconcreta nos planos de pastoral, menos ainda nas atividades cotidianas da\nmaioria das par\u00f3quias. Seja como for, algumas dioceses e confer\u00eancias\nepiscopais regionais criaram uma comiss\u00e3o de pastoral ecol\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p>Nos meios ecum\u00eanicos, a carta foi bem\nacolhida. Na enc\u00edclica, o papa cita a contribui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica vinda das outras\nIgrejas e de outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas (n. 7) e cita como irm\u00e3o que o inspira\nBartolomeu, o patriarca de Constantinopla (n. 7 &#8211; 9). A enc\u00edclica foi bem\nacolhida no mundo das Igrejas evang\u00e9licas hist\u00f3ricas. Um sinal disso \u00e9 que no\nano seguinte, 2016, no Brasil, a campanha da Quaresma foi uma Campanha da\nFraternidade Ecum\u00eanica, realizada em conjunto pela Igreja Cat\u00f3lica Romana, Igreja Episcopal Anglicana,\nIgreja Evang\u00e9lica de Confiss\u00e3o Luterana, Igreja Cat\u00f3lica Ortodoxa (na\nAntioquia) e a Igreja Presbiteriana. Referindo-se claramente \u00e0 <em>Laudato si, <\/em>o tema da CF 2016 foi: <em>Casa\nComum, Nossa Responsabilidade<\/em>, com o lema &#8220;<em>Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justi\u00e7a qual riacho\nque n\u00e3o seca<\/em>&#8220;.&nbsp;O foco era a\nquest\u00e3o do saneamento b\u00e1sico nas moradas de todo o Brasil. <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; Talvez,\na consequ\u00eancia eclesial mais direta da <em>Laudato\n<\/em>si foi o modo como foi convocado e realizado o S\u00ednodo especial dos bispos\nsobre a Amaz\u00f4nia (outubro de 2019). O S\u00ednodo incorporou no pr\u00f3prio tema geral o\nconceito de \u201cecologia integral\u201d, trazido pela Laudato si: \u201c<em>Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral\u201d. <\/em>Foi a\npartir dessa vis\u00e3o que se instaurou um longo e cont\u00ednuo processo sinodal que nos\ntem possibilitado reler a <em>Laudato si<\/em>,\nagora \u00e0 luz dos di\u00e1logos e percep\u00e7\u00f5es de pastores e fieis das diversas regi\u00f5es\nda Panamaz\u00f4nica, assim como do Documento de conclus\u00f5es do S\u00ednodo e da exorta\u00e7\u00e3o\np\u00f3s-sinodal Querida Amaz\u00f4nia. \u00c9 isso que devemos aprofundar mais aqui. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>2 \u2013 A releitura da Laudato si no S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dificilmente poder\u00edamos imaginar o S\u00ednodo\nda Amaz\u00f4nia se o papa n\u00e3o tivesse aberto este caminho com a <em>Laudato si.<\/em> N\u00e3o se trata apenas do fato\nde que o S\u00ednodo tomou como tema a Ecologia integral, principal proposta da\nenc\u00edclica, mas todo o processo de di\u00e1logo pastoral e espiritual aberto pela\nconvoca\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo em Puerto Maldonado e ativo at\u00e9 agora tem se alimentado do\nesp\u00edrito que a <em>Laudato s<\/em>i suscitou na\nIgreja. Se ela pressupunha uma mudan\u00e7a de paradigma na miss\u00e3o da Igreja em todo\no mundo, sem d\u00favida, na Pan-Amaz\u00f4nia, essa mudan\u00e7a era mais urgente e\nparadigm\u00e1tica para as Igrejas das outras regi\u00f5es. Assim sendo, \u00e9 compreens\u00edvel\nque no documento de trabalho do S\u00ednodo (<em>Instrumentum\nLaboris<\/em>) e no Documento Final, o documento pontif\u00edcio mais citado seja a\nLaudato si (No <em>Instrumentum Laboris<\/em> 61\ncita\u00e7\u00f5es diretas e no Documento Final, 18 cita\u00e7\u00f5es, sendo que o t\u00edtulo de uma\ndas partes do documento \u00e9 \u201c<em>A Ecologia\nIntegral a partir da Laudato si \u2013<\/em> a partir do n\u00famero 66). <\/p>\n\n\n\n<p>Ambos s\u00e3o documentos coletivos, cuja\nreda\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto de muitos di\u00e1logos e acordos entre diversas comiss\u00f5es. Para\nserem conclu\u00eddos, precisaram contar com a aprova\u00e7\u00e3o dos bispos encarregados dos\ntrabalhos e dos respons\u00e1veis de diversos dicast\u00e9rios da C\u00faria. Apesar disso,\nambos os documentos valorizam as cren\u00e7as e ritos dos povos amaz\u00f4nicos (No <em>Instrumentum Laboris<\/em>, tratam disso os\nn\u00fameros 14, 50 e 54. No <em>Documento final<\/em>,\nespecialmente o n\u00famero 14). O papa Francisco, na Exorta\u00e7\u00e3o P\u00f3s-sinodal <em>Querida Amaz\u00f4nia<\/em>, insiste no respeito \u00e0s\ntradi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas dos povos amaz\u00f4nicos, assim como em uma\nevangeliza\u00e7\u00e3o que rompa com o modelo colonial e se construa a partir de uma\nespiritualidade da escuta e sempre fiel ao \u201cdi\u00e1logo intercultural e\ninter-religioso\u201d (Ver <em>Querida Amaz\u00f4nia<\/em>\nn. 28, 37, 70, 79 e 106). <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que, como os grupos de cat\u00f3licos\nintegristas e mesmo alguns bispos e cardeais vivem atr\u00e1s de qualquer \u00e1rvore\nesperando o menor descuido do papa Francisco para atacar, este tem de tomar os\ncuidados devidos e se servir da tradi\u00e7\u00e3o para chamar os caminhos espirituais\ndos povos amaz\u00f4nicos de \u201c<em>sementes do\nVerbo<\/em>\u201d e de garantir que a evangeliza\u00e7\u00e3o como an\u00fancio da f\u00e9 n\u00e3o se\ncontrap\u00f5e \u00e0 escuta e ao di\u00e1logo com esta sabedoria (QA 54). <\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que essas recomenda\u00e7\u00f5es do S\u00ednodo\ne do pr\u00f3prio papa sobre um di\u00e1logo ativo e fecundo com as tradi\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas\nt\u00eam encontrado sim express\u00f5es, tanto no di\u00e1logo suscitado por organismos\nsociais e pol\u00edticos como o F\u00f3rum Panamaz\u00f4nico, como pela abertura pastoral de\ndioceses como S\u00e3o Gabriel da Cachoeira na Amaz\u00f4nia Brasileira, assim como, em\noutros pa\u00edses, diversas Igrejas locais. <\/p>\n\n\n\n<p>Devemos dar gra\u00e7as a Deus pelo fato de\nque, em v\u00e1rios lugares, se consolidou a incorpora\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas ind\u00edgenas na\nliturgia e as celebra\u00e7\u00f5es se abriram a gestos e ritos das culturas amaz\u00f4nicas. Presb\u00edteros\ne di\u00e1conos ind\u00edgenas assumem seus minist\u00e9rios sem abrir m\u00e3o da sua identidade\ncultural e da comunh\u00e3o com seus parentes. No entanto, neste tipo de abertura\nque \u00e9 positiva e importante, o ponto de refer\u00eancia e a meta continuam sendo\nsempre e ainda a liturgia crist\u00e3 e a Igreja. O que significa isso? Ser\u00e1 que,\napesar de toda a abertura contida nestas iniciativas, a perspectiva desse\nprocesso de abertura e di\u00e1logo ainda \u00e9 eclesioc\u00eantrico, isso \u00e9, tem como meta a\nIgreja e sua pastoral? N\u00e3o quero afirmar isso. Cada processo \u00e9 cada processo e\ncada passo de di\u00e1logo e aproxima\u00e7\u00e3o, se \u00e9 verdadeiro e sincero, sempre nos tira\num pouco de n\u00f3s mesmos e nos reveste de alteridade. Coloca o outro como centro.\nDe todo modo, a incultura\u00e7\u00e3o da pastoral possibilita passos no di\u00e1logo\nintercultural. Entretanto, se ficar apenas na perspectiva de enriquecer nossas\ncelebra\u00e7\u00f5es e ajudar na linguagem inculturada da catequese, n\u00e3o chegamos \u00e0\ndimens\u00e3o do di\u00e1logo inter-religioso. <\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, na Am\u00e9rica Latina, as teologias\n\u00edndias recolhem tradi\u00e7\u00f5es religiosa dos povos aut\u00f3ctones e as reflex\u00f5es de\nte\u00f3logos\/as crist\u00e3os que se inspiram nestas tradi\u00e7\u00f5es para expressar a f\u00e9\ncrist\u00e3 de modo mais adequado a esses povos. Esta iniciativa \u00e9 importante e\nexcelente. Agora, cinco anos depois da Laudato si, atualizada pelo documento de\nconclus\u00e3o do S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia e pela exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal \u201cQuerida\nAmaz\u00f4nia\u201d, podemos e precisamos dar um passo adiante. N\u00e3o basta mais apenas elaborar\numa teologia crist\u00e3 com rosto ind\u00edgena. O Esp\u00edrito nos chama a acolhermos e\nvalorizarmos a sabedoria aut\u00f4noma e ancestral dos povos origin\u00e1rios. Precisamos\nfazer isso, por quest\u00e3o de justi\u00e7a. Temos uma d\u00edvida moral com essas tradi\u00e7\u00f5es que,\nantes, as Igrejas renegaram e perseguiram, como sendo idol\u00e1tricas e at\u00e9\ndemon\u00edacas. Por outro lado, como elas foram e continuam sendo elementos de\nresist\u00eancia cultural e da identidade pr\u00f3pria desses povos, s\u00e3o neste momento\nmais necess\u00e1rias do que nunca e precisamos valoriz\u00e1-las e apoi\u00e1-las. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo inteiro sabe: os desafios da\nrealidade se precipitam no sentido do genoc\u00eddio cultural e humano dos povos\nind\u00edgenas. O pr\u00f3prio papa tem repetido que, desde os tempos da coloniza\u00e7\u00e3o,\nnunca estes povos foram t\u00e3o amea\u00e7ados em sua exist\u00eancia e suas culturas. A\nrealidade atual dos povos ind\u00edgenas e dos grupos afrodescendentes pede de n\u00f3s\nabertura, acolhida e valoriza\u00e7\u00e3o de suas tradi\u00e7\u00f5es religiosas pr\u00f3prias. N\u00e3o\napenas porque descobrimos nelas \u201csementes do Verbo\u201d que j\u00e1 nos ajudam a\nconduzir essas culturas ao Verbo encontrado na Igreja e a f\u00e9 crist\u00e3. J\u00e1 n\u00e3o\nbasta este tipo de respeito mission\u00e1rio. \u00c9 urgente nos colocarmos em um tipo de\nescuta ainda mais exigente e amorosa. Precisamos testemunhar ao mundo que o\nEsp\u00edrito de Deus se revela para n\u00f3s e para toda a humanidade nas tradi\u00e7\u00f5es\npr\u00f3prias de cada povo ou comunidade. Como crist\u00e3os e crist\u00e3s, n\u00e3o pretendemos\nlevar nossa f\u00e9 a ningu\u00e9m e sim testemunhar o reino de Deus presente nas\nexpress\u00f5es culturais e religiosas dos povos. Queremos descobrir o que Deus tem\na nos revelar (a n\u00f3s, como crist\u00e3os) atrav\u00e9s dessas manifesta\u00e7\u00f5es culturais e\nreligiosas dos povos. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>3 \u2013 A natureza, encarna\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos bons efeitos da Laudato si em 2015\nfoi manifestar apoio e confirmar os novos caminhos percorridos j\u00e1 desde algumas\nd\u00e9cadas pelos te\u00f3logos e te\u00f3logas que t\u00eam desenvolvido uma Teologia da Cria\u00e7\u00e3o\na partir do di\u00e1logo com as novas pesquisas e descobertas da Cosmologia, com as\ntradi\u00e7\u00f5es orientais, como tamb\u00e9m com as espiritualidades dos povos origin\u00e1rios<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>. Depois\nde cinco anos da <em>Laudato si, <\/em>a\nconflu\u00eancia destes caminhostraz para\ndentro do campo da teologia e da espiritualidade crist\u00e3 uma nova sensibilidade\nque inclui o resgate da profunda espiritualidade ecol\u00f3gica contida nas\ntradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas norte-americanas e de toda a Am\u00e9rica Latina<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p>Aqui pe\u00e7o permiss\u00e3o para passar a uma\nlinguagem mais testemunhal. Desde minha juventude, sempre frequentei cultos de\nCandombl\u00e9, Umbanda e sempre que pude tive contatos com paj\u00e9s e xam\u00e3s de grupos\nind\u00edgenas diversos, assim como tamb\u00e9m nos pa\u00edses andinos. Quando estive em\npa\u00edses como Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Qu\u00eania e \u00c1frica do Sul, sempre\nprocurei contato com grupos e tradi\u00e7\u00f5es espirituais origin\u00e1rias. No meu esfor\u00e7o\nde comungar com essas espiritualidades sempre acolhi a cren\u00e7a nos Orix\u00e1s, nos\nEsp\u00edritos e Encantados como manifesta\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito, que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3\nchama de \u201cEsp\u00edrito Santo\u201d. Compreendia que havia uma diferen\u00e7a fundamental: a\nf\u00e9 crist\u00e3 professa a transcend\u00eancia de Deus. Cr\u00ea em um Esp\u00edrito Criador que\npode se manifestar na natureza, mas \u00e9 transcendente, isso \u00e9, vai al\u00e9m do tempo\ne do espa\u00e7o. J\u00e1 as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e afro creem que o pr\u00f3prio universo, a\nTerra, as \u00e1guas, os animais e as plantas s\u00e3o como o corpo divino do Esp\u00edrito.\nComo crist\u00e3o, eu conseguia aceitar a natureza como sacramento da presen\u00e7a\ndivina, mas sempre concebia o Esp\u00edrito como de certa forma separado. Fui\neducado a n\u00e3o confundir Criador e cria\u00e7\u00e3o ou criatura. Quanto mais fui\nmergulhando de cora\u00e7\u00e3o nas espiritualidades origin\u00e1rias, mas fui descobrindo\nque essa separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente n\u00e3o pode mais ser feita, como a humanidade\nprecisa do testemunho dessa espiritualidade que Raimon Panikkar chamava de\ncosmote\u00e2ndrica (Panikkar, 1999) e que n\u00e3o separa o Esp\u00edrito, o universo e a\nhumanidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Para nos colocar na escuta e acolhida do\nque Deus nos diz atrav\u00e9s das revela\u00e7\u00f5es aut\u00f3ctonas dos caminhos espirituais dos\nnossos povos, n\u00e3o precisamos de fazer nenhum concordismo com a B\u00edblia e as\nfontes da f\u00e9 judaico-crist\u00e3. Compreendemos que cada caminho espiritual \u00e9 \u00fanico\ne deve ser acolhido e compreendido na sua originalidade pr\u00f3pria. Nem seria\nrespeitoso buscar equival\u00eancias a partir de um ponto de refer\u00eancia que seria o\nnosso. Se fosse assim, n\u00e3o superar\u00edamos certo etnocentrismo religioso e n\u00e3o nos\nabrir\u00edamos verdadeiramente a uma espiritualidade macro-ecum\u00eanica. No entanto,\nmesmo no total respeito \u00e0s diferen\u00e7as que existem e devem ser valorizadas,\nprecisamos de uma linguagem comum. Se algu\u00e9m s\u00f3 fala alem\u00e3o n\u00e3o conseguir\u00e1\ndialogar com quem s\u00f3 fala espanhol. <\/p>\n\n\n\n<p>Assim, podemos buscar no \u00e2mbito da nossa\nf\u00e9, elementos que nos ajudem a valorizar o outro e a descobrir o que Deus nos\nrevela atrav\u00e9s do diferente. &nbsp;Foi com\nessa perspectiva que fui descobrindo que na pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o b\u00edblica da\nrevela\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, houve certa penetra\u00e7\u00e3o das culturas religiosas de todo o\nOriente Antigo e nenhuma cultura se desenvolveu isolada e separada das outras.\nFoi assim que descobri: em sua <em>Hist\u00f3ria\nda Igreja na Am\u00e9rica Latina<\/em>, Enrique Dussel aponta a <em>Pachamama<\/em>&nbsp; dos povos do\nAltiplano como imagem do Esp\u00edrito Santo (Dussel, 1983, p. 153)<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>.\nTamb\u00e9m Leonardo Boff explica: \u201c<em>Na B\u00edblia,\no Esp\u00edrito \u00e9 como uma propriedade ou qualidade das coisas. Esta qualidade se\nencontra na natureza, na hist\u00f3ria, no ser humano e tamb\u00e9m em Deus\u201d.<\/em> Ele\ncontinua afirmando: \u201c<em>Dois renomados\nexegetas franceses H. Caselles (Saint Esprit, 1990) e Jean Galot (L\u2019Esprit\nSaint, 1991) foram em busca das ra\u00edzes sem\u00e2nticas mais antigas da palavra ruah\ne descobriram que nas l\u00ednguas sem\u00edticas, como no sir\u00edaco, p\u00fanico, ac\u00e1dico,\nsamaritano, ugar\u00edtico e no hebreu, o sentido primitivo n\u00e3o era, como sempre se\nadmitia, o vento, mas \u2018o espa\u00e7o atmosf\u00e9rico entre o c\u00e9u e a terra, que pode ser\ncalmo ou agitado\u2019. Depois, esse espa\u00e7o se amplia e se transforma na ambi\u00eancia\nvital, onde todos os seres vivos, os animais e os humanos, v\u00e3o haurir vida. A\npartir desse sentido mais origin\u00e1rio, derivaram-se todos os demais sentidos<\/em>\u201d.\n(Boff, 2013, pp. 79- 80).&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Assim, fica claro que, j\u00e1 na B\u00edblia, o\nEsp\u00edrito \u00e9 visto como energia, ambiente vital. Principalmente nos primeiros\ntempos, o Esp\u00edrito tem o sentido do espa\u00e7o atmosf\u00e9rico entre os c\u00e9us e a terra,\nportanto do cosmos. Podemos at\u00e9 afirmar que, de certa forma, o cosmos \u00e9 como o\ncorpo do Esp\u00edrito (Sl 104, 29- 30). <\/p>\n\n\n\n<p>Este elemento \u00e9 fundamental na\naproxima\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o das espiritualidades xam\u00e2nicas. &nbsp;Podemos e devemos ver nos Encantados que os\n\u00edndios do Nordeste reverenciam, nos Xapiris que v\u00eam dan\u00e7ar na mata com os\nYanomami no norte do Brasil manifesta\u00e7\u00f5es atuais do Esp\u00edrito Divino. O sopro\ndivino do Esp\u00edrito que sopra onde quer (Jo 3, 8) toma, agora, express\u00f5es\ndiversas e quase brinca conosco se revelando e, ao mesmo tempo, se ocultando nos\nesp\u00edritos da natureza e na presen\u00e7a dos antepassados t\u00e3o atuantes na caminhada da\nmaioria dos povos aut\u00f3ctones. Podemos sim, contempl\u00e1-lo nos Orix\u00e1s e Inquices\ndo Candombl\u00e9 e nas entidades da Umbanda. Sem querer classificar todas estas\nexpress\u00f5es como se fossem iguais ou equivalentes e, principalmente, sem cair na\ntenta\u00e7\u00e3o de revesti-los com as roupagens crist\u00e3s da Pneumatologia tradicional\ndas Igrejas. Como diz a Carta aos Hebreus: \u201cVamos, portanto, sair ao seu\nencontro, para fora do acampamento\u201d (Hb 13,13). \u00c9 um caminho de sa\u00edda e n\u00e3o de\ninclus\u00e3o ou de mascarar qualquer forma de traz\u00ea-los para dentro do nosso\nrecinto. N\u00f3s \u00e9 que temos de ir, como Igreja pascal, ou Igreja em sa\u00edda. Em um\nlivro recente, o te\u00f3logo irland\u00eas Diarmuid O\u2019Murchu escreve: <\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEnquanto\na maior parte das principais religi\u00f5es define Deus como Esp\u00edrito transcendente\n(uma realidade desencarnada para al\u00e9m do tempo e do espa\u00e7o, mas com impacto\nprofundo sobre o tempo e o espa\u00e7o), a vis\u00e3o do Grande Esp\u00edrito descreve a\npresen\u00e7a \u00edntima e permanente de Deus atrav\u00e9s de toda a vida org\u00e2nica, em\nprimeiro lugar, dentro e atrav\u00e9s da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o material. \u00c9 atrav\u00e9s da\nnossa intera\u00e7\u00e3o c\u00f3smica como terrestre que encontramos e experimentamos o\nGrande Esp\u00edrito\u201d (Murchu, 2018, p.164). &nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, em suas descobertas cada dia\nmais surpreendentes, a Cosmologia confirma que o universo parece um imenso\norganismo vivo e autorregulado. A maioria dos cientistas concordam que este\nconjunto que \u00e9 o Cosmos est\u00e1 sempre se recriando e se renovando e a maioria\nchega a admitir por tr\u00e1s de tudo uma intelig\u00eancia de amor que de certa forma\npreviu a vida. Pod\u00edamos dizer como o f\u00edsico e matem\u00e1tico Freeman Dyson que, ao\nfinal de todas as suas pesquisas, concluiu: \u201c<em>Quanto mais examino o Universo e a sua arquitetura, mais descubro\nevid\u00eancias de que o Universo, de certo modo, sabia que n\u00f3s, seres viventes,\nest\u00e1vamos a caminho\u201d. (citado in C. Pajares Vales, 2013, p. 5). <\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta descoberta que a Ci\u00eancia conclui\ncom tanto cuidado e \u00e9 uma intui\u00e7\u00e3o de diversas fontes independentes, de outro\nmodo e com uma linguagem m\u00edtica e po\u00e9tica desde a antiguidade \u00e9 a f\u00e9 de muitas\ntradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e xam\u00e2nicas: o universo \u00e9 vivo, todos os seres expressam a\npresen\u00e7a do esp\u00edrito e o ser humano \u00e9 parte desta comunidade da vida. <\/p>\n\n\n\n<p>Na <em>Laudato\nsi<\/em>, o papa Francisco afirma que falar da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 ver tudo que existe \u201c<em>como uma realidade iluminada pelo amor que\nnos chama a uma comunh\u00e3o universal<\/em>\u201d(LS 76). Cinco anos depois, podemos\nprosseguir esse mesmo rumo indo al\u00e9m da linguagem que ainda de certo modo\nsepara Deus e o universo. J\u00e1 bem antes da Laudato si, o te\u00f3logo franc\u00eas Adolphe\nGesch\u00e9 escrevia: <em>\u201cA categoria teol\u00f3gica\nde cria\u00e7\u00e3o oferece a quem cr\u00ea a oportunidade de respeitar e de escutar o cosmos\n<strong>por si mesmo<\/strong>, a terra, <strong>por si mesma<\/strong>, longe de qualquer dom\u00ednio\ne explora\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>(Gesch\u00e9, 2004, p. 10)<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>.&nbsp;&nbsp; \u00c9 a pr\u00f3pria ci\u00eancia que fala em um universo\npermanentemente em evolu\u00e7\u00e3o, \u201c<em>autoconsciente\ne espiritual\u201d. <\/em>\u201c<em>Um jogo de rela\u00e7\u00f5es\nvivas que pode ser compreendido como a aurora do esp\u00edrito\u201d<\/em> (Boff, 2013, p.\n18). \u201c<em>\u00c9 a Vida. \u00c9 o Todo em tudo. \u00c9 a\ncriatividade sagrada, a possibilidade sempre aberta do bem em tudo o que\nexiste\u201d <\/em>(Arregi, 2014, p. 68). <\/p>\n\n\n\n<p>Em toda a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, sempre se\nvalorizou o que, a partir de algumas das cartas paulinas, chamamos de &#8220;<em>Cristo c\u00f3smico<\/em>\u201d (Cf. Ef, 1, 23 e Col 1,\n15- 20). No s\u00e9culo XX, Theillard de Chardin retomou essa vis\u00e3o e esta\ncompreens\u00e3o teol\u00f3gica e espiritual foi reconhecida e mesmo citada pelo papa\nFrancisco na <em>Laudato si<\/em> (L.S. 83). <\/p>\n\n\n\n<p>Esta vis\u00e3o teol\u00f3gica e espiritual que,\nao menos como linguagem, ainda \u00e9 nova no Cristianismo tem permitido um di\u00e1logo\nbem mais respeitoso e fecundo da f\u00e9 crist\u00e3 com as Cosmologias atuais, com as\nantigas tradi\u00e7\u00f5es orientais e, sem d\u00favida, podem ser uma base consistente para\numa nova postura pastoral das Igrejas com as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. N\u00e3o se trata\napenas da valoriza\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo amoroso que, como j\u00e1 reafirmei, independem\nde falarmos uma linguagem semelhante ou termos pontos convergentes comuns.\nEstou aqui acenando para algo a mais: uma valoriza\u00e7\u00e3o a partir de dentro, uma\ncomunh\u00e3o espiritual que possibilite penetrarmos mais e mais profundamente na\nespiritualidade ecol\u00f3gica que a <em>Laudato\nsi<\/em> estimulava e&nbsp; que, agora, cinco\nanos depois, podemos levar a novo patamar. escreveu a mas tamb\u00e9m uma resposta\nativa e que complete o di\u00e1logo. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da releitura da enc\u00edclica cinco\nanos depois, se trata de dar um passo novo de di\u00e1logo e de comunh\u00e3o com as\nespiritualidades origin\u00e1rias, especialmente xam\u00e2nicas que, por todo o Brasil\nsustentam a resist\u00eancia cultural dos povos ind\u00edgenas e t\u00eam ajudado muita gente,\nind\u00edgena ou n\u00e3o, a receber o esp\u00edrito que se manifesta nas energias da terra,\ndas \u00e1guas, das \u00e1rvores e dos animais como epifania ou <em>Kenosis<\/em> do Esp\u00edrito Santo que, atrav\u00e9s de Jesus ressuscitado, o Pai\nde amor maternal nos envia.&nbsp;&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p><strong>4 \u2013 Um di\u00e1logo intrapessoal e intra-espiritual \u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando a Laudato si recomenda o di\u00e1logo\ndas religi\u00f5es (LS 14, 233 e 246) parece pensar no di\u00e1logo com as grandes\nreligi\u00f5es tradicionais, como as tradi\u00e7\u00f5es orientais e a espiritualidade\nisl\u00e2mica que o pr\u00f3prio papa cita (LS 133). Os documentos do S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia\nj\u00e1 refazem essa recomenda\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo pensando nas tradi\u00e7\u00f5es dos povos\norigin\u00e1rios (Doc. final do S\u00ednodo 14 e 54) e, na exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal, o papa\nFrancisco retoma nessa mesma linha (QA 28, 37, 70 e 79). A perspectiva muda\nporque essas tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se constituem como uma religi\u00e3o no sentido de se\norganizarem como institui\u00e7\u00f5es, com hierarquia, dogmas e ritos estabelecidos em\ncomum. S\u00e3o tradi\u00e7\u00f5es culturais que sendo, espiritualidades centradas no cosmos,\nn\u00e3o se op\u00f5em ou competem com religi\u00f5es que se consideram meta-c\u00f3smicas. \u00c9 o\ncaso da China onde as pessoas podem ser, tradicionalmente, budistas em sua forma\nde culto e de pr\u00e1tica espiritual e, ao mesmo tempo, confucionistas, na sua\n\u00e9tica e na vida dom\u00e9stica. N\u00e3o se trata exatamente do que se poderia chamar de\n\u201cdupla perten\u00e7a\u201d, justamente porque n\u00e3o s\u00e3o duas religi\u00f5es institucionais do\nmesmo tipo que se encontram <a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>.\nNo Brasil, em encontros de Cebs, j\u00e1 escutei m\u00e3es de santo afirmarem: \u201c<em>\u00c9 como crist\u00e3 que sou candomblecista e como\ncandomblecista que me sinto crist\u00e3 e profundamente crist\u00e3\u201d<\/em>. Talvez, aqui\nestejamos vivendo uma forma nova e original do di\u00e1logo intrarreligioso descrito\npor Raimon Panikkar como sendo a base de todo di\u00e1logo inter-religioso\n(Panikkar, 1998). Na nossa realidade, ou a abertura e o di\u00e1logo com as\ntradi\u00e7\u00f5es amer\u00edndias e afrodescendentes se processam em uma busca espiritual\nprofunda ou n\u00e3o se tornam poss\u00edveis. <\/p>\n\n\n\n<p>Juan Jos\u00e9 Tamayo explica: \u201cO <em>di\u00e1logo religioso requer uma atitude de busca profunda,\numa convic\u00e7\u00e3o de que estamos caminhando em solo sagrado, de que arriscamosnossa\nvida. N\u00e3o se trata de uma curiosidade intelectual nem de uma bagatela, mas de\numa aventura arriscada e exigente. Faz parte daquela peregrina\u00e7\u00e3o pessoal para\na plenitude de n\u00f3s mesmos, que se obt\u00e9m ultrapassando as fronteiras de nossa\ntradi\u00e7\u00e3o, escalando e penetrando nos muros daquela cidade onde n\u00e3o h\u00e1 templo\nporque a Ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade, como se diz na \u00faltima das Escrituras\ncrist\u00e3s<\/em> (Ap 22,5). &nbsp;(Tamayo, 1993:1.149).<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da nossa inser\u00e7\u00e3o nas tradi\u00e7\u00f5es\nde tipo xam\u00e2nicas, ela exige de n\u00f3s um di\u00e1logo interior no qual consigamos\nalargar nossa compreens\u00e3o da f\u00e9 e nossa vis\u00e3o de Deus. Evidentemente, este\ndi\u00e1logo profundo e mais do que di\u00e1logo uma inser\u00e7\u00e3o amorosa com as tradi\u00e7\u00f5es\nxam\u00e2nicas n\u00e3o ser\u00e3o poss\u00edveis se ainda confundirmos a f\u00e9 com as express\u00f5es\ntradicionais da f\u00e9. Para mergulharmos como cora\u00e7\u00e3o neste universo diferente\ntemos de nos despojar das vestes coloniais da teologia tribut\u00e1ria das\nfilosofias greco-romanas. Com a mente cheia das categorias helenistas da\nteologia tradicional n\u00e3o vamos conseguir descobrir o que o Esp\u00edrito nos diz,\nhoje, atrav\u00e9s destas culturas. Sem d\u00favida, n\u00e3o se trata de canonizar tudo o que\nestas culturas creem ou nos revelam. N\u00e3o nos compete julgar ou classificar a f\u00e9\ne a espiritualidade dos povos aut\u00f3ctones. O di\u00e1logo pede de n\u00f3s sermos capazes\nde acolher o outro como que no mais profundo de n\u00f3s mesmos e, ao mesmo tempo,\nproceder a um trabalho de s\u00edntese que nos permita nos impregnando do outro\nsermos ainda e sempre mais n\u00f3s mesmos, at\u00e9 para estarmos juntos e nos mantermos\ncom eles no caminho. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>5 \u2013 Um breve olhar sobre as tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todos sabemos que se tratam de tradi\u00e7\u00f5es\ne caminhos os mais diferentes e singulares e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reuni-las todas em\numa \u00fanica classifica\u00e7\u00e3o. O termo xam\u00e3 que veio da Sib\u00e9ria foi assumido por\nalgumas destas tradi\u00e7\u00f5es nas tr\u00eas Am\u00e9ricas, mas simplesmente para traduzir\nrealidades muito diversas como os Xapiri de Omama dos Yanomami, os Yatiris dos\nAymara nos Andes, o Homem-Medicina em alguns povos da Am\u00e9rica do Norte, a\nfigura do <em>Peacekeeper <\/em>dos \u00edndios\nCherokee do leste do Canad\u00e1 e EEUU e o que os Guarani e os \u00edndios do Nordeste\nchamam de Paj\u00e9, algumas etnias do Centro-oeste denominam de Tuxaua e de outros\nnomes. Em geral, s\u00e3o homens, mas h\u00e1 muitas mulheres paj\u00e9s como na etnia\nhumi-kuin, a mulher paj\u00e9 que criou um centro de tradi\u00e7\u00f5es de cura junto aos\nGuarani. No Xingu, Mapulu \u00e9 a primeira Paj\u00e9 no seu povo Kamayur\u00e1, assim como\n\u00e9&nbsp; a \u00edndia Rucharlo (35 anos) na etnia\nYawanawa no Acre.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>A primeira observa\u00e7\u00e3o a fazer \u00e9 que para\nentrar nesta terra sagrada e martirial (custou o sangue de muitos pais e m\u00e3es\nda f\u00e9 e da espiritualidade), temos de entrar de p\u00e9s descal\u00e7os, nus de qualquer\npretens\u00e3o de julgamento ou classifica\u00e7\u00e3o e de cora\u00e7\u00e3o aberto a acolher\ninteriormente a Palavra do outro. Infelizmente, existem, mas ainda s\u00e3o poucas\nas vozes dos pr\u00f3prios \u00edndios ou Xam\u00e3s sobre a sua tradi\u00e7\u00e3o espiritual. Como\ntudo \u00e9 interligado (j\u00e1 confirma o papa na Laudato si), v\u00e1rios \u00edndios que se\ncomunicam conosco, ao discorrer sobre suas vidas e culturas, afirmam algumas\ncoisas sobre as suas tradi\u00e7\u00f5es espirituais (Ver, por exemplo, Davi Kopenawa,\n2015 e Kak\u00e1 Ver\u00e1s, 2016). No entanto, quase sempre e predominantemente, quem\nfala e escreve sobre Xamanismos no Brasil s\u00e3o antrop\u00f3logos\/as e cientistas da\nreligi\u00e3o. Mesmo se devemos agradecer a honestidade, o cuidado de fidelidade e\nrespeito com os quais em geral esses companheiros e companheiras procedem na\ndescri\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos, \u00e9 claro que se trata sempre de uma vis\u00e3o de fora, que\ndificilmente escapa a um olhar a partir da refer\u00eancia da cultura dominante e\ndas classifica\u00e7\u00f5es da Academia ocidental. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos visualizar estas fun\u00e7\u00f5es como\nprofiss\u00f5es estruturadas e sim como fun\u00e7\u00f5es que em alguns casos homens e\nmulheres assumem carismaticamente, mas muitas vezes, s\u00e3o for\u00e7as espirituais que\nexistem em todos\/as e s\u00e3o vividas comunitariamente. <\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo\nse s\u00e3o muito diferentes umas das outras, as tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas t\u00eam em comum o\nprinc\u00edpio de serem instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o das pessoas e comunidades com o\nesp\u00edrito presente e atuante em cada ser vivo e na natureza. Quase sempre, as\ntradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas visam reconstituir a sa\u00fade das pessoas e o bem-viver\ncoletivo e pessoal, ou seja, o equil\u00edbrio de rela\u00e7\u00f5es entre a humanidade e a\nnatureza. Em geral, um elemento fundamental do Xamanismo \u00e9 o transe, ou \u00eaxtase\nou sonho de revela\u00e7\u00e3o. \u201c<em>O xamanismo \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o social cujos\nrepresentantes atrav\u00e9s do \u00eaxtase produzido segundo padr\u00f5es tribais, entram\nem contato com o sobrenatural a fim de defender a comunidade de acordo com suas\nrespectivas ideologias religiosas, seja por viagens a mundos do Al\u00e9m, seja\npela possess\u00e3o por esp\u00edritos<\/em>\u201d.\n(Baldus. 1965\/66: 1 87). <\/p>\n\n\n\n<p>Muitas destas tradi\u00e7\u00f5es incorporam em\nseus ritos bebidas consideradas de poder ou fumos, elementos que possibilitam\nsonhos prof\u00e9ticos, transes e estados alterados de consci\u00eancia. Muitos\ndesenvolvem rela\u00e7\u00f5es especiais com animais e esta comunica\u00e7\u00e3o com o esp\u00edrito do\nanimal-totem serve como elemento de cura e harmoniza\u00e7\u00e3o da vida. Quase todas\nestas intui\u00e7\u00f5es de sabedoria ancestral fazem parte de um caminho inici\u00e1tico e\npor isso secreto. Todos s\u00e3o guardi\u00e3es de tradi\u00e7\u00f5es ancestrais, mas cada um\nguarda do seu modo e como nenhuma cultura \u00e9 est\u00e1tica, elas v\u00e3o se entrecruzando\ne assimilando elementos de outras culturas e mesmo da sociedade dominante. Atualmente\nno Brasil, mais ou menos um milh\u00e3o de pessoas se identifica como pertencendo a\npovos ind\u00edgenas. No entanto, parece que quase a metade desta popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o vive\nmais em suas aldeias origin\u00e1rias. Alguns continuam em comunidade transplantada\npara a periferia das cidades. H\u00e1 aldeias ind\u00edgenas na \u00e1rea de periferia de\nManaus, Bel\u00e9m, S\u00e3o Paulo, Campo Grande, Pesqueira e outras cidades. E h\u00e1 muitos\n\u00edndios e \u00edndias espalhados no meio da popula\u00e7\u00e3o urbana. Por anos e anos, muitos\ndestes irm\u00e3os e irm\u00e3s tinham medo do preconceito e n\u00e3o se identificavam como\n\u00edndios. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, eles\/as t\u00eam retomado sua identidade cultural e se\nreencontram como \u00edndios e \u00edndias nas cidades. Tamb\u00e9m em v\u00e1rios povos, jovens\nsaem das aldeias para fazer universidades e n\u00e3o para se tornarem brancos e sim\npara auxiliares o seu pr\u00f3prio povo como m\u00e9dicos, advogados e enfermeiros\/as e\noutras profiss\u00f5es. Al\u00e9m disso, com o autofechamento institucional de algumas\nIgrejas hist\u00f3ricas nos \u00faltimos 30 ou 40 anos, muitas pessoas, tanto \u00edndias como\npessoas que nunca tiveram qualquer contato com culturas ind\u00edgenas n\u00e3o conseguem\nmais nenhuma resposta para os desafios da vida e a sua busca interior nas\npar\u00f3quias cat\u00f3licas e evang\u00e9licas, ou na proposta de devo\u00e7\u00f5es crist\u00e3s que lhes\ns\u00e3o oferecidas. Muitas encontram respostas espirituais em novos tipos de\nXamanismos. Por isso, temos de distinguir as tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas e pajelan\u00e7as\nde diversos povos origin\u00e1rios e um conjunto de pr\u00e1ticas e ritos que t\u00eam se\nconstitu\u00eddo como neo-xamanismos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 o objetivo destas p\u00e1ginas discorrer\nsobre os diversos Xamanismos que, atualmente, existem no Brasil. Alguns\ndistinguem Xamanismo e Pajelan\u00e7a. Em alguns povos a pajelan\u00e7a \u00e9 a forma daquele\npovo viver isso que chamamos aqui de Xamanismo. Em outros povos, o Xamanismo \u00e9\no conjunto de rituais mais comunit\u00e1rios ou individuais de rela\u00e7\u00e3o com a\nnatureza, que visam o bem-viver e o bem-conviver. As pajelan\u00e7as s\u00e3o\ncompreendidas como trabalhos e rezas de cura individuais, com as medicinas, com\nas plantas e atrav\u00e9s da conex\u00e3o com a ancestralidade. Outros veem no termo <em>pajelan\u00e7a <\/em>uma conceitua\u00e7\u00e3o\npreconceituosa, como se fosse mais uma pr\u00e1tica individual de algu\u00e9m do que um\nrito integrado na cultura de um povo. De qualquer forma, nos meses de junho a\nsetembro, tempo de seca no interior do pa\u00eds, em algumas regi\u00f5es, no alto das\nmontanhas, rituais secretos que alguns grupos chamam de pajelan\u00e7a procuram\nrefazer a unidade dos diversos reinos e trazer amor \u00e0 terra ferida. <\/p>\n\n\n\n<p>Os paj\u00e9s s\u00e3o anci\u00f5es ou pessoas mais\nvelhas, que t\u00eam esse papel da pajelan\u00e7a. Na Amaz\u00f4nia e em outras regi\u00f5es, em\ndiversos povos, essas express\u00f5es se fundem e diversos grupos praticam o\nXamanismo nos rituais de consumo da ayahuasca. Assim, h\u00e1 o Xamanismo pano\n(tronco lingu\u00edstico que engloba diversas etnias localizadas especialmente na\nfloresta amaz\u00f4nica. S\u00e3o exemplos de xamanismos ayahuasqueiros que se articulam\natrav\u00e9s de redes de alian\u00e7as e organizam c\u00edrculos, nos quais circulam pessoas,\nsubst\u00e2ncias, saberes e tradi\u00e7\u00f5es. Nesse territ\u00f3rio de experi\u00eancias, alguns\nrituais e tradi\u00e7\u00f5es se reinventam no sentido de serem adaptados a estas novas\nrealidades. \u00cdndios e n\u00e3o \u00edndios chamam isso de \u201c<em>medicinas da floresta<\/em>\u201d (Meneses, 2018, pp. 229-258). Ao lado disso,\no Santo Daime, religi\u00e3o nascida no Acre nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, junta\nelementos xam\u00e2nicos com o Catolicismo Popular e o Espiritismo Kardecista e\nainda algo de Umbanda. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os Xamanismos urbanos, ou neoxamanismos s\u00e3o\ntamb\u00e9m muito diversificados. Alguns s\u00e3o adapta\u00e7\u00f5es ou acomoda\u00e7\u00f5es do Xamanismo\ntradicional da floresta ou do cerrado para a vida em uma periferia urbana. J\u00e1\noutros n\u00e3o s\u00e3o apenas atualiza\u00e7\u00f5es ou transposi\u00e7\u00f5es do antigo Xamanismo para a\nsociedade ocidental e sim uma nova constru\u00e7\u00e3o, na qual entram elementos e\ntra\u00e7os tanto das antigas tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas quanto de outras vertentes, sejam\norientais, sejam ligados \u00e0 espiritualidade da nova era. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>6 \u2013 As tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e negras, lugar espiritual de respostas \u00e0 Laudato si, cinco anos depois. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, cinco anos depois da\nLaudato si, s\u00e3o poss\u00edveis muitas experi\u00eancias profundas de aplica\u00e7\u00e3o e de\nrespostas criativas \u00e0s propostas espirituais da enc\u00edclica. Nestas p\u00e1ginas, propus\num caminho de di\u00e1logo amoroso e de inser\u00e7\u00e3o e mergulho espiritual nas tradi\u00e7\u00f5es\nind\u00edgenas e afrodescendentes. Tenho consci\u00eancia que \u00e9 apenas um dos caminhos\nabertos de uma compreens\u00e3o de miss\u00e3o da Igreja como prolongamento da encarna\u00e7\u00e3o\ndo Verbo no atual contexto social e pol\u00edtico da Am\u00e9rica Latina. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo nos c\u00edrculos de Igrejas, muitos\ncat\u00f3licos e evang\u00e9licos ainda consideram as tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas e os cultos\nafrodescendentes como express\u00f5es de um est\u00e1gio primitivo de religi\u00e3o. De fato,\nnem se trata em si de religi\u00f5es, no mesmo sentido que o s\u00e3o as nossas Igrejas,\nj\u00e1 que tanto as manifesta\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas, quanto os cultos afro v\u00e3o al\u00e9m do\naparato institucional de leis, regras cultuais e estrutura organizativa\nvis\u00edvel. Mant\u00eam um aspecto de culto \u00e0 natureza, mas se constituem muito mais\ncomo culturas espirituais de resist\u00eancia a uma sociedade que rouba o encanto da\nnatureza e quer transformar tudo em mercadoria. Os fen\u00f4menos xam\u00e2nicos\nexpressam mais a capacidade relacional de pessoas que conseguem ver al\u00e9m do\nvis\u00edvel. Estas tradi\u00e7\u00f5es t\u00eam servido como chave preciosa que os seres humanos\ndesenvolveram para compreender a Terra, a \u00e1gua e a natureza e com elas viver\nharmoniosamente. Assim, as pessoas que se iniciam no Xamanismo ou em algum\nculto afrodescendente estabelecem um contato com as for\u00e7as c\u00f3smicas e com as\nenergias intraps\u00edquicas e captam as mensagens dos elementos que diversos grupos\nind\u00edgenas chamam de <em>povos<\/em> ou <em>reinos <\/em>(mineral, vegetal, animal e\nhumano). Atrav\u00e9s dessa rela\u00e7\u00e3o, o\/a Xam\u00e3 reconstitui a unidade sagrada da\nrealidade nas suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es e nos colocam em sintonia com o todo.\nEsse todo \u00e9 hol\u00edstico, mas \u00e9 tamb\u00e9m social e pol\u00edtico. Antrop\u00f3logos que\npesquisaram o Xamanismo entre os Kaingangs do sul do Brasil afirmam que entre\nos kaingang, o Xamanismo \u00e9 uma pot\u00eancia decolonial que desfaz os estragos da\ncoloniza\u00e7\u00e3o que o povo tem sofrido por parte da sociedade dominadora (Marechal\ne Hermann, 2018, p. 339- 370).<\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente, muitas pessoas comuns pensam\nque estes rituais s\u00e3o fen\u00f4menos extraordin\u00e1rios e especiais. S\u00e3o especiais\nporque o amor \u00e9 sempre especial, mas a magia de amor com a qual uma m\u00e3e\nacalenta um filho pequeno, o acalma em um momento de dor e o faz dormir \u00e9 um\nfen\u00f4meno assim: de tipo xam\u00e2nico. A capacidade de conviver em situa\u00e7\u00f5es de\nconflito e encontrar solu\u00e7\u00f5es de inclus\u00e3o social e de justi\u00e7a para todos tem a\nmesma raiz xam\u00e2nica de amor solid\u00e1rio. \u00c9 essa a base da resist\u00eancia dos povos\nind\u00edgenas \u00e0 pol\u00edtica colonialista, seja no M\u00e9xico, seja nos pa\u00edses andinos,\nseja no Brasil. \u00c9 no di\u00e1logo e na inser\u00e7\u00e3o profunda com essas culturas c\u00f3smicas\ne espirituais que conseguiremos resistir e caminhar para o novo. <\/p>\n\n\n\n<p>Nas m\u00edsticas ind\u00edgenas, o comunitarismo\n\u00e9 fundamental. Em alguns povos, o fato de algu\u00e9m abstrair-se da vida comum \u00e9\nconsiderado perigoso para a pessoa e para todo o grupo. Pode atrair energias\nnegativas e at\u00e9 a morte. \u00c9 isso que tem ajudado tanto as comunidades \u00edndias a\nresistirem e at\u00e9 a se reestruturarem nas \u00faltimas d\u00e9cadas, assim como \u00e9 isso que\nest\u00e1 na raiz de um novo projeto social e pol\u00edtico latino-americano para um\nsocialismo do s\u00e9culo XXI. Para quem aceita se inserir nessa vis\u00e3o, \u00e9 preciso\nbuscar novo estilo de economia e de pol\u00edtica que, como j\u00e1 vimos, \u00e9 o <em>suma kawsat<\/em> do povo qu\u00e9chua,&nbsp; <em>suma\nqama\u00f1a<\/em> dos aymara, teko-por\u00e3 dos Guaranis ou simplesmente <em>o bem-viver<\/em>. As teologias crist\u00e3s da\nliberta\u00e7\u00e3o sempre chamaram isso de \u201creino de Deus\u201d. Agora precisam alargar a\ncompreens\u00e3o desse caminho na inser\u00e7\u00e3o e no di\u00e1logo com as tradi\u00e7\u00f5es dos povos\norigin\u00e1rios.&nbsp; Na carta \u00e0 Igreja de \u00c9feso,\natrav\u00e9s do profeta do Apocalipse, o Cristo ressuscitado elogia a fidelidade na\nf\u00e9 e a boa disciplina daquela Igreja, mas se lamenta de que aquela comunidade\nperdeu o entusiasmo dos primeiros tempos de sua caminhada e recomenda: \u201c<em>Volta ao teu primeiro amor\u201d<\/em> (Ap 2, 5).\nPara o povo b\u00edblico, o <em>primeiro amor<\/em>\nfoi o tempo do namoro de Israel com Deus no deserto (Jr 2, 1- 2; Os 2, 16-\n21).&nbsp; Isso significa que foi a caminhada\nlibertadora do \u00caxodo, paradigma de uma luta permanente pela liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3\nde um povo, mas de toda a humanidade. Para n\u00f3s, crist\u00e3os e crist\u00e3s de Igrejas\nna Am\u00e9rica Latina, retomar o primeiro amor \u00e9 descobrir o Esp\u00edrito que nos chama\na alian\u00e7a espiritual com os nossos povos origin\u00e1rios a partir de suas ra\u00edzes\nculturais e, ao mesmo tempo, sabendo escutar o que \u201c<em>hoje, o Esp\u00edrito diz \u00e0s Igrejas e \u00e0s comunidades tradicionais\u201d<\/em> (Cf.\nAp 2, 7). <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias\nbibliogr\u00e1ficas: <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ARNEIDE, Cemin, <strong>Xamanismo<\/strong>:\n<em>algumas abordagens te\u00f3ricas<\/em>, in <strong><em>Revista\nde Educa\u00e7\u00e3o, Cultura e Meio Ambiente<\/em><\/strong>, n\u00b0 15, Vol III, 1999. <\/p>\n\n\n\n<p>ARREGI, Jos\u00e9, <strong>El\nEsp\u00edritu que gime em todos los seres, <\/strong>in <strong><em>Voices n. 2- 3\/2014. <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BALDUS. Herbert. <strong>0 Xamanismo<em>. <\/em>in<\/strong><strong><em>Revista\ndo Museu Paulista<\/em><\/strong>. N. S.. vol. 16, S\u00e3o Paulo. 1965\/66. <\/p>\n\n\n\n<p>BOFF, Leonardo, <strong>O\nEsp\u00edrito Santo, <\/strong><em>Fogo interior, doador\nde vida e Pai dos pobres, <\/em>Petr\u00f3polis, Vozes, 2013. <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; <strong>Como emerge Dio nel processo evolutivo?, <\/strong>in <strong><em>Adista Documenti <\/em><\/strong>n. 16\/\n2012. <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; <strong>L\u2019Universo \u00e8 autoconsciente e spirituale, <\/strong>in\n<strong><em>Adista\nDocumenti, <\/em><\/strong>n. 5\/ 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>C. PAJARES VALES, <strong>Cosmologia e Cristianesimo, <\/strong>in <strong><em>Adista\/Documenti\n<\/em><\/strong>n. 5\/2013. <\/p>\n\n\n\n<p>DE SOUSA SANTOS, Boaventura, <strong>A cruel pedagogia do V\u00edrus, <\/strong>Coimbra, Ed. Almedina, 2020. <\/p>\n\n\n\n<p>DUSSEL, E., Historia\ngeneral de la Iglesia en Am\u00e9rica Latina, 1\/ 1, Introducci\u00f3n general, Sigueme,\nSalamanca, 1983.<\/p>\n\n\n\n<p>FLORISTAN, Casiano;\nTAMAYO, Juan Jos\u00e9 (eds.). <em>Conceptos fundamentales del cristianismo<\/em>.\nMadrid: Trotta, 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>FR\u00d3ES, V.&nbsp;<strong>Santo Daime, cultura amaz\u00f4nica<\/strong>: <em>hist\u00f3ria do povo juramidam. <\/em>Manaus: Suframa, 1986.<\/p>\n\n\n\n<p>FUMARCO,\nGiuseppe, <strong>Laudato Si\u2019, o pensamento de\nMorin e a complexidade da realidade,<\/strong> IHU, Cadernos de Teologia P\u00fablica, 114\nedi\u00e7\u00e3o, 22\/ 04\/ 2020.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>GESCH\u00c9, ADOLPHE, <strong>O\nCosmo, <\/strong>S\u00e3o Paulo, Paulinas, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>GR\u00dcNEWALD, R. <strong>Sujeitos da Jurema e o resgate da \u201cci\u00eancia\ndo \u00edndi<\/strong>o\u201d. In: LABATE, B.; GOULART, S. (Org.).&nbsp;<strong>O uso ritual das plantas de poder<\/strong>. Campinas: Mercado de\nLetras, 2005. p.&nbsp;239-277.<\/p>\n\n\n\n<p>HAIBARA, A. <strong>J\u00e1\nme transformei:<\/strong> <em>modos de circula\u00e7\u00e3o e\ntransforma\u00e7\u00e3o de pessoas e saberes entre os Huni Ku\u0129 (Kaxinaw\u00e1)<\/em>. 2016.\nDisserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Antropologia Social)\u2013Faculdade de Filosofia, Letras e\nCi\u00eancias Humanas, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>KAK\u00c1 VER\u00c1, <strong>O\ntrov\u00e3o e o vento, <\/strong><em>Um caminho de\nevolu\u00e7\u00e3o pelo Xamanismo Tupi-Guarani, <\/em>S\u00e3o Paulo, Ed. Polar, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>KOPENAWA, Davi e ALBERT, Bruce, <strong>A queda do c\u00e9u, <\/strong><em>Palavras de\num Xam\u00e3 Yanomami, <\/em>S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2015. <\/p>\n\n\n\n<p>MAGNANI, J., &nbsp;<strong>Xam\u00e3s\nna cidade<\/strong>.&nbsp;<em>Revista\nUSP<\/em>, S\u00e3o\nPaulo, n.&nbsp;67.<\/p>\n\n\n\n<p>MENESES, Guilherme Pinho,&nbsp;<strong>Medicinas da floresta<\/strong>: <em>conex\u00f5es\ne conflitos cosmo-ontol\u00f3gicos<\/em>,&nbsp;<em>Horizontes Antropol\u00f3gicos<\/em>,\n51&nbsp;|&nbsp;2018, 229-258.<\/p>\n\n\n\n<p>MURCHU, Diarmuid O, <strong>Orizzonti dello Spirito nel XXI secolo, <\/strong>in\na cura di FANTI, Claudia e VIGIL, Jos\u00e9 Maria, <strong>Il Cosmo come rivelazione, <\/strong><em>Una\nnuova storia sacra per l\u2019umanit\u00e0<\/em>, Verona, Ed. Gabrielli, 2018. <\/p>\n\n\n\n<p>PANIKKAR, Raimon. <em>Entre\nDieu et le cosmos<\/em>. Paris: Albin Michel, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&#8211; <strong>La\nintuici\u00f3n cosmote\u00e1ndrica<\/strong>, <em>Las tres\ndimensiones de la realidad<\/em>. Madrid: Ed. Trotta, 1999.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> &#8211; Artigo feito para a revista eletr\u00f4nica Voices (da EATWOT) e publicado com permiss\u00e3o da revista que publicar\u00e1 em breve um n\u00famero especial sobre os cinco anos da Laudato si. <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> &#8211; Marcelo Barros, monge beneditino e te\u00f3logo, \u00e9 assessor das Comunidades Eclesiais de Base e de movimentos sociais. Tem publicados 57 livros em portugu\u00eas, 16 em italiano, alguns escritos na It\u00e1lia e v\u00e1rios traduzidos em outros idiomas. <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> &#8211;\nVer, por exemplo, SUSIN, Luiz Carlos e SANTOS, Joel Marcial, (organizadores), <strong>Nosso planeta, nossa vida, <\/strong><em>Ecologia e Teologia, S\u00e3o Paulo, Ed.\nPaulinas, 2011 <\/em>(este livro \u00e9 a publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos apresentados no 3\u00ba\nF\u00f3rum Mundial de Teologia e Liberta\u00e7\u00e3o em Bel\u00e9m, PA, 2009. BIANCHI, Enzo et alii, <strong>L\u2019uomo, custode del Creato, <\/strong>Atti del XX Convegno Ecumenico Internazionale\ndi Spiritualit\u00e0 Ortodossa, Comunit\u00e0 di Bose, Ed. Qiqajon, 2012. Sobre o\ndi\u00e1logo com espiritualidades orientais, como o Tao\u00edsmo, ver HATHAWAY, Mark e\nBOFF, Leonardo, <strong>O Tao da Liberta\u00e7\u00e3o, <\/strong><em>Explorando a Ecologia da Transforma\u00e7\u00e3o, <\/em>Petr\u00f3polis,\nVozes, 2\u00aa ed. 2009. Sobre um olhar teol\u00f3gico crist\u00e3o sobre as novas\nCosmologias, ver: A cura di FANTI, Claudia e VIGIL, Jos\u00e9 Maria, <strong>Il Cosmo come rivelazione, <\/strong><em>Una nuova storia sacra per l\u2019umanit\u00e0, <\/em>Verona,\nEd. Gabrielli, 2018. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> &#8211;\nVer, por exemplo, os livros de FOX, MATTHEW, como em portugu\u00eas, <strong>Pecados do esp\u00edrito, b\u00ean\u00e7\u00e3os da carne, <\/strong>S\u00e3o\nPaulo, Ed. Verus, 2004. No original ingl\u00eas ver tamb\u00e9m <strong>Original Blessing, <\/strong>Los Angeles, Ed. Tarcher Perigee, 2000, (em italiano <strong>In\nprincipio era la benedizione), Spiritualit\u00e0 del Creato, <\/strong><em>Manuale di Mistica Ribele, <\/em>Verona,\nGabrielli, 2016. <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> &#8211; DUSSEL, E. , <strong>Historia general de la Iglesia en Am\u00e9rica Latina, 1\/ 1, <\/strong>Introducci\u00f3n\ngeneral, Sigueme, Salamanca, 1983, p. 153. <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> &#8211; GESCH\u00c9, ADOLPHE, <strong>O Cosmo,&nbsp; <\/strong>S\u00e3o Paulo,\nPaulinas, 2004, p. 10. <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> &#8211; Esta linguagem vem de Aloysius Pieris, te\u00f3logo do\nSri-Lanka e um dos pioneiros da Teologia Asi\u00e1tica da Liberta\u00e7\u00e3o. Ele prefere\nfalar em <em>soterologias metac\u00f3smicas<\/em>\ncomo o Budismo, o Cristianismo e o Isl\u00e3 que se ligam e se integram para\nsobreviver com as <em>religi\u00f5es c\u00f3smicas<\/em>\nde uma cultura ou de um povo (Seriam o Hindu\u00edsmo, as religi\u00f5es afro e\nind\u00edgenas, por exemplo). Ver: PIERIS, A, <strong>An Asian Theology of Liberation, <\/strong>Maryknoll,\nOrbis, 1988, pp. 71- 74). Essas\ndistin\u00e7\u00f5es podem ser artificiais porque s\u00e3o olhares \u201cde fora\u201d. De todo modo, ajudam\na compreender, na Am\u00e9rica Latina, os cultos ind\u00edgenas e afrodescendentes,\nsempre centrados na sacralidade da natureza. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O universo, encarna\u00e7\u00e3o do Espirito[1] (Para uma resposta \u00e0 Laudato si\u2019 a partir da inser\u00e7\u00e3o nas espiritualidades origin\u00e1rias). 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