{"id":70,"date":"2011-05-19T02:17:15","date_gmt":"2011-05-19T05:17:15","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=70"},"modified":"2011-05-19T02:17:15","modified_gmt":"2011-05-19T05:17:15","slug":"a-questao-do-povo-de-rua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-questao-do-povo-de-rua\/","title":{"rendered":"Ouvi o inaud\u00edvel \u00e9 imprescind\u00edvel &#8211; A quest\u00e3o do povo de rua"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Ouvir o inaud\u00edvel \u00e9 imprescind\u00edvel &#8211; A quest\u00e3o dos moradores de rua<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Delze Laureano<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftn1\">[1]<\/a>, Gilvander Moreira<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftn2\">[2]<\/a> e Maria do Ros\u00e1rio Carneiro<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 do dia 15 de maio de 2011, oito moradores de rua foram envenenados, em uma pra\u00e7a da regi\u00e3o da Pampulha, <st1:personname productid=\"em Belo Horizonte\">em Belo Horizonte<\/st1:personname>, MG. Enquanto dormiam, foi deixada ao lado deles uma garrafa de cacha\u00e7a com chumbinho &#8211; veneno para matar rato &#8211; adicionado.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;Dia 17\/05\/2011, o Jornal Estado de Minas fez reportagem de Capa sobre \u201cos moradores de rua\u201d de Belo Horizonte, MG. Ouviu a prefeitura, comerciantes, sociedade incomodada pelo povo da rua e, perifericamente, ouviu dois peregrinos em situa\u00e7\u00e3o de rua membros do povo da rua. Todavia, faltou ouvir com profundidade o povo da rua, vez que n\u00e3o ouviu os integrantes da Pastoral de Rua ou do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua e Catadores de Material Recicl\u00e1vel \u2013 CNDDH -, que se localiza <st1:personname productid=\"em Belo Horizonte\">em Belo Horizonte<\/st1:personname>, MG, na Rua Paracatu, 969, Santo Agostinho, tel. 031 3250 6360, e-mail: <a href=\"mailto:centronddh@gmail.com\">centronddh@gmail.com<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas essas quest\u00f5es s\u00e3o bastante complexas e somente ap\u00f3s ouvir muito e sentir muito o que pessoas que fazem da rua o seu lar e o seu modo de vida t\u00eam a nos ensinar \u00e9 que podemos compreender o que est\u00e1 por tr\u00e1s de tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cotidianamente o povo da rua est\u00e1 sendo crucificado. Assassinatos, desaparecimentos, torturas, agress\u00f5es, roubo de seus poucos pertences, inj\u00faria, discrimina\u00e7\u00e3o. Cada vez mais est\u00e3o sendo encurralados. N\u00e3o podem mais ficar na rua, pois \u201ca rua \u00e9 dos carros\u201d, dizem uns. Estima-se que haja &nbsp;em Belo Horizonte mais de 2 mil pessoas sobrevivendo nas ruas. N\u00e3o d\u00e1 mais para taparmos os ouvidos diante dos clamores desse povo. Feliz de um povo que ouve os gritos do povo da rua, composto por pessoas que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 um po\u00e7o de mis\u00e9ria, mas s\u00e3o, acima de tudo, um po\u00e7o de sabedoria, de humanidade e de dignidade humana que deve ser respeitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um amigo me confidenciou, <st1:personname productid=\"em S\uffe3o Paulo\">em S\u00e3o Paulo<\/st1:personname>: \u201cOutro dia eu estava parado no sem\u00e1foro. Chegou um peregrino \u2013 povo da rua, injustamente chamado de mendigo &#8211; para pedir dinheiro. Eu disse para ele todo cheio de moral: \u201c- <em>Se voc\u00ea n\u00e3o fosse beber pinga, eu te daria dinheiro<\/em>.\u201d O peregrino, sorrindo e de bra\u00e7os abertos, me disse: \u201c- <em>Voc\u00ea disse que n\u00e3o me d\u00e1 dinheiro, porque sou um vagabundo cachaceiro. Se voc\u00ea viesse dormir comigo umas duas noites aqui na cal\u00e7ada, neste frio lascado, voc\u00ea veria que a pinga \u00e9 o meu cobertor. Bebo para esquentar meu corpo. Sen\u00e3o n\u00e3o ag\u00fcento o frio e morro, como muitos outros colegas meus j\u00e1 morreram. Mas como voc\u00ea dorme no seu quarto quentinho, com ar condicionado, com 2 ou 3 cobertores, \u00e9 muito f\u00e1cil para voc\u00ea me chamar de cachaceiro. <\/em>Bem dizia meu amigo:<em> \u201cVemos o mundo a partir de onde est\u00e3o os nossos p\u00e9s.\u201d Os seus p\u00e9s est\u00e3o em um bom apartamento e de l\u00e1 voc\u00ea contempla o mundo<\/em>.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pol\u00edticas p\u00fablicas para a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua ainda est\u00e3o muito aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. <st1:personname productid=\"em Belo Horizonte\">Em Belo Horizonte<\/st1:personname>, por exemplo, os albergues s\u00e3o poucos e est\u00e3o superlotados. Foi aprovada no Or\u00e7amento Participativo a constru\u00e7\u00e3o de mais dois albergues, mas isso n\u00e3o saiu do papel ainda. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o social que diz respeito a todos n\u00f3s, sobretudo ao poder p\u00fablico que tem, muitas vezes, considerado essas pessoas como \u201cobstru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, da via p\u00fablica\u201d e para desobstruir, manda a guarda municipal, os fiscais e a pol\u00edcia militar limpar a \u00e1rea, \u201cir circulando\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua, em Belo Horizonte, tem sido aplicada a Lei municipal \u201cC\u00f3digo de Posturas\u201d do Munic\u00edpio, sobretudo a parte que se refere \u00e0s penalidades previstas neste c\u00f3digo. A Municipalidade parece n\u00e3o saber que existe um Decreto Federal que regulamenta as Pol\u00edticas P\u00fablicas para estes atores e, al\u00e9m disso, est\u00e3o sendo \u201crasgados\u201d os tratados internacionais de Direitos Humanos e os princ\u00edpios basilares do nosso ordenamento jur\u00eddico como a defesa da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornalista Pedro Rocha encontrou o Sr. Luiz Vida, que aos 50 anos, sobrevivendo na rua, rejeita o r\u00f3tulo de morador de rua. Diz ser um peregrino. \u201cO termo \u2018morador de rua\u2019 n\u00e3o condiz com a verdade\u201d, diz. \u201cAs ruas s\u00e3o ocupadas pelos carros, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para outros\u201d, reclama. Sr. Luiz abandonou o \u00e1lcool, a maconha, a coca\u00edna e o crack. Eloquente, expressa-se muito bem. Trabalha todos os dias na reciclagem de materiais, que s\u00e3o doados. \u201c<em>Uma boneca jogada fora pode ganhar vida e uma crian\u00e7a vai se realizar com ela<\/em>\u201d, conta o andarilho. \u201c<em>Somos como os extraterrestres. Viemos para invadir um terreno ocupado<\/em>\u201d, diz Luiz, que sabe o inc\u00f4modo que representa para o \u201cresto da popula\u00e7\u00e3o\u201d.&nbsp; Luiz diz rejeitar a mendic\u00e2ncia, em troca de um modo de vida mais \u201cespiritual\u201d. Questionado sobre como consegue comida para sobreviver, aponta para os pombos que sobrevoam a Pra\u00e7a da Assembleia Legislativa de Minas e faz refer\u00eancia a uma passagem b\u00edblica: \u201c<em>Eles n\u00e3o plantam nem colhem e todos os dias comem para sobreviver. Eu sou muito mais importante. \u00c9 claro que Deus tamb\u00e9m iria me aben\u00e7oar<\/em>.\u201d Luiz se compra a uma tartaruga, carregando seu casco para onde vai. A \u201ccasa\u201d se restringe a duas malas, onde guarda os utens\u00edlios da cozinha e do quarto. A sala de estar \u00e9 o banco de pra\u00e7a e as honras da casa s\u00e3o feitas por ele mesmo, disposto a conversar com quem se aproxima. \u201c<em>Renunciamos a uma vida para nos adaptar a outra. Cansei da vida que eu tinha. Tudo que \u00e9 repetitivo \u00e9 enjoativo<\/em>\u201d, resume.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As popula\u00e7\u00f5es de classe m\u00e9dia e alta vivem \u201cprotegidas\u201d dentro de muros, pela cidade anda nos seus autom\u00f3veis. Muitos v\u00eaem o povo da rua \u00e0 dist\u00e2ncia, passam r\u00e1pido por eles quando, raramente, cruzam a p\u00e9 &nbsp;a cidade. Muitos os rotulam como \u201cmendigos\u201d, \u201ccachaceiros\u201d&#8230; A \u201csociedade\u201d sente-se amea\u00e7ada e cobra da prefeitura que \u201climpe a cidade\u201d. Muitos n\u00e3o sabem que nos bancos das pra\u00e7as, nas cal\u00e7adas, nas marquises est\u00e1 o Sr. Jos\u00e9, o Sr. Pedro, a dona Thereza, a Maria&#8230; Que estas pessoas t\u00eam uma hist\u00f3ria de vida bonita para contar. Que s\u00e3o seres humanos e que t\u00eam todos os direitos garantidos pela Constitui\u00e7\u00e3o e consagrados na B\u00edblia. Que merecem respeito e querem simplesmente ser tratados com humanidade. Des\u00e7a do autom\u00f3vel, ande pelas ruas, escute o povo de rua e ou\u00e7a o inaud\u00edvel. Isso \u00e9 imprescind\u00edvel e nos humaniza. Devemos abominar todo tipo de viol\u00eancia contra a vida, principalmente contra os nossos irm\u00e3os mais vulner\u00e1veis que s\u00f3 disp\u00f5em dos espa\u00e7os p\u00fablicos urbanos para a sua prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;Belo Horizonte, MG, Brasil, 18 de maio de 2011<\/p>\n<div><br clear=\"all\" \/> <\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftnref1\">[1]<\/a> Advogada, doutoranda <st1:personname productid=\"em Direito P\ufffablico\">em Direito P\u00fablico<\/st1:personname> internacional, professora de Direito Agr\u00e1rio e procuradora do munic\u00edpio de Belo Horizonte, MG; e-mail: <a href=\"mailto:delzesantos@hotmail.com\">delzesantos@hotmail.com<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftnref2\">[2]<\/a> Frei e padre carmelita; mestre <st1:personname productid=\"em Exegese B\uffedblica\">em Exegese B\u00edblica<\/st1:personname>; professor de Teologia B\u00edblica do Instituto Santo Tom\u00e1s de Aquino \u2013 ISTA -, <st1:personname productid=\"em Belo Horizonte\">em Belo Horizonte<\/st1:personname>, MG; assessor da CPT, do CEBI, das CEBs e do SAB; e-mail: <a href=\"mailto:gilvander@igrejadocarmo.com.br\">gilvander@igrejadocarmo.com.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> &nbsp;\u2013 <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a> &#8211; No facebook: gilvander.moreira<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftnref3\">[3]<\/a> Advogada, integrante da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 CPT\/MG \u2013 e da Rede Nacional dos Advogados Populares \u2013 RENAP -, da Rede de Solidariedade \u00e0 Comunidade Dandara; e-mail: <a href=\"mailto:rosariofi2000@yahoo.com.br\">rosariofi2000@yahoo.com.br<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvir o inaud\u00edvel \u00e9 imprescind\u00edvel &#8211; A quest\u00e3o dos moradores de rua Delze Laureano[1], Gilvander Moreira[2] e Maria do Ros\u00e1rio Carneiro[3] Na manh\u00e3 do dia 15 de maio de 2011, oito moradores de rua foram<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-70","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}