{"id":71,"date":"2011-05-24T21:49:13","date_gmt":"2011-05-25T00:49:13","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=71"},"modified":"2011-05-24T21:49:13","modified_gmt":"2011-05-25T00:49:13","slug":"todo-preconceito-e-irracional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/todo-preconceito-e-irracional\/","title":{"rendered":"Todo preconceito \u00e9 irracional"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">TODO PRECONCEITO \u00c9 IRRACIONAL <\/span>&#8211; <\/strong><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Buscando o Sentido da Vida<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Delze dos Santos Laureano<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>\u201cN\u00e3o se deve nunca esgotar de tal modo um assunto, que n\u00e3o se deixe ao leitor<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>&nbsp;Nada a fazer. N\u00e3o se trata de fazer ler, mas de fazer pensar.\u201d <\/em><\/strong><strong>(Montesquieu)<\/strong><strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp; Acredito que todos n\u00f3s em algum momento da vida sofremos a tenta\u00e7\u00e3o de nos perguntar qual \u00e9 o sentido mesmo da vida.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;Meu pai, brincando, dizia que n\u00f3s viemos aqui para buscar um terno de roupa. Nascemos nus e vamos embora com a roupa do corpo. Tendo a acreditar, todavia, que vamos levar mais do que o terno de roupa. Cada experi\u00eancia fica fortemente marcada no nosso corpo e no nosso esp\u00edrito. N\u00e3o precisamos ser especialistas para perceber na nossa pele, especialmente na face, as rugas do sorriso, as express\u00f5es de raiva, ou os sinais das ang\u00fastias acumuladas. Somos como as \u00e1rvores, os n\u00f3s denunciam tanto a idade quanto o rigor das intemp\u00e9ries e a nossa capacidade de lidar com tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp; A cada dia aprendemos um pouquinho. O computador do corpo registra sem piedade aquilo que somos. Percebo que com o passar do tempo, olhando esses registros aprendemos a deixar de lado os preconceitos para aceitar o que de fato d\u00e1 sentido \u00e0 vida. Confesso que at\u00e9 poucos dias atr\u00e1s achava a cirurgia pl\u00e1stica coisa sup\u00e9rflua, banal. Ficamos assustados com o exagero das cirurgias est\u00e9ticas no Brasil. Mudei. Comecei a pensar com mais profundidade acerca do tema ap\u00f3s ler o livro \u201cAprendiz do Tempo\u201d, o livro de mem\u00f3rias, de Ivo Pitanguy, cirurgi\u00e3o que trata as pessoas independentemente da condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica delas. Conviver com todas as pessoas \u00e9 o maior legado que afirma ter recebido dos pais e que deixar\u00e1 para os seus filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para come\u00e7ar, n\u00e3o posso desconsiderar o fato de que vivemos em uma sociedade capitalista. Seria mesmo imposs\u00edvel \u00e0 cirurgia pl\u00e1stica n\u00e3o sofrer as influ\u00eancias da sociedade de consumo. N\u00e3o \u00e9 diferente com as religi\u00f5es, com a fam\u00edlia ou com os sentimentos. Quase tudo est\u00e1 \u00e0 venda. A promessa \u00e9 a felicidade imediata, desde que se tenha dinheiro para comprar os produtos no mercado. A fam\u00edlia pode ser mais feliz, pode-se estar mais perto de Deus, ou podemos viver em um verdadeiro para\u00edso aqui na terra, longe de tudo o que nos traz infelicidade: viol\u00eancia urbana, polui\u00e7\u00e3o, estresse, depress\u00e3o, gente diferente. Basta comprar, por exemplo, um determinado im\u00f3vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas volto ao livro. \u201cAprendiz do Tempo\u201d \u00e9 uma narrativa bastante interessante. Conta a hist\u00f3ria de uma vida longa, marcada por desafios, alegrias, muito sucesso, mas, sobretudo, uma capacidade imensa de sentir a dor do outro. Tamb\u00e9m a humildade de aprender em todos os momentos. Um cap\u00edtulo especialmente me faz pensar dessa forma, \u201cO inc\u00eandio do Circo\u201d, no qual o escritor fala da trag\u00e9dia ocorrida no Gr\u00e3 Circo Norte-Americano, em 17 de dezembro de 1961, na cidade de Niter\u00f3i, Rio de Janeiro. Ele era ainda um jovem cirurgi\u00e3o, mas j\u00e1 conhecia o valor da cirurgia reparadora tendo estudado em Cincinnati, nos Estados Unidos, no Hospital Bethesda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ando o cap\u00edtulo, Ivo Pitanguy faz uma auto-an\u00e1lise: \u201cJamais me lamento. N\u00e3o me encolerizo. N\u00e3o choro mais. Se chego a rir, \u00e9 frequentemente de mim mesmo.\u201d Nessas palavras vejo que as experi\u00eancias marcaram profundamente esse cirurgi\u00e3o de incontest\u00e1veis virtudes e de vida t\u00e3o repleta de realiza\u00e7\u00f5es. Confessa ter presenciado naquele inc\u00eandio coisas que superam os mais terr\u00edveis pesadelos. Uma multid\u00e3o de 2.500 pessoas, na sua maioria crian\u00e7as, sucumbiu ao fogo e \u00e0 falta de atendimento adequado em vista das gigantescas propor\u00e7\u00f5es do desastre. O saldo foi mais de 500 pessoas mortas e outras tantas v\u00edtimas irremediavelmente desfiguradas. Trag\u00e9dia de dimens\u00e3o inimagin\u00e1vel, o inc\u00eandio do circo parece ter ficado esquecido na nossa hist\u00f3ria. Confesso que nunca tinha sabido desse fato antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele ambiente de absoluto tumulto, conta Pitanguy ter conseguido organizar um coletivo de m\u00e9dicos, enfermeiros e diversos volunt\u00e1rios que se dispunham a trabalhar, improvisando o que era necess\u00e1rio. Era preciso controlar a multid\u00e3o. Era preciso por ordem no caos. Um hospital, cujos funcion\u00e1rios estavam em greve, foi reaberto para fazer funcionar um sistema de atendimento a todos os queimados. Entretanto, na mem\u00f3ria do m\u00e9dico, permaneceu como um marco a hist\u00f3ria de um menino de 11 anos, surgido da espessa fuma\u00e7a que formava uma muralha em torno das chamas. Gravemente queimado, parecia indiferente aos sofrimentos, com roupas em farrapos olhava para todos os lados procurando algu\u00e9m. Uma enfermeira pergunta quem ele est\u00e1 procurando e ele responde: \u201cMeu amigo.\u201d Os l\u00e1bios tremem, mas com olhar alucinado arremete-se novamente na dire\u00e7\u00e3o do fogo e sem ouvir as ordens em contr\u00e1rio some no meio da fuma\u00e7a para buscar o companheiro. Todos ficam petrificados, certos de que ser\u00e1 imposs\u00edvel escapar novamente daquele inferno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, conta Pitanguy, um elefante surge do meio do inc\u00eandio arrastando panos incandescentes do circo e abre uma passagem entre as chamas. Novamente \u00e9 poss\u00edvel ver o menino. Uma enfermeira corre ent\u00e3o em seu socorro. Ele caminha penosamente, j\u00e1 no fim de suas for\u00e7as, mas carrega quase desmaiado o amigo. Afirma o m\u00e9dico que a intrepidez e a abnega\u00e7\u00e3o do menino marcaram-no para sempre, pois arriscar a vida pelo outro \u00e9 o mais nobre ato de um ser humano. N\u00e3o h\u00e1 maior prova de amor que doar a vida pelo outro, ensinou h\u00e1 mais de 2 mil anos o mestre galileu. Naquele momento, fez o juramento de salv\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O menino, chamado Pablo, estava moribundo, as chances de salv\u00e1-lo eram praticamente inexistentes, mas durante mais de seis meses a equipe revezava em sua cabeceira, prodigalizando os cuidados que eram poss\u00edveis. Dos Estados Unidos vieram cerca de trinta mil cent\u00edmetros c\u00fabicos de pele liofilizada, doadas pelo Hospital Bethesda, reserva destinada aos feridos da marinha dos Estados Unidos. Para aliment\u00e1-lo eram necess\u00e1rios produtos diet\u00e9ticos destinados a substituir os sais minerais que o organismo perdera. A pele liofilizada s\u00f3 pode ser utilizada ap\u00f3s os enxertos hom\u00f3logos devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do derma. Apesar de todos os cuidados, restava uma pergunta: Pablo sobreviver\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arremata o m\u00e9dico que terra de crendices, de supersti\u00e7\u00f5es e de f\u00e9, o Brasil \u00e9 sens\u00edvel aos signos e aos press\u00e1gios. Certa manh\u00e3, uma religiosa foi ao seu encontro com seus passos mi\u00fados, mas toda exaltada, fazendo o an\u00fancio: \u201cPablo vai sobreviver, doutor.\u201d Ao que ele pergunta: \u201cDe onde vem essa sua certeza, irm\u00e3?\u201d E ela convida-o a segui-la para mostrar, ap\u00f3s por o dedo sobre os l\u00e1bios para pedir sil\u00eancio e muita cautela. \u201cOlhe.\u201d Sobre o parapeito da janela como a contemplar o menino Pablo adormecido, uma pomba permanecia im\u00f3vel. A irm\u00e3 anuncia: \u201cDeus a enviou para anunciar a sua cura!\u201d Ao que ele se pergunta: \u201cDeus ou os nossos cuidados?\u201d Deixa eu responder depressa: Deus nos cuidados de uma equipe dedicada e solid\u00e1ria. O certo \u00e9 que o menino se cura e aquela experi\u00eancia muda para sempre o olhar do doutor sobre tudo o que \u00e9 poss\u00edvel compreender e fazer neste mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu estivesse escrevendo um texto b\u00edblico arremataria assim: \u201cQuem tem ouvidos para ouvir ou\u00e7a!\u201d Como n\u00e3o escrevo nesse g\u00eanero, limito-me a partilhar mais essa inquieta\u00e7\u00e3o e olhar nas oportunidades que a vida nos oferece, seja nos fatos, seja nas leituras, para buscar por detr\u00e1s da fuma\u00e7a o que efetivamente d\u00e1 sentido \u00e0s nossas vidas e o que pode nos ajudar a vencer o risco do preconceito pelo preconceito. O nosso corpo, principalmente a nossa face, mostra a nossa caminhada na travessia da vida. Se para uns os sinais do tempo ajudam, para algumas pessoas marcas tornam imposs\u00edvel a alegria de viver. \u00c9 preciso harmonizar as marcas com a alma. Acima de tudo descobrimos que nada podemos sozinhos, o trabalho coletivo \u00e9 o mais humanizador. \u00c0s vezes s\u00e3o os elefantes os que mais contribuem em meio aos inc\u00eandios. Podem as crian\u00e7as demonstram mais determina\u00e7\u00e3o, solidariedade e coragem que os adultos. Nos Estados Unidos tamb\u00e9m tem gente boa, e as pombas continuam, desde o epis\u00f3dio b\u00edblico do dil\u00favio, anunciando que Deus est\u00e1 presente nas nossas vidas, ajudando-nos quando decidimos fazer o bem, apesar de todas as dificuldades. Todo preconceito tem o seu dia de se mostrar irracional!<\/p>\n<p>Belo Horizonte, 22 de maio de 2011.<\/p>\n<div><br clear=\"all\" \/> <\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/#_ftnref1\">[1]<\/a> Advogada, mestre <st1:personname productid=\"em Direito Constitucional\">em Direito Constitucional<\/st1:personname>, pela UFMG; doutoranda <st1:personname productid=\"em Direito P\ufffablico\">em Direito P\u00fablico<\/st1:personname> internacional, professora de Direito Agr\u00e1rio e procuradora do munic\u00edpio de Belo Horizonte, MG; e-mail: <a href=\"mailto:delzesantos@hotmail.com\">delzesantos@hotmail.com<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TODO PRECONCEITO \u00c9 IRRACIONAL &#8211; Buscando o Sentido da Vida Delze dos Santos Laureano[1] \u201cN\u00e3o se deve nunca esgotar de tal modo um assunto, que n\u00e3o se deixe ao leitor &nbsp;Nada a fazer. 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