{"id":8066,"date":"2020-08-21T09:31:11","date_gmt":"2020-08-21T12:31:11","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=8066"},"modified":"2020-08-21T09:31:13","modified_gmt":"2020-08-21T12:31:13","slug":"confiar-como-as-criancas-por-frei-rivaldave","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/confiar-como-as-criancas-por-frei-rivaldave\/","title":{"rendered":"Confiar como as crian\u00e7as!. Por Frei Rivaldave"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Confiar como as crian\u00e7as!. <\/strong>Por Frei Rivaldave Paz Torquato, O. Carm.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fechar-\u00e9-crime-crian\u00e7as-sem-terrinha.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8067\" width=\"519\" height=\"341\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fechar-\u00e9-crime-crian\u00e7as-sem-terrinha.jpeg 700w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fechar-\u00e9-crime-crian\u00e7as-sem-terrinha-300x197.jpeg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fechar-\u00e9-crime-crian\u00e7as-sem-terrinha-350x230.jpeg 350w\" sizes=\"auto, (max-width: 519px) 100vw, 519px\" \/><figcaption>Crian\u00e7as Sem Terrinha na luta por Escola Do\/no Campo e tamb\u00e9m sofrendo sob a pandemia do novo coronav\u00edrus. Foto: Comunica\u00e7\u00e3o do MST<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desafiado pela \u201cnoite escura\u201d causada\npela Covid-19 comecei a pensar em cenas b\u00edblicas que pudessem me ajudar a\natravessar esta noite. As cenas que passaram pela minha mem\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1gicas\nque v\u00e3o resolver a epidemia, mas podem ajudar a enfrentar a escurid\u00e3o de forma\nmais serena. Pensando desta forma, tenho a \u201cousadia\u201d inocente e modesta de\npartilh\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto de sofrimento imposto aos\nisraelitas pelos madianitas (Jz 6,1-7), o anjo do Senhor apareceu a Gede\u00e3o, que\n\u201cestava malhando o trigo no lagar\u201d (v. 11), e lhe disse: \u201cO Senhor esteja\ncontigo, valente guerreiro!\u201d e Gede\u00e3o respondeu: \u201cSe o Senhor est\u00e1 conosco,\ndonde vem tudo quanto nos est\u00e1 acontecendo?\u201d (Jz 6,12-13). Esse valente\nguerreiro se sentiu abandonado por Deus (v. 13b). O ceticismo de Gede\u00e3o \u00e9\nexistencial, humano e atual. Como crer em algo que a realidade nega? Gede\u00e3o, em\nseguida, dialogou com Deus (vv. 14-23) e pediu-lhe prova (vv. 36-40). Era noite\n(vv. 25.40)! Mas Gede\u00e3o foi amadurecendo e, de c\u00e9tico, tornou-se enviado e\nsinal da presen\u00e7a deste mesmo Deus para o seu povo e venceram os madianitas\n(8,22).<\/p>\n\n\n\n<p>Agar, a eg\u00edpcia, quando se viu gr\u00e1vida\nde Abra\u00e3o (Gn 16) come\u00e7ou a desprezar Sara, sua senhora (vv. 4-5). Sara\nresolveu revidar e \u201ca maltratou de tal modo que ela fugiu de sua presen\u00e7a\u201d (v.\n6b). Agar foi encontrada pelo anjo do Senhor&nbsp;no deserto&nbsp;(v. 7) que a\ninterpelou quanto a suas andan\u00e7as e ela respondeu: \u201cFujo da presen\u00e7a de minha\nsenhora Sarai\u201d (v. 8). O anjo lhe disse para voltar e acrescentou: \u201cEst\u00e1s\ngr\u00e1vida e dar\u00e1s \u00e0 luz um filho, e tu lhe dar\u00e1s o nome de Ismael, pois o Senhor\nouviu tua afli\u00e7\u00e3o\u201d (v. 11). Ora, em hebraico, Ismael significa \u201cDeus ouve&nbsp;(ou&nbsp;ouvir\u00e1)\u201d.\n\u00c9 o que o pr\u00f3prio verso explica \u201cpois o Senhor&nbsp;ouviu&nbsp;tua afli\u00e7\u00e3o\u201d.\nCuriosamente, o texto n\u00e3o diz em qualquer momento que Agar tenha se dirigido a\nDeus e expressado qualquer s\u00faplica. Ela estava empreendendo uma fuga, aflita,\nno deserto e em plena gravidez. \u00c9 uma mulher, escrava e estrangeira (v. 3). Mas\no texto afirma que Deus&nbsp;ouviu sua afli\u00e7\u00e3o. E Agar deu a Deus o nome de \u201cTu\n\u00e9s El-Roi\u201d, isto \u00e9, \u201cTu \u00e9s o Deus que me v\u00ea\u201d (v. 13). A cena deixa claro que\nDeus n\u00e3o s\u00f3 v\u00ea o drama humano, mas tamb\u00e9m acolhe a s\u00faplica n\u00e3o verbalizada, n\u00e3o\nexpressa. Essa cena nos remete a uma outra no NT.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa cidade chamada Naim, Jesus \u201cao se\naproximar da porta da cidade, coincidiu que levavam a enterrar um morto, filho\n\u00fanico de m\u00e3e vi\u00fava&#8230; O Senhor, ao v\u00ea-la, suas entranhas se comoveram\u201d (Lc\n7,12-13). Ele despertou o jovem e o entregou vivo \u00e0 m\u00e3e (vv. 14-15). Em nenhum\nmomento da cena esta mulher abriu a boca. Ela estava tomada pela dor e por sua\nesperan\u00e7a morta. Ali\u00e1s, um elemento caracter\u00edstico do g\u00eanero de milagre de\ncuras, na qual o caso se enquadra, \u00e9 a s\u00faplica do(s) interessado(s). Elemento\nesse completamente ausente na cena. Mas o drama da m\u00e3e toca Jesus que se\nadianta e o acolhe como prece n\u00e3o verbalizada, como s\u00faplica muda. O clamor mudo\ne silencioso \u00e9 visto e ouvido por Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 do Egito, aos dezessete anos,\ndedurou os irm\u00e3os, teve sonhos, que foram entendidos como express\u00e3o do desejo\nde superioridade sobre eles, e gozava da predile\u00e7\u00e3o do pai (Gn 37,2-11). Esses\nelementos desencadearam o ci\u00fame e o \u00f3dio dos irm\u00e3os a tal ponto que n\u00e3o podiam\nmais se falar amigavelmente (v. 4). O \u00f3dio se escalou (vv. 4.5b.8b). Os irm\u00e3os\ntomaram uma decis\u00e3o radical: \u201cmatemo-lo, joguemo-lo numa cisterna qualquer\u201d\n(v.19). Em seguida, \u201carremessaram-se contra ele e o lan\u00e7aram na cisterna. Era\numa cisterna vazia, onde n\u00e3o havia \u00e1gua\u201d (v. 24). Depois mudaram de ideia e\nterminaram por vender Jos\u00e9 aos mercadores (vv. 27-28) e assim ele foi levado ao\nEgito (v. 38). Mais tarde os irm\u00e3os confessaram: \u201cvimos a sua afli\u00e7\u00e3o quando\nele nos pedia gra\u00e7a, e n\u00e3o o ouvimos\u201d (42,21). O pr\u00f3prio Jos\u00e9 se refere ao\nEgito como \u201cterra&nbsp;de sua afli\u00e7\u00e3o\u201d (41,52). Deste drama familiar e humano\nemerge outra vez a pergunta: onde estava Deus? Deus n\u00e3o impediu o conflito, n\u00e3o\nimpediu a cisterna, n\u00e3o impediu a venda, n\u00e3o impediu a ida para o Egito, n\u00e3o\nimpediu a condi\u00e7\u00e3o de escravo l\u00e1, nada fez. \u00c9 um Deus inerte que nunca chega e,\nquando chega, vem sempre atrasado. Por outro lado, o texto n\u00e3o registra\nqualquer express\u00e3o religiosa de Jos\u00e9. N\u00e3o h\u00e1 apari\u00e7\u00e3o de anjo a Jos\u00e9, n\u00e3o h\u00e1\nqualquer s\u00faplica ou rito da parte dele, a cisterna n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7o sagrado, n\u00e3o\nocorre milagre, nada sensacional. O Jos\u00e9 da cisterna \u00e9 um homem em sil\u00eancio ou\nsilenciado. O narrador n\u00e3o lhe d\u00e1 mais a palavra at\u00e9 a pris\u00e3o no Egito, nem\nmesmo para se dirigir a Deus. Todavia, o livro da Sabedoria retoma este\nepis\u00f3dio e afirma que a sabedoria divina, Deus em seu atributo, \u201cn\u00e3o abandonou\no justo vendido, mas&nbsp;[&#8230;]&nbsp;desceu com ele \u00e0 cisterna\u201d (Sb 10,13-14).\nMais tarde, como escravo na casa de Putifar, tudo que ele fazia prosperava \u201cporque\nDeus estava com ele\u201d (Gn 38,2-3). Esta leitura \u00e9 reafirmada em At 7,9: \u201cDeus\nestava com ele\u201d. Portanto, Deus n\u00e3o poupa a afli\u00e7\u00e3o a Jos\u00e9, mas o assiste nela.\nA cisterna n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 lugar do sofrimento, mas tamb\u00e9m da assist\u00eancia inef\u00e1vel de\nDeus. A narrativa deixa transparecer o jeito misterioso do agir divino. Quando\nparece que ele n\u00e3o vem em aux\u00edlio, ele j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1. N\u00e3o espera a verbaliza\u00e7\u00e3o da\ns\u00faplica. Nossos olhos n\u00e3o est\u00e3o treinados para perceber isso em nosso\ndia-a-dia. O autor do livro da Sabedoria percebeu a presen\u00e7a de Deus na\ncisterna daquele vendido s\u00e9culos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta sapi\u00eancia tornou-se proverbial no\nAT: \u201cBeba cada um da \u00e1gua da sua pr\u00f3pria cisterna!\u201d (II Rs 18,31; Is 36,16; cf.\nPr 5,15). Dito de outro modo: estejamos atentos para perceber Deus no nosso\npr\u00f3prio sofrimento, na nossa pr\u00f3pria inseguran\u00e7a, na nossa pr\u00f3pria noite\nescura. E, se levantar os olhos para al\u00e9m de si, perceber\u00e1 sua presen\u00e7a nas\ncisternas das UTIs, nos agentes de sa\u00fade, nos serventes dos servi\u00e7os\nessenciais, etc. Tecla bastante batida ultimamente. Ora, olhando mais profundo,\no que fez Jesus em sua encarna\u00e7\u00e3o sen\u00e3o descer \u00e0 cisterna humana?<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia de Deus fundante e\nparadigm\u00e1tica de Israel n\u00e3o foi feita no templo, nem no culto, mas na fuga do\nEgito, no \u00eaxodo. Am\u00f3s retoma esta experi\u00eancia com uma pergunta ret\u00f3rica: \u201cPor\nacaso ofereceste-me sacrif\u00edcios e oferendas no deserto durante quarenta anos, \u00f3\ncasa de Israel?\u201d (Am 5,25). Nem por isso, Israel deixou de ser alimentado e\nassistido por seu Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Elias eliminou os falsos profetas (I Rs\n18,40) e isto lhe custou a persegui\u00e7\u00e3o de morte por parte da rainha Jezabel (I\nRs 19,2). \u201cVendo isso, Elias levantou-se e partiu para salvar a vida\u201d (v. 3).\nNo deserto ele pediu a morte (v. 4). Apareceu um anjo do Senhor que n\u00e3o assegurou\no fim da persegui\u00e7\u00e3o, mas o assistiu e avisou que \u201co caminho te ser\u00e1 longo\ndemais\u201d (vv. 5.7). O profeta se dirigiu ao monte Horeb e se escondeu numa gruta\nonde passou a noite (vv. 8-9). Deus veio ao seu encontro n\u00e3o pelas vias\nconvencionais (o furac\u00e3o, o terremoto e o fogo), mas numa brisa leve (vv.\n11-13), isto \u00e9, de um jeito novo. Ocasi\u00e3o que o profeta n\u00e3o perdeu. A narrativa\n\u00e9 clara em mostrar que Elias faz a experi\u00eancia de Deus na fuga, no medo, no\ndeserto, na noite escura e, mais ainda, n\u00e3o no templo ou numa liturgia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cena dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas, Jesus\nressuscitado fez todo o percurso com eles sem ser reconhecido (Lc 24,1-29). O\ntexto deixa claro que o Cristo ressuscitado n\u00e3o reconhecido n\u00e3o significa\nCristo morto, o Cristo n\u00e3o percebido n\u00e3o significa Cristo ausente.<\/p>\n\n\n\n<p>No texto joanino, Madalena foi ao t\u00famulo\nde madrugada para trabalhar seu luto, movida por uma aus\u00eancia que do\u00eda.\nRestava-lhe a esperan\u00e7a de, ao menos, estar pr\u00f3xima dos resqu\u00edcios da presen\u00e7a\ndo mestre, o corpo. N\u00e3o o encontra e entende que ele fora roubado dali (Jo\n20,1-2). O disc\u00edpulo amado foi \u00e0 tumba, encontrou-a vazia e o evangelista\natesta que \u201cele viu e creu\u201d (v. 8). Eis o desafio da f\u00e9: ver a presen\u00e7a do\nressuscitado na aparente aus\u00eancia, no vazio. Em seguida, Madalena encontrou\nJesus ressuscitado e pensou que fosse o jardineiro (v. 15). Outra vez, como em\nEma\u00fas, n\u00e3o reconhecer&nbsp;Aquele que vive&nbsp;nas madrugadas da vida n\u00e3o\nsignifica que ele esteja morto ou ausente.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao epis\u00f3dio de Jos\u00e9, n\u00e3o \u00e9\noportuno nos perguntarmos pelo \u201cpor qu\u00ea?\u201d de tudo isso. A busca por uma causa\nou raz\u00e3o nos leva para tr\u00e1s e facilmente pode nos empurrar para o moralismo. \u00c9\nmomento de olhar para frente e nos perguntar pelo \u201cpara qu\u00ea?\u201d, por uma\nfinalidade. Ser\u00e1 que aos olhos de Deus n\u00e3o est\u00e1 um convite paterno para vermos\no mundo e as rela\u00e7\u00f5es de outra forma? Jos\u00e9 do Egito, conseguiu olhar os fatos\ncom os olhos da f\u00e9. Isso lhe permitiu ver a m\u00e3o de Deus presente nos\nacontecimentos e transformar a venda num envio, a desgra\u00e7a em gra\u00e7a (Gn 45,5-8;\n50,20) e, a partir disso, conseguiu refazer as rela\u00e7\u00f5es. Ser\u00e1 que Deus, que\nobviamente n\u00e3o causou esta cat\u00e1strofe como n\u00e3o causou a cisterna de Jos\u00e9, n\u00e3o\nse serviria dela em sua pedagogia para nos ajudar a crescer e organizar um\nmundo e as rela\u00e7\u00f5es de um modo novo?<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o profeta Isa\u00edas fala de\n\u201cum Deus que se esconde\u201d (Is 45,15) e que deve ser&nbsp;procurado&nbsp;(Is\n55,6). O tema da&nbsp;busca&nbsp;de Deus aparece em v\u00e1rias ocorr\u00eancias (p. ex.:\nDt 4,29; Jr 29,13-14; II Cr 15,2 etc.). Este tema n\u00e3o apenas aponta para o\nmist\u00e9rio do Inef\u00e1vel e que quer ser buscado como um pai que se esconde para que\no filhinho tenha a alegria do encontro. \u00c9 tamb\u00e9m um modo de dizer que Deus n\u00e3o\nse deixa cristalizar, congelar, fossilizar em conceitos no cora\u00e7\u00e3o e na mente\ndo crente. Por isso n\u00e3o tolera imagens. Ele \u00e9 din\u00e2mico e precisamos refazer,\natualizar a vis\u00e3o que temos dele. Se a vis\u00e3o de Deus que temos de&nbsp;ouvido,&nbsp;que\nherdamos do passado (tradi\u00e7\u00e3o), n\u00e3o nos ajuda a&nbsp;v\u00ea-lo&nbsp;no momento\npresente (experi\u00eancia), ent\u00e3o ela n\u00e3o cumpre seu papel, precisa ser refeita.\nN\u00e3o \u00e9 isso que nos ensina o homem da terra de Hus (J\u00f3 1,1) quando diz: \u201cConhecia-te\ns\u00f3 de ouvido, agora viram-te meus olhos\u201d (J\u00f3 42,5)?<\/p>\n\n\n\n<p>A cisterna era ainda a imagem do ex\u00edlio\npara onde o povo fora levado: \u201cPara&nbsp;me destru\u00edrem, lan\u00e7aram-me na cisterna\u201d\n(Lm 3,53). Israel ficou sem templo e sem altar. Como fazer seus sacrif\u00edcios? O\nlivro de Daniel \u00e9 uma obra tardia, mas o autor a situa no per\u00edodo ex\u00edlico (cf.\nDn 1,1-2). No c\u00e2ntico de Azarias, conservado na adi\u00e7\u00e3o grega, se descreve o drama\ndo povo nestes termos: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais, nestas circunst\u00e2ncias, nem chefe, nem\nprofeta, nem pr\u00edncipe, nem holocausto, nem sacrif\u00edcio, nem obla\u00e7\u00e3o, nem\nincenso,&nbsp;nem lugar onde oferecermos as prim\u00edcias diante de ti\u201d (Dn 3,38).\nSignifica que o aparato pol\u00edtico-religioso estava desmontado. O ex\u00edlio foi a\ngrande noite escura de Israel. Por\u00e9m, uma das noites mais fecundas, que\npermitiu Israel reencontrar-se consigo mesmo, reencontrar seu Deus e purificar\na vis\u00e3o que tinha dele. Zacarias, relendo o fato, escreve: \u201cAinda&nbsp;quanto a\nti, por causa do sangue da tua alian\u00e7a, libertei os teus cativos da cisterna em\nque n\u00e3o havia \u00e1gua\u201d&nbsp;(Zc 9,11).<\/p>\n\n\n\n<p>Estas cenas b\u00edblicas elencadas at\u00e9 aqui\nme permitem duas conclus\u00f5es imediatas. A primeira \u00e9 que as nossas formas\nconvencionais de alimentar a nossa f\u00e9 e fazer a experi\u00eancia de Deus, nossas\npr\u00e1ticas religiosas, mas exatamente, nossas liturgias, nosso culto organizado,\nnossos ritos, nossos espa\u00e7os sagrados, etc., s\u00e3o essenciais, s\u00e3o de extrema\nimport\u00e2ncia, precisamos delas. Por\u00e9m, n\u00e3o esgotam as formas de manifesta\u00e7\u00e3o de\nDeus que sempre surpreende e precede, sobretudo nos momentos de crise. Isto \u00e9\n\u00f3bvio. Mas o momento, sem assembleias, sem missas, sem eucaristia, etc., nos\nfor\u00e7a a repetir e lembrar o \u00f3bvio. Ali\u00e1s, temos a\u00ed uma ocasi\u00e3o, que n\u00e3o podemos\nperder, de avaliar nossa vis\u00e3o de Deus e nossas formas de nos relacionar com\nele, nossas pr\u00e1ticas. Ele est\u00e1 nas Igrejas, mas est\u00e1 tamb\u00e9m nas cisternas da\nvida. \u00c9 ocasi\u00e3o para redescobrir o valor da solidariedade, da cumplicidade com\no semelhante, da responsabilidade com a casa comum etc.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda conclus\u00e3o \u00e9 que a nossa noite\nescura n\u00e3o est\u00e1, de forma alguma, alheia aos olhos e aos ouvidos de Deus. Ele\nsempre v\u00ea e ouve, por\u00e9m, a seu tempo e a seu modo. Isso nos desafia a n\u00e3o\ndesanimar, sabendo que o caminho \u00e9 longo. Mas como diz o biblista E. A. Knauf:\n\u201cQuem deseja a luz tem que caminhar no escuro!\u201d (cf.&nbsp;1 K\u00f6nige 15-22, p.\n182).<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio deste texto, eu tinha em\nmente a atitude da crian\u00e7a que reza e lembrei-me da m\u00fasica&nbsp;Maria da minha inf\u00e2ncia&nbsp;de\nPadre Zezinho, que diz: \u201c<em>Eu era pequeno,\nnem me lembro. S\u00f3 lembro que \u00e0 noite, ao p\u00e9 da cama. Juntava as &nbsp;m\u00e3ozinhas e rezava apressado. Mas rezava como\nalgu\u00e9m que ama<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus, na sua sabedoria, dizia: \u201caquele\nque n\u00e3o receber o Reino de Deus como uma crian\u00e7a, n\u00e3o entrar\u00e1 nele\u201d (Mc 10,15).\nO mestre as tem por modelo. Elas n\u00e3o est\u00e3o preocupadas com as formas de\nexpress\u00e3o da f\u00e9, com nossas pr\u00e1ticas religiosas. Elas simplesmente rezam de\nforma singela, com pureza de cora\u00e7\u00e3o. Mais ainda, o tra\u00e7o comum e elementar que\ncaracteriza toda crian\u00e7a \u00e9: elas crescem! E o momento \u00e9 prop\u00edcio ao\ncrescimento. \u00c9 preciso agir como adultos, com sensatez, e n\u00e3o eximir-se das\nresponsabilidades, sem perder, por\u00e9m, a atitude da crian\u00e7a que se sente segura\ne cheia de confian\u00e7a agarrada na m\u00e3o do pai e caminha. Parafraseando o Pe.\nZezinho na mesma m\u00fasica: \u201cperdemos o costume da crian\u00e7a inocente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Falando da confian\u00e7a em Deus, Paulo\nCoelho reporta-nos a seguinte narrativa rab\u00ednica (que faz lembrar um salmo\nalfab\u00e9tico):<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns judeus rezavam na Sinagoga quando\na voz de uma crian\u00e7a se fazia ouvir: \u201cA, B, C, D\u201d. Eles procuravam se\nconcentrar na Sagrada Escritura, mas a voz da crian\u00e7a se repetia: \u201cA, B, C, D\u201d.\nEles interromperam a liturgia e quando olharam ao redor viram um menino que\nainda cantava o seu canto. O Rabino perguntou ao menino:&nbsp;\u201cPor que voc\u00ea faz\nisso?\u201d&nbsp;\u201cPorque eu n\u00e3o sei os versos sagrados\u201d, disse o menino.&nbsp;\u201cPor\nisso eu espero, que enquanto eu canto o alfabeto, Deus usar\u00e1 as letras para\nformar as palavras corretas\u201d.&nbsp;\u201cEu te agrade\u00e7o por esta li\u00e7\u00e3o\u201d, disse o\nRabino.&nbsp;\u201cOxal\u00e1 eu tamb\u00e9m seja capaz de confiar a Deus meus dias sobre sua\nterra exatamente assim como voc\u00ea confiou-lhe tuas letras\u201d (cf.&nbsp;Unterwegs \u2013\nDer Wanderer, p. 133).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Rivaldave Paz Torquato, frei e\npadre O. Carm. \u00e9 Dr. e&nbsp;professor titular no departamento de Teologia da\nFAJE.<\/p>\n\n\n\n<p>27\/4\/2020.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: <a href=\"https:\/\/www.faculdadejesuita.edu.br\/artigo\/confiar-como-as-criancas--27042020-101228\">https:\/\/www.faculdadejesuita.edu.br\/artigo\/confiar-como-as-criancas&#8211;27042020-101228<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confiar como as crian\u00e7as!. Por Frei Rivaldave Paz Torquato, O. Carm. Desafiado pela \u201cnoite escura\u201d causada pela Covid-19 comecei a pensar em cenas b\u00edblicas que pudessem me ajudar a atravessar esta noite. 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