LER GÊNESIS 1 A 12 COM OLHOS NOVOS

Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino

 

Esta parte terá a seguinte seqüência: Primeiro, vamos ler a narrativa da criação, o Manifesto de Resistência, que aponta a fonte de esperança do povo no cativeiro, a missão de todo ser humano e o destino último da nossa vida (Gênesis 1,1 a 2,4).

Em seguida, vamos ver a História das Cinco Quedas, que faz o diagnóstico do péssimo estado de saúde da humanidade, descrevendo a degradação progressiva dos relacionamentos que sustentam a vida humana, e tem como objetivo levar o povo a fazer um exame de consciência e descobrir a causa dos males que afligem a vida humana (Gênesis 2,4b a 11,32).

Finalmente, em terceiro lugar, veremos O Caminho da Esperança, a história da vocação da Abraão e Sara, que oferece o remédio e inicia o tratamento; indica como superar o impasse criado pela crise do cativeiro e mostra a saída para recuperar a benção da vida (Gênesis 12 em diante).

 

 

I

Gênesis 1,1 a 2,4ª

A NARRATIVA DA CRIAÇÃO

Um Manifesto de Resistência

Informações sobre o contexto do povo no cativeiro

A grandiosa celebração do Ano Novo.

Na Babilônia, todos os anos, no mês de Nisã, começo da primavera, celebravam o mito da criação. A festa durava doze dias. Para celebrar este evento, fazia-se uma grande procissão em que tomavam parte todos os habitantes da cidade. A estátua de ouro do deus protetor Marduc ia na frente, conduzida pelo rei, considerado filho de Marduc. A procissão dirigia-se ao rio Eufrates onde a estátua era lavada. Em seguida, o próprio rei banhava-se no rio, pronunciando uma oração diante da estátua do deus Marduc. Na tarde deste mesmo dia, diante da estátua já colocada de volta em seu templo, lia-se todo o poema descrevendo a Criação, chamado Enuma Elish (Quando lá no alto...). O poema contava o nascimento de Marduc, o nascimento dos outros deuses e o surgimento dos seres humanos. Neste poema, Marduc aparece como o defensor dos deuses contra a fera dos Abismos, chamada Tiamat. Num forte combate, Marduc mata e esquarteja Tiamat. Com seus pedaços ele cria os astros do céu, as estações do ano, e os seres vivos. Uma parte deste poema era representada numa encenação pública.

Segundo a tradição dos babilônios, “no princípio da criação”, Marduc tinha descido nas águas agitadas do abismo para enfrentar o caos. Estando nas águas, lutou e venceu subjugando o poder inimigo e criando o mundo. Por isso, todo ano, o rei da Babilônia, filho do deus Marduc, imitava a ação do pai Marduc. Chegando perto do rio, ele entrava nas águas agitadas e, assim, diante do povo em festa reunido junto às margens do rio, ele era a expressão viva da luta vitoriosa da divindade contra o caos ameaçador. Todos o aclamavam: “Nosso Deus! Nosso Criador!”

No dia seguinte, o rei dirigia as preces de súplica ao deus Marduc, pedindo perdão, em nome do povo, de todas as faltas cometidas ao longo do ano que passou. Para fazer este pedido, o rei despojava-se de todas as insígnias de seu poder, era batido na face e tinha suas orelhas puxadas pelo sumo-sacerdote, simbolizando o castigo pelas faltas cometidas. Em seguida fazia-se o sacrifício de um touro branco.

No sétimo dia da festa fazia-se uma grande procissão comandada pelo rei acompanhado pela estátua de Marduc. Neste dia todas as pessoas eram aspergidas com água para terem um ano bom e próspero. A procissão era na principal avenida de Babilônia. Imagens dos monstros vencidos por Marduc eram arrastadas atrás da estátua do deus. Depois da procissão, as pessoas saiam cantando e dançando pelas ruas da cidade, celebrando a vitória de Marduc sobre todas as forças do mal. Os outros deuses também saiam pela cidade, em carros adornados com seus sacerdotes paramentados. Naquele dia Marduc recriava o mundo, perdoando os pecados do povo e restabelecendo o curso dos astros. Neste dia, segundo o poema da Criação, Marduc fazia triunfar a justiça e protegia o direito do povo. Com sua vitória, Marduc era o deus da justiça. Nabucodonosor era o instrumento de Marduc para manter a paz e a justiça durante todo o ano que começava.

O povo exilado diante do esplendor de Marduc.

Os pobres exilados do povo de Deus assistiam de longe a esta grandiosa celebração do mito da criação que se repetia todos os anos no dia marcado. Extasiados diante daquele esplendor, muitos diziam: “Javé nos abandonou!” (Is 49,14; 40,27) Marduc é mais forte! Deixavam Javé de lado, abandonavam a religião dos pais, assumiam a religião do império e começavam a venerar Marduc e Ishtar (Vênus), a rainha do céu, uma das divindades dos seus opressores. Eles justificavam sua atitude dizendo: “Quando paramos de queimar incenso para a rainha do céu e de derramar vinho em sua honra, começou a faltar tudo, e nós morremos pela espada e pela fome" (Jr 44,18).

Mas um grupo pequeno, animado pela nova experiência de Deus Criador, dizia o contrário: “Por que vocês andam dizendo ‘Javé desconhece o meu caminho e o meu Deus ignora a minha causa? Javé me abandonou, o Senhor me esqueceu!´ Pode a mãe esquecer do seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? E mesmo que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você. Veja! Eu tatuei você na palma da minha mão!” (Is 40,2749,15-16).

Foi a partir deste grupo pequeno que nasceu a narrativa da criação de Gênesis 1 como manifesto de resistência contra a sedução do mito de Marduc, o deus do império. Em vez de recitar o poema dos opressores, cujas palavras iniciais era Enuma Elish (“Quando lá no alto...”), eles contavam a história da criação de outro jeito e diziam: “No Princípio, Deus criou o céu e a terra....”

Eis um resumo da narrativa da criação que eles contavam para o povo exilado:

Gênesis 1,1:            Título do manifesto:        No princípio Deus criou o céu e a terra

 

Gênesis  1,2:           Caos anterior à criação:           Três imagens de morte: trevas, águas, deserto

 

Gênesis  1,3-13:      1ª Fase da Ação Criadora: Deus cria a infra-estrutura da Casa do Povo:

        Gênesis 1,3-5:   1º Dia:    Criação da LUZ.                             Deus vence as trevas e as submete

        Gênesis 1,6-8:            2º Dia:     Criação do FIRMAMENTO Deus vence as águas  e as submete

        Gênesis 1,9-13: 3º Dia:    Criação da TERRA e do VERDE    Deus vence o deserto e o submete

 

Gênesis 1,14-25:     2ª Fase da Ação Criadora: Deus cria o acabamento da Casa do Povo

        Gênesis 1,14-19:        4º Dia:     Criação das LÂMPADAS : sol, lua e estrelas, para iluminar e guiar

        Gênesis 1,20-23:        5º Dia:     Criação dos PÁSSAROS no ar e dos PEIXES no mar. Deus os abençoou

        Gênesis 1,24-25:        6º Dia:     Criação dos ANIMAIS que se movem sobre a terra.

 

Gênesis 1,26-31:     3ª Fase da Ação Criadora: Deus cria o ser humano, o morador da Casa

        Gênesis 1,26:                             Deus delibera: “Vamos criar o SER HUMANO à nossa imagem e semelhança”.

        Gênesis 1,27:                             Criação do SER HUMANO: HOMEM e MULHER, à imagem de Deus

        Gênesis 1,28-31:                        Deus abençoa  o HOMEM e a MULHER e dá licença para comer ervas

 

Gênesis 2,1-4ª:     Término da ação criadora: Deus termina a criação descansando

                                 7º Dia:    Deus descansou: abençoou e santificou o 7º dia

 

Para sentir toda a força do texto que vamos ler e meditar, procure colocar-se na pele do pessoal que estava lá no cativeiro, na Babilônia, capital do grande império. Eles se sentiam como hoje se sentiria o camponês do interior de Minas, levado à força para viver como varredor de rua no centro de Nova York: outro mundo, outra terra, outra língua, outra religião, outro jeito de viver, outros valores!

“No princípio, Deus criou o céu e a terra”

Leitura do texto, parte por parte

Gênesis 1,1-2: O caos anterior à ação criadora

A primeira frase “No princípio, Deus criou o céu e a terra” é o título do manifesto. Traz o resumo do que vai ser escrito. Deixa bem claro que tudo que existe, tanto no céu como na terra, tudo é criação de Javé, o Deus do povo.

Três imagens de morte descrevem a situação do caos. A primeira imagem, a terra era sem forma e vazia, sugere um deserto, lugar onde a vida não é possível. A segunda imagem, as trevas cobriam o abismo, sugere um oceano escuro e ameaçador coberto de trevas, onde não há luz e onde, por isso mesmo, a vida não pode emergir. A terceira imagem, o vento de Deus soprava sobre as águas, sugere uma inundação violenta de águas que cobriam e matavam tudo. (Na língua hebraico se usa a mesma palavra para vento  e espírito. Para dizer que uma coisa é imensa e forte se dizia: “é uma coisa de Deus”. Por isso se pode traduzir também: “um vento impetuoso” ou “um terrível vendaval”).

Evocação da situação do cativeiro. As três imagens do caos evocavam a situação desesperadora do povo no cativeiro. Deserto: Isaías dizia que o povo exilado era como um tronco ressequido enterrado num chão deserto (Is 11,1). Trevas: na terceira lamentação, o povo exilado dizia: “Deus me fez morar nas trevas como um defunto enterrado há muito tempo!” (Lam 3,2.6). Águas: a mesma lamentação dizia: “As águas me subiram até a cabeça e eu gritei: ‘Estou perdido!’” (Lm 5,54). Situação de morte sem saída: assim era para eles o cativeiro. Em cima deste caos do cativeiro, que parecia condenado a nunca mais receber construção alguma, Deus vai construir a casa do povo. Lendo o narrativa da criação, você vai assistir como, lentamente, ao longo de seis dias, surge a nova moradia, nasce um novo futuro, não só para o povo exilado, mas para a humanidade inteira.

 

 

Gênesis 1,3-5: O 1º dia da criação: Deus vence as trevas e cria a luz

Ação criadora sem luta. Logo no início, aparece a grande e fundamental diferença entre Javé e Marduc. Marduc cria entrando na água, lutando contra o caos e despedaçando a fera do abismo. No texto da Bíblia, não há luta nem enfrentamento. Há apenas uma palavra, animada pelo “Espírito de Deus”, que diz: "Que exista a luz!" E a luz começa a existir. A palavra de Deus vence as trevas e as submete. Não há luta. Apenas vitória! Lá onde antes só havia morte e caos, a Palavra de Deus cria a ordem que gera vida.

Deus separa a luz das trevas. O poder criador de Javé é tão grande, que transforma as trevas da morte em instrumento de vida. Pois Deus não elimina as trevas, mas as controla. Reduz a sua extensão e o seu poder. As trevas que antes ocupavam todo o espaço e todo o tempo, ameaçando a vida, agora servem à vida e recebem o nome de noite. A noite faz um bem muito grande, pois permite o descanso. Favorece a recomposição das forças.

A força da Palavra Criadora de Deus. A Palavra que Deus usou para vencer as trevas e transformar o caos em cosmo, continua presente na vida dos exilados (Is 40,8). É a mesma Palavra que eles meditam nas suas reuniões nos sábados e ainda é a mesma que nós hoje meditamos nos Círculos Bíblicos. Nas nossas reuniões continuamos o mesmo trabalho criador: transformar o caos em cosmo, a morte em vida.

Houve uma tarde e uma manhã: foi o primeiro dia.  Este refrão se repete no fim de cada um dos seis dias da ação criadora (Gn 1,5.8.13.19.23.31). Hoje, nós diríamos: “Houve uma manhã e uma tarde”, porque para nós o dia inicia quando começa a clarear de manhã cedo. Para eles era o contrário. O dia começava no fim da tarde, quando aparecia a primeira estrela e começava a escurecer. Por isso diziam: Houve uma tarde e uma manhã. Eles seguiam a lógica da criação: primeiro, as trevas; depois, a luz! Por isso, até hoje, fazemos vigília, ou seja, nas trevas da noite celebramos a esperança da chegada da luz.

 

 

Gênesis 1,6-8: O 2º dia da criação: Deus vence as águas e cria o universo

A seqüência da ação criadora. A maneira de imaginar as várias etapas da ação criadora, uma depois da outra, vem da observação diária dos fenômenos da natureza. Por exemplo, de manhã cedo, antes do sol aparecer no horizonte, já começa a clarear. A luz parece não depender do sol. Outro exemplo: cavando bem fundo, você encontra água e, em muitos lugares, a água brota do chão em nascentes e rios. Andando sempre em frente, em qualquer direção, perto ou longe, você vai encontrar água. De vez em quando, a água vem até de cima em forma de chuva. A impressão que se tem é que existe água em baixo, ao redor e em cima de nós. Tendo presente estes dados da observação diária, entende-se melhor a seqüência das etapas na descrição da criação. Por exemplo, no primeiro dia, Deus criou a luz, enquanto o sol só foi criado no quarto dia. A separação das águas no segundo dia explica como existe água em cima e em baixo de nós. A separação do seco e do molhado no terceiro dia explica como existe água ao redor de nós. Este era o jeito de pensar de todos os povos daquele tempo. Eles não tinham telescópios nem microscópios. O texto de Gênesis usa a cultura comum da época para comunicar uma verdade muito simples e muito profunda, que vale até hoje: o mundo é uma manifestação da bondade e da fidelidade de Deus; ele reflete o poder e o carinho com que Deus protege e acompanha o seu povo exilado. 

O firmamento que separa as águas. No mito da criação da Babilônia, Marduc enfrenta Tiamat, o abismo ameaçador das águas. Ele luta para poder estraçalhá-lo e vencê-lo. No texto de Gênesis, uma simples palavra divina vence as águas ameaçadoras do abismo, criando o firmamento azul que contemplamos em dia claro de sol. Eles imaginavam o firmamento como um mar de vidro (Ap 4,6) que, por ordem da Palavra de Deus, foi colocado no meio daquelas águas do abismo, separando-as em duas partes: as águas de cima e as de baixo. O firmamento é o teto da casa do povo, onde, no quarto dia, vão ser penduradas as lâmpadas e as estrelas. É também o espaço aberto para o vôo dos pássaros que vão ser criados no quinto dia.

E assim se fez. Esta frase é outro refrão (Gn 1,7.9.11.15.24) para dizer que as coisas são do jeito que Deus as quis. Ninguém, nem Marduc, nem Nabucodonosor, conseguem impedir a ação criadora da Palavra de Deus. Javé é mais forte. A mesma convicção de fé se repete em outros lugares da Bíblia (Sl 33(32),6-12). As criaturas são o que Deus quer (cf. Eclo 39,16-18; 43,16-26).

 

 

Gênesis 1,9-13: O 3º dia da criação: Deus vence o deserto e cria o verde

A terra cheia de verde. Depois que Deus juntou as águas debaixo do céu num único lugar, apareceu o chão seco que ele chamou terra. Ao conjunto das água chamou mar. Em seguida, Deus disse (literalmente): “Que a terra se torne verde de verdura!”  E assim se fez! A palavra de Deus venceu o deserto que gera morte. É a terra verde que vai fornecer o alimento para todos os seres vivos. Por isso a terra é nossa mãe, pois com o alimenta que produz gera vida para todos nós.

Bíblia e Ciência. A Bíblia diz que Deus juntou as águas e fez aparecer o seco, a terra. A ciência dá informações completamente diferentes sobre a formação da terra e dos mares. Quem tem razão? A ciência tem razão, e a Bíblia também tem razão, mas cada uma no seu campo. A Bíblia não quer competir com a ciência. Nem quer dar uma aula de física ou de cosmologia, mas sim comunicar esperança ao povo oprimido. Não quer ensinar como foi criado o mundo, mas sim como o mundo criado deve ser visto à luz da fé. É um manifesto de resistência para o povo encher-se de coragem na realização da sua missão.  

Deus viu que era bom. Esta pequena frase é mais um refrão (Gn 1,10.12.18.21.25.31). Todas as coisas são boas, porque são fruto da palavra de Deus que só faz coisas boas. Elas correspondem ao projeto de Deus e contribuem para a harmonia do universo.

 

 

Gênesis 1,14-19: O 4º dia da Criação: Deus cria as lâmpadas no céu

Criaturas e não divindades. Os exilados encontram-se na Babilônia, onde o culto ao Sol e à Lua ocupava um lugar central na vida do povo. Os astrólogos da Babilônia interpretavam a vontade dos deuses através do estudo dos astros. Eles atribuíam um valor mágico e divino aos sinais das estrelas. O planeta Vênus era chamado Rainha do céu (Jr 7,18). Foram eles que inventaram o horóscopo. Por isso, o texto deixa bem claro que os astros são criaturas. Não são divindades. São luzeiros no firmamento para separar o dia da noite. São lâmpadas a serviço do ser humano, nada mais. Ajudam a marcar as festas, as estações do ano, os dias, as semanas, as noites.

Contra a divinização do sol e da lua. O texto torna a repetir que Deus fez duas lâmpadas grandes, mas não menciona os nomes destas lâmpadas. É que se tratava de palavras contaminadas pela religião da Babilônia. Bastava alguém pronunciar os nomes Sol ou Lua, e o povo já inclinava a cabeça em adoração. Assim, o autor ajudava os exilados a adquirir uma consciência mais crítica para não se deixar enganar por aquele tipo de religião nem pelo horóscopo.

 

 

Gênesis 1,20-23: O 5º dia da criação: Deus cria e abençoa os pássaros e os peixes

Contra a divinização dos animais. O povo de Deus vivia num mundo em que muitos animais eram considerados sagrados ou divinos. Fabricavam-se estátuas de ídolos misturando figuras humanas com figuras de animais. Na entrada principal de Babilônia, havia esculturas imensas de Karibús (Querubins), que eram uma combinação de leão, touro, águia e ser humano. Isto fazia parte da cultura religiosa da época. O próprio povo de Deus, no tempo do deserto, teve a experiência desastrosa do bezerro de ouro, fabricado por iniciativa de Aarão (Ex 32,4). A tendência de transformar os animais em divindades era freqüente no antigo Médio Oriente. Por isso, o texto insiste em dizer que, como o sol e a lua, também os bichos todos são criaturas, dependem de Deus em tudo.

A bênção da vida. Todas as coisas são criadas, mas só a vida recebe uma bênção. Abençoar é desejar o bem para alguém. É o contrário de amaldiçoar. A vida recebeu de Deus uma bênção, uma bem-dição. Esta palavra criadora desejando o bem à vida é mais forte do que a morte que deseja o mal.

 

 

Gênesis 1,24-31: O 6º dia da criação: Deus cria os animais e o ser humano

Criação dos animais. No 5º dia, Deus criou os pássaros e os peixes. Aqui no 6º dia, ele cria os animais que vivem na terra. Inclui todos os animais, tantos os domésticos como as feras do campo, tantos os pequenos como os grandes. Tudo é criatura de Deus. Uma descrição bonita desta riqueza do mundo animal a revelar a sabedoria divina encontra-se no Salmo 104(103),10-30. Com a criação dos animais ficou pronta a casa do povo.

Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança! Chegando o momento da criação do ser humano, o narrador faz uma parada e muda o modo de falar. Até agora, ele informava sobre a ação criadora de Deus. Agora, com uma certa solenidade, ele apresenta o próprio Deus falando: Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança! Por este modo diferente de falar, ele está sugerindo que estamos chegando ao ponto alto da criação. E nesta sua maneira de falar, ele acentua os seguintes aspectos:

(1) Afirma a dignidade do ser humano, pois nele existe algo de divino. Ele é feito à imagem e semelhança de Deus. Não são os animais, nem o rei Nabucodonosor, nem os poderosos que são a imagem de Deus. Mas sim o ser humano, enquanto humano, é a imagem de Deus, o representante de Deus no meio da criação.

(2) Afirma a igualdade entre homem e mulher, ambos são imagem de Deus. Ou melhor, não é só o homem, nem só a mulher, mas ambos juntos convivendo em harmonia são imagem de Deus. O livro do Eclesiástico faz o seguinte comentário: “Todas as coisas existem aos pares, uma diante da outra, e Ele não fez nada incompleto. Uma coisa completa a bondade da outra, e ninguém se cansa de contemplar a glória de Deus”. (Eclo 42,24-25).

(3) Afirma a superioridade do ser humano frente às outras criaturas, pois ele pode dominar sobre todas elas. Este domínio não significa que ele recebe carta branca para fazer o que quiser nem se trata de uma dominação que usa a terra como mercadoria ou como objeto mudo e sem vida. Mas significa que ele deve imitar a maneira como Deus exerce o seu domínio sobre a criação. Deus domina o universo coordenando tudo numa harmonia admirável, preservando a ordem que favorece a vida e mantendo afastado o caos que ameaça tudo de morte: o caos do assassinato, da vingança, da corrupção, da exploração. O domínio que o ser humano recebe deve promover o crescimento da ordem e contribuir para o louvor universal ao Criador.

A bênção da vida. Pela segunda vez, aparece a bênção da vida. É nesta bênção ou bem-dição que está a raiz da nossa fé na Vida como dom de Deus, fé que foi crescendo lentamente na alma do povo de Deus, ao longo dos séculos, até desabrochar plenamente na ressurreição de Jesus. Esta fé é a expressão da convicção de que a vida plena, que vem de Deus e que os exilados estavam buscando, não pode acabar nunca. Esta esperança já se expressava na oração do salmo bem antes da ressurreição de Jesus: “Não me abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura. Tu me ensinarás o caminho da vida, cheio de alegria em tua presença, e de delícias à tua direita, para sempre” (Sl 16,10-11).

A relva como alimento. Deus entrega ao ser humano a “relva como alimento”. Esta licença curiosa deve ser interpretada no contexto violento daquela época. As matanças de povos inteiros eram feitas em nome das divindades protetoras das monarquias. O povo que estava no cativeiro carregava na lembrança o trauma das mortes dos habitantes de Jerusalém por ocasião da sua destruição por Nabucodonosor, feita em nome da divindade da Babilônia (Lm 2,20; Jr 39,6-8; 52,9-11). Para Javé, o ideal da vida humana não é a violência, mas sim a ausência total de derramamento de sangue, como já tinha sido sugerido pelo profeta Isaías (Is 11,5-9; 65,25). Assim deveria ser a vida na intenção do Criador. O ser humano foi criado para conviver em paz com os outros seres humanos e com os animais, as plantas e todo o universo. Este é o objetivo e o ideal do domínio que recebemos de Deus. Por isso, o ser humano não recebe licença para comer carne, mas só a relva do campo. A desobediência e a degradação progressiva da vida fizeram com que a violência entrasse e provocasse o dilúvio. É só depois do dilúvio, que Deus permite que o ser humana se alimente também da carne dos animais (Gn 9,13).

Deus viu que tudo era muito bom Terminada toda a obra da criação, vem a confirmação: “Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom”. O autor usa um superlativo para dizer que as coisas são como Deus as tinha imaginado: “Muito bom!” Nestas palavras está implícito um convite a todos nós: “Por favor! Façam o possível, para que a criação continue sendo muito boa e não permitam que a obra do Criador seja degradada pela ignorância, ganância e violência do ser humano”. Finalizando tudo, o autor afirma: “Houve uma tarde e uma manhã: foi o sexto dia! Assim foram concluídos o céu e a terra com todo o seu exército”. Tudo está terminado e concluído.

Tudo era muito bom, sim, mas não perfeito. A Criação foi feito em seis dias. Na Bíblia, a perfeição é sete. Por isso, mesmo sendo muito boa, a criação ainda não é perfeita. Existem as imperfeições que todos conhecemos: desastres naturais, terremotos, tsunamis, secas, etc. É criatura! Falta o sétimo dia. Somos convocados a colaborar com Deus para completar a parte que falta.

 

 

Gênesis 2,1-4: O 7º dia da criação: Deus descansou, abençoou e santificou o sétimo dia

Deus descansou no sétimo dia. Por duas vezes a narrativa afirma que, no 7º dia, Deus descansou de todo o seu trabalho como Criador. Esta insistência no descanso divino sugere que o descanso faz parte da ação criadora. É no descanso que se alcança o objetivo do trabalho. A finalidade última da vida humana não é o trabalho, a produção, o resultado ou o lucro, mas sim o descanso com a consciência tranqüilo de que o trabalho foi bem realizado. Trabalhamos para viver, e não vivemos para trabalhar.

Criar em seis dias. Por que seis dias de trabalho e um dia de descanso? No cativeiro, o povo exilado era explorado pelo trabalho escravo. Não lhes davam descanso. Deviam trabalhar de sol a sol, sem possibilidade de refletir e de se encontrar, sete dias em seguida. Cercados pela religião dos ídolos, eles eram provocados para divertir os opressores com cânticos lá de Sião (cf. Sl 137,3-4). Muitos não agüentavam a dureza e se acomodavam. Adotavam a religião dos ídolos e o jeito de viver do império com suas procissões majestosas. Foi por isso que os que resistiam contra o império começaram a valorizar novamente o sábado, o sétimo dia. Acentuavam a importância de se ter um dia por semana para se dedicar a Deus e à reunião familiar. Juntos louvavam a Deus e lembravam os seus grandes feitos em favor do povo. Foi daí que recomeçou a insistência na observância do sábado.: trabalhar durante seis dias, mas descansar para Deus no sétimo dia (Ex 20,8-11).

Oito obras da criação em seis dias. A insistência na observância do sábado transparece também na organização das oito obras da criação em seis dias. As oito obras devem ser realizadas em seis dias, pois o sétimo dia é dia de descanso, no qual não pode haver mais nenhuma obra. Por isso, tanto no 1º e no 2º dia, como no 4º e no 5º dia da criação há apenas uma única obra. No 3º e no 6º dia Deus realiza duas obras. Esta preocupação em terminar a ação criadora em seis dias é um convite a mais para o povo do cativeiro dedicar o sétimo dia ao descanso e ao louvor a Deus. Se até Deus descansou no sétimo dia, o povo do cativeiro também deve descansar um dia por semana.

Deus abençoou e santificou o sétimo dia. (1) Abençoou: O sétimo dia recebeu uma bem-dição de Deus. Ele será fonte de bênção se nele nos lembrarmos de Deus e nos reunirmos para pensar nas coisas de Deus e celebrar a sua presença no meio de nós. (2) Santificou: Deus não só abençoou o sétimo dia, mas também o santificou. A santidade pertence a Deus e ela é irradiada nos que dele se aproximam. Quanto mais perto de Deus, mais santas se tornam as coisas e as pessoas. O sétimo dia é santificado porque fica mais perto de Deus, pois Deus está no sétimo dia. Ele continua no descanso, na festa sem fim.

O 7º dia ainda não terminou. No sétimo dia não se repete o refrão dos outros seis dias: “Houve uma tarde e uma manhã”, porque o sétimo dia ainda não terminou, nem vai terminar. É o dia do descanso divino que dura eternamente, até hoje. Também nós, um dia, esperamos entrar neste descanso divino (Hb 4,4.11).

Como entrar no descanso de Deus? No fim, a narrativa da criação deixa uma pergunta e um desejo no nosso coração: O que devemos fazer e como devemos viver para que, um dia, possamos entrar também nós neste descanso divino? A resposta vai ser dada na História das Cinco Quedas e no Caminho da Esperança de Abraão e Sara.

 

II

Gênesis 2,4 a 11,32

A HISTÓRIA DAS CINCO QUEDAS

A degradação progressiva da vida

Informações sobre o contexto

1. Linguagem simbólica

A linguagem da História das Cinco Quedas é simples e popular. É linguagem simbólica de grande profundidade que provoca e faz pensar. Diante da história do paraíso ou de Caim e Abel não devo perguntar: “Existiu ou não existiu? É verdade ou mentira?” Estas perguntas não são boas para se chegar a captar o cerne da mensagem. Quando você se olha no espelho, você não pergunta: “Aquilo que estou vendo no espelho será que existe ou não existe? É verdade ou mentira?” Olhando no espelho destas histórias devo perguntar a mim mesmo: “Será que estou transgredindo a Lei de Deus como Adão e Eva? Será que estou sendo violento como Caim e Lamec?”

2. Época e lugar de origem

Difícil saber exatamente em que época e lugar surgiram as histórias tão variadas das cinco quedas. Trata-se de textos muito antigos, alguns deles bem mais antigos que a narrativa da criação (Gn 1,1 a 2,3). Outros, mais recentes. O contexto predominante que neles transparece é o ambiente rural das famílias do interior da Palestina, pois neles se fala da terra, do trabalho duro que rende pouco, da seca, da água, das plantas, dos bichos, da vida em família com suas dificuldades, do relacionamento entre marido em mulher, da dor de parto, do despertar para a nudez, do relacionamento com Deus, da briga entre irmãos, da violência que dificulta a convivência humana. Algumas histórias como as do Dilúvio e da Torre de Babel refletem o ambiente mais amplo e mais confuso das cidades, da corrupção social e da dominação imperial.

3. Resposta para os problemas e as perguntas do povo

A maior parte das informações dadas pela história das cinco quedas (Adão e Eva, Caim e Abel, Lamec, Dilúvio e Torre de Babel) vem da observação diária da vida de cada dia. Na sua origem estão as perguntas que o povo se fazia ou que as crianças colocavam para seus pais: “Pai, se Deus é bom e se nós procuramos ser bons, por que Deus nos maltrata com tanto sofrimento? Se Deus é o criador de tudo, por que permite tanta inimizade entre os animais e nós seres humanos: leão, serpente, lobo, mosquito? Por que uns bichos são perigosos e outros não? Por que o terreno da nossa roça é tão ruim? Só dá carrapicho e tiririca! Pai, você se mata trabalhando o ano todo e seu trabalho rende tão pouco! Por que? Por que Deus não manda a chuva no tempo certo? Se Deus existe, por que ele não aparece? Se Deus é pai, por que os homens se matam entre si? Por que os outros povos vem nos explorar e escravizar? Pai, por que depois das chuvas aparece aquele arco colorido no céu? O que significa?”  Para responder a estas e tantas outras perguntas a respeito dos mistérios da vida, havia as histórias que se transmitiam nas celebrações e nas reuniões, nos centros de romaria e nas conversas com o levita e o sacerdote, ou em casa ouvindo os pais contar para as crianças. Uma delas é a história das cinco quedas que estragam a vida humana.

4. A corda invisível que une as cinco histórias

Gênesis 2 a 11 é um mosaico feito com pedrinhas das mais diferentes proveniências, tamanhos e qualidades. É como as peças variadas de roupa penduradas no varal. O que une tudo é a corda que não se vê. A corda invisível que está por baixo de Gênesis 2 a 11 e que unifica as histórias todas é a preocupação em levar o povo a uma avaliação da sua caminhada e criar nele uma consciência mais crítica a respeito da sua condição de vida e da sua missão como ser humano. A história das cinco quedas está intercalada com listas de genealogias para significar que somos todos da mesma raça humana. Participamos todos no mesmo destino, na mesma responsabilidade, na mesma missão.

Uma comparação () como chave de leitura

Era uma vez um arquiteto famoso que resolveu construir um grande conjunto de casas para o povo morar. Por ser uma iniciativa totalmente nova e muito importante para a vida do povo daquele lugar, mandou fazer uma maquete. Aconteceu que, durante o longo processo da execução da obra, os engenheiros e os operários não seguiram em tudo as instruções da maquete. Por isso, na medida em que iam ser construídas, as casas apresentavam muitos defeitos. Não ficaram como o arquiteto queria. Para chamar a atenção do povo, ele colocou a maquete na entrada principal do conjunto habitacional. Assim, todos podiam comparar o ideal com a situação real e descobrir por que a construção tinha tantos defeitos. Saberiam como deveria ser e como de fato ficou. O arquiteto queria que os moradores caíssem em si e resolvessem recomeçar a construção de acordo com a maquete.

O texto de Gênesis 2 a 11 que traz a história das cinco quedas tem o mesmo objetivo. Trata da construção da moradia para toda a humanidade. A história começa mostrando a maquete da vida humana. É o Paraíso (Gn 2,4-25), bem visível no começo da história das cinco quedas. O Paraíso descreve o sonho de Deus para a vida humana. Mostra como deveria ter ficado, mas não ficou. Em seguida, mostra os erros que os engenheiros e os operários cometeram e continuam cometendo ao longo da execução do projeto. Conta, uma depois da outra, as cinco quedas que estão na origem dos males que estragam a vida e nos fazem sofrer. Assim a história explica por que o mundo em que vivemos tem tanto defeito. Deus, o arquiteto, quer que nós, os moradores, tomemos consciência do que está acontecendo com a vida e com o universo e resolvamos recomeçar a construção da vida de acordo com a maquete.

A história das cinco quedas é um espelho, onde, de um lado, contemplamos o sonho de Deus para a humanidade e, de outro lado, as falhas nossas que estão impedindo a realização do sonho. É um Raio-X que ilumina o sentido da vida. Revela quem somos e qual a nossa missão. Mostra como e o que devemos fazer para consertar e recriar a vida de acordo com as instruções do Criador. Eis o resumo da seqüência:

A maquete                                   O Paraíso            Gn 2,4-25            Assim deveria ter ficado, mas não ficou.

1ª Queda             Adão e Eva      Gn 3,1 a 3,24      Ruptura com Deus

2ª Queda             Caim e Abel     Gn 4,1-16           Ruptura da fraternidade

3ª Queda             Lamec              Gn 4,17-24         Vingança e violência

                                                   Gn 4,25 a 5,32    Genealogias

4ª Queda             Dilúvio              Gn 6,1 a 9,29      Manipulação da religião e desintegração da vida

                                                   Gn 10,1-32         Genealogias:

5ª Queda             Torre de Babel Gn 11,1-9           Dominação e exploração

                                                Gn 11,10-32       Genealogias:

 

O PARAÍSO

Maquete da vida humana

Gênesis 2,4-25

Gênesis 2,4-7: Deus cria o ser humano

Deus oleiro. Deus cria o ser humano imitando o oleiro que trabalha o barro. O autor materializou um provérbio popular que dizia: “Como o barro na mão do oleiro, assim é o ser humano na mão de Deus” (Jr 18,6; Eclo 33,13). Mensagem profunda: nossa vida depende em tudo de Deus, pois não é o barro que manda no oleiro. É o oleiro que manda no barro e lhe dá a forma que ele, o oleiro, quer (cf. Rom 9,20-21; Qo 12,7; Is 64,7; Sl 104,29-30). Somos terrenos, feitos de terra, de barro. Somos filhos e filhas da terra, nossa mãe. Não somos donos.

Sopro de vida. Deus soprou no barro e o ser humano se tornou um ser vivente. O sopro divino é fonte de vida. É por ele que, na visão do profeta Ezequiel, os ossos secos retomam vida (Ez 37,1-14). O salmo 104 diz: “Envias o teu espírito e tudo é recriado”. Tudo que de vivo existe no mundo é fruto do sopro divino (cf Gn 2,19).

Gênesis 2,8-14: O jardim de Deus

Deus fez um jardim no Éden. Jardim com muito verde e árvores de todas as espécies. Uma delícia para um povo que vivia cercado de deserto, e um alerta para nós que ameaçamos transformar o verde em deserto pela poluição do meio ambiente. A imagem deste jardim faz parte do sonho, da maquete, da utopia. Éden é um lugar imaginário, ideal, no Oriente, como a Terra sem Males dos mitos dos nossos índios.

As duas árvores no meio do jardim de Deus: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. A árvore da vida simboliza a Sabedoria que vem de Deus (cf. Prov 3,18; 11,30; 13,12;15,3), cuja expressão mais perfeita é a lei de Deus, fonte do verdadeiro conhecimento do bem e do mal. A outra árvore indica a sabedoria que vem dos homens e que tem a pretensão de oferecer ao povo um outro conhecimento do bem e do mal.

Os quatro rios. O jardim é um oásis bonito de muita água. Um rio sai de Éden (Oriente), irriga o jardim e em seguida se divide em quatro rios: Fison, Geon, Tigre e Eufrates. Trata-se dos quatro maiores rios do mundo daquele tempo. Se fosse hoje, diria: “Daquela nascente nascem quatro rios: Amazonas, Nilo, Mississipi e Yang-Tse”. Com outras palavras, no jardim que Deus plantou nunca vai faltar água. É difícil você imaginar uma Boa Notícia mais bonita para aquele povo de agricultores que vivia na dependência incerta das chuvas e para nós hoje, em que milhões de pessoas já não têm mais acesso à água potável nas várias partes do mundo.

Gênesis 2,15-17: A missão do ser humano

Cultivar e guardar o jardim. Criado fora, o ser humano foi colocado dentro do jardim (Gn 2,8.15) com a missão de cultivá-lo e guardá-lo. (1) Cultivar e guardar um jardim com tanta água e tanto verde é missão leve e agradável, pois onde há tanta água tudo cresce por si. Este era o grande sonho do povo agricultor da Palestina que devia trabalhar duro para arrancar da terra a sua sobrevivência. (2) O jardim é de Deus. O ser humano não é o dono do jardim. Ele deve tomar conta e prestar conta. (3) O Paraíso guardado e cultivado pelo ser humano é a junção da ação criadora de Deus e do trabalho humano. O ser humano é colaborador de Deus na obra da criação, na construção e na manutenção do Paraíso.

A proibição de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A ordem divina tem dois aspectos: (1) poder comer de tudo, inclusive da árvore da vida; (2) não poder comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Trata-se das duas alternativas da mesma ordem divina. A proibição mostra o limite do ser humano. Ele é criatura e não criador. O ser humano deve escolher a árvore da vida, pois o verdadeiro conhecimento do bem e do mal que conduz à vida vem da árvore da vida, vem da observância da lei de Deus. Mas ele é livre. Mesmo proibido, ele pode escolher um outro caminho para obter o conhecimento do bem e do mal. Depende dele, da sua escolha entre a sabedoria de Deus e a sabedoria humana, entre a verdade e a mentira, entre a árvore da vida (Ap 2,7; 22,2) e a árvore do conhecimento do bem e do mal, entre a vida  e a morte.

Comparando o Paraíso com os mitos dos outros povos. Quase todos os povos têm mitos que apresentam o início da história da humanidade como um tempo ideal de paz e de harmonia, no qual o povo vê realizados os desejos mais profundos do seu coração. E em todos eles, de uma ou de outra maneira, algo de errado acontece para atrapalhar o projeto inicial e fazer a vida na terra ficar cheio de defeitos e males. Como a história do Paraíso, os mitos também falam de alguma lei ou ordem que o homem deve observar sob pena de estragar a obra de Deus. Fazem isso não para provocar fatalismo, mas para despertar a responsabilidade das pessoas e convocá-las a lutar para que o mundo seja novamente como Deus tinha imaginado. No mito do Tucumã, por exemplo, os três homens são proibidos de abrir o coco, pois dentro dele existiam não só a noite, necessária para o descanso, como também todos os males do mundo. Abrindo sem critério o coco, correriam o risco de trazer os males para o mundo. Eles não souberam dominar sua curiosidade e, assim, estragaram a vida.

 

O MITO DO TUCUMÃ DOS ÍNDIOS DA REGIÃO AMAZÔNICA PERTO DE ITACOATIARA, AM

Quando Deus criou o mundo, ainda não havia noite. Só havia o dia. Um dia vinha logo depois do outro. Os homens viviam e trabalhavam o tempo todo, pois não havia noite para descansar. Aí foram se queixar com o pajé: “Queremos ter um tempo de descanso”. O pajé respon­deu: "Vocês devem subir o rio até à cabeceira e descer para falar com a Mãe-dágua. Ela dirá o que deve ser feito". Três homens foram de barco, remaram três dias e chegaram à cabeceira. Desceram e falaram com a Mãe-dágua. Ela deu a eles um coco tucumã e disse: "Carreguem com cuidado. Não abram! Não abram! Quando chegarem na aldeia, entreguem o coco ao pajé e ele saberá o que fazer! Cuidado para não abrir o coco no caminho!" Eles voltaram remando. No fim do primeiro dia, ouviram um barulho que vinha de dentro do coco tucumã que estava no fundo do barco. Pegaram o coco na mão, sacudiram, mas não abriram. No fim do segundo dia, o barulho era bem maior. A curiosidade também! Mas eles não abriram. No fim do terceiro dia, o barulho era tão grande que nem podiam conversar. Aí, um disse: "Vamos abrir!" Os outros resistiram. Mas no fim, o barulho sendo tanto, acharam que deviam abrir. Bateram com o coco numa pedra, mas o coco não abriu. Bateram, bateram, mas não adiantava. O coco não queria abrir. No fim, colocaram o coco em cima de uma grande rocha. Os três carregaram uma pedra pesada e jogaram em cima. Quando a pedra caiu em cima, a casca do coco quebrou em mil pedaços e, de dentro dele, saiu a noite e, junto com a noite, escaparam todos os males do mundo! 

(Narrado por Dom Jorge, bispo de Itacoatiara AM, num curso do CEBI em Cachoeira do Campo MG, 1992)

 

Gênesis 2,18-25: Deus transforma o ser humano em Homem e Mulher

Não é bom que o ser humano esteja só. Nós, seres humanos, fomos criados para viver em comunidade, e não para viver só. Por isso, Deus disse: Vamos fazer para ele um auxiliar que lhe seja semelhante. Assim, primeiro, criou os animais, pensando que pudessem quebrar a solidão do ser humano. Mas animal não tira a solidão de gente. A solidão só será quebrada quando Adão encontrar um outro ser humano, semelhante a ele ou, como diz literalmente, alguém que possa ficar na frente dele, igual a ele. Assim, um será auxílio para o outro. Os animais têm vida e são auxiliares, mas não são seres humanos que possam ficar na frente dele, iguais a ele. O ser humano é superior aos animais.

Esta sim é osso dos meus ossos, carne da minha carne. Então, Deus faz cair um torpor sobre o ser humano, tirou dele um osso para construir a mulher. Isto significa que de um único ser humano Deus fez dois: o Homem e a Mulher. Deus conduziu a mulher até o homem e este disse: “Esta sim é osso dos meus ossos, carne da minha carne”. Naquele tempo, na cerimônia do casamento, o homem, ao aceitar sua noiva como esposa, devia dizer a seguinte frase que fazia parte do cerimonial: “Esta é osso dos meus ossos, carne da minha carne”. Assim, ao ouvir a história do Paraíso, o povo tirava a conclusão: “É o primeiro casamento! Foi Deus que o quis assim!” Esta história explica a misteriosa atração entre os sexos que é mais forte do que a atração entre pais e filhos: “Por isso, o homem deixa seu pai e sua mãe, e se une à sua mulher, e eles dois se tornam uma só carne”.

 

Estavam nus e não se envergonhavam. Nesta afirmação se reflete a experiência de todo ser humano. Chegando à idade da adolescência, a cultura da época fazia com que tanto o rapaz como a moça, percebessem a sua nudez e se cobrissem com roupa. Na passagem da infância para a idade adulta havia uma cerimônia de iniciação que marcava o momento em que os jovens e as jovens deviam começar a observar todas as normas da vida da tribo ou da comunidade. Em Israel, era nessa cerimônia que eles recebiam a Lei de Deus como norma definitiva da sua vida. A partir deste momento começavam a se alimentar da árvore da vida. Era também a partir deste mesmo momento que nascia neles o inexplicável desejo de transgredir a lei e de comer do fruto proibido. Dizendo “estavam nus e não se envergonhavam”, o autor sugere que neles ainda não havia surgido o desejo de transgredir a Lei de Deus.

Esta alusão à nudez suscita nos leitores a seguinte pergunta: “Será que os dois vão manter a vida dentro do projeto do Criador? Será que vão seguir as instruções da maquete?” A resposta a estas indagações vai ser dada na história das cinco quedas, na qual os leitores vão descobrir suas próprias faltas.

 

A 1ª Queda

Ruptura com Deus

O início da degradação da vida humana

Gênesis 3,1-24

Gênesis 3,1-7: A provocação da serpente e a queda do ser humano

A serpente era um animal muito astuto Naquele tempo, eles viviam cercados pelos povos cananeus. A imagem da serpente simbolizava a atração que a religião da fertilidade destes povos exercia sobre o povo de Deus. Ela atraía tanto os rapazes como as moças para envolvê-los na prostituição sagrada. Levava o povo de Deus a abandonar a árvore da vida para comer da árvore da religião dos cananeus que transformava a fé em magia e mudava as normas do bem e do mal. Chegava a mandar matar as crianças para honrar os deuses (1Rs 16,34; 2Rs 16,3; 21,6). A serpente era realmente um animal muito astuto, pois em determinados momentos da história, levou o povo inteiro a romper a aliança e a abandonar a Lei de Deus (1Rs 19,10.14).

A tentação mentirosa da serpente. A pergunta da serpente é capciosa: “É verdade que Deus disse que vocês não podem comer de nenhuma árvore do jardim?” Deus não tinha falado nada disso. Ele disse que eles podiam comer de todas as árvores, inclusive da árvore da vida. Só não podiam comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A tentação sempre exagera a proibição para despertar com mais força o desejo. A resposta da mulher repete a ordem de Deus e ela também exagera: “Nós podemos comer dos frutos das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: 'Vocês não comerão dele, nem o tocarão, do contrário vocês vão morrer'". Nesta resposta se reflete o ensinamento dos profetas que denunciavam a maldade do sistema dos reis (1Rs 18,18).

Vocês vão ficar como deuses. A serpente responde: "Morte coisa nenhuma! Mas é que Deus sabe que, no dia em que vocês comerem o fruto, os olhos de vocês vão se abrir, e vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal". Nestas palavras da serpente transparece a resposta da monarquia às críticas dos profetas. Os reis se apresentavam ao povo como seres divinos, como filhos de Deus. A palavra do rei era a fonte do direito e ditava as normas do bem e do mal. Além disso, a participação na religião da fertilidade através da prostituição sagrada dava às pessoas a sensação agradável e enganadora de participação na vida divina. Despertava no ser humano o desejo inato de não aceitar sua condição de criatura e de criar para si sua própria lei. Queriam ser como deuses.

A queda, o pecado. “Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e o comeu; depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele comeu”. Aqui, todos e todas se reconhecem. Colocados entre as exigências da Lei de Deus e a tentação sedutora do caminho oposto, permitimos muitas vezes que a tentação leve vantagem e nos desvie do bom caminho. São Paulo diz: “Eu não teria conhecido o pecado se não existisse a lei, nem teria conhecido a cobiça, se a lei não tivesse dito: “Não cobice!”  (Rm 7,7).

A pergunta mais importante. Naquela época, a mentira que afastava o povo da Lei de Deus e o levava a comer da árvore proibida do conhecimento do bem e mal era a participação na religião atraente de fertilidade dos cananeus. Qual é hoje a mentira que nos seduz e nos afasta da Lei de Deus, da árvore da vida?

A percepção da nudez. “Então abriram-se os olhos dos dois, e eles perceberam que estavam nus. Entrela­çaram folhas de figueira e fizeram tangas”. Por causa desta afirmação sobre a percepção da nudez, alguns estudiosos dizem que a transgressão dos dois deva ser entendida como pecado de sexo. Mas o significado é outro. ( ). Mesmo instruídos pela Lei de Deus, os seres humanos não a observaram e se deixaram levar pela tentação da religião da serpente. Por isso, chegando no limiar da idade adulta, a nudez perdia sua naturalidade e as pessoas se cobriam com roupa. Assim, na hora em que a pessoa se confronta consigo mesma e reconhece a sua transgressão, percebe a sua nudez diante de Deus e se envergonha. Na hora em que recusa a observar a Lei de Deus, se produz nela uma mudança no relacionamento consigo mesma, com o próximo e com Deus. Queria ser como deus, e o que descobre é a sua total e radical dependência do criador. Percebe que está nu! Percebe que errou.

Gênesis 3,8-13: Mudança no relacionamento com Deus: medo em vez da amizade

Onde está você? O primeiro efeito da transgressão é a mudança no relacionamento da humanidade com Deus. Antes da transgressão, Deus passeava no jardim à hora da brisa da tarde, e os dois costumavam aproximar-se dele. Agora, a presença de Deus lhes causa medo e vergonha, e eles se escondem. Deus sente a falta da presença do ser humano, quer tê-los perto de si e chama: “Onde está você?”. O homem responde "Ouvi teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi" E Deus pergunta: "E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?" Na hora de receber a lei com a obrigação de observá-la, nasce o desejo de transgredi-la e o ser humano começa a ter a consciência pesada diante de Deus.  

A serpente está na origem dos males da vida do povo. O homem reconhece que comeu o fruto proibido, mas não assume a culpa. Transfere a responsabilidade para a mulher. Indiretamente, está dando a culpa ao próprio Deus que lhe tinha dado a mulher como companheira. Como o homem, também a mulher não assume a culpa e transfere a responsabilidade para a serpente. A causa última que, naquele tempo, estava levando o povo a abandonar a Lei de Deus, era a serpente, a religião do sistema dos reis que desintegrava a vida familiar e tribal. Esta maneira de investigar e revelar a causa dos males servia como meio para o povo tomar consciência da perversidade da religião do sistema dos reis que o afastava de Deus e do projeto de Deus. “Até quando vocês vão mancar das duas pernas!” (1Rs 18,21).

Gênesis 3,14-19: A sentença

Investigada a culpa, segue a sentença: primeiro, para a serpente (Gn 3,14-15); depois, para mulher (Gn 3,16) e, no fim, para o homem (Gn 3,17-19). A situação que vai ser criada pela sentença divina é a situação real que o povo estava vivendo.

A sentença para a Serpente: (1) Ela será maldita. Deus disse para a serpente: "Por ter feito isso, você será maldita entre todos os animais domésticos e entre todas as feras. Você se arrastará sobre o ventre e comerá pó todos os dias de sua vida” (Gn 3,14). A serpente é um animal traiçoeiro que rasteja pelo chão. Você não vê nem ouve. Ele se enterra e você, sem perceber, pisa nela e ela dá o bote para atingi-lo no calcanhar. Veneno de cobra é mortal. Mordido por ela você não escapa. Morte certa! Esta imagem da cobra era um símbolo do que estava acontecendo na Palestina: a serpente traiçoeira da religião da fertilidade estava enterrada o caminho do povo tentando dar o bote mortal. Por isso, a serpente será maldita por Deus. É a primeira vez que aparece a maldição que vai querer (  ) quebrar a bênção que vinha desde o paraíso. 

A sentença para a Serpente: (2) A mulher lhe esmagará a cabeça. Deus disse: “Eu porei inimizade entre você e a mulher, entre a descendência de você e os descendentes dela. Estes vão lhe esmagar a cabeça, e você ferirá o calcanhar deles". (Gn 3,15). Apesar de enganada pela serpente maldita , a mulher, o povo, tem dentro de si um desejo forte de viver e de fazer viver. Tem dentro de si a bênção recebida do Criador que resistirá contra a maldição e a sedução da serpente. A vontade de observar a Lei de Deus, escrita na maquete da natureza, acabará sendo mais forte do que a atração exercida pela religião do sistema político da monarquia e vencerá. Esta sentença divina contra a serpente é fonte de esperança. Na hora em que a serpente quer dar o bote mortal no calcanhar, o povo renascido lhe esmagará a cabeça. Será a luta entre a bênção e a maldição, entre a vida e a morte. A vitória será da bênção da vida. Esta vitória anunciada está descrita no livro do Apocalipse (Apc 12,1-6). 

A sentença para a Mulher. Deus disse: "Multiplicarei as dores de tuas gravidezes. Na dor darás à luz filhos. Teu desejo te impelirá ao teu marido, e ele te dominará". A sentença divina descreve a situação real da mulher naquela cultura. Dominada pelo machismo do marido, a condição da mulher é esta: perpetuar a raça humana através de repetidas gravidezes que transformará sua vida numa contínua dor de parto. Dizendo que esta condição real da mulher é sentença de Deus como castigo pelo pecado, o autor está afirmando que esta não é a situação ideal que Deus quer para a mulher. Na maquete do futuro Paraíso, onde a humanidade inteira terá acesso livre à árvore da vida, não haverá mais morte e, portanto, não haverá mais necessidade de gravidez nem de dor de parto. Aí todos viverão eternamente. Permanecerá o amor, mas não haverá mais necessidade de perpetuar a raça através da procriação. Este é o ideal, o sonho a ser construído. Jesus o confirma (Mt 22,30) e o Apocalipse o descreve como a realização perfeita do casamento entre noivo e noiva, entre Deus e a humanidade (Ap 21,2.9), onde “não haverá mais morte, nem luto, nem grito nem dor, nem maldição. E no meio da praça de um lado e do outro do rio, há árvores da vida que frutificam doze vezes , dando fruto a cada mês; e suas folhas servem para curar as nações” (Ap 21,4; 22,4.3).

A sentença para o Homem. Deus disse: "Já que você deu ouvidos à sua mulher e comeu da árvore cujo fruto eu lhe tinha proibido comer, maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você viver, você dela se alimentará com fadiga. A terra produzirá para você espinhos e ervas daninhas, e você comerá a erva dos campos. Você comerá seu pão com o suor do seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó, e ao pó voltará". Aqui também a sentença divina descreve a situação real que o povo estava vivendo: trabalho duro numa terra seca que só produz espinhos e carrapichos. Trabalhar a vida inteira com o suor do rosto e no fim morrer. “Você é pó e ao pó voltará!” E aqui novamente, pelo fato de dizer que esta situação real é castigo pelo pecado, o texto está dizendo que esta não é a situação que Deus quer para nós. O ideal é o jardim cheio de água e de árvores para guardar e tomar conta. Era uma maneira para lembrar ao ser humano a sua responsabilidade pela realização do Paraíso e para ele não aceitar sua atual condição com o fatalismo de “Deus quer assim”, mas de lutar para que um dia haja vida plena para todos. A situação em que hoje se encontra o planeta Terra deveria suscitar em nós o mesmo senso de responsabilidade.

Gênesis 3,20-24: A proteção de Deus, fonte da esperança

Adão e Eva, Homem e Mulher O homem é chamado Adão, e ele dá à sua mulher o nome de Eva. As palavras Adão e Eva não são nomes próprios como João e Maria, mas significam homem e mulher. Ou melhor, os dois caracterizam a raça humana. Adão significa terreno,(..) tirado da terra,. Eva significa a mãe de todos os viventes. Eles são um espelho do que acontece com todos nós.

Deus castiga mas não abandona. Deus fez túnicas de pele para o homem e sua mulher, e os vestiu”. O homem e a mulher são expulsos do paraíso. Perdem a possibilidade de viver sempre, pois não têm mais acesso à árvore da vida. Mas Deus não os abandona. Ele continua cuidando, pois faz roupa para eles. A misericórdia prevalece sobre o castigo. Há esperança!

O Paraíso continua existir: Deus disse: "O homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Que ele, agora, não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma, e viva para sempre". Então Javé Deus expulsou o homem do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. Ele expulsou o homem e colocou diante do jardim de Éden os querubins e a espada chamejante, para guardar o caminho da árvore da vida”.  Nesta palavra final da história do Paraíso transparece a seguinte mensagem:

1) Deus não destruiu o paraíso. Criado fora do jardim, o homem tinha sido colocado dentro dele para poder ter acesso à árvore da vida. Mas em vez de escolher a vida que nasce da observância da Lei de Deus, escolheu seguir a sabedoria humana da religião da serpente. Por isso perdeu o acesso à árvore da vida. Ele mesmo se colocou fora. A árvore da vida continua existindo, mas o ser humano já não tem acesso. A árvore da vida continua aí a despertar a esperança e a provocar a conversão.

2) Um querubim com espada de fogo na mão fecha a entrada e impede o acesso. Por si mesmo, o ser humano não conseguirá conquistar a vida para sempre. Jamais conseguiria pagar o preço do resgate (Sl 49,8). Só mesmo Deus, ele mesmo, poderá abrir o caminho. 

3) Sabendo que não pode viver sempre, o ser humano mantém o desejo de superar a morte e de viver sempre através da procriação. É depois que foi expulso do Paraíso e que não tem mais acesso à árvore da vida, que nasce o primeiro filho (Gn 4,1) e que seguem as genealogias.

4) Na hora de morrer Jesus abriu o acesso à árvore da vida, pois disse ao ladrão: “Hoje mesmo você estará comigo no paraíso” (Lc 23,43). A morte de Jesus abriu o acesso à vida através da lei do amor a Deus e ao próximo.

 

A 2ª Queda

Caim e Abel

A violência que destrói a fraternidade

Gênesis 4,1-16

Os nomes (Gn 4,1-2):

O nome Caim soa forte. A palavra vem de uma raiz que significa metal, barulho, arma. Muitos traduzem seu nome por “ferreiro”. Também significa “lança”, uma arma mortal e poderosa. Caim simboliza o primeiro filho, o primogênito de toda uma família poderosa. Sua mãe, Eva, faz um discurso quando ele nasce, dizendo que “adquiriu” um filho com a ajuda de Javé. Temos assim um jogo de palavras entre o nome do filho e o verbo adquirir. É como associar Caim a conquistador, aquele que adquire, que consegue. Tudo nele simboliza força e poder. Por isso ele tem o trabalho pesado na agricultura, tirando do solo o alimento e a vida.

O nome Abel soa fraco. A palavra significa nuvem, névoas passageiras, o nada, o vazio. Quando Abel nasce ninguém fala nada. A mãe não faz discurso quando ele nasce, nem faz jogo de palavras com seu nome. Ele mesmo é identificado como “irmão de Caim”. O irmão mais fraco vive em função do mais forte. Seu trabalho é leve. Ele vai cuidar de rebanhos.

No contraste entre o nome e a origem dos dois irmãos temos uma densa simbologia: o conflito entre Caim e Abel é o confronto entre o fraco e o forte. Sabemos que a corda sempre rompe do lado mais fraco

 

O sacrifício (Gn 4,3-5):

Os dois dirigem ao mesmo Deus suas preces, orações e sacrifícios. Então, inesperadamente, Deus se agrada do sacrifício do mais fraco. O texto é claro nesta surpresa: Deus não gostou da oferta de Caim. Mas gostou da oferta de Abel. A razão o texto não diz, apenas lembra que Deus faz uma escolha. Deus escolhe e valoriza a oferta do mais fraco. Para entendermos a mensagem do texto, basta lembrar a atitude de Jesus valorizando a oferta da viúva no templo de Jerusalém (cf. Mc 12,41-44). Esta escolha surpreendente de Deus torna Caim enfurecido. Contra Deus e contra seu irmão Abel. O forte não gosta de ser rejeitado e desprezado. Sua reação é sempre violenta. A opção de Deus pelos pobres sempre provoca a raiva nos poderosos.

 

O alerta (Gn 4,6-9):

Mas Deus dirige sua palavra a Caim. Deus faz um alerta. A atitude de Caim, fechado na sua interpretação do acontecimento, que fugiu de seu controle, pode desencadear um gesto violento. Aqui, pela primeira vez na Bíblia, aparece a palavra “pecado” (4,7). Este “pecado” é o ódio que Caim sente por Abel. É como se o texto lembrasse que podemos transgredir os mandamentos de Deus, como fizeram o homem e a mulher no Paraíso. Mas pecado sempre será uma ação violenta contra o próximo. O alerta de Deus é para que Caim consiga controlar este ódio. Será que a fúria e o desejo de eliminar Abel ainda podem ser controlados por Caim? Será que Caim quer controlar sua violência? Não parece. Ele convida seu irmão Abel para passear no campo e lá o mata. O alerta de Deus caiu no vazio. A raiva de Caím foi mais forte.

Diante da ausência de Abel, Javé faz então a Caim a pergunta fundamental e que faz a qualquer um de nós até hoje: “Onde está o teu irmão?”. Caim responde com uma mentira: “Não sei!” Tal como aconteceu no paraíso, Caim não assume as responsabilidades de seu gesto violento.

 

As conseqüências (Gn 4,10-16):

A palavra que Deus dirige a Caim deixa claro que o sangue derramado amaldiçoa a terra. Sangue derramado se junta a sangue derramado lembra o profeta Oséias (Os 4,2). A corrupção e o abandono dos mandamentos geram este sangue derramado. O castigo dado a Adão se agrava agora com o castigo dado a Caim.

No seu processo de arrependimento, Caim se dá conta que seu gesto violento pode se voltar contra ele próprio. Ele demonstra então que tem medo de que aconteça com ele o mesmo que ele fez a Abel: “Se eu matei, alguém agora pode me matar”. É como se Caim só agora se deu conta de que abriu um caminho para resolver as disputas entre os seres humanos: a violência, o assassinato, o homicídio. Desta forma, ele teme que alguém faça contra ele a mesma violência que ele dirigiu a Abel. O forte se sente fraco. A violência se volta contra o violento. Caim agora teme pela própria vida: o primeiro que me encontrar me matará! (Gn 4,14) O recado do texto parece ser: o violento perecerá pela violência que ele mesmo causou.

No fim se diz que Caim saiu da presença de Javé, e habitou na terra de Nod, a leste de Éden  (Gn 4,16). Ele foge da presença de Deus. O matador foi viver afastado de Deus e foi morar longe do Paraíso, isto é, longe da possibilidade de poder recuperar a vida.

A partir deste texto podemos entender o ensinamento de Jesus no Sermão do Monte (cf. Mt 5,21-26). Jesus lembra que uma pessoa não se torna assassina só no momento em que acaba de matar alguém. O gesto de matar é o fim de um processo que começa quando o ódio se instala em nosso coração. Começamos a agredir com palavras e com gestos. Matamos quando eliminamos pessoas de nossas vidas, rompendo relacionamentos e convivência. Tirar a vida de alguém é apenas o final de um processo que se instala com a raiva, a frustração, o ódio.

No fim, mais um sinal de esperança. Deus colocou um sinal protetor em Caim para ele não ser morto por quem o encontrasse (Gn 4,15). Como no caso da expulsão do paraíso, Deus continua cuidando. Deus protege o assassino. Pena de morte não resolve. 

 

A 3ª Queda

Lamec

O espiral da violência ameaça a todos

Gênesis 4,17-24

 

O sentimento de vingança aumenta a violência

A descendência de Caim é marcada pela violência. Ele é o fundador da primeira cidade. Para o povo da Bíblia, a cidade sempre é violenta (Cf. Sl 55,10-11). A descendência de Caim se detém em Lamec e em sua família. O nome Lamec tem um sentido incerto. Alguns interpretam este nome como “jovem forte”. E Lamec se mostra realmente forte e orgulhoso. Ele é o primeiro a tomar duas mulheres, criando a poligamia, contrariando o que Deus disse na Criação: que o homem se unirá à sua mulher e serão os dois uma só carne. É, portanto, um novo gesto de poder, rompendo as relações estabelecidas por Deus no paraíso. Os filhos de Lamec simbolizam os que trabalham com metais, os músicos e os pastores nômades.

Lamec entoa um cântico em que louva sua própria força. Ele dirige este cântico às suas duas mulheres Ada e Sela (Gn 4,23-24). Lamec se gaba dizendo que não tolerará qualquer afronta: por um arranhão que sofra, ele matará o agressor. Se receber uma ferida que deixar uma cicatriz ele matará o agressor. Lamec não leva desaforo para casa. Ele se vangloria de sua força e de sua macheza. Não precisa da proteção de ninguém. Nem de Deus. Ele é o fortão cuja vingança valerá setenta vezes sete a vingança que Caim poderia ter sofrido. Com Lamec não tem conversa. Tem briga!

A violência gerada por Caim encontra seu resultado em Lamec. A espiral da violência é agravada pelo desejo de vingança. Para Lamec não existe perdão nem reconciliação.

Sem dúvida Jesus conhece esta passagem quando lembra a Pedro que devemos ser o contrário de Lamec: perdoar não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete (cf. Mt 18,21-22).

 

Genealogias desde Adão até Noé

Gênesis 4,25 a 5,32

Genealogias são listas de nomes de pessoas de uma mesma família, de geração em geração. Estas listas foram feitas para dar a idéia de continuidade familiar, mostrando que o povo de Deus tem uma história tão antiga quanto a dos outros povos que eles conheciam. Ao mesmo tempo, elas querem dar uma explicação para a diversidade de povos existentes na Terra, mostrando que todos descendem do mesmo casal primordial. Somos todos filhos de Adão. Desta forma, estas listas de nomes fazem uma espécie de costura entre as narrativas mais detalhadas, mostrando que as sucessivas quedas narradas em Gênesis atingem toda a Humanidade.

Estas listas foram elaboradas durante o Exílio na Babilônia. Era para mostrar aos opressores que Israel tinha uma história tão antiga quanto a dos orgulhosos babilônicos que consideravam sua cidade como o centro do mundo e podiam contar histórias de antepassados com mais de 4000 anos. Para mostrar esta antiguidade, o texto bíblico estabelece uma vida bastante longa para uma série de nomes que eles conheciam. Nesta primeira lista, a vida mais curta dura 777 anos (Gn 5,31). A maioria chega a mais de 900 anos. O mais velho da lista, Matusalém, viveu 969 anos. A perfeição aparece com a figura de Enoc. Ele viveu exatos 365 anos, ou seja o tempo que dura um ano contando os dias. Durante sua vida ele andou com Deus (Gn 5,24). Depois ele foi arrebatado e desapareceu. Por ter acontecido isto com ele, Enoc acabou sendo uma figura importante nos livros apocalípticos.

No final destas sucessivas gerações surge a figura de Noé (Gn 5,32). Noé encontrou graça diante de Deus (Gn 6,8) e viveu uma vida íntegra diante de toda a corrupção em que estava mergulhada a descendência de Adão. Por isso mesmo, Noé acabou se tornando o herói que vai salvar a humanidade. Ele aparece como um novo Adão.

 

A 4ª Queda

O Dilúvio

A corrupção humana desintegra a ordem da Criação

Gênesis 6,1 a 9,29

 

Pelo tamanho do texto percebemos a importância da narrativa do dilúvio dentro de Gn 1 a 12. Estamos no coração do livro. Aqui são passados os recados mais importantes para os exilados na Babilônia. Vamos perceber também que o texto foi muito lido e relido, recebendo várias cicatrizes ao longo de sua narrativa. Provavelmente havia já uma narrativa mais antiga, do tempo de Salomão, que recebeu vários acréscimos na época do exílio.

A figura de Noé aparece como herói no livro do profeta Ezequiel (Ez 14,14). É uma figura que não pertence unicamente ao povo de Deus mas fazia parte de narrativas dos povos vizinhos que também contavam sobre a grande enchente onde apenas uma família se salvou por ter construído um grande barco. Vamos ver a narrativa por partes:

 

Gn 6,1-8: A corrupção generalizada

Os seres humanos se multiplicam sobre a terra. O texto fala de uma estranha mistura entre os filhos de Deus, isto é, os exilados, membros do povo de Deus, e as filhas dos homens, mulheres da Babilônia. Sinal de que a mistura de exilados com gente da Babilônia está acontecendo. O povo corre o risco de ser tragado pela grande cidade e desaparecer. Javé estabelece então um limite para a vida humana em cento e vinte anos (10 x 12) (Gn 6,3).

Assim como cresce a população, cresce também a maldade. Os projetos do coração humano sempre trazem a marca da maldade. O texto diz então que Deus se arrependeu de ter criado o ser humano. O ser humano não pensa em Deus ou no seu projeto de justiça. Busca realizar apenas seus projetos pessoais de maldade. Mas no meio desta humanidade corrompida, alguém consegue manter a fidelidade ao projeto de Deus. Esta pessoa é Noé. Por levar uma vida justa, Noé encontrou graça aos olhos de Deus.

 

Gn 6,9 a 7,5: A vida do justo salva a humanidade toda

Começa então a narrativa sobre Noé. Ele é apresentado como um homem bom e justo, íntegro e que andava com Deus. Fala de sua família e de seus filhos preservando a justiça diante de uma terra totalmente corrompida. Querendo acabar com a humanidade mas preservar a vida desta família justa, Deus fala a Noé para construir um grande barco com espaço bastante para salvar não apenas a família de Noé, mas também os animais. Por que Deus salva os animais e não os seres humanos? O recado do texto parece claro: ao salvar os animais Deus procura salvar a harmonia global da criação. Existe uma interdependência entre todos os seres vivos, homens e animais.

Deus preserva Noé porque quer estabelecer com a família dele uma aliança (Gn 6,18). É a primeira vez que surge esta afirmação: Deus quer estabelecer aliança com pessoas que se preservam da corrupção e vivem os mandamentos. Não apenas com um único povo, mas com a Humanidade toda, simbolizada aqui na família de Noé.

Quando a narrativa parece acabar em Gn 6,22, surge uma cicatriz. O que está em Gn 7,1-5 é um acréscimo feito pelos sacerdotes da época do Exílio, mandando preservar não apenas um casal de animais, mas sete pares de animais puros e um casal de animais impuros.

 

Gn 7,6-24: O retorno ao caos primitivo

Depois que Noé obedeceu a todas as instruções que Deus lhe deu, começou a chover forte. Abriram-se as comportas do céu e as águas superiores caem sobre a terra, enchendo tudo. Choveu durante quarenta dias e quarenta noites. As águas subiram e a arca de Noé começa a navegar no oceano formado pela chuva torrencial. Como a chuva não parava, mesmo as montanhas mais altas ficaram cobertas de água. Desta forma, pereceram todos os seres vivos sobre a face da terra. Apenas Noé, sua família e os animais dentro do barco se salvaram.

Mesmo quando parou de chover, as águas cobriram a terra por mais cento e cinqüenta dias (Gn 7,24). Foi o fim da primeira criação! A primeira criação acaba por causa da corrupção e da maldade humana. A corrupção humana coloca em perigo a criação de Deus (Os 4,1-3).

 

Gn 8,1 a 9,7: Vamos começar tudo de novo!

Todas as comportas do céu se fecham e a chuva para. Dentro da arca, Noé espera um sinal de que as águas baixaram para ele poder sair do barco. Sopra novamente um sopro de Deus e as águas baixam. O barco encalha então no topo de uma alta montanha.

Para ter a garantia de que as águas baixaram, Noé solta um corvo que volta por não encontrar pouso (Gn 8,6). Depois de um tempo, ele solta uma pomba que volta sem nada. Mais um tempo depois, ele solta novamente a pomba, que volta com um ramo verde de oliveira no bico. É o sinal que Noé estava esperando. O verde voltou. Agora, seres humanos e animais podem viver. As águas tinham baixado e a vida voltava sobre a terra. Ele saiu do barco com sua família e os animais. Noé então recebe a mesma bênção que Adão e Eva tinham recebido de Deus: encham a terra, sejam fecundos e se multipliquem (cf. Gn 1,28) A Criação começa novamente.

O relacionamento novo entre Deus e a Humanidade se concretiza numa aliança (Gn 8,20-22). Desta vez Noé toma a iniciativa e faz um altar para Deus. Ao fazer um sacrifício, este ato de fé é bem recebido por Deus que decide nunca mais amaldiçoar a terra por causa da maldade humana e de seus projetos arrogantes. Deus estabelece então o ritmo da Natureza que nunca mais acabará. Sempre haverá semeadura e colheita, frio e calor, inverno e verão, dia e noite. E este ritmo vale para todos, bons e maus, justos e injustos. E o ser humano nunca conseguirá alterar, por mais que queira ser igual a Deus (cf. Jr 31,35-37; 33,19-21; 33.25-26).

Para tentar coibir a violência humana, Deus permite que o ser humano coma carne, entregando a ele o domínio sobre os animais assim como já havia feito com os vegetais na primeira criação. O ser humano apenas não pode comer o sangue dos animais já que o sangue é a vida, e a vida de qualquer animal pertence a Deus. E mais uma vez Deus tenta controlar a violência do ser humano proibindo o derramamento de sangue.

 

Gn 9,8-17: O sinal da Aliança com a humanidade

Deus estabelece uma aliança com a humanidade, fazendo um pacto com Noé e sua família. Mas esta aliança é também com todos os animais que se salvaram do desastre: tudo o que existe nunca mais será destruído pelas águas de um dilúvio. Ou seja, quem controla as águas é o próprio Deus e ele nunca permitirá que estas águas descontroladas devastem a terra novamente. Para o povo do cativeiro esta promessa de Deus tinha um significado todo especial. Veja como Deus se dirige ao povo exilado: “Como no tempo de Noé, agora faço a mesma coisa: jurei que as águas do dilúvio nunca mais iriam cobrir a terra; da mesma forma, agora eu juro que não deixarei minha ira se inflamar contra você e que nunca mais vou castigá-la. Mesmo que os montes se retirem e as colinas vacilem, meu amor nunca vai se afastar de você, minha aliança de paz não vacilará, diz Javé, que se compadece de você” (Is 54,9-10).

O sinal desta aliança entre Deus e a Humanidade é o arco-íris. Desta forma, cada vez que vier uma tempestade e surgir o arco-íris, pois Deus vai se lembrar de sua aliança com Noé e, por isso, o povo pode ficar tranqüilo, pois não haverá nenhuma devastação por um dilúvio. Esta aliança é com todos os seres vivos. Deus não se preocupa unicamente com os seres humanos, mas com toda forma de vida que existe sobre a terra. O ser humano deve se integrar na obra maior de Deus que é a Criação toda! Fica assim um alerta contra a transgressão desta aliança entre Deus, a Humanidade e a Natureza. Como não cansa de recordar o profeta Oséias, é a maldade humana que causa a degradação do ambiente, colocando em risco toda a Criação de Deus, atingindo os animais que são inocentes (cf. Os 4,1-3).

 

Gn 9,18-29: O ser humano é ruim mesmo!

Mas a família de Noé não consegue viver esta aliança na nova criação. Dentre os filhos de Noé, Cam não consegue manter a integridade pedida por Deus. Ele ridiculariza seu pai que tinha bebido demais e ficou nu dentro da tenda. Os outros dois irmãos souberam manter e respeitar a dignidade de Noé. Desta forma, Noé abençoa seus dois filhos íntegros e amaldiçoa seu filho zombador e desrespeitoso. Novamente surge a maldição sobre a terra. Vai começar tudo de novo! Parece que o ser humano não consegue viver na comunhão com Deus e que a maldade humana não pode ser controlada pelo próprio ser humano. Cresce a maldição que se espalha na humanidade tentando neutralizar e aniquilar a bênção que a vida recebeu no dia da sua criação.

 

Genealogias desde dilúvio até a torre de Babel.

As diferentes famílias dos povos

Gênesis 10,1-32

Esta lista genealógica busca dar uma visão geral da geografia da época. Por trás de cada nome de pessoa temos na verdade um povo vizinho de Israel. Todos os povos, diz a Bíblia, descendem de um dos três filhos de Noé. Já vimos que a descendência de Cam não foi abençoada. Por isso mesmo, todos os descendentes de Cam são mostrados como inimigos do povo de Israel.

Vemos também que não se fala mais da idade destes personagens. É que os povos que eles representam continuam existindo! As informações dentro do texto querem mostrar como os povos foram se espalhando, todos ainda meio aparentados e falando a mesma língua.

Numa visão geral, podemos dizer que os descendentes de Jafé são os que habitam as atuais ilhas gregas, na Europa. Os descendentes de Cam são Etiópia, Egito e os povos cananeus que habitavam a Palestina antes da chegada dos israelitas. Existem mais detalhes nesta lista, já que são povos mais conhecidos, com informações comuns como a lembrança de Nemrod, o valente caçador. Nesta lista é importante notar os povos inimigos: Babel (Babilônia) é apresentada como descendente do amaldiçoado Cam. O mesmo vale para Assur, pátria dos violentos assírios e Cáftor, pátria dos rivais filisteus. As cidades amaldiçoadas de Sodoma e Gomorra também estão nesta lista dos descendentes de Cam.

Os descendentes de Sem são os israelitas e seus parentes mais próximos. A descendência de Sem começa nesta lista de maneira muito resumida, mas será ampliada depois do episódio da torre de Babel.

 

A 5ª Queda

A Torre de Babel

Deus põe um limite à arrogância humana

Gênesis 11,1-9

 

Durante muito tempo, a maior cidade da Antiguidade foi Babel ou Babilônia. Babel significa “Portal dos deuses”. A cidade tinha construções imponentes. Seus jardins suspensos eram considerados uma das maravilhas do mundo antigo. A maior construção em Babilônia era uma torre construída no centro da cidade, sobre um templo muito antigo. Na época do Exílio da Babilônia, os exilados contemplavam esta torre, chamada de Etemenanki, nome que significa “O alicerce do céu e da terra”. O rei Nabucodonosor levou 43 anos para construir, num cubo perfeito de 92 m de largura, 92 m de altura e 92 m de comprimento, uma torre que simbolizasse suas conquistas e seus feitos. A torre dominava totalmente a cidade. Era vista de qualquer um dos bairros que se estendiam ao longo do rio Eufrates.

Olhando a grandeza desta torre, entendemos o texto sobre a Torre de Babel em Gn 11. A torre simbolizava as conquistas e o império de Nabucodonosor. Ela é o símbolo da arrogância humana que quer alcançar o firmamento do céu. As palavras da Bíblia falam que os homens vão “cozer tijolos no fogo” para construir a torre (Gn 11,3). Calcula-se hoje que para fazer a torre Nabucodonosor precisou de 17 milhões de tijolos cozidos. E disseram: “vamos construir uma cidade e uma torre que chegue até o céu, para ficarmos famosos...” (Gn 11,4). Até hoje os governantes querem fazer construções em busca de fama e de nome. Arrogância, auto-suficiência, orgulho, exploração, dominação, poder. Tudo isso está associado à construção da torre. Todos ainda tem a mesma língua e estão unidos no mesmo projeto arrogante de dominação.

Então Deus decide descer para ver a cidade e a torre que os homens estão construindo. Parece que não aprenderam nada com o dilúvio. Voltaram a ser os seres humanos de antes. Lançam-se em empreendimentos imperiais, querendo dominar e conquistar. Continuam querendo chegar ao céu, o lugar de Deus. A grande tentação de ser igual a Deus sempre volta nos empreendimentos humanos. Começou em nível pessoal com a pretensão de Adão e Eva e aqui alcança o nível de dominação universal. Todos os que se lançam na construção da torre “falam a mesma língua”, ou seja, todos estão unidos no mesmo projeto de conquista e de dominação.

Javé então resolve confundir as línguas para que um não entenda a língua do outro. Diferentes línguas, diferentes projetos. Agora os seres humanos não se entendem mais. Com esta confusão, os humanos se espalham pela terra, cada qual vivendo com os de sua língua, unidos em seus projetos menores. Mas volta e meia algum destes povos cai na tentação de dominar, conquistar e destruir os outros, lançando-se na construção de uma torre que os torne famosos.

 

Genealogias desde a torre de Babel até Abraão e Sara

As origens do povo de Israel

Gênesis 11,10-32

Temos aqui a lista detalhada dos descendentes de Sem. Esta lista mostra uma série de nomes dos antepassados do povo de Israel. Percebemos que a idade destes personagens vai diminuindo gradativamente. A vida vai de 600 anos até 148 anos. Já não se vive mais como antigamente. Aos poucos, a idade humana vai se adaptando à vida normal de uma pessoa. Sinal de que estão chegando no tempo presente.

O importante nesta lista é situar o povo de Israel na história da humanidade. Depois de apresentar a descendência de Adão e a descendência de Noé, a lista apresenta agora os antepassados diretos de Abraão. As figuras de Nacor e de Taré simbolizam as origens históricas do povo de Deus. Apresentam os detalhes sobre estes personagens, vivendo em “Ur dos caldeus”. Esta informação permite dizer que esta genealogia foi feita na época dos exilados na Babilônia, habitada então pelos povos caldeus cujo rei era Nabucodonosor. Sinal de que os exilados se identificam com o drama de Tare e de seus familiares, prontos para saírem de Ur em direção à futura terra prometida. Vemos também que Abrão casa com Sarai ainda em Ur dos caldeus. Foi Taré, o pai de Abraão, quem tomou a decisão de tirar sua família de Ur dos caldeus e levá-los em direção à terra de Canaã (Gn 11,31). Eles chegam até Harã, terra dos antepassados do povo de Israel. Na profissão de fé lembrada no livro do Deuteronômio, o povo ainda se identifica com Harã. Por isso se apresentam diante de Deus dizendo: “Meu pai era um arameu errante” (Dt 26,5). Taré, o pai de Abraão, morre em Harã, longe da terra prometida, mas não mais em Ur dos exilados. Tudo está preparado para Abraão assumir sua missão de recuperar a bênção da vida em favor da Humanidade.

Sinais de Esperança

Chegando ao fim da História das Cinco Quedas, surge uma nova pergunta: “Qual o futuro da humanidade? Existe futuro?” Nas quedas anteriores houve castigo da parte de Deus, mas a misericórdia era mais forte e se manifestava de várias maneiras: fez roupa para o homem e a mulher expulsos do paraíso (Gn 3,21);, fez um sinal protetor em Caim, para que não fosse morto por motivo de vingança (Gn 4,15); salvou Noé e sua família das águas, para que a humanidade pudesse continuar e ter um futuro (Gn 6,8.18). De que maneira se manifestará agora a misericórdia divina, pois a humanidade inteira está dividida e dispersa? A misericórdia se manifesta no chamado de Abraão e Sara. Será através deles que todas as famílias da terra serão abençoadas (Gn 12,3). Na história se Abraão e Sara se abre para toda a humanidade o Caminho da Esperança  em direção à recuperação da bênção da vida.

 

III

Gênesis 12,1ss

ABRAÃO E SARA

O Caminho da Esperança

Gênesis 1 a 11 fez o diagnóstico e constatou o péssimo estado de saúde da humanidade. Agora, em Gênesis 12, nos é oferecido o remédio e inicia-se o tratamento para poder chegar à saúde perfeita e recuperar a bênção da vida, perdida por causa da transgressão da Lei de Deus. É disso que vamos falar nesta última parte.

Para o povo do cativeiro foi muito importante o processo de releitura das histórias do passado para poder redescobrir os apelos de Deus na realidade dolorosa do exílio. Uma das histórias que voltou com força durante o cativeiro foi a de Abraão e Sara. Foi na história deste casal que o povo exilado encontrou a chave para desbloquear o impasse criado pelo cativeiro. O caminho da saída que eles encontraram está expressa neste convite dos discípulos e discípulas de Isaías para o povo do cativeiro:

“Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus! Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de onde foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, sua mãe. Quando os chamei eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)

Este convite traz o modelo que vai orientar a caminhada do povo de Deus daqui para a frente. Ele se dirige a pessoas que procuravam a saída do impasse através da busca simultânea de Deus e da Justiça: “Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus!”

A busca da justiça tem a ver com a observância da Lei de Deus, cujo resultado é a convivência humana mais justa. A procura de Deus tem a ver com o contato permanente com Deus e com a promessa que ele fez de estar sempre conosco (Is 49,14-16; Ex 3,12). As duas buscas, tanto da justiça como de Deus, são como os dois lados da mesma medalha. Buscar Deus sem buscar a justiça leva a encontrar um ídolo, e não ao Deus vivo que tirou o povo do Egito. Buscar a justiça ou a observância da Lei sem levar em conta Deus e a sua promessa leva à ilusão de o ser humano poder salvar-se a si mesmo pelo próprio esforço, o que fatalmente o levará ao fracasso e ao desespero.

Como realizar esta dupla busca de Deus e da justiça? O convite dos discípulos de Isaías responde apontando para o exemplo de Abraão e Sara. Os dois ensinam como fazer a busca simultânea de Deus e da justiça, pois sendo poucos e fracos como o próprio povo no cativeiro, eles conseguiram a bênção de Deus e se multiplicaram.

Como foi que os discípulos e as discípulas de Isaías chegaram a descobrir esta resposta? Como descobriram este remédio para poder recuperar a bênção da vida? Foi através do longo e doloroso aprendizado vivido no cativeiro. Na primeira parte, já vimos alguns aspectos deste aprendizado. Agora vamos ver de perto como descobriram na história de Abraão e Sara o Caminho da Esperança e em que consiste este Caminho da Esperança.

O impasse criado pelo cativeiro: a dolorosa experiência dos limites da observância

No êxodo foi concluída a aliança entre Deus e o povo (Ex 19,1 a 24,11). Deus tinha libertado o povo do Egito e disse: “Vocês viram o que eu fiz aos egípcios e como carreguei vocês sobre asas de águia e os trouxe até mim. Portanto, se me obedecerem e observarem a minha aliança, vocês serão minha propriedade especial entre todos os povos, porque a terra toda pertence a mim. Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Ex 19,4-6). E o povo respondeu "Faremos tudo o que Javé mandou" (Ex 19,8). Eles se comprometeram a observar em tudo a lei de Deus (Ex 24,3-8). A observância das cláusulas da Aliança era a condição para o povo poder continuar a ser o povo de Deus. Não observando os mandamentos, eles se condenariam a si mesmos à escravidão.

A experiência foi muito dolorosa. Enganado pela ideologia da monarquia e desviado pela própria fraqueza, o povo não deu conta de observar os Mandamentos. Diz o salmo: “Por quarenta anos aquela geração me desgostou. Então eu disse: É um povo de coração transviado que não reconhece os meus caminhos” (Sl 95,10). A transgressão da Lei de Deus trouxe consigo a quebra da aliança, a perda da liberdade e a desarticulação progressiva da convivência, tanto familiar como social.

No século VII aC, época do rei Josias, ainda tentaram uma reforma num último esforço para levar o povo de volta à observância da lei e, assim, evitar a desintegração total. Esta reforma, chamada deuteronomista, colocava o povo diante da escolha: bênção ou maldição, vida ou morte. É como se dissesse: “Agora vai depender só de vocês! Se observarem a Lei, terão a bênção, prometida por Deus a Abraão e Sara. Se não observarem, terão a maldição” (cf. Dt 28,1-3. 15-16), pois “os que Ele abençoar possuirão a terra, e os que Ele amaldiçoar serão excluídos” (Sl 37,22).

O apelo da reforma não adiantou. Os Mandamentos não foram observadas, o cupim da falsa imagem de Deus esvaziou a fé por dentro, e a maldição anunciada caiu sobre o povo. Tudo foi destruído pelo exército do rei da Babilônia. As terríveis ameaças de maldição e de exclusão, descritas nos livros do Deuteronômio (Dt 28,15-46) e do Levítico (Lv 26,14-40), se realizaram. Para a maioria, o cativeiro era o resultado evidente e fatal da não observância da lei (Lm 1,8.14.18; 3,42; 4,13; 5,7). Era a prova trágica de que eles tinham escolhido a morte e não a vida. O povo se sentia como amaldiçoado e excluído pelo próprio Deus. “Javé nos abandonou!” (Is 49,14) A morte venceu a vida. “Acabou-se minha esperança que vinha de Javé” (Lm 3,18). Fracassou a Aliança! Copo quebrado em mil pedaços não tem conserto! A maioria largou tudo e adotou a religião do império, cujo deus Marduc parecia mais forte.

Uma reforma que só insiste na observância da Lei, na busca da justiça, nasce de uma raiz falsa, pois desconhece a misericórdia de Deus, a busca de Deus. Na hora do fracasso da aliança (que de fato ocorreu), tal reforma não oferece nenhuma esperança de se poder refazer a amizade com Deus. Em vez de levar à justiça, leva ao desespero. Assim, a lei que, no êxodo, tinha sido dada para ajudar o povo a conquistar a liberdade e a justiça, tornou-se na realidade o instrumento da sua condenação. O tiro saiu pela culatra. Este era o impasse. Qual a saída?

A redescoberta da promessa, da gratuidade, da esperança

Existe saída? Jeremias responde: “Existe sim!” Apesar do desespero geral do cativeiro, ele dizia: “Temos motivo de esperança, pois o sol vai nascer amanhã!” A certeza do nascer do sol não depende da observância da lei, mas está impressa na lógica da criação. É pura gratuidade, expressão do bem-querer do Deus Criador. É promessa de proteção que não falha. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus, mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da seqüência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração e diz: “Como é certo que eu criei o dia e a noite e estabeleci as leis do céu e da terra, também é certo que não rejeitarei a descendência de Javé e de meu servo Davi. Quando essas leis falharem diante de mim - oráculo de Javé - então o povo de Israel também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre” (Jr 33,25-26; 31,36).

Esta nova maneira de olhar a natureza modificou os olhos e abriu um novo horizonte. “Deus nos amou primeiro!”, dirá São João mais tarde (1Jo 4,19). A certeza da presença amorosa de Deus para além do fracasso da observância provocou uma busca renovada dos sinais de Deus na natureza que nos envolve e da qual depende toda a nossa vida: as chuvas, as plantas, as fases da lua, o sol, as estações do ano, as sementes, etc. Tudo tornou-se sinal da presença gratuita de Deus.

Assim, a partir do impasse do cativeiro a busca simultânea de Deus e da justiça, da gratuidade e da observância, tomou um rumo mais profundo, menos dependente dos sinais (sacramentos) tradicionais do Templo, da monarquia, da posse da terra, e mais ligado aos sinais (sacramentos) de Deus na natureza. Criou-se uma interferência mútua: de um lado, Javé, o Deus libertador que no êxodo entregou a Lei ao povo e concluiu com ele uma aliança, começa a ser experimentado como o Deus Criador do Universo; de outro lado, o Deus Criador do Universo vai tomando o rosto de Javé, o Deus libertador e familiar do êxodo. História e Criação se aproximam. Nos dois transparecem os traços do rosto de Javé, o Deus do povo, Deus libertador e criador, Deus Pai, Mãe, Marido e Irmão mais velho. Esta simbiose de Deus criador e Deus libertador está na raiz da busca simultânea de Deus e da Justiça.

Assim, aos poucos, ao lado da atenção dada às dez palavras divinas que estão na origem da Aliança, o povo começa a dar maior atenção às palavras divinas que estão na origem das criaturas. Ele descobre que lá também existem dez palavras. São as Dez Palavras ou os Dez Mandamentos da Criação. O autor que fez a redação final da narrativa da Criação (Gn 1,1-2,4ª) teve a preocupação em descrever toda a ação criadora de Deus por meio de exatamente Dez Palavras. Na narrativa aparece dez vezes a expressão “e Deus disse”:

 

1. Gn 1,3    E Deus disse: haja luz

2. Gn 1,6    E Deus disse: haja um firmamento

3. Gn 1,9    E Deus disse: as águas se juntem e apareça o continente

4. Gn 1,11  E Deus disse: a terra se torne verde de verdura

5. Gn 1,14  E Deus disse: haja luzeiros

6. Gn 1,20  E Deus disse: as águas produzam seres vivos

7. Gn 1,24  E Deus disse: que a terra produza seres vivos

8. Gn 1,26  E Deus disse: façamos o ser humano

9. Gn 1,28  E Deus disse: sejam fecundos

10. Gn 1,29                                                                     E Deus disse: dou as ervas para vocês comer.

 

 

   E Deus disse

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A Lei de Deus entregue ao povo no Monte Sinai tem no seu centro as dez palavras divinas da aliança. Da mesma maneira, a narrativa da Criação tem no seu centro dez palavras divinas (Gn 1,3.6.9.11.14.20.24.26.28.29). Assim como fez para o seu povo, Deus fez para as suas criaturas: fixou para elas “uma lei que jamais passará” (Sl 148,6). Dez vezes Deus falou, e dez vezes as coisas começaram a existir. Falou: Luz!, e a luz começou a existir. Falou: Terra!, e a terra apareceu. Gritou os nomes das estrelas, e elas começaram o seu percurso no firmamento. “Ele diz e a coisa acontece, ele ordena e ela se afirma” (Sl 33,9). A harmonia do cosmo que vence a ameaça do caos é fruto da obediência das criaturas ao Decálogo da Criação.

O povo não observou a Lei da Aliança. Por isso veio a desordem do cativeiro. As criaturas, ao contrário, sempre observam a Lei da Criação. Por isso existe a ordem do cosmo. No Pai-Nosso Jesus dirá: “Seja feita a vossa vontade na terra assim como é feita no céu”. Jesus pede que nós possamos observar a Lei da Aliança com a mesma perfeição com que o sol e as estrelas do céu observam a Lei da Criação.

Os dois decálogos: o decálogo da Aliança e o decálogo da Criação

Temos dois decálogos: o decálogo da Criação e o decálogo da Aliança. O decálogo da criação descreve a ação de Deus, o decálogo da aliança descreve a resposta do homem. O decálogo da criação já existia muito antes do decálogo da aliança. Existia desde a criação do mundo e era visível na ordem do cosmo, mas a sua existência só foi descoberta, quando a observância do decálogo da aliança entrou em colapso e criou o impasse do cativeiro.

Esta descoberta do decálogo da criação foi o resultado da teimosia da fé dos pequenos, de homens e mulheres como Oséias e Gomer, Jeremias, os discípulos e discípulas de Isaías e tantos outros, pais e mães de família, que continuavam na busca do Deus criador, cuja promessa de vida ultrapassa a nossa observância. A total gratuidade da presença universal de Deus criador enche de esperança os seres humanos no meio da sua fraqueza. A bondade imensa de Deus, expressa na criação e que faz chover sobre bons e maus (Mt 5,45), deu coragem ao povo do cativeiro para recomeçar com garra a busca da justiça, a observância da lei de Deus. Agora, eles observam a lei da aliança, não mais para poder merecer a salvação, e sim para poder agradecer e retribuir a imensa bondade com que Deus os amou primeiro e cujo amor não depende da observância da lei. Eles sabem que nada nem mesmo o fracasso pode separá-los do amor de Deus (Is 40,1-2ª; 41,9-10.13-14; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; 54,7-8; etc.)

( ) Existe uma ligação entre os dois decálogos, entre a ordem da natureza e a ordem da convivência humana, entre a busca de Deus e a busca da Justiça. A ordem da natureza não depende da observância dos mandamentos, pois o sol nasce independentemente do fato de eu observar sim ou não a Lei de Deus. Mas a transgressão dos mandamentos ( ) gera ganância e corrupção, produz violência e derramamento de sangue e faz o cosmo virar caos a ponto de colocar em perigo a sobrevivência da vida humana e de pôr em risco a ordem do planeta Terra, nossa Mãe. Cabe ao ser humano de zelar pela ordem da Criação e pela conservação do meio ambiente através da prática da justiça, expressa nos Dez Mandamentos da aliança.

A fé no Deus Criador abriu um horizonte, cujo alcance para a vida só se compara com o horizonte que a ressurreição de Jesus abriu para os discípulos confrontados com a barreira intransponível da morte. A descoberta do decálogo da Criação é como se fosse um fundamento novo colocado debaixo de um prédio que ameaçava cair por falta de observância da parte dos engenheiros e operários. Você não vê o fundamento novo, pois está debaixo do chão, mas você sabe que ele existe, pois o prédio pode até balançar, mas não cai. A fé na gratuidade da presença universal de Deus torna-se a infra-estrutura da observância dos mandamentos.

Foi assim que eles conseguiram ultrapassar o impasse do cativeiro e que nasceu a união das duas buscas de Deus e da Justiça, tão bem expressa no salmo:

Amor e Fidelidade se encontram,

Justiça e Paz se abraçam.

A Fidelidade brotará da terra,

e a Justiça se inclinará do céu.

Javé nos dará a chuva,

e nossa terra dará o seu fruto.

A Justiça caminhará à frente dele,

a salvação seguirá os seus passos (Sl 85, 11-14)

(colocar o título uma alínea mais para baixo)

O caminho é este: busca de Deus e procura da justiça; gratuidade da promessa e observância da lei; integridade da criação e justiça na convivência humana; amor a Deus e amor ao próximo; luta e festa! É este caminho que amarra por dentro as histórias de Abraão e Sara de Gênesis 12 a 22.

O caminho de Abraão e Sara: caminho de todo o povo

As histórias Abraão e Sara refletem não em primeiro lugar a história do casal no longínquo passado de 1800 antes de Cristo, mas são modelo, arquétipo, para o povo do Cativeiro saber como combinar a busca de Deus e a busca da justiça. Deixam transparecer como foi difícil para o povo unir estas duas dimensões da caminhada que Deus estava pedindo e que os discípulos estavam propondo. 

Javé disse a Abrão: "Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Eu farei de você um grande povo, e o abençoarei; tornarei famoso o seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra serão abençoadas". Abrão partiu conforme lhe dissera Javé. E Ló partiu com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que possuíam e os escravos que haviam adquirido em Harã. Partiram para a terra de Canaã e aí chegaram.  (Gn 12,1-5)

A promessa de ser pai de um povo, fonte de bênção para toda a humanidade, é bonita e atrai. Mas a condição para (  ) poder ser pai de um povo era ter ao menos um filho. Abraão já tinha 75 anos e sua esposa Sara era estéril. A condição para Abraão crer na promessa de Deus era crer que Sara sua mulher pudesse ter um filho. Difícil crer nesta promessa! Era mais fácil crer na observância, isto é, no projeto que os dois iam elaborando como possível alternativa para uma promessa aparentemente impossível. Assim fizeram Abraão e Sara. Assim fazemos todos nós. Era muito difícil para eles combinar as duas buscas: de Deus e da justiça. Eles foram aprendendo a duras penas, ao longo dos anos.

Foram três as propostas alternativas que os dois fizeram para ficar só com a observância, sem precisar crer na promessa, sem precisar levar a sério a busca de Deus. Mas foram três as pancadas que levaram, três os impasses que enfrentaram, três os fracassos que sofreram, até renascer e descobrir o caminho. No fim aprenderam! Vejamos as três propostas:

A primeira proposta alternativa de Abraão e Sara à promessa de Deus: Eliezer

Humanamente falando, a promessa de Deus ultrapassava as possibilidades reais do casal. Abraão já era velho e Sara não podia ter nenê. A primeira proposta de Abraão para tentar uma saída foi a de apresentar Eliezer como alternativa (Gn 15,1-3). Conforme as leis da época ele poderia adotar Eliezer como filho. O filho de Eliezer seria neto de Abraão e a promessa de ser pai de um povo estaria garantida. No fundo, Abraão (o povo do cativeiro, todos nós) não acreditava na promessa e achava que a realização da mesma ia ter que depender do esforço dele mesmo. Mas Deus disse: “Eliezer, não! Vai ter que ser filho seu!” (cf. Gn 15,4). É a primeira rasteira. Tudo voltou à estaca zero!

A segunda proposta alternativa de Abraão e Sara à promessa de Deus: Ismael

Para poder crer na promessa, Abraão devia crer em Sara, e Sara devia crer em Abraão. Não basta crer em Deus abstratamente. A promessa está ligada a pessoas concretas. “Como se pode realizar isto se não conheço homem?” (Lc 1,34) A segunda proposta foi a de apresentar Agar, escrava de Sara, para ser mãe do futuro filho (Gn 16,1-16). É que, novamente, os dois não deram conta de crer na promessa. Achavam que ela só poderia realizar-se através de Agar, isto é, através da observância do projeto que eles tinham imaginado e proposto a Deus. Nasceu Ismael, filho de Abraão e Agar. O nome Ismael significa “Deus ouviu!” Através de Ismael, filho de Abraão, o povo estaria garantido. Novamente, vem a resposta de Deus: “Ismael não. Terá que ser filho de Sara!” (Gn 17,15-19). É a segunda rasteira. E novamente, tudo voltou à estaca zero!

A terceira proposta alternativa de Abraão e Sara à promessa de Deus: Isaque

Abraão recebeu a visita de três peregrinos e os recebeu com muita hospitalidade (Gn 18,1-8). Os três diziam que Sara ia ter nenê no ano seguinte. Sara riu (Gn 18,9-15). Abraão também riu (Gn 17,17). Todos rimos, porque não acreditamos na promessa. Só acreditamos no que nós fazemos para Deus, e não no que Deus é capaz de fazer por nós. Mas finalmente, Abraão consegue crer em Sara e nasce o filho que recebe o nome de Isaque, o que significa Risada (Gn 21,1-7). De Deus não se ri. Falou, está falado! Podes crer! O nascimento de Isaque clareou o horizonte. Finalmente, o povo estava garantido, a bênção prometida ia poder irradiar-se para todas as nações da terra. Mas aqui acontece uma coisa muito sutil. Agora que Isaque nasceu, a esperança de Abraão tem um fundamento concreto e palpável: o filho. E imperceptivelmente o fundamento da esperança passa de Deus que oferece o dom, para o dom oferecido por Deus. E aí a palavra de Deus chega até Abraão: “Vai sacrificar o teu filho Isaque no lugar que eu te mostrar!” (Gn 22,1-2). É a terceira rasteira. Estaca zero de novo. Tudo voltou para antes do começo.

A resposta final de Abraão e Sara à promessa de Deus: a entrega total

Desta vez, Abraão não discute, não diz nada, apenas age (Gn 22,3-10). Ele é obediência muda. Não se fica sabendo o que ele pensa. Cada leitor ou leitora deve preencher esta parte que falta confrontando sua atitude com a de Abraão. No último momento, Deus intervém. Não quer a morte do filho (Gn 22,11-19). Basta a obediência! É neste momento que Abraão alcança a justiça e que a busca de Deus e a busca da justiça se identificam plenamente! “Abraão acreditou em Deus e isto lhe foi imputado como Justiça, e ele foi chamado amigo de Deus” (Tg 2,23; Rom 4,3; Gn 15,6). A carta aos hebreus interpreta este episódio da seguinte maneira: “Abraão acreditava que Deus é capaz de tirar vida da própria morte”, e acrescenta: “Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,17-19). Até hoje!

Poderíamos continuar o comentário da carta aos hebreus dizendo: Todos nós, casados ou solteiros, todos e todas, temos um Isaque, algo do qual não abrimos mão, pois o consideramos o fundamento único da nossa existência. Chegará o dia em que Deus pede: Sacrifique esse seu Isaque, para que a esperança seja colocada em Deus e para que, a partir dela, possa nascer a prática da justiça, fruto da gratuidade total.

A resposta definitiva à promessa de Deus: fé de Jesus na ressurreição

Na hora de morrer, pendurado nu numa cruz, exposto ao ridículo público como bandido marginal, condenado por dois tribunais como subversivo e ateu, Jesus está envolvido pela escuridão da natureza (Mc 15,33), pelo desprezo e sarcasmo dos passantes, pelas injúrias das autoridades, pelos insultos dos ladrões (Mc 15,29-32), pela solidão que afastou dele os parentes e amigos (Mc 15,40) e pelo abandono do próprio Deus (Mc 15,34). (  ). Humanamente falando, sua vida terminou num fracasso! Fracasso igual ou pior do que o fracasso da aliança na época do cativeiro! A morte ia engolir tudo. Seu corpo ia ser jogado em cova rasa ou ficaria pendurado na cruz até ser comido pelos animais. Pois este era o destino dos crucificados. Final trágico! (  ) Negação de tudo que tinha ele vivido e ensinado ao povo. 

Mas dentro de Jesus, a fé na promessa do amor de Deus Pai é maior que o abandono que está sentindo. A tortura e os insultos não conseguiram quebrá-lo por dentro. A mesma certeza que animava os discípulos e as discípulas no cativeiro, o anima por dentro e exprimem o que ele estava sentindo:

“O Senhor me abriu os ouvidos e eu não resisti, nem voltei atrás.

Oferecei minhas costas aos que me batiam

e o queixo aos que me arrancavam a barba.

Não escondi o rosto para evitar insultos e escarros.

O Senhor é a minha ajuda! Por isso, estas ofensas não me desmoralizam.

Faço cara dura como pedra, sabendo que não vou ser um fracassado.

Perto de mim está quem me faz justiça.

Quem tem coragem de depor conta mim?

Vamos comparecer juntos no tribunal!

Quem tem algo contra mim? Que se apresente e faça a denúncia!

O Senhor é a minha ajuda! Quem tem coragem de condenar-me?

Todos eles vão cair aos pedaços, como roupa velha comida pela traça”! (Isaías 50,4-9)

Jesus expressa sua fé na promessa de Deus soltando o grito na hora de morrer, pois sabe que Deus escuta o clamor dos pobres (Mc 15,37; Ex 2,24;3,7). A carta aos hebreus comenta: “Durante a sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus, em alta voz e com lágrimas, ao Deus que o podia salvar da morte. E Deus o escutou, porque ele foi obediente” (Hb 5,7). Deus escutou Jesus ressuscitando-o da morte. Por isso, Jesus “tornou-se a fonte da salvação eterna para todos aqueles que lhe obedecem” (Hb 5,9).

A ressurreição de Jesus confirmou o caminho proposto pelos discípulos e discípulas de Isaías e percorrido por Abraão e Sara; confirmou o novo olhar com que devemos olhar para a Bíblia e com que devemos orientar nosso relacionamento com o planeta Terra; confirmou que a busca simultânea de Deus e da Justiça reverte o processo da degradação do meio ambiente, acelera a conquista da bênção para todos, e garante a realização da construção do paraíso.

É este o resultado último e definitivo do remédio que começou a ser aplicado em Gênesis 12 e que visa a construção da vida plena de acordo com o projeto de Deus, expresso na maquete do Paraíso. 

 “Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de onde foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, que os deu à luz, Quando os chamei eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)