{"id":11131,"date":"2022-03-31T20:27:28","date_gmt":"2022-03-31T23:27:28","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=11131"},"modified":"2022-03-31T20:27:33","modified_gmt":"2022-03-31T23:27:33","slug":"redefinicao-da-critica-marxista-da-religiao-por-newton-teixeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/redefinicao-da-critica-marxista-da-religiao-por-newton-teixeira\/","title":{"rendered":"Redefini\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica marxista da religi\u00e3o. Por Newton Teixeira"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Redefini\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica marxista da religi\u00e3o<\/strong>. Por Newton Teixeira Carvalho<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/9903_7669.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11132\" width=\"778\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/9903_7669.jpg 640w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/9903_7669-300x149.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Com a chegada do cristianismo revolucion\u00e1rio e da teologia da liberta\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina estamos diante de uma nova realidade hist\u00f3rica, a exigir uma releitura da dimens\u00e3o religiosa na doutrina marxista e do pr\u00f3prio materialismo dial\u00e9tico, tamb\u00e9m de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, no fim dos anos 1950 e in\u00edcio de 1960, com a elei\u00e7\u00e3o do papa Jo\u00e3o XXIII e tamb\u00e9m com o advento da revolu\u00e7\u00e3o cubana, o cristianismo de liberta\u00e7\u00e3o emerge no cen\u00e1rio sociopol\u00edtico e cultural da Am\u00e9rica Latina, conforme destaca Fabio Mascaro Querido, no livro Michael Lowy \u2013 Marxismo e cr\u00edtica da modernidade, Boitempo, 2016, p. 165.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsse fen\u00f4meno, conhecido como teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 muito mais profundo e amplo que uma mera corrente teol\u00f3gica: na verdade, ele \u00e9 um vasto movimento social \u2013 que propomos chamar de \u2018cristianismo de liberta\u00e7\u00e3o\u2019 \u2013 com consequ\u00eancias pol\u00edticas de grande alcance, afirma Lowy no j\u00e1 citado A guerra dos deuses: religi\u00e3o e pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina, seu principal trabalho sobre o assunto, redigido na d\u00e9cada de 1990. Em sua trajet\u00f3ria, \u00e9 exatamente nesse momento \u2013 que coincide com a intensifica\u00e7\u00e3o de suas visitas ao Brasil \u2013 que se ampliam suas pesquisas em torno das culturas religiosas e do cristianismo anticapitalista na Am\u00e9rica Latina, abordando \u201cpela primeira vez\u201d, segundo ele, \u201ctemas brasileiros: a quest\u00e3o da religi\u00e3o e pol\u00edtica no Brasil e na Am\u00e9rica Latina, em torno da teologia da liberta\u00e7\u00e3o.\u201d (Fabio Mascaro Querido, p. 165)<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a partir dos anos 1970, Hugo Asmann, Leonardo e Clodovis Boff e Frei Betto foram as difusores da teologia da liberta\u00e7\u00e3o que, nada mais \u00e9 do que a real op\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica na defesa dos interesses dos pobres, em raz\u00e3o da in\u00e9rcia do Estado e tamb\u00e9m ricos em socorr\u00ea-los e consequente aus\u00eancia de materializa\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais, com a falta de moradia e de moradia decente, de sal\u00e1rio digno, de emprego etc., a demonstrar que n\u00e3o era poss\u00edvel a Igreja permanecer distante destes fatos, preocupa\u00e7\u00e3o primeira de Jesus Cristo, quando esteve entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim \u00e9 que Michael Lowy, \u201cA Teologia da liberta\u00e7\u00e3o acabou?\u201d Teoria e Direito, Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, n. 31, 1996, nos esclarece, com maestria, o que \u00e9 esse movimento em prol dos pobres a afirmar que: \u201ca teologia da liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a ponta vis\u00edvel de um iceberg, isto \u00e9, de um imenso movimento social composto por comunidade de base, pastorais populares \u2013 da terra, oper\u00e1ria, ind\u00edgena, da juventude -, por redes do clero progressista (especialmente nas ordens religiosas), associa\u00e7\u00f5es de bairros pobres, movimentos de camponeses sem-terra etc. Este movimento, que poder\u00edamos chamar de cristianismo da liberta\u00e7\u00e3o, nasceu no curso dos anos de 1960, como a primeira esquerda crist\u00e3 brasileira (1960-1962) e com o sacrif\u00edcio de Camilo Torres, o padre guerrilheiro morto em combate em 1966. Encontrou sua express\u00e3o religiosa mais avan\u00e7ada na teologia da liberta\u00e7\u00e3o, a partir de 1971, ano da publica\u00e7\u00e3o das obras pioneiras de Gustavo Guti\u00e9rrez e Hugo Asmann. Enfim, forneceu boa parte dos militantes e simpatizantes da Frente Sandinista, da FMLN salvadorenha e do Partido dos Trabalhadores brasileiro,\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E apesar dos contratempos, considerado que esse movimento desagrada aos poderosos e principalmente \u00e0s pol\u00edticas neoliberais que significa menos direitos aos pobres, pode-se afirmar que o cristianismo de liberta\u00e7\u00e3o permanece vivo, inclusive em Belo Horizonte, sobre a lideran\u00e7a de Frei Gilvander, dentre outros cat\u00f3licos, que arrega\u00e7am as mangas e v\u00e3o \u00e0 luta, v\u00e3o ao campo, em prol dos mais necessitados, evitando-se que in\u00fameros despejos fossem concretizados, inclusive em plena pandemia da Covid-19.,<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, in\u00fameras a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o praticadas, diariamente, por esse movimento no Brasil todo, considerando que a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade ainda n\u00e3o foi bem assimilada, principalmente pelo Judici\u00e1rio brasileiro, sopesando que, afinal, prevalece a sacraliza\u00e7\u00e3o da propriedade, com in\u00fameras reintegra\u00e7\u00f5es de posses sendo executadas, apenas adiando o problema dos sem tetos, caso n\u00e3o haja uma negocia\u00e7\u00e3o, com a transfer\u00eancia dos despejados para locais apropriados.<\/p>\n\n\n\n<p>E na atualidade esse necess\u00e1rio e as vezes incompreendido movimento ampliou o conceito de pobre, com a inclus\u00e3o tamb\u00e9m dos negros e mulheres, dos \u00edndios e de toda camadas que forem atingidas por formas espec\u00edficas de opress\u00e3o. Portanto, \u00e9 um movimento que vai ao encontro \u00e0 nossa atual Constitui\u00e7\u00e3o, considerando que tem por objetivo a inclus\u00e3o de todos no ordenamento jur\u00eddico, n\u00e3o apenas formal, mas tamb\u00e9m materialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando se fala em Marx, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o, logo aparece a fala do jovem fil\u00f3sofo que afirmou, em um determinado contexto, que a \u201creligi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo.\u201d Como, na interpreta\u00e7\u00e3o dos detratores de Marx, se a religi\u00e3o fosse considerada apenas no aspecto negativo de aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que a cr\u00edtica de Marx e tamb\u00e9m de Engels foi em desfavor das religi\u00f5es que contribu\u00edssem para a manuten\u00e7\u00e3o do sistema vigente, sem nenhuma censura no sentido de que v\u00e1rias quest\u00f5es est\u00e3o erradas, em raz\u00e3o da desigualdade social, consequ\u00eancia da concentra\u00e7\u00e3o de lucro e renda em m\u00e3os de poucos. N\u00e3o \u00e9 correto fechar os olhos a esta realidade ultrajante e excludente, como o fazem algumas religi\u00f5es, deixando tudo como est\u00e1, como se a pobreza fosse algo natural. Assim, n\u00e3o \u00e9 correto permanecer inerte, diante de uma ordem social estruturalmente desigual.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, Marx e Engels n\u00e3o imaginaram a religi\u00e3o como simples ideologia, a encobrir interesse de classe. Assim \u00e9 que Fabio Mascaro, obra citada, p. 167, afian\u00e7a que \u201cuma simples leitura do par\u00e1grafo no qual Marx afirma, em sua introdu\u00e7\u00e3o de 1844 \u00e0 Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel, que a religi\u00e3o \u201c\u00e9 o \u00f3pio do povo\u201d revela que, longe de considera-la apenas como forma de aliena\u00e7\u00e3o que obscurece a compreens\u00e3o l\u00facida e racional da causalidade hist\u00f3rica, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o apresenta a religi\u00e3o tamb\u00e9m como forma de \u201cprotesto\u201d contra o mundo. Diz Marx, em uma passagem que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 explorada em sua qualidade dial\u00e9tica: A mis\u00e9ria religiosa constitui ao mesmo tempo a express\u00e3o da mis\u00e9ria real e o protesto contra a mis\u00e9ria real. A religi\u00e3o \u00e9 o suspiro da criatura oprimida, o \u00e2nimo de um mundo sem cora\u00e7\u00e3o, assim como o esp\u00edrito de estados de coisas embrutecidos. Ela \u00e9 o \u00f3pio do povo.\u201d.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nota-se que inverteram, incorretamente, a homilia de Marx, a demonstrar a real necessidade da religi\u00e3o na vida das pessoas, principalmente quando h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o com os povos oprimidos, como acontece com a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, a reafirmar a alian\u00e7a de Cristo com os pobres. Portanto, trata-se de uma Igreja preocupada com os desprovidos, com a pretens\u00e3o de dar-lhes visibilidades material e n\u00e3o simplesmente ignor\u00e1-los, deixando apenas para uma outra dimens\u00e3o a resolu\u00e7\u00e3o de problemas terrenos atuais e constantes.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> P\u00f3s-Doutorado em Doc\u00eancia e Investiga\u00e7\u00e3o pelo Instituto Universit\u00e1rio Italiano de Ros\u00e1rio (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13\u00aa C\u00e2mara C\u00edvel do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1\u00aa Vara de Fam\u00edlia at\u00e9 junho de 2012. Professor de Direito de Fam\u00edlia da Escola Superior Dom Helder C\u00e2mara. Autor e coautor de v\u00e1rios livros e artigos na \u00e1rea de fam\u00edlia, direito ambiental e processual civil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Redefini\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica marxista da religi\u00e3o. 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