{"id":11534,"date":"2022-10-05T09:35:16","date_gmt":"2022-10-05T12:35:16","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=11534"},"modified":"2022-10-05T10:13:54","modified_gmt":"2022-10-05T13:13:54","slug":"memoria-indigena-borum-kren-na-regiao-de-ouro-preto-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/memoria-indigena-borum-kren-na-regiao-de-ouro-preto-minas-gerais\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria Ind\u00edgena Borum Kren na regi\u00e3o de Ouro Preto, Minas Gerais"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Mem\u00f3ria Ind\u00edgena Borum Kren na regi\u00e3o de Ouro Preto, Minas Gerais<\/strong>. Por Alenice Baeta<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> e Gilvander Moreira<a id=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Danilo-Borum-1-rotated.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11537\" width=\"778\" height=\"1037\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Danilo-Borum-1-rotated.jpg 534w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Danilo-Borum-1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Danilo Borum Kren sendo entrevistado em dezembro de 2021. Santo Ant\u00f4nio do Leite, Ouro Preto, MG. Foto: Alenice Baeta.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Danilo Borum Kren, natural do distrito de Santo Ant\u00f4nio do Leite, Ouro Preto, MG, traz consigo lembran\u00e7as de seus antepassados ind\u00edgenas e dos preconceitos que sofriam por serem origin\u00e1rios, por isto, conta que se apresentavam como pardos em censos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Danilo relata que quando crian\u00e7a jamais vai se esquecer do dia em que teve o seu arco e flecha quebrados por uma vizinha idosa que o alertava que seria muito perigoso revelar a sua identidade ind\u00edgena em uma regi\u00e3o que os discriminava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a organiza\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas em todo o pa\u00eds e a visibilidade que vem sendo dada aos direitos individuais e coletivos ind\u00edgenas no contexto urbano e fora das aldeias, os Borum Kren vem revelando a sua hist\u00f3ria de resist\u00eancia na regi\u00e3o de Ouro Preto, bela cidade hist\u00f3rica considerada, em 1980,&nbsp; patrim\u00f4nio mundial pela UNESCO. Trata-se assim de mais uma comunidade ind\u00edgena \u201cressurgida\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> em Minas Gerais, composta por dezenas de fam\u00edlias.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Danilo ouviu de sua av\u00f3 materna Petrina que eles seriam ind\u00edgenas bravos, \u201cboticudos\u201d, e que se chamavam \u201cBorum Kren\u201d, ela teria, por sua vez, aprendido sobre a sua ancestralidade com sua m\u00e3e, Josefina. &nbsp;Ao falecerem, Petrina e Josefina foram enterradas no cemit\u00e9rio de Leite (hoje, Santo Ant\u00f4nio do Leite). J\u00e1 a sua bisav\u00f3 paterna teria tido um registro que a identificava como \u201cnegra da terra\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, segundo relatos de seus parentes. Ela teria sido enterrada no cemit\u00e9rio de S\u00e3o Juli\u00e3o (hoje, Miguel Burnier), distrito de Ouro Preto.<\/p>\n\n\n\n<p>Danilo aprendeu com os seus parentes mais velhos a produzir v\u00e1rios tipos de instrumentos e artefatos ind\u00edgenas que confecciona, inclusive p\u00e9treos, com muita maestria e precis\u00e3o, muito raro atualmente. Sabe identificar e recolher mat\u00e9rias-primas da natureza, tais como, madeira, cip\u00f3s, folhas, resinas para produzir in\u00fameros tipos de pe\u00e7as. Aprendeu com os pais o nome de v\u00e1rias plantas e suas utilidades alimentares, medicinais e terap\u00eauticas. Muito se aprende ao andar com Danilo pelas matas da regi\u00e3o sobre a biodiversidade e a sobreviv\u00eancia na mesma, pois desde pequeno foi ensinado, caso necessite, a ficar isolado e escondido de eventuais persegui\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conta que seus tatarav\u00f3s habitavam lugares cujos limites seriam hoje as Serras do Capanema, Batat\u00e1s, Itacolomi, Cara\u00e7a e de Ouro Branco, nos vales do alto rio das Velhas, alto rio Paraopeba e alto rio Doce, cujos locais principais de refer\u00eancia s\u00e3o Bocaina, Leite, Amarantina, Cachoeira do Campo, Maracuj\u00e1, Acurui, Casa Branca, S\u00e3o Juli\u00e3o, S\u00e3o Gon\u00e7alo do Ba\u00e7\u00e3o, Timbopepa, Ant\u00f4nio Pereira, Santa Rita de Ouro Preto, Soledade, Itatiaia, Mata dos Palmitos e outras localidades outrora conhecidas como Olana, Cumbe e Gangorra.&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Danilo foi reconhecido como lideran\u00e7a ind\u00edgena Borum Kren por meio da Resolu\u00e7\u00e3o 01\/2022 de 13 de maio de 2022 pelo Conselho Municipal de Igualdade Racial (COMPIR\/OP). Outro desdobramento da conquista de direitos por parte dessa Comunidade Tradicional Origin\u00e1ria foi a acessibilidade \u00e0s cotas ind\u00edgenas nas universidades federais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, houve capacita\u00e7\u00e3o com agentes de comunidades da \u00e1rea de sa\u00fade em Ouro Preto a respeitos dos direitos dos povos ind\u00edgenas, a autodeclara\u00e7\u00e3o e as suas peculiaridades bioculturais. Os Borum Kren v\u00eam tamb\u00e9m participando de debates sobre o zoneamento municipal para subsidiar o futuro plano diretor de Ouro Preto e a identifica\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios de refer\u00eancia ancestral e hist\u00f3rica.&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o \u00faltimo \u201cAbril Ind\u00edgena\u201d a Comunidade Borum Kren organizou in\u00fameras atividades, dentre elas, mesas redondas, caminhadas, visitas a museus, oficinas, palestras sobre hist\u00f3ria, cultura e tecnologia ind\u00edgena. Algumas das atividades contaram com a presen\u00e7a e apoio de Edson Kaiap\u00f3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, receberam a visita da comitiva do Kocar da rec\u00e9m-eleita deputada federal C\u00e9lia Xakriab\u00e1, que pretende estreitar os la\u00e7os com os Borum Kren de Ouro Preto e regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Danilo e B\u00e1rbara Flores Borum Kren, sua parente, participaram do Encontro Nacional dos Estudantes Ind\u00edgenas (ENEI) em Campinas\/SP, na Unicamp, como lideran\u00e7as ind\u00edgenas. B\u00e1rbara, inclusive, foi convidada para compor uma comitiva da Articula\u00e7\u00e3o Brasileira da Economia de Francisco e Clara (ABEFC)<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> que esteve recentemente na It\u00e1lia, para um encontro com o Papa Francisco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De um ano para c\u00e1 foram muitas as conquistas da Comunidade Borum Kren, que vem se revelando, fortalecendo e se organizando em n\u00edvel municipal e estadual, bem como, ganhando visibilidade nacional e internacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>MONTEIRO, John. <em>Negros da Terra: \u00edndios e bandeirantes na origem de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>OLIVEIRA, Jo\u00e3o P. de A viagem de volta: reelabora\u00e7\u00e3o cultural e horizonte pol\u00edtico dos povos ind\u00edgenas. In: <em>Atlas das Terras Ind\u00edgenas<\/em>, PETI, UFRJ, Rio de Janeiro, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>OLIVEIRA, Jo\u00e3o P. de. Uma etnologia de \u00edndios misturados? Situa\u00e7\u00e3o colonial, territorializa\u00e7\u00e3o e fluxos culturais. In: <em>Mana<\/em>, estudos de antropologia social. 4\/1 PPGAS-MN-UFRJ, Rio de Janeiro, 1998.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Arque\u00f3loga e Historiadora. Doutorado no Museu de Arqueologia e Etnologia-MAE\/USP e P\u00f3s-Doutorado pelo Departamento de Arqueologia e Antropologia, FAFICH\/UFMG. Membro do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o Eloy Ferreira da Silva-CEDEFES.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP\/SP;&nbsp; assessor da CPT, CEBI e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> A antropologia estabelece o termo etnog\u00eanese para se referir a esses complexos processos de emerg\u00eancia \u00e9tnica ou ressurg\u00eancia social e pol\u00edtica dos grupos tradicionalmente submetidos a rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e de invisibilidade (OLIVEIRA, 1994;1998).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de cativos ind\u00edgenas, tamb\u00e9m mencionados como \u201ccabras da terra\u201d nos documentos da \u00e9poca, cujas etnias de seus integrantes teriam sido muito variadas (MONTEIRO, 1995). &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> O papel da Articula\u00e7\u00e3o Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC) consiste em iniciativas que se baseiam nos princ\u00edpios fundamentais para uma nova Economia que \u201ctraz vida, n\u00e3o morte, que \u00e9 inclusiva e n\u00e3o exclusiva, humana e n\u00e3o desumanizadora, que cuida do meio ambiente e n\u00e3o o despoja\u201c de acordo com o chamado do Papa Francisco ( <a href=\"http:\/\/economiadefranciscoeclara.com.br\/\">http:\/\/economiadefranciscoeclara.com.br\/<\/a> ).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria Ind\u00edgena Borum Kren na regi\u00e3o de Ouro Preto, Minas Gerais. 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