{"id":11621,"date":"2022-12-03T10:06:02","date_gmt":"2022-12-03T13:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=11621"},"modified":"2022-12-03T10:22:05","modified_gmt":"2022-12-03T13:22:05","slug":"vamos-ao-encontro-de-nossa-propria-destruicao-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/vamos-ao-encontro-de-nossa-propria-destruicao-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"VAMOS AO ENCONTRO DE NOSSA PR\u00d3PRIA DESTRUI\u00c7\u00c3O? Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>VAMOS AO ENCONTRO DE NOSSA PR\u00d3PRIA DESTRUI\u00c7\u00c3O?<\/strong> Por<strong> <\/strong>Leonardo Boff<strong> <\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Tom-Leo-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11622\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Tom-Leo-6.jpg 960w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Tom-Leo-6-300x225.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Tom-Leo-6-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Leonardo boff<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de ser humano na Terra, em grande parte, se resume num permanente conflito contra o ambiente. Esse processo foi levado t\u00e3o longe que o ser humano moderno moveu uma verdadeira guerra contra a Terra em todas as suas frentes: no solo, no subsolo, no ar e no mar, sempre na perspectiva de saquear e extrair mais e mais vantagens. Fala-se, em c\u00edrculos cient\u00edficos, que a a\u00e7\u00e3o humana sobre a Terra como um todo fundou uma nova era geol\u00f3gica, o <em>antropoceno<\/em>. Significa: os danos \u00e0 natureza n\u00e3o v\u00eam de fora, mas da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pensada e orquestrada do ser humano no seu af\u00e3 de extrair mais e mais benesses para a sua vida. Tal fato teve como consequ\u00eancia o desequil\u00edbrio do planeta que reage enviando-nos mais calor, eventos extremos como enchentes, tuf\u00f5es e secas al\u00e9m de uma gama crescente de v\u00edrus, muitos deles letais como o Corona v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que se perdeu a perspectiva do Todo. Ficou-se somente com a parte. Ocorreu uma verdadeira fragmenta\u00e7\u00e3o e atomiza\u00e7\u00e3o da realidade&nbsp;e dos respectivos saberes. <em>Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos. <\/em>Tal fato possui suas vantagens, mas tamb\u00e9m seus limites. As vantagens, especialmente, na medicina que conseguiu identificar os v\u00e1rios tipos de enfermidades e como trat\u00e1-las. Mas importa recordar que a realidade n\u00e3o \u00e9 fragmentada. Por isso os saberes sobre ela tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser fragmentados.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito figurativamente: a aten\u00e7\u00e3o se concentrou nas \u00e1rvores, consideradas em si mesmas, perdendo-se a vis\u00e3o global da floresta. Pior ainda, deixou-se de considerar as rela\u00e7\u00f5es <em>de interdepend\u00eancia<\/em> que todas as coisas guardam entre si. Elas n\u00e3o est\u00e3o jogadas a\u00ed ao esmo, uma ao lado da outra sem as necess\u00e1rias conex\u00f5es entre elas que lhes permitem, solidariamente viver, se auto-ajudar e juntas co-evoluir.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos as \u00e1rvores: elas possuem uma linguagem pr\u00f3pria, diversa da nossa, fundada na emiss\u00e3o de sons. Elas falam mediante odores que emitem e a produ\u00e7\u00e3o de toxinas que enviam para as outras. Entre as iguais estabelecem rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade e colabora\u00e7\u00e3o. Com outras diversas, n\u00e3o raro, fazem verdadeiras batalhas qu\u00edmicas, no af\u00e3 de cada uma ter mais acesso \u00e0 luz do sol ou a nutrientes do solo.&nbsp; Mas sempre \u00e9 feito sem excesso, numa <em>medida justa<\/em> de tal forma que o conjunto das \u00e1rvores forma uma rica e diversa floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso humano, perdemos <em>equil\u00edbrio e justa medida<\/em>: erodiu-se aquela corrente que relaciona todos com todos, chamada de <em>Matriz Relacional.<\/em> Desconsiderou-se a vast\u00edssima rede de rela\u00e7\u00f5es e de interconex\u00f5es que envolvem o pr\u00f3prio universo e todos os seres existentes. Nada existe fora da rela\u00e7\u00e3o. Tudo est\u00e1 relacionado com tudo em todas as circunst\u00e2ncias. Essa \u00e9 a realidade de todas as coisas existentes, no universo e na Terra, das gal\u00e1xias mais distantes \u00e0 nossa Lua, at\u00e9 \u00e0s ervas silvestres. Elas t\u00eam seu lugar e sua fun\u00e7\u00e3o no Todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa elegante formula\u00e7\u00e3o do Papa Francisco em sua enc\u00edclica <em>Laudato si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015)<\/em> se afirma:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;\u201cTudo est\u00e1 relacionado e todos n\u00f3s, seres humanos, caminhamos juntos, como irm\u00e3os e irm\u00e3s, numa peregrina\u00e7\u00e3o maravilhosa que nos une com terna afei\u00e7\u00e3o, ao irm\u00e3o Sol, \u00e0 irm\u00e3 Lua, ao irm\u00e3o rio e \u00e0 irm\u00e3 e M\u00e3e Terra<\/em>&#8230; <em>o Sol e Lua, o cedro e a florzinha, a \u00e1guia e o pardal s\u00f3 coexistem na depend\u00eancia uma das outras para se completarem mutuamente no servi\u00e7o uma das outras\u201d<\/em> (n. 92; 86).<\/p>\n\n\n\n<p>Se realmente todos estamos entrela\u00e7ados, ent\u00e3o devemos concluir que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, individualista, visando o maior lucro poss\u00edvel \u00e0 custa da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e da intelig\u00eancia humana e especialmente das riquezas naturais sem se dar conta das rela\u00e7\u00f5es existentes entre todas as realidades, poluindo o ar, contaminando as \u00e1guas e envenenando os solos com pesticidas, est\u00e1 na contram\u00e3o da l\u00f3gica da natureza e do pr\u00f3prio universo que ligam e religam tudo com tudo, constituindo o esplendoroso grande Todo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Terra nos criou um lugar amig\u00e1vel para viver, mas n\u00f3s n\u00e3o estamos nos mostrando amig\u00e1veis para com ela. Ao contr\u00e1rio, a agredimos sem parar a ponto de ela n\u00e3o aguentar mais e come\u00e7ar a reagir, numa esp\u00e9cie de contra-ataque. Este \u00e9 o significado maior da intrus\u00e3o de toda uma gama dos v\u00edrus, especialmente o Covid-19. De cuidadores da natureza (G\u00eanesis 2,15) nos fizemos em seu Sat\u00e3 amea\u00e7ador.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o advento da modernidade entre os s\u00e9culos XVII-XVIII, a humanidade se entendia normalmente com parte da M\u00e3e Terra e de um cosmos vivente e cheio de prop\u00f3sito. Percebia-se ligado ao Todo. Agora a M\u00e3e Terra foi transformada num armaz\u00e9m de recursos e&nbsp;num ba\u00fa cheio de bens naturais a serem explorados. Nessa compreens\u00e3o que acabou por se impor, as coisas e os seres humanos est\u00e3o desconectados entre si, cada qual seguindo um curso individual.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia do sentimento de perten\u00e7a a um Todo maior, o descaso das teias de rela\u00e7\u00f5es que ligam todos os seres, tornou-nos desenraizados e mergulhados numa profunda solid\u00e3o. Somos possu\u00eddos por um sentimento de que estamos s\u00f3s no universo e perdidos, coisa que uma vis\u00e3o integradora do mundo, que existia anteriormente, o impedia. Hoje nos damos conta de que devemos estabelecer um la\u00e7o de afetividade para com a natureza e para com os seus diversos seres vivos e inertes, pois possu\u00edmos o mesmo c\u00f3digo gen\u00e9tico de base, portanto, somos irm\u00e3os e irm\u00e3s, (\u00e1rvores, animais mas tamb\u00e9m montanhas, lagos e rios). Se n\u00e3o colocarmos cora\u00e7\u00e3o em nossa rela\u00e7\u00e3o \u2013 da\u00ed a raz\u00e3o cordial \u2013 dificilmente salvaremos a diversidade da vida e a pr\u00f3pria vitalidade da M\u00e3e Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que fizemos esta invers\u00e3o de rumo? N\u00e3o ser\u00e1 uma \u00fanica causa, mas um complexo delas. Mas a mais importante e danosa foi ter abandonado da assim chamada <em>Matriz Relacional<\/em><strong>.<\/strong> Vale dizer, a percep\u00e7\u00e3o da teia de rela\u00e7\u00f5es que entrela\u00e7am todos os seres. Ela nos conferia a sensa\u00e7\u00e3o de sermos parte de um Todo maior, de que est\u00e1vamos inseridos na natureza como parte dela e n\u00e3o simplesmente como seus usu\u00e1rios e com interesses meramente utilitaristas. Perdemos a capacidade de encantamento pela grandeza da cria\u00e7\u00e3o, de rever\u00eancia face ao c\u00e9u estrelado e de respeito por todo tipo de vida. Caso n\u00e3o mudarmos, poder\u00e1 se realizar o que o Papa Francisco advertiu na enc\u00edclica <em>Fratelli tutti: \u201cestamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ningu\u00e9m se salva<\/em> (n. 32)\u201d. N\u00e3o somos chamados a ser os agentes de nossa pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o, mas a ser a melhor flora\u00e7\u00e3o do processo cosmog\u00eanico.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Te\u00f3logo, escritor, escreveu com o cosm\u00f3logo Mark Hathaway, <em>O Tao da liberta\u00e7\u00e3o: explorando a ecologia de transforma\u00e7\u00e3o, <\/em>Vozes 2010\/ Orbis Books, N. York 2010 pref\u00e1cio de F. Capra.<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VAMOS AO ENCONTRO DE NOSSA PR\u00d3PRIA DESTRUI\u00c7\u00c3O? Por Leonardo Boff A hist\u00f3ria de ser humano na Terra, em grande parte, se resume num permanente conflito contra o ambiente. 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