{"id":11855,"date":"2023-02-11T09:34:02","date_gmt":"2023-02-11T12:34:02","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=11855"},"modified":"2023-02-11T09:34:40","modified_gmt":"2023-02-11T12:34:40","slug":"11855-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/11855-2\/","title":{"rendered":"Passar da justi\u00e7a da lei \u00e0 do reino de amor. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Passar da justi\u00e7a da lei \u00e0 do reino de amor. Por Marcelo Barros<\/strong>, padre e monge<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/monge-marcelo-barros-mst-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11856\" width=\"779\" height=\"1129\"\/><figcaption>Padre e monge Marcelo Barros. Divulga\u00e7\u00e3o: http:\/\/alexscguimaraes.blogspot.com\/2012\/02\/88-alex-entrevista-padre-marcelo-barros.html <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><u>VI Domingo Comum \u2013 Mt 5,17-37 \u2013  \u2013 12 02 23<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste 6\u00ba domingo comum (ano A), o evangelho continua a narrar palavras de Jesus, que a comunidade crist\u00e3 dos anos 80 do s\u00e9culo I reuniu no discurso da montanha (Mt 5,17- 37).<\/p>\n\n\n\n<p>Nelas, Jesus explica que n\u00e3o veio abolir a lei e os profetas, ou seja, a institui\u00e7\u00e3o religiosa. Jesus n\u00e3o quer abolir a religi\u00e3o, mas prop\u00f5e que ela tenha a sua fun\u00e7\u00e3o em um projeto que vai al\u00e9m de si mesma. Jesus critica a religi\u00e3o que se torna totalit\u00e1ria e nos d\u00e1 uma vis\u00e3o redutiva e deformada de Deus, que \u00e9 puro Amor gratuito, incondicional e universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 80 do primeiro s\u00e9culo, em comunidades formadas por pessoas de origem judaica, este evangelho reuniu essas palavras para mostrar que a proposta de Jesus n\u00e3o \u00e9 de ruptura com a religi\u00e3o institucional, nem com a cultura do povo. No entanto, ele pede aos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas que se tornem capazes de ir al\u00e9m da institui\u00e7\u00e3o. Procurem n\u00e3o o simples cumprimento da lei, mas o esp\u00edrito que a lei visava. Hoje, Jesus pede a mesma coisa aos crist\u00e3os e crist\u00e3s dos nossos dias. Parece que, nas Igrejas atuais, essa proposta de Jesus n\u00e3o recebe ades\u00e3o maior do que ele teve com os seus disc\u00edpulos, dos quais o evangelho de Marcos afirma claramente que os ap\u00f3stolos n\u00e3o compreendiam o que ele dizia.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o papa Francisco fala de&nbsp; \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d. De certa forma, era o que Jesus propunha nos evangelhos: uma lei \u201cem sa\u00edda\u201d, ou para fora de si mesma. Quando a lei se torna o eixo central da f\u00e9, ela se torna sagrada, absoluta. Serve apenas ao grupo de poder que a produziu. No mundo atual, se chama Fundamentalismo. Nas mais diversas religi\u00f5es, \u00e9 um dos movimentos que mais cresce. Existe fundamentalismos b\u00edblicos, outros teol\u00f3gicos e pol\u00edticos. Existem fundamentalismos judeus, mu\u00e7ulmanos, hindu\u00edstas e em outras religi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho mostra que Jesus combateu esse modo de interpretar a f\u00e9. Depois de revelar nas bem-aventuran\u00e7as uma esp\u00e9cie de programa de Deus ao estabelecer o seu reinado sobre o mundo, Jesus quer dar alguns exemplos de como realizar essa invers\u00e3o social e humana trazida pelas bem-aventuran\u00e7as. E a\u00ed d\u00e1 seis exemplos de situa\u00e7\u00f5es, nas quais quem entra nos caminhos das bem-aventuran\u00e7as deve seguir. Retoma normas judaicas que&nbsp; n\u00e3o quer abolir ou substituir, mas prop\u00f5e sim uma radicaliza\u00e7\u00e3o na linha do Esp\u00edrito. Come\u00e7a pelo mandamento de n\u00e3o matar. N\u00e3o basta respeitar a vida. \u00c9 preciso defend\u00ea-la. Quem quer viver a justi\u00e7a nova do reino n\u00e3o pode se deixar dominar pela ira, nem condenar um irm\u00e3o ou irm\u00e3 atrav\u00e9s de&nbsp; alguma palavra m\u00e1; aquilo que antigamente o povo considerava maldi\u00e7\u00e3o ou &#8220;rogar praga&#8221; e desejar mal a outra pessoa&nbsp; (Cf. Mt 5,21-26). Naquela sociedade na qual a mulher podia ser repudiada pelo marido simplesmente porque ele preferia trocar de mulher, o evangelho defende o direito da mulher e insiste na igualdade de g\u00eaneros. Assim tamb\u00e9m, prop\u00f5e&nbsp; confian\u00e7a na palavra dada, de tal forma que o juramento seja desnecess\u00e1rio e proscrito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus prop\u00f5e que superemos a divis\u00e3o das pessoas em boas e m\u00e1s e reconhe\u00e7amos a dignidade e direitos at\u00e9 dos nossos advers\u00e1rios. O marido cuide da esposa, mesmo quando, por acaso, n\u00e3o a ame mais. Como Gandhi ensinava na sua a\u00e7\u00e3o libertadora n\u00e3o violenta, Jesus prop\u00f5e desarmar algu\u00e9m que nos odeia com o mesmo respeito e aten\u00e7\u00e3o ao que ele nos pede. A nossa miss\u00e3o \u00e9 testemunhar um amor divino. E quando fazemos isso, a lei serve para nos ajudar a construir novas rela\u00e7\u00f5es sociais. A\u00ed sim a aten\u00e7\u00e3o ao irm\u00e3o vale mais do que as oferendas apresentadas no altar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na sociedade da \u00e9poca de Jesus e dos evangelhos, a palavra tinha muita import\u00e2ncia e for\u00e7a. Hoje, a publicidade e a comunica\u00e7\u00e3o banal esvazia a for\u00e7a das palavras. Quantas vezes, as palavras n\u00e3o s\u00e3o sem consequ\u00eancias. Ao contr\u00e1rio: quantas vezes, nas comunidades, uma palavra falsa e injusta sobre algu\u00e9m destr\u00f3i profundamente o outro e as rela\u00e7\u00f5es. Uma comunidade de vida pode ser destru\u00edda apenas pelo uso irrespons\u00e1vel e imprudente da palavra contra o outro. Por isso, de fato, Jesus exige muito cuidado com as palavras que usamos. A \u00c9tica da Liberta\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica exige tamb\u00e9m uma profunda e permanentemente cuidadosa \u00c9tica das rela\u00e7\u00f5es familiares, de amizade e nas comunidades. Muitas vezes, mesmo n\u00f3s que nos dizemos \u201cda liberta\u00e7\u00e3o\u201d, somos anti-\u00e9ticos\/as no modo de comentar sobre outras pessoas e pecamos gravemente contra esse evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse evangelho de hoje, Jesus nos adverte para nem chamar a outra pessoa de \u201csem ju\u00edzo\u201d. O termo usado no texto grego \u00e9 <em>raka<\/em>,&nbsp; que significa \u201cn\u00e3o serve para nada\u201d. E outro termo grego \u00e9 \u201cestar fora\u201d. \u00c0s vezes, nas comunidades, h\u00e1 pessoas exclu\u00eddas pela fama que se espalhou delas e nem podem se defender. Simplesmente s\u00e3o condenadas por companheiros\/as que se dizem \u201cda caminhada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a sociedade dominante considera todos os pobres como pessoas que n\u00e3o servem para nada. O papa denuncia que o mundo os considera como descart\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro assunto \u00e9 o desejo&nbsp; ou libido (Mt 5,27- 30). Tomar consci\u00eancia do nosso desejo \u00e9 poder reorient\u00e1-lo e buscar unir aquilo que cremos com aquilo que queremos. No serm\u00e3o da montanha, Jesus nos diz que o querer mal j\u00e1 \u00e9 de certa forma realizar o mal. Desejar algu\u00e9m sexualmente j\u00e1 tem algo de posse. N\u00f3s n\u00e3o somos inteiros sozinhos. Precisamos do outro, mas n\u00e3o podemos fazer deste outro objeto de nosso desejo. Temos de lidar com o desejo, de modo que respeitemos o outro como outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde antigamente, a B\u00edblia proibia jurar em nome de Deus (Ex 20, 17). O que est\u00e1 por tr\u00e1s \u00e9 a for\u00e7a da palavra. Gandhi usou a for\u00e7a da verdade como instrumento da sua luta n\u00e3o violenta. Jesus diz: seja o seu sim, sim, e o seu n\u00e3o, n\u00e3o. Quem jura em nome de Deus, age como se tivesse recebido procura\u00e7\u00e3o de Deus para falar em seu nome. \u00c9 a tenta\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es. Jesus adverte: ningu\u00e9m deve usar o nome de Deus para fortalecer seus interesses pr\u00f3prios e as causas que defende.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 comum as pessoas confundirem radicalidade com rigorismo. De fato, s\u00e3o duas atitudes muito diferentes. Radicalidade significa ir \u00e0 raiz das quest\u00f5es e, portanto, possibilita flexibilidade, liberdade e amor. A radicalidade sempre se comp\u00f5e com liberdade interior e social. Na maioria das vezes, o rigorismo se reduz a um fundamentalismo estreito e fechado. Mas, no dia a dia, ser\u00e1 que conseguimos distinguir quando estamos sendo radicais no sentido evang\u00e9lico e, quando, ao contr\u00e1rio, estamos simplesmente sendo rigorosos e fechados?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho de hoje nos interpela no sentido de unir a coer\u00eancia evang\u00e9lica com a radicalidade (ir \u00e0 raiz das quest\u00f5es) e, ao mesmo tempo, mantermos a abertura humana para colocar a outra pessoa como refer\u00eancia desse caminho em dire\u00e7\u00e3o ao reino.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, \u00e9 frequente vermos grupos de esquerda que prop\u00f5em mudan\u00e7as estruturais e se centram nas an\u00e1lises coletivas e institucionais. Ao mesmo tempo, grupos espiritualistas pensam que se podem mudar sistemas se se consegue mudar o pensamento e sentimento \u00edntimo de cada pessoa. O evangelho nos adverte que temos sempre de unir as duas dimens\u00f5es e cuidarmos tanto da dimens\u00e3o subjetiva, quanto das mudan\u00e7as estruturais necess\u00e1rias. Nesta dial\u00e9tica, caminhamos para uma nova \u00c9tica social e revolucion\u00e1ria, sempre baseada no Amor Maior.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passar da justi\u00e7a da lei \u00e0 do reino de amor. 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