{"id":11935,"date":"2023-03-19T09:31:30","date_gmt":"2023-03-19T12:31:30","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=11935"},"modified":"2023-03-21T17:31:26","modified_gmt":"2023-03-21T20:31:26","slug":"e-preciso-recriar-o-humano-por-padre-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/e-preciso-recriar-o-humano-por-padre-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso recriar o humano. Por padre Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u00c9 preciso recriar o humano. Por padre Marcelo Barros<\/strong> &#8211; <strong><u>4\u00ba Domingo da Quaresma \u2013 Jo 9,1-41<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/a03a74f1473faaceb38c5c403bbdb3f4center.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11943\" width=\"781\" height=\"1172\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/a03a74f1473faaceb38c5c403bbdb3f4center.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/a03a74f1473faaceb38c5c403bbdb3f4center-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 781px) 100vw, 781px\" \/><figcaption>Padre e monge Marcelo Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 preciso recriar o humano. Por padre Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em um romance terr\u00edvel, Jos\u00e9 Saramago, o romancista portugu\u00eas premiado com o Nobel de Literatura, escreve o seu \u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d.&nbsp; Em suas p\u00e1ginas, um motorista parado no sinal de tr\u00e2nsito, de repente e sem saber como nem porque, descobre que est\u00e1 cego. \u00c9 apenas o primeiro caso de uma imensa &#8220;treva branca&#8221;&#8221; que logo se espalha incontrolavelmente por toda a cidade. Resguardadas como na quarentena contra a pandemia, as pessoas cegas se perceber\u00e3o reduzidas \u00e0 ess\u00eancia humana e obrigadas a empreender uma verdadeira viagem \u00e0s trevas. Com essa par\u00e1bola, o romancista nos chama a aten\u00e7\u00e3o para \u201ca responsabilidade de ver o que os outros n\u00e3o podem ver\u201d, ou seja, recuperar a lucidez sobre a vida, resgatar o afeto como fundamento das rela\u00e7\u00f5es humanas e o cuidado como princ\u00edpio de vida em comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Em diversas religi\u00f5es antigas, a meta da espiritualidade sempre foi adquirir uma nova vis\u00e3o de si mesmo\/a, da vida e do mundo. No Budismo, Buda significa o Iluminado e atingir o estado de Buda \u00e9 a ilumina\u00e7\u00e3o interior. Na Am\u00e9rica Latina, os povos origin\u00e1rios cultivam como espiritualidade a capacidade de ver coisas que comumente as pessoas n\u00e3o veem. V\u00e1rios povos ind\u00edgenas usam bebidas de poder para obter o que na religi\u00e3o do Santo Daime se chama \u201ca mira\u00e7\u00e3o\u201d, um estado de consci\u00eancia alterado que nos faz penetrar mais profundamente no mist\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas Igrejas hist\u00f3ricas, neste 4\u00ba domingo da Quaresma, lemos como texto evang\u00e9lico Jo\u00e3o 9, 1 \u2013 41. Conta que, em Jerusal\u00e9m, durante a festa das tendas, ao sair do templo, Jesus cura um cego de nascen\u00e7a, (Jo 9).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao narrar essa cena, o quarto evangelho parece querer sustentar uma comunidade de disc\u00edpulos e disc\u00edpulas que, pelo batismo, passa da cegueira \u00e0 luz da vis\u00e3o nova da f\u00e9. No Cristianismo antigo, o Batismo era chamado &#8220;sacramento da ilumina\u00e7\u00e3o&#8221;. Por isso, o evangelho da cura do cego era um texto batismal e foi escolhido como o segundo dos tr\u00eas textos evang\u00e9licos que a tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica l\u00ea no processo do catecumenato.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Este evangelho \u00e9 marcado pela pol\u00eamica com o templo. Come\u00e7a afirmando que, s\u00f3 \u00e0 medida que Jesus deixa o templo, v\u00ea a pessoa cega do lado de fora da porta.&nbsp; Do modo como estava organizado o templo e, podemos dizer, como at\u00e9 hoje, o sistema religioso se organiza,&nbsp; n\u00e3o permite ver o mundo dos pobres. S\u00f3 quando sai do santu\u00e1rio, Jesus v\u00ea&nbsp; o pobre cego. O texto usa o termo gen\u00e9rico <em>anthropos<\/em>, o humano. \u00c9 como se dissesse: Ao sair do plano religioso, Jesus passou e viu que o ser humano estava cego.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos oito dias da festa, havia uma cerim\u00f4nia na qual, cada noite, se acendiam os grandes candelabros do templo, como sinal da ilumina\u00e7\u00e3o do mundo e recria\u00e7\u00e3o da vida.&nbsp;No cap\u00edtulo anterior, (Jo 8, 12), Jesus havia afirmado: Eu sou a luz do mundo! (A luz do mundo n\u00e3o \u00e9 o candelabro do templo). Jesus \u00e9 a luz da humanidade. N\u00e3o est\u00e1 preso a nenhuma cultura ou nenhuma religi\u00e3o. Ele \u00e9 a luz e quer curar a cegueira de toda a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como a festa atra\u00eda muita gente, o cego pobre mendigava em uma porta do tempo. Os disc\u00edpulos se revelam ainda prisioneiros da cultura religiosa tradicional. Ao verem o cego, a preocupa\u00e7\u00e3o deles era saber quem tinha pecado, se o pr\u00f3prio cego ou seus pais &#8211; para que ele nascesse cego. Jesus n\u00e3o quer saber quem pecou ou quem n\u00e3o pecou. N\u00e3o aceita uma mentalidade religiosa, que procura culpar quem j\u00e1 \u00e9 v\u00edtima. Claro que a sa\u00fade f\u00edsica depende muito da sa\u00fade ps\u00edquica e interior. H\u00e1 profunda rela\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade e salva\u00e7\u00e3o. Mas, Jesus rejeita a rela\u00e7\u00e3o entre doen\u00e7a e culpa, como se a pessoa doente fosse culpada por ser doente.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 curar as pessoas e trazer vida, sa\u00fade e alegria. E o modo como ele cura, desrespeita a lei religiosa.&nbsp;Era o dia de s\u00e1bado, no qual \u00e9 proibido trabalhar. Jesus diz que, quando se trata de dar sa\u00fade e luz \u00e0s pessoas e ao universo, o Pai trabalha sempre e ele, Jesus age junto com o Pai. Ao falar assim, ele faz o gesto para acompanhar a palavra. E o gesto \u00e9 o mesmo de Deus ao criar o homem da lama da terra. Jesus faz lodo com a saliva e passa nos olhos do cego.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus n\u00e3o obedece \u00e0 lei, antes de tudo por atuar no dia do s\u00e1bado. Al\u00e9m disso, ao tocar na saliva, faz uma coisa que a lei pro\u00edbe. Como todos os fluidos do corpo, a saliva era considerada impura (Ver Lv 15, 8). Jesus cospe na terra, faz lama com a saliva e passa nos olhos do cego.&nbsp;De certa forma, ao fazer lama na terra, retoma o gesto que o livro do G\u00eanesis descreve como o de Deus na cria\u00e7\u00e3o do ser humano. Muitas tradi\u00e7\u00f5es religiosas concordam que o ser humano \u00e9 feito do humus da m\u00e3e Terra.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, existem rituais xam\u00e2nicos que usam como rem\u00e9dio a saliva com suas propriedades curativas. Agora, ao refazer o gesto divino da cria\u00e7\u00e3o com o cego, Jesus diz que recriar o ser humano \u00e9 possibilitar uma nova luz para todos. N\u00f3s participamos desse novo ato criador \u00e0 medida que levamos luz em torno de n\u00f3s e para o mundo. A nova proposta de Jesus para a nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 passar de uma religi\u00e3o est\u00e1tica e tradicional, feita de leis, ritos e sacrif\u00edcios, para uma f\u00e9 nova. O que Jesus prop\u00f5e \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com Deus, inserida na comunidade e de forma laical. Ele abre nossos olhos para nos fazer ver as coisas de forma nova e, assim, nos envia ao mundo. N\u00e3o se contenta apenas em curar. Cura e envia ao mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa hist\u00f3ria, a cura se d\u00e1 quando o homem se lava na piscina que se chamava Silo\u00e9. O evangelho faz um jogo de palavra com o nome da piscina Silo\u00e9 (enviado) e diz que foi se lavando nas \u00e1guas que representam Jesus (o enviado) que o ser humano recebe a vida nova e passa a agir no mundo com nova miss\u00e3o. Os crist\u00e3os sempre entenderam essas \u00e1guas de Jesus como sendo as \u00e1guas do batismo. Por isso, esse evangelho \u00e9 lido na prepara\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa e do catecumenato. No entanto, existe alguma \u00e1gua no mundo que n\u00e3o seja \u00e1gua enviada por Deus? \u00c1gua que \u00e9 sinal \u2013 sacramento do amor divino pela humanidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o mundo vive uma grave crise h\u00eddrica. A ONU comemora o 22 de mar\u00e7o como Dia mundial de prote\u00e7\u00e3o e cuidado com a \u00e1gua. Os movimentos sociais e comunidades lutam para que a \u00e1gua seja reconhecida como bem comum da humanidade e direito de todo ser vivo. Portanto, a \u00e1gua n\u00e3o deve ser privatizada e mercantilizada. N\u00e3o deve ser objeto de conflitos e motivos de guerra entre povos. Todas as tradi\u00e7\u00f5es espirituais reconhecem a \u00e1gua como sacramento do amor divino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, o evangelho de hoje traz a descri\u00e7\u00e3o do processo conflitivo que aconteceu entre a religi\u00e3o oficial e o ser humano que, atrav\u00e9s das \u00e1guas, recebeu de Jesus a luz de uma vida nova e da miss\u00e3o. O ser humano, antes cego, n\u00e3o tinha responsabilidade nenhuma. \u00c0 medida que passa a ver,&nbsp; tem de assumir responsabilidade. Entra em conflito com a sinagoga e acaba expulso da religi\u00e3o. De um lado, h\u00e1 um processo evolutivo na sua f\u00e9. Primeiramente, fala de Jesus como \u201cum homem chamado Jesus\u201d. Depois, como os religiosos rejeitam Jesus, sustenta que ele \u00e9 um profeta, \u00e9 algu\u00e9m de Deus e finalmente o reconhece como &#8220;Filho do Homem&#8221;, ou seja, o enviado de Deus \u00e0 humanidade. Este processo de ilumina\u00e7\u00e3o e descoberta \u00e9 o mesmo de toda pessoa batizada no reconhecimento progressivo de quem \u00e9 Jesus. O evangelho diz que os cl\u00e9rigos da religi\u00e3o ritual vivem o processo oposto: interrogam os pais do antigo cego, depois o pr\u00f3prio homem curado e acabam expulsando-o da sinagoga. Provavelmente, \u00e9 uma alus\u00e3o ao fato de que, a partir dos anos 80 do primeiro s\u00e9culo, os\/as crist\u00e3os\/\u00e3s foram excomungados da sinagoga judaica, ou romperam com ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, o conflito n\u00e3o \u00e9 entre f\u00e9 crist\u00e3 e Juda\u00edsmo e sim entre toda forma de religi\u00e3o que defende as tradi\u00e7\u00f5es e se preocupa pouco com a vida das pessoas. Hoje, quantos conflitos morais e quanta insensibilidade continuamos a ver entre os que defendem tradi\u00e7\u00f5es religiosas e os que querem ser livres e se sentem com o direito de agir no mundo. O evangelho de hoje nos questiona sobre de que lado estamos n\u00f3s e nos provoca a nos colocar sempre a favor da vida e da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos diz que nos colocar do lado de Jesus e da P\u00e1scoa sup\u00f5e nossa solidariedade com toda pessoa que sofre de inseguran\u00e7a alimentar e mais ainda que participemos de uma Pol\u00edtica social que lute contra as causas da fome e das desigualdades sociais em nosso pa\u00eds. Esse \u00e9 o lado de Jesus. Essa \u00e9 a sua P\u00e1scoa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso recriar o humano. Por padre Marcelo Barros &#8211; 4\u00ba Domingo da Quaresma \u2013 Jo 9,1-41 \u00c9 preciso recriar o humano. 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