{"id":12065,"date":"2023-05-07T10:35:26","date_gmt":"2023-05-07T13:35:26","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12065"},"modified":"2023-05-07T10:35:28","modified_gmt":"2023-05-07T13:35:28","slug":"o-ouro-da-coroa-e-a-coroa-de-espinhos-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-ouro-da-coroa-e-a-coroa-de-espinhos-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"O ouro da coroa e a coroa de espinhos. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O ouro da coroa e a coroa de espinhos<\/strong>. Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/big_155eac94e4d3c161726f57565a9617e8.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12066\" width=\"781\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/big_155eac94e4d3c161726f57565a9617e8.jpg 443w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/big_155eac94e4d3c161726f57565a9617e8-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 781px) 100vw, 781px\" \/><figcaption>Coroa de ouro e coroa de espinho. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o de rede virtual<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nestes dias, os jornais dedicam p\u00e1ginas inteiras a mostrar em detalhes a cora\u00e7\u00e3o do rei Charles III da Inglaterra. Ao lado das fotografias que revelam o horror da guerra na Ucr\u00e2nia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o competem na cobertura da cerim\u00f4nia tradicional da coroa\u00e7\u00e3o que durar\u00e1 duas horas a menos do que a da rainha Elizabeth II em 1953. Nobres e representantes de governos disputam os lugares de honra na nave da velha abadia. No mundo inteiro,&nbsp; pela televis\u00e3o, muita gente ver\u00e1 a carruagem dourada, puxada por oito cavalos, que, em pleno centro de Londres, conduzir\u00e1 o rei e a rainha, de volta da cerim\u00f4nia, para o pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que esta oportunidade de encontro da nobreza que se considera de sangue azul e de representantes da elite pol\u00edtica e econ\u00f4mica sirva de pretexto para muita gente que adora monarquias e sonha com um mundo de contos de fada, desde que eles e elas sejam os pr\u00edncipes e princesas e n\u00e3o os servos da gleba.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos pa\u00edses do Sul, ao verem a coroa real colocada pelo arcebispo na cabe\u00e7a do novo rei e o brilho da carruagem dourada, ind\u00edgenas e negros poder\u00e3o imaginar que aquele ouro ali concentrado custou o sangue de seus pais e av\u00f3s escravizados nas minas de minera\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina ou na \u00c1frica. Embora seja de extra\u00e7\u00f5es anteriores, \u00e9 o mesmo ouro que provocou o genoc\u00eddio dos povos originais na Am\u00e9rica e at\u00e9 hoje tenta exterminar de vez o povo Yanomami e a sua Amaz\u00f4nia, ferida por tantos garimpos e s\u00edtios de minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No pr\u00f3prio Reino Unido, algu\u00e9m poder\u00e1 se perguntar sobre a legitimidade de usar o dinheiro p\u00fablico dos impostos de uma popula\u00e7\u00e3o pluralista, hoje, de v\u00e1rias religi\u00f5es e cuja maioria nem \u00e9 religiosa, com essa cerim\u00f4nia de luxo que oficializa um chefe de Estado em uma Igreja crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem discutir esse assunto estar\u00e1 se questionando sobre o que significa, hoje, um Estado se legitimar atrav\u00e9s do rito &nbsp;de uma religi\u00e3o civil. Talvez, ao verem essa cerim\u00f4nia, haja menos pessoas que se perguntem a que ponto chegou o Cristianismo e como foi poss\u00edvel que a f\u00e9 crist\u00e3, a mesma do evangelho de Jesus trocou a coroa de espinhos da cruz de Jesus e dos povos crucificados pela legitima\u00e7\u00e3o de uma monarquia, que, como todas as outras, concentra uma hist\u00f3ria de conquista e coloniza\u00e7\u00e3o que provocou milh\u00f5es de v\u00edtimas em v\u00e1rios continentes para que, neste momento, um descendente da mesma fam\u00edlia real possa receber do prelado crist\u00e3o a coroa que o legitima como rei.<\/p>\n\n\n\n<p>A cerim\u00f4nia \u00e9 realizada pela Igreja Anglicana, assim como, no passado, a Igreja Cat\u00f3lica legitimou o poder de outros imp\u00e9rios igualmente sangrentos e coloniais. Outras Igrejas, se pudessem, fariam a coroa\u00e7\u00e3o de novos reis em outros templos, como o que se diz de Salom\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o de Igreja Cristandade \u00e9 a mesma que faz as pessoas pensarem uma assembleia da CNBB como se fosse a assembleia de toda a Igreja no Brasil e n\u00e3o como, apenas, a confer\u00eancia dos bispos cat\u00f3licos. Isso ocorre nas melhores fam\u00edlias, apesar de que, de acordo com a proposta da Sinodalidade sobre a qual o papa Francisco tanto insiste, esta deveria, junto com outras inst\u00e2ncias, formar a Assembleia do Povo de Deus, de comunh\u00e3o cat\u00f3lico-romana em nosso pa\u00eds. Na d\u00e9cada de 1990, Dom Luciano Mendes de Almeida convocou por duas ou tr\u00eas vezes uma assembleia dos Organismos do Povo de Deus. Depois dele, isso n\u00e3o teve continuidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O Cristo Ressuscitado nos chama a renunciar \u00e0s sedu\u00e7\u00f5es de uma Igreja Cristandade, legitimada pela sociedade dominante e injusta e que arma como ilus\u00f3rio set cinematogr\u00e1fico, o palco de uma coroa\u00e7\u00e3o de reis. No lugar disso, ministros e fieis, assumamos a coroa de espinhos do Cristo, vivida, hoje, pelos povos crucificados, aos quais devemos ajudar a descer da cruz e a ressuscitar para um mundo baseado no bem-viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ouro da coroa e a coroa de espinhos. Por Marcelo Barros Nestes dias, os jornais dedicam p\u00e1ginas inteiras a mostrar em detalhes a cora\u00e7\u00e3o do rei Charles III da Inglaterra. 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