{"id":12089,"date":"2023-05-21T07:01:50","date_gmt":"2023-05-21T10:01:50","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12089"},"modified":"2023-05-21T07:01:52","modified_gmt":"2023-05-21T10:01:52","slug":"meu-nome-nao-e-james-bond-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/meu-nome-nao-e-james-bond-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"MEU NOME N\u00c3O \u00c9 JAMES BOND. Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>MEU NOME N\u00c3O \u00c9 JAMES BOND<\/strong>. Por <strong>Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maxresdefault-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12090\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maxresdefault-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maxresdefault-300x169.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maxresdefault-768x432.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maxresdefault.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sabe quantos James Bond h\u00e1 somente nos EUA? S\u00e3o 2.242, registra o document\u00e1rio brit\u00e2nico \u201cThe other fellow\u201d, de Matthew Bauer, no qual s\u00e3o relatadas vidas de pessoas hom\u00f4nimas ao famoso personagem da s\u00e9rie de filmes \u201c007\u201d, criado por Ian Fleming.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Entre os focados est\u00e1 o negro preso ao longo de dois meses, nos EUA, por desacato, pelo simples fato de, ao ser abordado por policiais que lhe indagaram o nome, responder: \u201cJames Bond\u201d. E era verdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nome pode ser motivo de confus\u00e3o, como me acontece. Convidado a palestras e eventos, n\u00e3o raro a passagem enviada pelos promotores me chega com o nome Frei Betto. Durante a ditadura militar, a condena\u00e7\u00e3o de quatro anos que recebi foi acrescida da cassa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por 10 anos. Ao deixar a cadeia, deparei-me com um impasse: se votasse, seria crime. Se n\u00e3o votasse, tamb\u00e9m. Porque a Justi\u00e7a Militar cassou o Frei Betto e n\u00e3o o meu nome de registro. A sa\u00edda era mudar de domic\u00edlio eleitoral a cada elei\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sempre que declino meu sobrenome a quem me preenche cadastro, costumo comentar: \u201cChristo, irm\u00e3o de Jesus por parte de Pai\u201d. E n\u00e3o minto, como Dom H\u00e9lder C\u00e2mara n\u00e3o mentiu em uma delegacia no Recife. Ali se encontrava preso um pedreiro, confundido com um traficante de drogas. Havia sido torturado para confessar o que n\u00e3o sabia, e a fam\u00edlia recorreu ao prelado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u201cVim aqui porque meu irm\u00e3o, fulano de tal, est\u00e1 injustamente preso\u201d, disse Dom H\u00e9lder ao delegado. \u201cSeu irm\u00e3o!?\u201d, reagiu surpreso o policial devido \u00e0s diferen\u00e7as f\u00edsica e social entre os dois. Dom H\u00e9lder se debru\u00e7ou e segredou-lhe ao ouvido: \u201cMeu irm\u00e3o s\u00f3 por parte de Pai&#8230;\u201d \u201cAh, entendi\u201d, reagiu o policial.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Certa vez um paroquiano da igreja de S\u00e3o Domingos, em S\u00e3o Paulo, veio me pedir desculpas. N\u00e3o entendi, pois mal o conhecia. Ele explicou: \u201cDesculpas porque o considerava muito pretensioso ao adotar o nome de Jesus, enquanto outros frades adotam de santos. S\u00f3 agora soube que \u00e9 seu nome de fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Frei Gil Gomes Leit\u00e3o, indigenista qualificado, foi batizado e registrado como Dulce. Talvez por causa de uma promessa feita pela m\u00e3e, que julgou esperar uma menina. Ao ingressar na Ordem Dominicana, adotou o nome de Gil, em homenagem ao frade franc\u00eas que o precedeu na regi\u00e3o de Concei\u00e7\u00e3o do Araguaia (PA).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em plena guerrilha do Araguaia, na d\u00e9cada de 1970, a repress\u00e3o o acusou de apoiar os guerrilheiros e o incluiu na lista de procurados. Numa barreira policial, pediram a frei Gil que mostrasse os documentos. Constatado o \u201cDulce\u201d, os militares zombaram do padre e o deixaram ir&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O gerente de um banco com quem eu pretendia tirar uma d\u00favida por telefone, me perguntou: \u201cQual seu nome?\u201d \u201cCarlos\u201d, respondi. \u201cPergunto o sobrenome\u201d. \u201cChristo\u201d. \u201cAh \u00e9? E eu sou Deus\u201d, reagiu ele antes de desligar na minha cara.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ao visitar amigos escritores ou escritoras que moram em apartamentos, eu costumava informar ao porteiro: \u201cDiga que \u00e9 o Machado de Assis\u201d ou \u201cJo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa\u201d. Parei de faz\u00ea-lo quando um deles me disse pelo interfone da guarita: \u201cMinha filha est\u00e1 lendo um livro do senhor, seu Machado. Ser\u00e1 que posso traz\u00ea-lo para o senhor autografar quando voltar aqui?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Outrora, os sobrenomes eram topon\u00edmicos, dados pela cidade de origem: Jesus de Nazar\u00e9, Francisco de Assis, Tom\u00e1s de Aquino, Erasmo de Roterd\u00e3, ou relacionados&nbsp;a alguma atividade&nbsp;&#8211; Machado, Ferreira, Guerreiro etc.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os primeiros sobrenomes de que se tem not\u00edcia s\u00e3o os patron\u00edmicos, que fazem refer\u00eancia ao pai: Sim\u00e3o, filho de Jonas; Bartimeu, filho de Timeu, por exemplo. Esse g\u00eanero difundiu-se bastante na l\u00edngua inglesa, em que h\u00e1 uma grande quantidade de sobrenomes que terminam em son (filho) \u2013 como Stevenson, filho de Steven; Edson, filho de Eduardo; Jefferson, filho de Jeffrey ou Jofre etc.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Termino com uma piada infame: sabem quando o mundo acabar\u00e1?&nbsp;Quando conseguirmos contar o n\u00famero de pessoas que t\u00eam sobrenome Dias. Ser\u00e1 o fim, pois estaremos com os dias contados&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cAldeia do sil\u00eancio\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Frei Betto \u00e9 autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Voc\u00ea poder\u00e1 adquiri-los com desconto na Livraria Virtual \u2013 <\/strong><a href=\"http:\/\/www.freibetto.org\/\"><strong>www.freibetto.org<\/strong><\/a><strong>&nbsp; <\/strong><strong>Ali os encontrar\u00e1&nbsp; a pre\u00e7os mais baratos<\/strong><strong> <\/strong><strong>e os receber\u00e1 em casa pelo correio.&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MEU NOME N\u00c3O \u00c9 JAMES BOND. Por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sabe quantos James Bond h\u00e1 somente nos EUA? 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