{"id":12092,"date":"2023-05-21T07:16:17","date_gmt":"2023-05-21T10:16:17","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12092"},"modified":"2023-05-21T07:16:19","modified_gmt":"2023-05-21T10:16:19","slug":"o-colapso-atual-da-etica-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-colapso-atual-da-etica-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"O colapso atual da \u00e9tica. Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O colapso atual da \u00e9tica. Por Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/118956485_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12093\" width=\"778\" height=\"438\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/118956485_2.jpg 640w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/118956485_2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Leonardo Boff, te\u00f3logo da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Temos vivido e sofrido no Brasil tempos sombrios sob o governo de Jair Bolsonaro, onde a \u00e9tica foi enviada ao limbo e tudo praticamente valia (as fake news, as mentiras, a prega\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e a exalta\u00e7\u00e3o da tortura). Nos dias atuais assistimos, desolados, a guerra R\u00fassia-Ucr\u00e2nia. Esta guerra representa a nega\u00e7\u00e3o de todos os valores civilizat\u00f3rios, pois uma grande pot\u00eancia nuclear est\u00e1 literalmente destruindo uma pequena na\u00e7\u00e3o e seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem perder de vista os dois dados acima referidos, percebo dois fatores principais, entre outros, que atingem o cora\u00e7\u00e3o da \u00e9tica: a globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo depredador e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A mundializa\u00e7\u00e3o do capitalismo, como modo de produ\u00e7\u00e3o e sua express\u00e3o pol\u00edtica, o neo-liberalismo mostrou as consequ\u00eancias perversas da \u00e9tica&nbsp; capitalista: seus eixos estruturantes s\u00e3o o lucro ilimitado, acumulado individualmente ou por grandes corpora\u00e7\u00f5es, a concorr\u00eancia desenfreada, o assalto aos bens e servi\u00e7os da natureza, a flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis e a minimiliza\u00e7\u00e3o do estado em sua fun\u00e7\u00e3o de garantir uma sociedade minimamente equilibrada. Tal \u00e9tica \u00e9 altamente conflitiva porque n\u00e3o conhece a solidariedade, mas a concorr\u00eancia que faz de todos advers\u00e1rios, sen\u00e3o inimigos a serem&nbsp;vencidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem diferente, por exemplo, \u00e9 a \u00e9tica&nbsp;da cultura maia. Esta coloca tudo centrado no cora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que todas as coisas nasceram do amor de dois grandes cora\u00e7\u00f5es, do C\u00e9u e da Terra. O ideal \u00e9tico&nbsp;\u00e9 criar em todas as pessoas cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis, justos, transparentes e verdadeiros. Ou a \u00e9tica do \u201cbien vivir y convivir\u201d dos andinos, assentada no equil\u00edbrio com todas as coisas, entre os humanos, com a natureza e com o universo.<\/p>\n\n\n\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o, inter-relacionando todas as culturas, acabou tamb\u00e9m por revelar a pluralidade dos caminhos \u00e9ticos. Uma de suas consequ\u00eancias est\u00e1 sendo a relativiza\u00e7\u00e3o generalidade dos valores \u00e9ticos. Sabemos que a lei e a ordem, valores da pr\u00e1tica \u00e9tica fundamental, s\u00e3o os pr\u00e9-requisitos para qualquer civiliza\u00e7\u00e3o em qualquer parte do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que observamos \u00e9 que a humanidade est\u00e1 cedendo diante da barb\u00e1rie rumo a uma verdadeira idade das trevas mundial, tal \u00e9 o descalabro \u00e9tico que estamos vendo.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo grande empecilho \u00e0 \u00e9tica \u00e9&nbsp;mercantiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, aquilo que Karl Polaniy chamava j\u00e1 em 1944 de \u201c<em>A Grande Transforma\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. \u00c9 o fen\u00f4meno da passagem de uma economia de mercado para uma sociedade puramente de mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo se transforma em mercadoria, coisa j\u00e1 prevista por Karl Marx em seu texto \u201c<em>A mis\u00e9ria da&nbsp;<\/em>Filosofia\u201d de 1848, quando se referia ao tempo em que as coisas mais sagradas como a verdade e a consci\u00eancia seriam levadas ao mercado; seria \u201ctempo da grande corrup\u00e7\u00e3o e da venalidade universal\u201d. Pois vivemos este tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A economia especialmente a especulativa dita os rumos da pol\u00edtica e da sociedade como um todo que se caracteriza pela gera\u00e7\u00e3o de um profundo fosso entre os poucos ricos e as grandes maiorias empobrecidas.&nbsp;Aqui se revelam tra\u00e7os de barb\u00e1rie e de crueldade&nbsp; como poucas vezes na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9 a \u00e9tica que nos poder\u00e1 orientar como humanidade vivendo na mesma Casa Comum? \u00c9 aquela \u00e9tica que se enra\u00edza naquilo que \u00e9 espec\u00edfico nosso, enquanto humanos e que, por isso, seja universal e possa ser assumida por todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estimo que em primeir\u00edssimo lugar \u00e9 a&nbsp;<em>\u00e9tica do cuidado<\/em>. Consoante a fabula 220 do escravo Higino e bem interpretada por Martin Heidegger em&nbsp;<em>Ser e Tempo<\/em>&nbsp;e detalhada por mim em&nbsp;<em>Saber&nbsp;<\/em>cuidar, constitui o substrato ontol\u00f3gico do ser humano, valer dizer, aquele conjunto de fatores objetivos sem os quais jamais surgiria o ser humano e outros seres vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo fato de o cuidado ser da ess\u00eancia do humano, todos podem viv\u00ea-lo e dar-lhe formas concretas, segundo as diferentes culturas. O cuidado pressup\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel e amorosa para com a realidade, da m\u00e3o estendida para a solidariedade e n\u00e3o do punho cerrado para a competi\u00e7\u00e3o. No centro do cuidado est\u00e1 a vida. A civiliza\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser bio-s\u00f3cio-centrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dado de nossa ess\u00eancia humana \u00e9&nbsp;<em>a&nbsp;solidariedade<\/em>&nbsp;e a \u00e9tica que da\u00ed se deriva. Sabemos hoje pelo bioantropologia que foi a solidariedade de nossos ancestrais antrop\u00f3ides que permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. Buscavam os alimentos e os consumiam solidariamente. Todos vivemos porque existiu e existe um m\u00ednimo de solidariedade, come\u00e7ando pela fam\u00edlia. O que foi&nbsp;fundador ontem, continua sendo-o ainda hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caminho \u00e9tico, ligado \u00e0 nossa estrita humanidade, \u00e9 a&nbsp;<em>\u00e9tica da responsabilidade<\/em>&nbsp;<em>universal<\/em>. Ser respons\u00e1vel \u00e9 dar-se conta das consequ\u00eancias ben\u00e9ficas ou mal\u00e9ficas de nossos&nbsp;atos pessoais e sociais. Ou assumimos juntos responsavelmente o destino de nossa Casa Comum ou ent\u00e3o percorreremos um caminho sem retorno. Somos respons\u00e1veis pela sustentabilidade de Gaia e de seus ecossistemas para que possamos continuar a viver junto com toda a comunidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O filosofo Hans Jonas que, por primeiro, elaborou \u201c<em>O Princ\u00edpio Responsabilidade<\/em>\u201d, agregou a ele a import\u00e2ncia do medo coletivo. Quando este surge e os humanos come\u00e7arem a dar-se conta de que podem conhecer um fim tr\u00e1gico e at\u00e9 de desaparecer como esp\u00e9cie, irrompe um medo ancestral que os leva a uma \u00e9tica de sobreviv\u00eancia. O pressuposto inconsciente \u00e9 que o valor da vida est\u00e1 acima de qualquer outro valor cultural, religioso ou econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa tamb\u00e9m resgatar a&nbsp;<em>\u00e9tica da justi\u00e7a<\/em>&nbsp;para todos. A justi\u00e7a \u00e9 o direito m\u00ednimo que tributamos ao outro, de que possa continuar a existir e dando-lhe o que lhe cabe como pessoa: dignidade e respeito. Especialmente as institui\u00e7\u00f5es devem ser justas e equitativas para evitar os privil\u00e9gios e as exclus\u00f5es sociais que tantas v\u00edtimas produzem, particularmente no Brasil, um dos mais desiguais, vale dizer, mais injustos do mundo. Da\u00ed se explica o \u00f3dio e as discrimina\u00e7\u00f5es que dilaceram a sociedade, vindos n\u00e3o do povo, mas daquelas elites endinheiradas que n\u00e3o aceitam o direito para todos mas querem preservar seus privil\u00e9gios.<\/p>\n\n\n\n<p>A justi\u00e7a n\u00e3o vale apenas entre os humanos, mas tamb\u00e9m para com&nbsp;a natureza e a Terra que s\u00e3o portadores de direitos e, por isso, devem ser inclu\u00eddos em nosso conceito de democracia s\u00f3cio-ecol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, devemos incorporar uma&nbsp;<em>\u00e9tica da sobriedade compartida<\/em>&nbsp;para lograr o que dizia Xi Jinping, chefe supremo da China \u201cuma sociedade moderadamente abastecida\u201d. Isto significa um ideal m\u00ednimo e alcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes s\u00e3o alguns par\u00e2metros fundamentais para uma \u00e9tica, v\u00e1lida para cada povo e para a humanidade, reunida na Casa Comum. Caso contr\u00e1rio poderemos conhecer um armagedon social e ecol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo Boff&nbsp; escreveu: \u201c<em>Como cuidar da Casa Comum,<\/em>&nbsp; Vozes, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O colapso atual da \u00e9tica. 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