{"id":12441,"date":"2023-08-12T08:26:30","date_gmt":"2023-08-12T11:26:30","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12441"},"modified":"2023-08-12T21:23:34","modified_gmt":"2023-08-13T00:23:34","slug":"jesus-conosco-nas-tempestades-da-vida-mt-1422-33-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/jesus-conosco-nas-tempestades-da-vida-mt-1422-33-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Jesus conosco nas tempestades da vida (Mt 14,22-33). Por Marcelo Barros\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Jesus conosco nas tempestades da vida (Mt 14,22-33).<\/strong> Por Marcelo Barros&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12442\" width=\"782\" height=\"782\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg 320w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-300x300.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 782px) 100vw, 782px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, padre e monge beneditino da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste XIX Domingo comum do ano, lemos o evangelho de Mateus 14,22-33. Conforme esse evangelho, depois de alimentar o povo no deserto, Jesus vai orar na montanha e manda os disc\u00edpulos atravessar o lago para o outro lado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O pano de fundo desta p\u00e1gina \u00e9 o livro do \u00caxodo. L\u00e1, depois de celebrar a ceia pascal, <strong>o povo hebreu teve de enfrentar o ex\u00e9rcito do fara\u00f3 nas \u00e1guas do mar Vermelho que se abriram para salvar os escravos fugidos e sepultar os opressores.<\/strong> <strong>Agora, no evangelho, Jesus realiza um novo \u00caxodo. Alimenta a multid\u00e3o como refei\u00e7\u00e3o pascal e, depois, manda os disc\u00edpulos atravessar o mar da Galileia. Na B\u00edblia, o mar \u00e9 sempre s\u00edmbolo das for\u00e7as do mal. Enfrentar o mar \u00e9 lutar pela vida.<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho diz que Jesus mandou (o texto grego chega a sugerir que for\u00e7ou) os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas a entrar no barco para atravessar um mar de noite e em tempo de tempestade. Ao ouvir isso, pensamos em tantos pastores, irm\u00e3os e irm\u00e3s nossos que, nos nossos dias, obedecem a essa ordem de Jesus. Aceitam viver a f\u00e9, inseridos nas lutas do mundo e no enfrentamento \u00e0s tempestades sociais e pol\u00edticas do pa\u00eds. Pensamos nos irm\u00e3os e irm\u00e3s que trabalham junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de rua, junto a migrantes e a comunidades em situa\u00e7\u00e3o de riscos.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, ainda h\u00e1 muitos bispos, padres e pastores que n\u00e3o aceitam. Preferem ficar aproveitando o prest\u00edgio como se Jesus tivesse aceitado ser um messias milagreiro que multiplica p\u00e3es e encanta o povo, distraindo-o da sua mis\u00e9ria e suas car\u00eancias. Conforme o evangelho, Jesus n\u00e3o quis esse tipo de religi\u00e3o. Partilhou os p\u00e3es com a multid\u00e3o faminta, mas ao ver a rea\u00e7\u00e3o das pessoas e mesmo dos disc\u00edpulos que queriam fazer dele um rei, Jesus se separou de todos, despediu o povo e obrigou os disc\u00edpulos a se meterem nas tempestades da vida e das noites do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;At\u00e9 hoje, o lago da Galileia \u00e9 famoso por suas tempestades fortes e perigosas.&nbsp; Conforme o evangelho, em uma dessas noites de tempestade, os disc\u00edpulos de Jesus correram grande risco. Nela, o evangelho viu um sinal forte da interven\u00e7\u00e3o salvadora de Deus, atrav\u00e9s de Jesus. Jesus vindo de madrugada, andando sobre as \u00e1guas para salvar os disc\u00edpulos na barca \u00e9 uma par\u00e1bola sobre como Ele se manifesta em meio \u00e0s tempestades das noites da nossa vida, sejam as tormentas interiores, sejam as tempestades sociais e pol\u00edticas de um mundo no qual, como <strong>afirma o papa Francisco, a desigualdade \u00e9 a raiz de todos os males sociais<\/strong> (<em>Evangelii Gaudium<\/em>, 202).<\/p>\n\n\n\n<p>Antigamente, no deserto, Deus agiu em favor do povo hebreu, lhe dando o man\u00e1 como alimento e propondo a partilha como forma de organizar a economia. Assim tamb\u00e9m, o evangelho mostra que Jesus tamb\u00e9m alimentou a multid\u00e3o no deserto e prop\u00f4s a partilha como modelo de organiza\u00e7\u00e3o social. Isso o fazia correr perigo e ele teve de sair de l\u00e1, por motivo de seguran\u00e7a. A travessia do mar representa o enfrentamento \u00e0s for\u00e7as sociais que se op\u00f5em \u00e0 partilha.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, <strong>o papa Francisco prop\u00f5e a Economia de Francisco e Clara, como caminho de economia solid\u00e1ria<\/strong>. No Brasil, as for\u00e7as democr\u00e1ticas enfrentam uma elite que n\u00e3o aceita nenhuma medida econ\u00f4mica na dire\u00e7\u00e3o da partilha e da justi\u00e7a. E h\u00e1 muitos religiosos, cat\u00f3licos e evang\u00e9licos, que legitimam essa iniquidade em nome de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>A espiritualidade prof\u00e9tica tem de assumir o enfrentamento com os poderes inimigos da partilha<\/strong>. O barco que enfrenta o mar \u00e9 imagem da comunidade prof\u00e9tica, que enfrenta os poderes da domina\u00e7\u00e3o e da morte. Mateus conta essa hist\u00f3ria falando tr\u00eas vezes em \u201cmedo\u201d, \u201cang\u00fastia\u201d e \u201cpavor\u201d. Isso revela a realidade que a comunidade crist\u00e3 em sua \u00e9poca estava vivendo. Quando os disc\u00edpulos gritam de medo, <strong>Jesus diz: \u201cTenham coragem. Sou eu. N\u00e3o tenham medo\u201d<\/strong>. \u00c9 a mesma palavra que, antigamente, no \u00caxodo, Deus disse ao povo, que estava diante do mar e via o ex\u00e9rcito do fara\u00f3 chegando para prend\u00ea-los. \u00c9 a palavra que temos de ouvir hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de Pedro de pedir a Jesus para abandonar o barco e ir ao encontro dele por cima das \u00e1guas \u00e9 simb\u00f3lica. \u00c0s vezes, em meio \u00e0s tempestades da vida, h\u00e1 pessoas que t\u00eam essa mesma tenta\u00e7\u00e3o. No lugar de ficar no barco, como todo mundo, enfrentando a tempestade, h\u00e1 pessoas mais piedosas do que as outras que querem um milagre para si. Dizem como Pedro: \u201c<em>Manda-me ir para junto de voc\u00ea por cima das \u00e1guas\u201d<\/em>. Quando Pedro vai e afunda, Jesus lhe diz que a f\u00e9 dele era fraca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que Jesus estava se referindo ao fato de que Pedro teve medo de caminhar sobre as \u00e1guas ou ser\u00e1 que, com essas palavras, afirmava que a f\u00e9 de Pedro era pequena por ter abandonado o barco e deixado os outros enfrentando o mar, enquanto ele procurava abrigo seguro junto a Jesus?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Certamente, o projeto de Jesus era os disc\u00edpulos ficarem juntos para enfrentar a tempestade e n\u00e3o tanto socorrer um deles. A cena de Pedro que se sente afundar no caminho entre a barca e Jesus que o chamava \u00e9 s\u00edmbolo de que a inseguran\u00e7a e o afundamento no mar do mundo pode atingir at\u00e9 os ministros que representam a comunidade. Como Pedro, os pastores podem tamb\u00e9m se sentir afundando, no meio do caminho para o Cristo, quando a tempestade se torna mais amea\u00e7adora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atualmente, muitos padres, bispos e pastores se sentem fragilizados e hostilizados dentro da pr\u00f3pria comunidade de f\u00e9, ao propor espiritualidade prof\u00e9tica contr\u00e1ria a uma religi\u00e3o ritualista e devocional alheia ao intento de construir um mundo novo de acordo com o projeto divino.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na maioria das vezes, fomos educados a pensar em Deus no sil\u00eancio, na paz e associar a presen\u00e7a de Deus \u00e0 claridade e \u00e0 beleza de uma natureza tranquila. <strong>Comumente, n\u00e3o pensamos Deus presente nas tempestades da vida e na escurid\u00e3o de nossas noites do esp\u00edrito<\/strong>. Essa palavra do evangelho revela que Jesus traz a presen\u00e7a divina para o cora\u00e7\u00e3o de nossas ang\u00fastias, de nossos medos e nossas noites escuras.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro chama Jesus de \u201c<em>Kyrios<\/em>\u201d, \u201cSenhor\u201d. Na \u00e9poca,&nbsp; isso era&nbsp; subversivo. S\u00f3 o imperador de Roma se intitulava de <em>Kyrios<\/em>. Ao dar esse t\u00edtulo a Jesus, os primeiros crist\u00e3os mostravam n\u00e3o aceitar o absolutismo de nenhum poder humano. S\u00f3 Jesus \u00e9 o <em>Kyrios, senhor <\/em>da nossa vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, esse t\u00edtulo que, no mundo antigo, tinha conota\u00e7\u00e3o subversiva e transformadora tomou um aspecto problem\u00e1tico na linha do patriarcalismo. Deus acabou sendo visto como patriarca macho (senhor JWHW) e Jesus \u00e9 senhor. Culturalmente, esse modo de ver Deus acaba colaborando com a marginaliza\u00e7\u00e3o da mulher. Por isso, <strong>\u00e9 importante e urgente libertar Jesus de qualquer linguagem que legitime o patriarcalismo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como fez aos disc\u00edpulos, <strong>Jesus nos manda passar para o outro lado, isso \u00e9, enfrentar o desconhecido<\/strong>. Para a comunidade do evangelho, passar para o outro lado significava se abrir aos estrangeiros, os n\u00e3o crentes, que moravam na outra margem do lago.&nbsp;O que significa isso para n\u00f3s hoje? <strong>Pode significar abrir nossas vidas e nossas formas de crer \u00e0s religi\u00f5es origin\u00e1rias que hoje sofrem preconceitos e at\u00e9 persegui\u00e7\u00f5es.<\/strong> Pode significar abrir nossa f\u00e9 a novos horizontes e no di\u00e1logo com o mundo de fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos receber a coragem de Jesus para enfrentar a tempestade dos fara\u00f3s de hoje em dia e testemunhar o projeto divino em meio a uma sociedade que vai na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Que nossas eucaristias possam ser alimento que nos deem for\u00e7a nesta travessia.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jesus conosco nas tempestades da vida (Mt 14,22-33). Por Marcelo Barros&nbsp; Neste XIX Domingo comum do ano, lemos o evangelho de Mateus 14,22-33. 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