{"id":12496,"date":"2023-08-26T15:45:23","date_gmt":"2023-08-26T18:45:23","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12496"},"modified":"2023-08-26T15:45:25","modified_gmt":"2023-08-26T18:45:25","slug":"15o-intereclesial-de-cebs-bencaos-e-desafios-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/15o-intereclesial-de-cebs-bencaos-e-desafios-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"15\u00ba Intereclesial de CEBs: B\u00ean\u00e7\u00e3os e Desafios. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>15\u00ba Intereclesial de CEBs: B\u00ean\u00e7\u00e3os e Desafios. Por <\/strong>Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"780\" height=\"440\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_0332-780x440-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12497\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_0332-780x440-1.jpg 780w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_0332-780x440-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/IMG_0332-780x440-1-768x433.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><figcaption>Caminhada dos\/as M\u00e1rtires no XV Intereclesial das CEBs em Rondon\u00f3polis. Foto: Jorge Mirandinha<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para quem teve a gra\u00e7a de participar do 15\u00ba Intereclesial das CEBs, sem d\u00favida, a primeira rea\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser de gratid\u00e3o a Deus e aos irm\u00e3os e irm\u00e3s da equipe de coordena\u00e7\u00e3o e das diversas equipes de servi\u00e7o que prepararam e estiveram \u00e0 frente da organiza\u00e7\u00e3o desse encontro intereclesial.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram 18 horas da ter\u00e7a-feira, 18 de julho, quando chegou o \u00faltimo \u00f4nibus organizado pela CNBB do Regional MT, ao Centro de Cultura de um dos bairros de Rondon\u00f3polis, MT, local dos grandes plen\u00e1rios do 15\u00ba Intereclesial das CEBs. Eu estava ainda entrando no local que durante todo o encontro iria se chamar \u201cCasa comum\u201d quando escutei a voz de Dom Maur\u00edcio da Silva Jardim, bispo diocesano, anunciar: \u201cDeclaro aberto o 15\u00ba Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto me aproximava do palco onde a equipe de coordena\u00e7\u00e3o acolhia os participantes, ia avistando e cumprimentando um mundo de pessoas conhecidas. A alegria de reencontrar participantes das CEBs do Recife que, reunidos no Movimento Encontro de Irm\u00e3os, at\u00e9 h\u00e1 poucos anos, assessorei e para o qual celebrava. Encontrava os representantes das CEBs de Pernambuco, dos quais participei v\u00e1rias vezes dos encontros no Santu\u00e1rio das Comunidades em Caruaru. E assim, gente do Brasil inteiro. Sem d\u00favida, algumas e alguns assessores, sempre encontro nesses encontros intereclesiais, desde o VI Encontro, em Trindade, 1986, quando, pela primeira vez, participei do grupo nacional de assessores (nos dois encontros anteriores, participei como representante, mas n\u00e3o como assessor). Al\u00e9m desses e dessas irm\u00e3s, muita gente nova, o que \u00e9 \u00f3timo e positivo.&nbsp;&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse encontro em Rondon\u00f3polis, n\u00e3o fui convidado para assessorar nenhum plen\u00e1rio nem bioma e gostei de que essa tarefa tenha ficado com pessoas dos regionais e gente mais nova. Apenas, como me ofereci, sem ser convidado, ajudei a equipe que preparou a celebra\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica. E fiquei feliz em participar assim, mais como participante comum e espectador do que como algu\u00e9m com encargo de assessorar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Primeiras impress\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todas as pessoas com as quais conversei e que tinham participado de outros intereclesiais confirmaram a minha impress\u00e3o de que esse encontro foi dos mais organizados e com estrutura que funcionou 100% bem nos mais diversos n\u00edveis. Apesar de todas as dificuldades e desafios pelos quais passou a equipe ampliada que tinha a tarefa de prepar\u00e1-lo e organiz\u00e1-lo, quem participou pode testemunhar uma organiza\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel e extremamente eficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, as celebra\u00e7\u00f5es, preparadas pela equipe da Rede Celebra foram excelentes. Deram ao encontro o tom correto de profecia e espiritualidade que o encontro precisava. A celebra\u00e7\u00e3o inicial foi sem d\u00favida a melhor e mais bem coordenada e realizada de todas as celebra\u00e7\u00f5es de abertura que j\u00e1 vi em um dos intereclesiais dos quais participei. Leve, profunda e tocante.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sinal novo e importante em nossos dias, bendigo a Deus pela profecia da realiza\u00e7\u00e3o de um \u00e1gape eucar\u00edstico, na celebra\u00e7\u00e3o de abertura. Dou gra\u00e7as a Deus por ter participado desse \u00e1gape, presidido por uma mulher (Marilza Schu\u00edna) que cantou uma ora\u00e7\u00e3o &nbsp;eucar\u00edstica alternativa, composta pelo saudoso Reginaldo Veloso. Aquilo foi claramente um ato prof\u00e9tico que mostra um caminho \u00e0s CEBs e \u00e0s comunidades da caminhada: <strong>temos de libertar a ceia de Jesus da pris\u00e3o na qual se encontra como culto clerical e sacral, desligado da comunh\u00e3o afetuosa da vida e da partilha, como deve ser a celebra\u00e7\u00e3o da ceia pascal do Cristo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do 15\u00ba Intereclesial em plen\u00e1rios e grupos \u2013 Casa Comum e Biomas &#8211; foi excelente. S\u00f3 o fato de terem escolhidos esses nomes j\u00e1 foi importante. As palavras s\u00e3o fortes e expressivas. O pr\u00f3prio fato de que os\/as participantes foram organizados por biomas foi em si mesmo significativo e a partir da espiritualidade ecol\u00f3gica. E esse cuidado com a espiritualidade ecol\u00f3gica apareceu em todos os momentos e situa\u00e7\u00f5es. A impress\u00e3o \u00e9 que todos e todas que participaram se sentiram muito contentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Algumas caracter\u00edsticas do 15\u00ba Encontro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena salientar o que, na atual conjuntura da Igreja Cat\u00f3lica no Brasil, esse encontro significa:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\"><li>Antes de tudo, significou ato de resist\u00eancia. Militantes e pessoas da caminhada libertadora expressam claramente: estamos vivos e mantemos viva e forte a profecia da espiritualidade libertadora.<\/li><li>Como em outros encontros anteriores, tamb\u00e9m nesse, sentimos que as pessoas de base sentem necessidade de se descobrirem participando de algo mais amplo. O sair do \u201cpequeno mundo da cotidianidade\u201d que, n\u00e3o poucas vezes \u00e9 limitado por v\u00e1rios fatores \u00e9 sinal e instrumento de espiritualidade libertadora. Provavelmente, a primeira alegria \u00e9 todo o povo da caminhada poder se encontrar, cantar e gritar: N\u00e3o estamos s\u00f3s! Somos muitos e muitas. E estamos juntos\/as.<\/li><li>Nesse encontro, talvez mais do que nos intereclesiais mais recentes, parece que retomamos um elemento dos dois ou tr\u00eas primeiros encontros intereclesiais: em 1975, a ideia de Dom Luiz Fernandes, ent\u00e3o bispo auxiliar de Vit\u00f3ria, ES, ao convocar o primeiro encontro foi reunir as Igrejas (dioceses) que viviam experi\u00eancia de CEBs. A partir do 4\u00ba encontro, essa caracter\u00edstica acabou se alargando demais e perdeu sua especificidade.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Agora, devido \u00e0 realidade mais polarizada de nossas Igrejas locais e devido tamb\u00e9m ao fato de que o velho conservadorismo, hoje \u00e9 mais conservador do que era nos anos 1980 e tem mais esp\u00edrito intransigente de cruzada, as diferen\u00e7as acabam sendo mais n\u00edtidas e de novo quem vem a um encontro como esse, em geral, tem identifica\u00e7\u00e3o mais clara, se n\u00e3o diretamente com CEBs, ao menos com a Igreja da caminhada libertadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Disso, resultam algumas quest\u00f5es a aprofundarmos:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Na Igreja Cat\u00f3lica, o que vemos \u00e9, ao contr\u00e1rio do que prop\u00f5e o papa Francisco, uma clericaliza\u00e7\u00e3o cada vez mais forte e mais centrada no modelo de Igreja de Cristandade. Qual a repercuss\u00e3o dessa realidade para as CEBs?<\/li><li>As CEBs de hoje n\u00e3o s\u00e3o mais as mesmas de 1975 ou da d\u00e9cada de 1980. N\u00e3o s\u00e3o, n\u00e3o podem ser e n\u00e3o devem ser. O problema \u00e9 que aquelas tinham consist\u00eancia e caracter\u00edsticas que conhec\u00edamos bem. Agora, as CEBs atuais, como se constituem e o que as caracteriza verdadeiramente? Sabemos que n\u00e3o s\u00e3o apenas \u201cpequenas comunidades mission\u00e1rias\u201d e menos ainda \u201cmeras capelas do interior\u201d. Precisamos clarear melhor como se organizam e se expressam em nossos dias\u2026 Parece urgente refazer uma teologia das CEBs\u2026<\/li><li>Sem de modo algum querer mudar a natureza do encontro intereclesial, chamo a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que esse encontro teve muito a caracter\u00edstica de um encontro de Igreja da caminhada, para al\u00e9m das CEBs. Penso que se pass\u00e1ssemos uma ficha de identidade para todas as pessoas que participaram desse 15\u00ba encontro, talvez a maioria delas se colocasse como assessores dos v\u00e1rios organismos pastorais (Caritas e pastorais sociais) e movimentos populares.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, a presid\u00eancia da CNBB promoveu uma assembleia dos Organismos do Povo de Deus. Funcionou por tr\u00eas vezes e, mesmo se agora, continua existindo, parece ter pouca visibilidade e n\u00e3o sei se tem repercuss\u00e3o concreta.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dois anos, na constru\u00e7\u00e3o do processo de sinodalidade, o papa Francisco prop\u00f4s a Assembleia Eclesial Latino-americana (novembro de 2021) e aceitou a constitui\u00e7\u00e3o da CEAMA, Confer\u00eancia Eclesial Amaz\u00f4nica no lugar de confer\u00eancia episcopal. Apesar de que concretamente essa assembleia n\u00e3o teve a mesma for\u00e7a das confer\u00eancias episcopais (Medell\u00edn,&nbsp; Puebla e Aparecida), provavelmente, isso se deu em grande parte, a problemas e perspectivas dos pr\u00f3prios participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem querer comparar o 15\u00ba Intereclesial de CEBs com uma Assembleia eclesial mais ampla, \u00e9 verdade que esse incorporou um estilo ou o rosto de uma assembleia eclesial da caminhada libertadora, mais ampla do que apenas a de um encontro nacional de CEBs e&nbsp; como lembrei antes, desde a origem, os encontros intereclesiais de CEBs se chamam intereclesiais porque sempre foram de Igrejas que t\u00eam CEBs e n\u00e3o apenas das CEBs. Foi um encontro da Igreja da Caminhada, como diz\u00edamos nos primeiros anos: Uma Igreja que nasce do povo sob o sopro do Esp\u00edrito. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>3\u00ba \u2013 Mais do que em encontros anteriores, esse encontro foi ocasi\u00e3o para a express\u00e3o de pastorais crist\u00e3s ind\u00edgenas e negras, em di\u00e1logo com as culturas origin\u00e1rias. Em todas as celebra\u00e7\u00f5es e plen\u00e1rios, se revelou que o di\u00e1logo e a inser\u00e7\u00e3o com as comunidades negras e ind\u00edgenas, ao menos dessa parte da Igreja da qual participamos, se aprofundou e deixou para tr\u00e1s as dificuldades que se sentiam nos encontros intereclesiais dos anos 1990, quando ainda n\u00e3o se conseguiam acolher e integrar plenamente as pessoas de tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e negras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. D\u00favidas e Perguntas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A festa \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o do tempo da gra\u00e7a pascal na vida das comunidades. A festa, seja religiosa como a P\u00e1scoa ou o Natal, seja a festa considerada profana como \u00e9 o Carnaval, \u00e9 sempre sacramento de comunh\u00e3o e express\u00e3o importante da resist\u00eancia do povo e da presen\u00e7a amorosa do Esp\u00edrito que nos anima. No entanto, a festa s\u00f3 cumpre essa fun\u00e7\u00e3o sacramental se se alicer\u00e7a na cotidianidade da experi\u00eancia comunit\u00e1ria. Sem isso, a festa, fica sem base como casa sem alicerce ou planta sem raiz.<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente, para a maioria das pessoas que acompanham a caminhada libertadora (e desde tanto tempo, como \u00e9 o meu caso), a primeira grande pergunta \u00e9 at\u00e9 que ponto esse 15\u00ba Intereclesial de CEBs, em sua forma atual, expressou e representou a caminhada real e cotidiana das comunidades eclesiais de base nas diversas regi\u00f5es do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil de responder a isso. Provavelmente, nesse encontro, se realizaram pesquisas. N\u00e3o as vi. N\u00e3o sei entre os\/as participantes, qual a percentagem de pessoas de base e de agentes de pastoral e militantes das diversas entidades de assessoria. Sem d\u00favida, muitos\/as dos\/as participantes desse Intereclesial mant\u00e9m verdadeiramente contato de presen\u00e7a e acompanhamento daquilo que podemos chamar de CEBs\u2026 No entanto, como m\u00e9dico \u00e9 capaz de detectar uma enfermidade pelos sintomas que outras pessoas nem perceberiam, devo confessar que, por tr\u00e1s de toda a euforia vis\u00edvel nas dan\u00e7as e por tr\u00e1s das muitas palavras dos plen\u00e1rios do encontro, senti certa inquieta\u00e7\u00e3o. A realidade por tr\u00e1s dos relatos que apareceram nos plen\u00e1rios aos quais tive acesso me deixou a impress\u00e3o de que parece haver certo descolamento entre a realidade que apareceu nesse Encontro Intereclesial e a realidade cotidiana das CEBs na maior parte das dioceses.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m observou que nos grupos, as perguntas a serem respondidas supunham que as pessoas presentes pudessem responder em nome das CEBs. Havia perguntas sobre como a realidade social e eclesial tem impacto sobre as CEBs ou sobre o que anima as CEBs hoje. No entanto, ser\u00e1 que a maioria das pessoas reunidas nesse encontro, principalmente, assessores e pessoal que trabalha nas diversas pastorais sociais e organismos de apoio podiam mesmo responder a essas perguntas como representantes de CEBs?<\/p>\n\n\n\n<p>Escutei de v\u00e1rios bispos, cujas dioceses tinham CEBs e se organizavam a partir delas nos anos 80 e 90 que atualmente n\u00e3o \u00e9 essa a realidade. Pelo que escutei de v\u00e1rios militantes e mesmo de alguns bispos, respons\u00e1veis por dioceses que nos anos 90 eram refer\u00eancias de CEBs no Brasil, parece que o maior inimigo das CEBs no Brasil e do modelo de Igreja que elas representam \u00e9 o clero.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, depois que o papa Francisco denunciou o clericalismo como mal, todo mundo fala contra o clericalismo. No entanto, esse \u00e9 um fen\u00f4meno de v\u00e1rias faces e express\u00f5es. Nesse encontro de Rondon\u00f3polis, minha impress\u00e3o \u00e9 que todos os plen\u00e1rios apontaram o Clericalismo como mal. E para eles e elas que falaram isso, o significado concreto era que a maioria dos atuais padres da Igreja no Brasil n\u00e3o aceitam e n\u00e3o gostam de CEBs e de Pastorais Sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, com algumas exce\u00e7\u00f5es, seria bom se fazer um estudo porque algumas dioceses que, justamente, no passado eram refer\u00eancias da caminhada libertadora e do protagonismo do laicato, neste momento atual s\u00e3o das que t\u00eam clero mais conservador e refrat\u00e1rio a qualquer proposta de CEBs e de caminhada libertadora \u2026 O que significa isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m de n\u00f3s \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 paroquializa\u00e7\u00e3o das CEBs, nem concorda com o fato de que a CNBB junte tudo no nome de \u201cpequenas comunidades\u201d. A par\u00f3quia \u00e9 estrutura ainda ligada ao modelo de Igreja Cristandade, organizada na Idade M\u00e9dia e que veio ao nosso pa\u00eds com a estrutura colonial. As CEBs nasceram e se desenvolveram em di\u00e1logo com a estrutura paroquial, mas livres e n\u00e3o dependentes delas. No entanto, todos sabemos que, na atual estrutura cat\u00f3lica, sem apoio dos p\u00e1rocos e das par\u00f3quias, o acesso \u00e0s bases se torna mais dif\u00edcil e sem continuidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra isso, podemos objetar ressaltando a presen\u00e7a boa e afetuosa de muitos padres e bispos presentes no intereclesial. Parece que, nesse encontro, padres de par\u00f3quia e de base eram minoria. Uma minoria brilhante e forte, mas minoria. A maioria dos padres presentes no 15\u00ba Intereclesial era de assessores de pastorais sociais, professores de universidade e te\u00f3logos.&nbsp; Talvez isso explique a dist\u00e2ncia que ainda existe entre o tipo de liturgia, os c\u00e2nticos e os assuntos que dominaram um encontro como esse e a realidade das comunidades nas par\u00f3quias.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo nos anos 1970 e 1980, o modelo de Igreja vivido nas CEBs sempre foi minorit\u00e1rio. Como \u201cminorias abra\u00e2micas\u201d, elas sempre lutaram com dificuldade. Esse Encontro de Rondon\u00f3polis mostra que a caminhada persiste e resiste, apesar de todas as dificuldades. No entanto, parece que a reconstru\u00e7\u00e3o, talvez, tenha de ser mais livre em rela\u00e7\u00e3o ao terreno institucional da Igreja Cat\u00f3lica institucional, ou ao menos, mais independente das par\u00f3quias.<\/p>\n\n\n\n<p>Se essa intui\u00e7\u00e3o for correta, as CEBs se ligariam \u00e0 caminhada social das bases, mesmo se baseadas na f\u00e9 e na espiritualidade libertadora. No campo da juventude, atualmente, o MEL (Movimento de Juventudes e Espiritualidade Libertadora) tem como proposta desenvolver a espiritualidade libertadora (ecum\u00eanica), mas sem se identificar com nenhuma Igreja. Ser\u00e1 que nessa mesma linha, as CEBs hoje deveriam caminhar para ser mais comunidades humanas ou ecum\u00eanicas de base? Para ser eclesiais, elas teriam que ser menos eclesi\u00e1sticas e assumir realmente o fato de que a estrutura paroquial da Igreja n\u00e3o as assume corretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>De todos os encontros intereclesiais, desde o VI em Trindade (1986), esse foi o que teve menor n\u00famero de pessoas de outras Igrejas e quase ningu\u00e9m se identificou como de outra religi\u00e3o. Isso revela a realidade das nossas Igrejas em seu dia a dia. Rela\u00e7\u00f5es ecum\u00eanicas n\u00e3o se improvisam. Assim mesmo a celebra\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica, no segundo dia do encontro, foi marcante. Centrou-se mais no di\u00e1logo com as culturas negras e ind\u00edgenas do que propriamente no conv\u00edvio entre crentes de Igrejas diferentes, mas deixou como quest\u00e3o a ecumenicidade da nossa caminhada libertadora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um desafio fundamental porque n\u00e3o est\u00e1 ligado apenas a aspectos concretos da pastoral. Revela n\u00e3o apenas a hist\u00f3ria e o fato de que os encontros intereclesiais surgiram e se desenvolveram dentro de uma cultura cat\u00f3lica-romana. Revela tamb\u00e9m que o modelo de Igreja ainda em vigor nos encontros intereclesiais ainda est\u00e1 preso ao modelo Cristandade. E nesse modelo, n\u00e3o h\u00e1 lugar para a ecumenicidade, mas n\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m para a laicidade de CEBs que deveriam ser o rosto da Igreja no mundo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Eis um exemplo de certa ambiguidade: Na parede da Casa Comum, local dos grandes plen\u00e1rios desse encontro, havia um cartaz reafirmando que atuar na Pol\u00edtica \u00e9 miss\u00e3o dos leigos\/as como tarefa de transformar o mundo. Isso significa que mesmo entre n\u00f3s e nos ambientes da caminhada libertadora ainda mantemos esse dualismo que legitima o clericalismo. Se a miss\u00e3o de se inserir no mundo e atuar na transforma\u00e7\u00e3o do mundo, compete aos leigos, estamos concordando que compete aos ordenados o terreno do sagrado. Se n\u00f3s mesmos afirmamos isso, com que direito vamos criticar padres que s\u00f3 querem saber de liturgia e de paramentos e parecem sacerdotes de religi\u00f5es pag\u00e3s ou do templo do primeiro testamento?<\/p>\n\n\n\n<p>Quem acompanhou alguns dos encontros intereclesiais desde a d\u00e9cada de 1980 at\u00e9 o come\u00e7o deste s\u00e9culo sabe como, nos encontros intereclesiais, havia tens\u00f5es e dificuldades de di\u00e1logo entre bispos e assessores. Em S\u00e3o Lu\u00eds, Ilh\u00e9us e Ipatinga, era sempre necess\u00e1rio prever, durante o encontro, um bom tempo de di\u00e1logo entre bispos e assessores para desfazer mal entendidos e se avan\u00e7ar na caminhada eclesial. Dessa vez, n\u00e3o houve nenhum sinal de mal estar ou da necessidade de di\u00e1logo especial.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se isso denota a supera\u00e7\u00e3o das dificuldades, ou significa que todos n\u00f3s, bispos e assessores, vivemos uma realidade de Igreja onde o pr\u00f3prio fato de haver um encontro como esse j\u00e1 \u00e9 o m\u00e1ximo e ningu\u00e9m levanta mais nenhuma quest\u00e3o que eclesialmente incomode mais do que a pr\u00f3pria realidade j\u00e1 \u00e9 inquietante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4 \u2013 Algumas perspectivas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quem foi a um encontro intereclesial pela primeira vez deve ter achado maravilhoso ver bispos, padres, religiosas e leigos e leigas, juntos em uma roda de igualdade dan\u00e7ando ciranda ou seguindo o trem das CEBs. Novamente, a pergunta \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre isso e a cotidianidade da pr\u00e1tica pastoral.<\/p>\n\n\n\n<p>No sul do Brasil, um grupo de religiosos&nbsp; muito abertos acompanhava solidariamente acampamentos do MST e lutas sociais e pol\u00edticas. No entanto, quando, no fim do dia, esses religiosos jovens voltavam ao convento, pareciam entrar na m\u00e1quina do tempo do professor Pardal. Travestiam-se de religiosos tradicionais, com vestes, com liturgia e devocional comum da ordem. N\u00e3o pareciam se dar conta da esquizofrenia espiritual que isso representava.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo no tempo da caminhada, era frequente encontrar bispos que, fora das suas dioceses, eram simples, abertos e solid\u00e1rios, mas quando entravam na sua Igreja local, assumiam posturas bem mais conservadoras e autorit\u00e1rias.&nbsp; Provavelmente, n\u00e3o \u00e9 o caso atual de nenhum bispo ou padre presente nesse encontro. No entanto, a maioria deles tem dificuldade com o clero de suas dioceses que dificulta uma caminhada eclesial mais aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Se nesse encontro de Rondon\u00f3polis, passamos entre n\u00f3s mesmos e ao mundo a imagem de uma Igreja, em seu conjunto mais aberta e mais renovada, n\u00e3o somente n\u00e3o estar\u00edamos sendo fieis \u00e0 realidade como, ao dar essa impress\u00e3o falsa ou superficial, n\u00e3o ajudamos mais profundamente a transformar a Igreja em uma Igreja sinodal e em sa\u00edda (sa\u00edda para as periferias e para o mundo). Dar impress\u00e3o de maior abertura quando essa n\u00e3o existe \u00e9 trai\u00e7\u00e3o maior do que seria o assumir a realidade menos bonita ou agrad\u00e1vel, mas verdadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>A articula\u00e7\u00e3o de CEBs, hoje, \u00e9 mais necess\u00e1ria do que nunca. No entanto, ela teria de ser retomada por uma equipe nacional que se dispusesse a uma reanima\u00e7\u00e3o local e regional e como movimento nacional de car\u00e1ter mais aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s par\u00f3quias e mesmo \u00e0s dioceses, ligadas \u00e0s Igrejas locais, mas com estrutura mais aut\u00f4noma e mais laical e ecum\u00eanica, talvez animada a partir do CONIC e de entidades irm\u00e3s que possam junto com as pastorais sociais assumirem a tarefa de dar maior visibilidade e solidez \u00e0s comunidades ecum\u00eanicas de base ou mesmo comunidades humanas de base.<\/p>\n\n\n\n<p>Que o sopro do Amor Divino nos ilumine e conduza pelos melhores caminhos de escuta, di\u00e1logo e acolhida do reinado divino entre n\u00f3s<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>15\u00ba Intereclesial de CEBs: B\u00ean\u00e7\u00e3os e Desafios. Por Marcelo Barros Para quem teve a gra\u00e7a de participar do 15\u00ba Intereclesial das CEBs, sem d\u00favida, a primeira rea\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser de gratid\u00e3o a Deus e<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-12496","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12496","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12496"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12496\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12498,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12496\/revisions\/12498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}