{"id":12543,"date":"2023-09-11T10:27:04","date_gmt":"2023-09-11T13:27:04","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12543"},"modified":"2023-09-11T10:27:06","modified_gmt":"2023-09-11T13:27:06","slug":"caminhos-de-reconciliacao-para-uma-humanidade-dividida-mt-1815-20-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/caminhos-de-reconciliacao-para-uma-humanidade-dividida-mt-1815-20-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Caminhos de reconcilia\u00e7\u00e3o para uma humanidade dividida (Mt 18,15- 20). Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Caminhos de reconcilia\u00e7\u00e3o para uma humanidade dividida (Mt 18,15- 20). Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/monge-marcelo-barros-mst-705x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12544\" width=\"781\" height=\"1134\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/monge-marcelo-barros-mst-705x1024.jpg 705w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/monge-marcelo-barros-mst-207x300.jpg 207w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/monge-marcelo-barros-mst-768x1115.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/monge-marcelo-barros-mst-1058x1536.jpg 1058w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/monge-marcelo-barros-mst.jpg 1102w\" sizes=\"auto, (max-width: 781px) 100vw, 781px\" \/><figcaption>Padre Marcelo Barros. Foto Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste XXIII domingo comum do ano, dia 10\/09\/2023, escutamos o evangelho de Mateus 18,15-20, texto central no discurso de Jesus sobre como deve ser a comunidade dos seus disc\u00edpulos e disc\u00edpulas. \u00c9 incr\u00edvel que o discurso de Jesus sobre a comunidade comece nos advertindo sobre a tenta\u00e7\u00e3o do poder.&nbsp; O testemunho do reinado divino no mundo s\u00f3 pode ser feito a partir do caminho do anti-poder. Quem continua atra\u00eddo\/a pelo poder, mesmo pelo poder religioso e eclesi\u00e1stico, ignora o evangelho de Jesus. A comunidade crist\u00e3 tem de ser ensaio de uma invers\u00e3o de valores do mundo. Jesus adverte: s\u00f3 se entra no discipulado dele pela identifica\u00e7\u00e3o com os pequenos do mundo. Ele nos chama a sermos, n\u00f3s mesmos\/as, n\u00e3o apenas pessoas simples e consideradas pequenas diante da sociedade, como disc\u00edpulas dos pequeninos do mundo. Para isso, nesse texto, ele nos ensina como viver entre n\u00f3s a corre\u00e7\u00e3o fraterna e a comunh\u00e3o como sinal e sacramento da presen\u00e7a divina no mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em qualquer grupo \u00e9 comum e normal surgirem conflitos. Como solu\u00e7\u00e3o para os conflitos internos na comunidade, Jesus prop\u00f5e a busca cont\u00ednua e teimosa da reconcilia\u00e7\u00e3o. Talvez, o normal fosse pedir \u00e0 pessoa que provocou o conflito que procurasse se reconciliar. No entanto, Jesus radicaliza. Ele pede a iniciativa de ir atr\u00e1s do outro n\u00e3o \u00e0 pessoa que provocou o conflito, mas \u00e0 pr\u00f3pria pessoa que sofreu e se considera v\u00edtima da ofensa. Antes, no mesmo discurso, ele tinha falado do pastor que deixa as 99 ovelhas no aprisco e vai atr\u00e1s da que est\u00e1 perdida. Jesus n\u00e3o separa uma coisa da outra. Embora ele saiba que, em geral, como diz o povo, \u201cdois n\u00e3o brigam quando um n\u00e3o quer\u201d, parte do princ\u00edpio que o\/a outro\/a seja o\/a culpado\/a. Conforme o senso comum, se quem pecou foi ele ou ela, deveria ser ele ou ela a procurar pedir perd\u00e3o e se reconciliar. Mas, Jesus subverte o senso comum e a ordem que d\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para a pessoa culpada. \u00c9 para a v\u00edtima: \u201cv\u00e1 e procure o seu irm\u00e3o ou irm\u00e3\u201d. Desde o come\u00e7o, ele que opta pelo mais fraco e mais pobre, aqui tamb\u00e9m opta pela pessoa que errou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nada da tend\u00eancia de pensar as rela\u00e7\u00f5es sociais e coletivas de uma forma e a rela\u00e7\u00e3o interpessoal de outra. O esp\u00edrito \u00e9 o mesmo. Para Jesus, o pecado n\u00e3o \u00e9 contra Deus. \u00c9 contra o irm\u00e3o. Quem quer viver na comunidade de disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Jesus nunca pode se negar ao di\u00e1logo pessoal e sempre tem de se preocupar em se reconciliar com algum irm\u00e3o ou irm\u00e3 com o qual surge um problema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante Jesus dizer: \u201cSe seu irm\u00e3o ou sua irm\u00e3 pecar contra ti, v\u00e1 e tome a iniciativa do di\u00e1logo. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e \u00e9 comum que a gente pense: ser\u00e1 que adianta? E a\u00ed Jesus aponta tr\u00eas n\u00edveis de a\u00e7\u00e3o, ou tr\u00eas etapas de solu\u00e7\u00e3o: 1- o di\u00e1logo a dois.<\/p>\n\n\n\n<p>2 &#8211; Se esta etapa n\u00e3o solucionar, procure duas ou tr\u00eas pessoas que possam ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>3 &#8211; Se mesmo assim, n\u00e3o funcionar, tente o di\u00e1logo em comunidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, \u00e9 muito comum que mesmo as comunidades mais evang\u00e9licas t\u00eam grande dificuldade de viver o que esse evangelho prop\u00f5e. De fato, n\u00e3o se pode dialogar, sem que as duas partes queiram e acreditem nesse caminho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus pede uma \u00e9tica nova na rela\u00e7\u00e3o entre irm\u00e3os e entre irm\u00e3s. \u00c9 importante criar uma \u00e9tica comunit\u00e1ria sobre o que se pode e o que n\u00e3o se deve dizer uns dos outros. Essa regra que Jesus prop\u00f5e sobre o di\u00e1logo e a reconcilia\u00e7\u00e3o vem da lei judaica (Dv 19,17 e Deut 19,15).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os antigos rabinos j\u00e1 insistiam: se tiver alguma queixa contra o outro, v\u00e1 e fale com a pr\u00f3pria pessoa. \u00c9 anti\u00e9tico e contra a espiritualidade qualquer conversa por tr\u00e1s que pode gerar fofoca e murmura\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, as pessoas e mesmo grupos trabalham por direitos humanos e por justi\u00e7a no plano social,&nbsp; mas descuidam totalmente da \u00c9tica na rela\u00e7\u00e3o dentro de casa e no modo de lidar com os conflitos pessoais. A \u00c9tica do di\u00e1logo e da veracidade que respeita a outra pessoa \u00e9 atual e sempre necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade de Mateus sabe por experi\u00eancia que \u00e0s vezes nem o di\u00e1logo em comunidade resolve. A pessoa respons\u00e1vel pelo problema n\u00e3o aceita se rever e mudar de posi\u00e7\u00e3o. No evangelho, Jesus diz duas coisas:<\/p>\n\n\n\n<p>1\u00ba &#8211; ele assume a posi\u00e7\u00e3o da comunidade (tudo o que ligares na terra ser\u00e1 ligado no c\u00e9u).<\/p>\n\n\n\n<p>2\u00ba &#8211; ele diz que se a pessoa n\u00e3o escuta a comunidade, seja para ti como um pag\u00e3o ou publicano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria da Igreja, muitas vezes essa palavra foi compreendida como se Jesus estivesse justificando exclus\u00f5es e excomunh\u00f5es. De fato, o que ele diz: Se a pessoa n\u00e3o escutar a comunidade, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais responsabilidade sua. Voc\u00ea tentou tudo. N\u00e3o conseguiu. Sinta-se liberado. \u00c9 s\u00f3 isso. N\u00e3o \u00e9 nenhuma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa renitente. A op\u00e7\u00e3o de Jesus pelo pequeno e pelo pecador nem a\u00ed cede ou capitula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio, Jesus deixa claro que o di\u00e1logo e a reconcilia\u00e7\u00e3o s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para a ora\u00e7\u00e3o (ele j\u00e1 tinha dito isso no discurso da montanha \u2013 Mt 5,24). Se dois ou tr\u00eas de voc\u00eas se colocarem de acordo para pedir ao Pai alguma coisa em meu nome, eles lhes dar\u00e1&#8230; Temos de primeiramente nos colocar de acordo atrav\u00e9s do di\u00e1logo e da reconcilia\u00e7\u00e3o e temos de poder falar em nome de Jesus \u2013 saber que aquilo que pedimos, de fato, Jesus aceita pedir conosco ao Pai. E a\u00ed sim vem a promessa: \u201c<em>Onde duas ou tr\u00eas pessoas se reunirem em meu nome, Eu estou no meio delas<\/em>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, existe no mundo e entre n\u00f3s uma cultura de intoler\u00e2ncia (ou chamam Toler\u00e2ncia Zero). Jesus nos chama \u00e0 radicalidade (radical vem de raiz: ir \u00e0s ra\u00edzes dos problemas), mas n\u00e3o \u00e0 inflexibilidade, rigidez e fundamentalismo de nenhum tipo ou matiz. Devemos ser intransigentes na defesa do direito e da justi\u00e7a, na luta contra a xenofobia, a exclus\u00e3o social, o racismo e a homofobia. Defendemos at\u00e9 o fim o direito dos povos origin\u00e1rios a seus territ\u00f3rios e culturas. E Jesus nos chama a viver essa luta, sem que nunca nos deixemos desumanizar pelo inimigo.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil atual, temos de retomar a possibilidade do di\u00e1logo entre os diferentes que nos tempos mais recentes, a extrema-direita praticamente impossibilitou. Por mais dif\u00edcil que seja, \u00e9 fundamental que tentemos isso sem desanimar. N\u00e3o se trata de abrir m\u00e3o de nossas convic\u00e7\u00f5es fundamentais, nem de querer cooptar o outro para nossas posi\u00e7\u00f5es. Trata-se antes de tudo de distinguir advers\u00e1rios e inimigos. Com advers\u00e1rios, podemos conseguir alian\u00e7as e acordos. Com os inimigos, em geral, n\u00e3o. Al\u00e9m disso, com todos manteremos uma atitude que reconhece a humanidade deles e n\u00e3o os desumanize, mesmo se eles d\u00e3o esse testemunho de desumaniza\u00e7\u00e3o. Em um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, Etty Hillesum, mo\u00e7a judia de 28 anos, afirmava: <strong>\u201cNossos opressores podem tirar tudo de n\u00f3s, podem nos roubar at\u00e9 a vida. S\u00f3 n\u00e3o conseguem roubar nossa dignidade e sensibilidade de pessoas humanas\u201d.&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caminhos de reconcilia\u00e7\u00e3o para uma humanidade dividida (Mt 18,15- 20). 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