{"id":12546,"date":"2023-09-11T14:17:54","date_gmt":"2023-09-11T17:17:54","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12546"},"modified":"2023-09-11T14:17:55","modified_gmt":"2023-09-11T17:17:55","slug":"c-g-jung-a-espiritualidade-como-dimensao-essencial-da-alma-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/c-g-jung-a-espiritualidade-como-dimensao-essencial-da-alma-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"C. G. Jung: a espiritualidade como dimens\u00e3o essencial da\u00a0alma &#8211; Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>C. G. Jung: a espiritualidade como dimens\u00e3o essencial da\u00a0alma<\/strong> &#8211; Por Leonardo Boff<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/ff9f03fe6740bdca06593ef5c23cdab4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12547\" width=\"779\" height=\"409\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/ff9f03fe6740bdca06593ef5c23cdab4.jpg 600w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/ff9f03fe6740bdca06593ef5c23cdab4-300x158.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 779px) 100vw, 779px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Hoje vige uma preocupa\u00e7\u00e3o fundamental: o resgate da raz\u00e3o sens\u00edvel ou cordial (do cora\u00e7\u00e3o) para equilibrar o excesso desastroso da raz\u00e3o instrumental-anal\u00edtica. Temos que harmonizar o&nbsp;<em>logos&nbsp;<\/em>com o&nbsp;<em>pathos&nbsp;<\/em>a&nbsp;<em>anima&nbsp;<\/em>e o&nbsp;<em>animus&nbsp;<\/em>se quisermos equacionar os problemas sociais e enfrentar o alarme ecol\u00f3gico. A mente \u00e9 sempre incorporada, portanto, sempre impregnada de sensibilidade e n\u00e3o apenas cerebrizada. Jung vivia esta profunda conex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suas&nbsp;<em>Mem\u00f3rias<\/em>&nbsp;diz: \u201cH\u00e1 tantas coisas que me repletam: as plantas, os animais, as nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu parentesco com o todo\u201d (p. 361).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto afirma: \u201c<em>Importa projetar-nos nas coisas que nos cercam. O meu eu n\u00e3o est\u00e1 confinado ao meu corpo. Estende-se a todas as coisas que fiz e a todas as coisas \u00e0 minha volta. Sem essas coisas, n\u00e3o seria eu mesmo, n\u00e3o seria um ser humano, seria t\u00e3o-s\u00f3 um s\u00edmio humano, um primata. Tudo o que me rodeia \u00e9 parte de mim\u2026 Estou profundamente comprometido com a&nbsp;ideia&nbsp;de que a exist\u00eancia humana deve estar enraizada na Terra<\/em>\u201d (pp. 189; 190).<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jung, as coisas todas s\u00e3o mais que coisas. Penetram-nos na forma de s\u00edmbolos e arqu\u00e9tipos, carregados de emo\u00e7\u00f5es e v\u00e3o compondo&nbsp;a constela\u00e7\u00e3o de nosso eu profundo. Vale lembrar a confiss\u00e3o de C. G. Jung: \u201c<em>Minha vida \u00e9 a hist\u00f3ria da autorrealiza\u00e7\u00e3o&nbsp;do inconsciente\u201d. N\u00e3o diz do \u201cmeu inconsciente<\/em>\u201d. Mas do inconsciente coletivo que possui dimens\u00f5es humanas, c\u00f3smicas, animais e vegetais. A culmin\u00e2ncia do processo de individua\u00e7\u00e3o reside na integra\u00e7\u00e3o do todo do qual nos sentimos parte e parcela.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos estudiosos da alma humana deram mais import\u00e2ncia \u00e0 espiritualidadade do que Jung. Via na espiritualidade uma exig\u00eancia arquet\u00edpica fundamental da natureza humana na escalada rumo \u00e0 sua completa individua\u00e7\u00e3o. A&nbsp;<em>imago Dei<\/em>&nbsp;ou o arqu\u00e9tipo \u201cDeus\u201d ocupa o centro do Self: aquela energia poderosa, no mais profundo de nossa psiqu\u00e9, que atrai&nbsp; todos os arqu\u00e9tipos e os ordena ao seu redor como o sol o faz com os planetas (cf. o livro cl\u00e1ssico de R. Hostie, C. G. <em>Jung und die Religion<\/em>, Karl Alber, Freiburg\/M\u00fcnchen 1957).<\/p>\n\n\n\n<p>Sem a integra\u00e7\u00e3o deste arqu\u00e9tipo axial, o ser humano fica manco e com uma incompletude abissal. Por isso escreve:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Entre todos os meus clientes na segunda metade da vida, isto \u00e9, com mais de 35 anos, n\u00e3o houve um s\u00f3 cujo problema mais profundo n\u00e3o fosse constitu\u00eddo pela quest\u00e3o da sua atitude religiosa. Todos em \u00faltima inst\u00e2ncia estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religi\u00e3o viva sempre deu, em todos os tempos, aos seus seguidores. E nenhum curou-se realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse pr\u00f3pria. Isto est\u00e1 claro. N\u00e3o depende absolutamente de uma ades\u00e3o a um credo particular, nem de tornar-se membro de uma igreja, mas da&nbsp;necessidade de integrar&nbsp;a sua dimens\u00e3o espiritual.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A fun\u00e7\u00e3o principal da religi\u00e3o ou da espiritualidade \u00e9 nos religar a todas as coisas e \u00e0 Fonte donde promana todo o ser, Deus. Esse \u00e9 o prop\u00f3sito b\u00e1sico do&nbsp;<em>Mysterium Conjunctionis<\/em>&nbsp;que Jung considerava seu&nbsp;<em>opus magnum<\/em>. Pois nele se trata de realizar a&nbsp;<em>conjuntio,&nbsp;<\/em>quer dizer, a conjun\u00e7\u00e3o do homem integral com o&nbsp;<em>mundus unus<\/em>, o mundo unificado, o mundo do primeiro dia da cria\u00e7\u00e3o quando tudo era um e n\u00e3o havia ainda nenhuma divis\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o. Era a situa\u00e7\u00e3o plenamente urob\u00f3rica (de Uroboros, a serpente enrolada em si mesma) do ser. Essa fus\u00e3o \u00e9 o anseio mais secreto e radical do ser humano e o permanente chamado do Self.<\/p>\n\n\n\n<p>O drama do homem atual \u00e9 ter perdido a espiritualidade e sua capacidade de viver um sentimento de pertencimento. O que se op\u00f5e \u00e0 religi\u00e3o ou \u00e0 espiritualidade n\u00e3o \u00e9 o ate\u00edsmo ou a nega\u00e7\u00e3o da divindade. O que se op\u00f5e \u00e9 a incapacidade de ligar-se e religar-se com todas as coisas. Hoje as pessoas est\u00e3o desenraizadas, desconectadas da Terra, da&nbsp;<em>anima<\/em>&nbsp;e por isso sem espiritualidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Para Jung o grande problema hoje \u00e9 de natureza psicol\u00f3gica<\/em>. N\u00e3o da psicologia entendida como disciplina ou apenas uma dimens\u00e3o da psique. Mas psicologia no sentido abrangente que lhe dava, como a totalidade da vida e do universo, enquanto percebidos e articulados com o ser humano seja pelo consciente seja pelo inconsciente pessoal e coletivo.&nbsp; \u00c9 neste sentido que escreve: \u201c<em>\u00c9 minha convic\u00e7\u00e3o mais profunda de que, a partir de agora,&nbsp;at\u00e9 a um futuro indeterminado,&nbsp;o verdadeiro problema \u00e9 de ordem psicol\u00f3gica. A alma \u00e9 o pai e a m\u00e3e de todos as dificuldades n\u00e3o resolvidas que lan\u00e7amos na dire\u00e7\u00e3o do c\u00e9u<\/em>\u201d (<em>Cartas<\/em>&nbsp;III, p.243). Sempre teve uma preocupa\u00e7\u00e3o pelo futuro da humanidade. Previu, em suas vis\u00f5es, a partir do inconsciente coletivo, a primeira e a segunda guerra mundial. Ocorreram como previra.<\/p>\n\n\n\n<p>Estaria curioso em saber que vis\u00f5es teria Jung sobre o atual alarme ecol\u00f3gico.&nbsp;Mas deixou-nos uma dica: uma semana antes de sua morte em 6 de junho de 1961 teve uma terr\u00edvel vis\u00e3o que a revelou \u00e0 Marie-Louise von Franz que o acompanhou at\u00e9 o fim: \u201cGrande parte do mundo seria destru\u00eddo. Mas acrescentou: \u201c<em>Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o todo<\/em>\u201d(<em>Jung vida e obra: uma mem\u00f3ria biogr\u00e1fica&nbsp;<\/em>por Barbara Hannah,Vozes, 2022 p. 478). \u00c9 o que grandes analistas preveem, caso n\u00e3o mudarmos de rumo de nossa cultura consumista e materialista.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que a&nbsp;Terra est\u00e1 doente porque n\u00f3s estamos doentes. O Covid-19 bem o mostrou. Na medida em que nos transformamos, transformamos tamb\u00e9m a Terra. Jung buscou esta transforma\u00e7\u00e3o at\u00e9 a sua morte. \u00c9 o \u00fanico caminho que nos pode livrar de sua vis\u00e3o terr\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o de grande parte de nosso mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>C. G. Jung se mostra um mestre e um guia que nos desenha um mapa apto a nos orientar nestes momentos dram\u00e1ticos em que vive a humanidade. Ele acreditava profundamente no Transcendente e no mudo espiritual. N\u00e3o ser\u00e1 seguramente o capital material, mas o capital espiritual, agora colocado no centro de nossas buscas, que nos permitir\u00e1 evitar um Armagedom ecol\u00f3gico. Ent\u00e3o, assim creio e espero, poderemos viver uma fase nova da Terra e da Humanidade, a fase planet\u00e1ria e ecoespiritual.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Co-editor da tradu\u00e7\u00e3o da obra completa de C. G. Jung (19 volumes) pela Editora Vozes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C. G. 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