{"id":12756,"date":"2023-11-18T07:28:15","date_gmt":"2023-11-18T10:28:15","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12756"},"modified":"2023-11-18T07:28:16","modified_gmt":"2023-11-18T10:28:16","slug":"quando-vida-e-parabola-se-misturam-o-evangelho-e-o-avesso-mt-2514-30-dia-mundial-dos-pobres-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/quando-vida-e-parabola-se-misturam-o-evangelho-e-o-avesso-mt-2514-30-dia-mundial-dos-pobres-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Quando vida e par\u00e1bola se misturam, o evangelho \u00e9 o avesso (Mt 25,14- 30) (Dia Mundial dos Pobres). Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Quando vida e par\u00e1bola se misturam, o evangelho \u00e9 o avesso (Mt 25,14- 30)<\/strong> <strong>(Dia Mundial dos Pobres)<\/strong>. Por padre Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/download-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12757\" width=\"780\" height=\"780\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/download-3.jpg 225w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/download-3-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><figcaption>Padre e monge Marcelo Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste XXXIII domingo do ano, dia 19\/11\/23, o evangelho de Mateus 25,14-30 nos traz a chamada \u201cpar\u00e1bola dos talentos\u201d.&nbsp;Uma par\u00e1bola estranha que entendida ao p\u00e9 da letra pode ser compreendida como legitima\u00e7\u00e3o do Capitalismo: \u00e9 importante fazer render os talentos, ou seja, o dinheiro recebido, de modo que se restitua ao rico o dobro do que ele investiu. Infelizmente, \u00e9 prov\u00e1vel que, hoje, na maioria dos p\u00falpitos cat\u00f3licos e protestantes, esse seja o tipo de discurso mais ouvido e aplaudido.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao contr\u00e1rio, neste domingo, celebramos o Dia Mundial dos Pobres, proposto pelo papa Francisco. O evangelho proclamado na celebra\u00e7\u00e3o desse dia deve nos ajudar a fortalecer a comunh\u00e3o com os pobres. No entanto, compreendido ao p\u00e9 da letra, esse evangelho parece contr\u00e1rio a tudo o que o pr\u00f3prio Jesus disse no mesmo evangelho de Mateus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como outras par\u00e1bolas, essa tamb\u00e9m compara Deus ou o pr\u00f3prio Jesus com um homem muito rico. Os estudiosos dizem que na \u00e9poca de Jesus, cada talento&nbsp; valia 6 mil den\u00e1rios e o sal\u00e1rio di\u00e1rio de um trabalhador era um den\u00e1rio (Warren Carter, p. 606). Ent\u00e3o, se o tal rico tinha oito talentos, era como se tivesse a soma equivalente ao sal\u00e1rio de quase 20 anos de trabalho de um lavrador. Pior ainda, a par\u00e1bola diz que o tal rico \u00e9 \u201c<em>um homem duro, severo, que quer colher onde n\u00e3o plantou e ajuntar onde n\u00e3o semeou\u201d <\/em>(v. 24). \u00c9 a experi\u00eancia que o mundo sempre teve com o modelo de economia, baseado no lucro e na explora\u00e7\u00e3o do trabalho do outro. \u00c9 uma sociedade sem solidariedade e sem compaix\u00e3o. Al\u00e9m disso, conforme o texto do evangelho, o tal homem, al\u00e9m de rico e mau, \u00e9 fingido. Finge ser honesto.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na cultura da \u00e9poca, cobrar juros era desonesto. Na sociedade judaica, quem cobrava juro era publicano e amigo de romanos. Um homem honrado n\u00e3o podia deixar que descobrissem que ele cobrava juros de empr\u00e9stimos. Como o sistema sempre encontra escapat\u00f3ria para o poder, os senhores n\u00e3o se envolviam em cobran\u00e7a de juros para n\u00e3o serem considerados desonestos. Faziam isso atrav\u00e9s de escravos. Afinal, um escravo n\u00e3o tinha mesmo nenhuma honra a preservar. Os ricos confiavam o dinheiro a escravos de confian\u00e7a e eram esses que cobravam juros para os seus propriet\u00e1rios (Bruce Malina e Richard Rohrbaugh, Evangelhos Sin\u00f3ticos, Paulus, p. 143). Hoje, no Brasil e em outros pa\u00edses, muitos ricos recorrem a \u201claranjas\u201d e outros expedientes para continuar a ser vistos como homens honrados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O evangelho de Mateus, escrito pelos anos 80 do primeiro s\u00e9culo da nossa era, reflete a crise das comunidades crist\u00e3s que esperavam a parusia (a prometida manifesta\u00e7\u00e3o de Jesus e a vinda do reino) e essa parecia nunca chegar. Era isso que a comunidade de Mateus queria destacar com essa par\u00e1bola do evangelho: como reagir ao fato de que o reino de Deus prometido est\u00e1 demorando tanto e o mundo parece cada dia pior. N\u00e3o podemos fazer leituras fundamentalistas da par\u00e1bola.&nbsp;\u00c9 bem o que essa par\u00e1bola descreve bem: \u201c<em>O senhor viajou para muito distante e demorou a voltar<\/em>\u201d (v. 19).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De acordo com o evangelho, como sempre fazia, Jesus aproveitou um fato ocorrido na \u00e9poca para tirar dele alguma li\u00e7\u00e3o para a comunidade crist\u00e3 dos anos 80. Infelizmente, a interpreta\u00e7\u00e3o da par\u00e1bola para justificar a \u00e9tica da burguesia \u00e9 t\u00e3o comum que a pr\u00f3pria palavra \u201ctalento\u201d tornou-se em nossas l\u00ednguas sin\u00f4nimo de \u201cdom natural\u201d. Comumente as pessoas dizem que voc\u00ea tem ou n\u00e3o tem talento para tal coisa. Existe at\u00e9 o adjetivo \u201ctalentoso\u201d. Ser talentoso \u00e9 quest\u00e3o de dom natural.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No contexto do evangelho, a par\u00e1bola nada tem a ver com dons naturais. Se entend\u00eassemos assim, os ricos de hoje seriam como o servo que ganhou cinco talentos e foi capaz de faz\u00ea-lo render outros cinco. E os pobres teriam sido retratados no servo que ganhou menos e acabou enterrando mesmo o pouco que recebeu. Assim, o evangelho se torna sacraliza\u00e7\u00e3o do capitalismo. Embora a tradu\u00e7\u00e3o da CNBB comece a par\u00e1bola no verso 14 com as palavras: \u201cO reino dos c\u00e9us \u00e9 tamb\u00e9m como um homem&#8230;.\u201d, essa express\u00e3o \u201creino dos c\u00e9us\u201d n\u00e3o aparece na maioria das vers\u00f5es, embora possa se supor. A tradu\u00e7\u00e3o do padre Alonso Schokel diz simplesmente: \u201c\u00e9 como um homem\u201d e outras tradu\u00e7\u00f5es: \u201cser\u00e1 como&#8230;.\u201d. Certamente, Jesus nunca compararia Deus com o tipo de senhor ou patr\u00e3o narrado nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Se olhamos o sistema econ\u00f4mico na linha da Economia de Francisco e Clara n\u00e3o podemos defender o patr\u00e3o ambicioso. Temos de nos identificar, n\u00e3o com os dois escravos que serviram \u00e0 gan\u00e2ncia do senhor e sim com o servo que n\u00e3o aceitou entrar naquele jogo e simplesmente enterrou o dinheiro. O \u00fanico modo de n\u00e3o nos identificarmos com o servo criticado como mau e pregui\u00e7oso pelo pr\u00f3prio evangelho \u00e9 fazer uma leitura diferente. Se o tal servo criticado na par\u00e1bola fosse da comunidade de Mateus, ao agir do jeito que agiu, teria simplesmente cumprido o que Jesus tinha ensinado. Afinal no discurso da montanha, Jesus disse: \u201c<em>N\u00e3o acumulem riquezas aqui na terra, onde a tra\u00e7a e a ferrugem destroem e os ladr\u00f5es assaltam e roubam\u201d<\/em> (Mt 6,19). Ao rapaz rico, Jesus disse: \u201c<em>Se queres ser completo, vai, vende tudo o que tem, d\u00e1 aos pobres e ter\u00e1s um tesouro no c\u00e9u<\/em>\u201d. E quando, por apego \u00e0 riqueza, o rapaz desiste de seguir Jesus, este diz aos disc\u00edpulos: <em>Em verdade vos digo: dificilmente, um rico entrar\u00e1 no Reino dos C\u00e9us. \u00c9 mais f\u00e1cil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos c\u00e9us<\/em>\u201d (Mt 19,21-24).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas comunidades antigas falar de \u201cservos\u201d era referir-se aos ministros crist\u00e3os. Na hist\u00f3ria das dez mo\u00e7as, que Mateus conta antes dessa par\u00e1bola, o evangelho insiste no dever de esperar vigilantes. Agora, nessa par\u00e1bola, o evangelho prop\u00f5e um passo a mais. N\u00e3o basta s\u00f3 vigiar com o \u00f3leo nas l\u00e2mpadas. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso trabalhar para fazer render a riqueza que Deus nos confiou. Se o reino n\u00e3o vem logo \u00e9 para dar tempo a que fa\u00e7amos os valores do reino de Deus se multiplicarem.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A par\u00e1bola \u00e9 sobre o rendimento do empenho dos servos aos quais o Senhor confiou a boa not\u00edcia do reino. A hist\u00f3ria n\u00e3o se det\u00e9m sobre o valor ou significado dos talentos. O talento que Deus nos confiou foi o seu Evangelho, a f\u00e9 e o testemunho do seu amor que devemos comunicar a toda humanidade. O contexto \u00e9 como a par\u00e1bola diz: \u201cAp\u00f3s um longo tempo\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Neste Dia mundial dos Pobres, o talento que Deus nos confia para cuidar s\u00e3o exatamente as pr\u00f3prias pessoas dos mais pobres. Quem faz os talentos renderem s\u00e3o os crist\u00e3os e crist\u00e3s inseridos nos movimentos sociais, nas comunidades pobres. O julgamento de Deus sobre quantos talentos cada servo vai devolver se concretiza no esfor\u00e7o que fazemos para que o mundo seja mais igualit\u00e1rio e as Igrejas colaborem para o reconhecimento da dignidade de todos os cidad\u00e3os&nbsp; e cidad\u00e3s do nosso pa\u00eds e da Terra.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando vida e par\u00e1bola se misturam, o evangelho \u00e9 o avesso (Mt 25,14- 30) (Dia Mundial dos Pobres). 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