{"id":13066,"date":"2024-02-04T09:04:59","date_gmt":"2024-02-04T12:04:59","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13066"},"modified":"2024-02-06T11:22:23","modified_gmt":"2024-02-06T14:22:23","slug":"por-que-chegamos-aonde-chegamos-os-riscos-planetarios-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/por-que-chegamos-aonde-chegamos-os-riscos-planetarios-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"Por que chegamos aonde chegamos: os riscos planet\u00e1rios \u2013 Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por que chegamos aonde chegamos: os riscos planet\u00e1rios \u2013 Por <\/strong>Leonardo Boff<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ff9f03fe6740bdca06593ef5c23cdab4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13067\" width=\"779\" height=\"409\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ff9f03fe6740bdca06593ef5c23cdab4.jpg 600w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ff9f03fe6740bdca06593ef5c23cdab4-300x158.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 779px) 100vw, 779px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ningu\u00e9m passa pela cabe\u00e7a que a situa\u00e7\u00e3o mundial seja boa. O que assistimos pela m\u00eddia digital\/social s\u00e3o cenas de guerra, crian\u00e7as inocentes sendo assassinadas pela f\u00faria dos ataques contra o Hamas, sacrificando ilegitimamente todo um povo de palestinos da Faixa de Gaza, a guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia que dura j\u00e1 tr\u00eas anos e outros 18 lugares de viol\u00eancia e crimes de guerra na \u00c1frica e alhures.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a famosa ONG Oxfam, em 2024, se considerarmos a fortuna pessoal dos 36 indiv\u00edduos mais ricos do mundo,&nbsp; ela equivale&nbsp; \u00e0 renda de mais da metade da humanidade, concretamente, dos 4,7 bilh\u00f5es de pessoas. No Brasil os 3.390 mais ricos (0.0016%) det\u00eam 16% de toda a riqueza do pa\u00eds, mais do que 182 milh\u00f5es de brasileiros (85% da popula\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma fonte nos afirma que a cada cinco segundos, uma crian\u00e7a com menos de dez anos morre de fome ou de suas consequ\u00eancias&nbsp; mais imediatas. Quem n\u00e3o se comove, em sua humanidade m\u00ednima, com tais cenas dram\u00e1ticas, verdadeiras trag\u00e9dias humanas? Parece que tocamos nos limites do final dos tempos. S\u00e3o cenas que poderiam estar no livro do Apocalipse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para entendermos a crise atual, devemos retroceder ao s\u00e9culo XVII\/XVIII com o advento do paradigma da modernidade. Os pais fundadores, Francis Bacon e especialmente Ren\u00e9 Descartes e outros romperam com uma larga tradi\u00e7\u00e3o da humanidade. Esta entendia a natureza, a Terra e o pr\u00f3prio cosmos como algo vivo e carregado de prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis que surge Descartes e introduz um dualismo fundamental com graves consequ\u00eancias hist\u00f3ricas. Ele distinguiu a res cogitam, o ser pensamento e portador de esp\u00edrito, da res extensa coisa extensa e material, os demais seres. O \u00fanico portador do esp\u00edrito, res cogitans, \u00e9 o ser humano. A res extensa, os demais seres agem mecanicamente e sem um sentido manifesto. Com isso ele introduziu, por um lado um severo antropocentrismo e por outro um crasso materialismo. A Terra e a natureza s\u00f3 t\u00eam algum sentido na medida em que se ordenam ao ser humano que as trata ao seu bel-prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o materialista do mundo n\u00e3o humano abriu espa\u00e7o para todo tipo de uso e abuso e da pr\u00f3pria&nbsp; investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9tica das consequ\u00eancias que da\u00ed se poderiam derivar.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed nasceram todas as ci\u00eancias modernas e sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica numa opera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. A tecnoci\u00eancia foi o grande instrumento a servi\u00e7o dos \u00fanicos portadores do esp\u00edrito, os seres humanos \u2013 separados na natureza e \u201cdonos e senhores\u201d dela (Descartes), transformados depois em colonizadores, escravocratas e sistem\u00e1ticos devastadores da natureza. A ci\u00eancia n\u00e3o foi posta, primeiramente, a servi\u00e7o da vida, mas da domina\u00e7\u00e3o dos outros e da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde dualismo inicial surgiram outros dualismos: esp\u00edrito e mat\u00e9ria, cultura e natureza, civilizado e selvagem, idealismo e materialismo que dilaceram a experi\u00eancia humana. Perdeu-se uma vis\u00e3o de totalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com estes pressupostos projetou-se a arquitet\u00f4nica do saber atomizado, sem rela\u00e7\u00e3o de um com outros saberes, a ponto de sabermos cada vez mais sobre cada vez menos.<\/p>\n\n\n\n<p>Indubitavelmente, este paradigma da modernidade trouxe grandes vantagens para todos os \u00e2mbitos da vida humana, tornando-a menos penosa, refinando os meios de cura, criando os instrumentos de locomo\u00e7\u00e3o, as grandes avenidas de comunica\u00e7\u00e3o digital e nos levou at\u00e9 o espa\u00e7o exterior, para a Lua e Marte e para o mais distante no universo, j\u00e1 fora do sistema solar.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse paradigma se concentra no reino dos meios sem raramente (ou nunca coletivamente) definir os fins para os quais os meios devem servir. O capitalismo entendeu bem a quest\u00e3o e definiu-lhe um fim: um crescimento ilimitado atrav\u00e9s da acumula\u00e7\u00e3o&nbsp; individual de riqueza, na l\u00f3gica de uma competi\u00e7\u00e3o maior poss\u00edvel, explorando o mais que pode os recursos da natureza no falso pressuposto de que a Terra tamb\u00e9m possu\u00ed recursos ilimitados.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 1972 com o documento Os limites do crescimento, a consci\u00eancia coletiva despertou para o fato dos limites da Terra e de sua incapacidade de suportar um projeto ilimitado. O grande sistema de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o deu nunca muita import\u00e2ncia a tal fato. O decisivo \u00e9 garantir os ganhos e a riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>O empreendedores e os grandes conglomerados econ\u00f4micos e financeiros est\u00e3o pondo sua confian\u00e7a na onipot\u00eancia da tecnoci\u00eancia que seria capaz de dar uma solu\u00e7\u00e3o a todos os problemas. Essa foi e continua sendo a sua grande ilus\u00e3o. Seu sistema econ\u00f4mico-financeiro, mundialmente integrado, est\u00e1 de tal forma azeitado que lhe faltam condi\u00e7\u00f5es e vontade de parar. Parar seria abandonar seu fim, a acumula\u00e7\u00e3o ilimitada, mudar de rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o para uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel para com a natureza, vale dizer, implicaria negar-se a si mesmo. Agora est\u00e1 ficando claro que o sistema mundial est\u00e1 ag\u00f4nico, dadas as mudan\u00e7as da situa\u00e7\u00e3o da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Face \u00e0 voracidade do sistema mundial de explora\u00e7\u00e3o\/devasta\u00e7\u00e3o da natureza, a Terra viva reagiu de v\u00e1rias formas: com eventos extremos, com a libera\u00e7\u00e3o de v\u00edrus, alguns misteriosos, o v\u00edrus X, at\u00e9 agora indecifr\u00e1vel, dez vezes mais letais que o Coronav\u00edrus, cobrindo toda o planeta. Tornou obsoletos os limites entre as na\u00e7\u00f5es e afetou a inteira humanidade, como o Coronav\u00edrus o deixou claro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ultimamente a mudan\u00e7a clim\u00e1tica parece ter alcan\u00e7ado um ponto irrevers\u00edvel. A Terra mudou devido \u00e0s pr\u00e1ticas irrespons\u00e1veis (antropoceno) dos que det\u00e9m as decis\u00f5es pol\u00edticas, controlam o curso mundial dos capitais e das finan\u00e7as e persistem na devasta\u00e7\u00e3o da natureza. Seria injusto atribuir simplesmente essa mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e0 atividade das grandes maiorias empobrecidas que, comparadas com as supra citadas, pouco contribuem.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos mundialmente assistindo os efeitos delet\u00e9rios dessas mudan\u00e7as: os eventos extremos. A ci\u00eancia e a t\u00e9cnica n\u00e3o poder\u00e3o mais reverter esta muta\u00e7\u00e3o, apenas advertir da chegada dos eventos amea\u00e7adores (enchentes, vendavais, tsunamis, estiagens prolongadas e aterradoras nevascas) e minorar seus efeitos danosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora podemos responder: por que chegamos aonde chegamos? Porque j\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos, os pa\u00edses dominantes, situados no Norte Global, decidiram habitar desta forma perigosa e devastadora a \u00fanica Casa Comum que temos. Impuseram a todo mundo seu modo de viver, de produzir, de concorrer, de consumir e de praticar a ci\u00eancia. N\u00e3o somos vistos como cidad\u00e3os, mas com clientes e consumidores.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora chegamos ao momento em que, devido ao ac\u00famulo de crises planet\u00e1rias e \u00e0 nossa capacidade de nos autodestruir com armas at\u00f4micas atingimos um ponto em que o retorno se torna praticamente imposs\u00edvel. A seguir o caminho inaugurado h\u00e1 s\u00e9culos, estamos a caminho de nossa pr\u00f3pria sepultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Concordo com o velho Martin Heidegger: \u201cS\u00f3 um Deus nos poder\u00e1 salvar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Leonardo Boff escreveu A busca da justa medida: com equilibrar o planeta Terra, Vozes 2013; Cuidar da Terra-proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que chegamos aonde chegamos: os riscos planet\u00e1rios \u2013 Por Leonardo Boff[1] H\u00e1 ningu\u00e9m passa pela cabe\u00e7a que a situa\u00e7\u00e3o mundial seja boa. 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