{"id":13096,"date":"2024-02-24T08:17:30","date_gmt":"2024-02-24T11:17:30","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13096"},"modified":"2024-02-24T08:17:32","modified_gmt":"2024-02-24T11:17:32","slug":"tornar-nossa-fe-profetica-e-martirial-mc-92-10-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/tornar-nossa-fe-profetica-e-martirial-mc-92-10-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Tornar nossa f\u00e9 prof\u00e9tica e martirial (Mc 9,2- 10) \u2013 por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Tornar nossa f\u00e9 prof\u00e9tica e martirial (Mc 9,2- 10) \u2013 por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"900\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/unnamed-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13098\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/unnamed-1.jpg 900w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/unnamed-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/unnamed-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/unnamed-1-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption>Padre e monge Marcelo Barros, da Teologia da liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste 2\u00ba domingo da Quaresma (ano B), 25\/02\/2024, o evangelho de Marcos (9,2-10) nos traz a cena que, comumente, se chama a \u201ctransfigura\u00e7\u00e3o\u201d de Jesus. Marcos conta essa cena no contexto do caminho de Jesus para a sua cruz. O texto come\u00e7a dizendo claramente: \u201cSeis dias depois&#8230;\u201d. Depois de que? Seis dias depois do dia no qual Jesus adverte aos disc\u00edpulos que o seu caminho era de enfrentamento \u00e0s autoridades de Jerusal\u00e9m e tinha como resultado a morte na cruz. Os disc\u00edpulos o reconheciam como consagrado de Deus (Cristo), mas n\u00e3o aceitavam que ele caminhasse para a cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>A compreens\u00e3o comum que a cultura judaica popular tinha sobre o Messias era de um l\u00edder que Deus enviaria para restaurar a realeza de Israel, purificar o templo e renovar a alian\u00e7a de Deus com o seu povo. No entanto, conforme os evangelhos, Jesus se negou a ser rei ou chefe. N\u00e3o queria purificar o templo e sim abolir (Chegou a dizer: Destruam esse templo e eu refarei outro \u2013 se referindo ao templo do seu corpo). E quanto a Deus, vivia uma rela\u00e7\u00e3o com Deus muito diferente de tudo o que os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas podiam compreender.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo 30 ou 40 anos depois da paix\u00e3o de Jesus, a comunidade de Marcos continuava com o mesmo problema. Para muitos crist\u00e3os, a f\u00e9 era reduzida ao religioso. As pessoas queriam uma religi\u00e3o de milagres. Veem Jesus como l\u00edder que realizaria sua miss\u00e3o pela vit\u00f3ria contra os advers\u00e1rios e pela vit\u00f3ria do poder religioso. Jesus rejeitava isso como tenta\u00e7\u00e3o. e disse a todos: \u201c<em>Quem n\u00e3o assumir como caminho a Cruz n\u00e3o pode ser meu disc\u00edpulo\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao dizer isso, n\u00e3o estava pedindo a ningu\u00e9m para gostar de sofrer. Deus n\u00e3o gosta de nos ver sofrer. O que Jesus dizia era que deveria cumprir sua miss\u00e3o, n\u00e3o como Messias ou filho de Deus e sim como simples homem, servo sofredor, cuja solidariedade ao destino dos mais pobres e explorados o levaria a sofrer o castigo que o imp\u00e9rio infligia aos servos rebeldes (a cruz).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje ainda existem crist\u00e3os que vivem uma espiritualidade que separa a f\u00e9 do compromisso social. Chegam a pensar que a Campanha da Fraternidade prejudica a Quaresma, ao trazer os problemas sociais e pol\u00edticos como assuntos que nos desafiam no caminho da convers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcos conta a cena da transfigura\u00e7\u00e3o para responder aos problemas da comunidade crist\u00e3 da \u00e9poca. \u00c9 um problema fundamental que existe at\u00e9 hoje na Igreja: testemunhar que cremos em um Deus que \u00e9 Amor e fonte de todo amor e n\u00e3o um Deus todo-poderoso, amigo de seus amigos e cruel para quem n\u00e3o lhe obedece. Do mesmo modo, a pr\u00f3pria figura de Jesus tamb\u00e9m tem de ser revista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante s\u00e9culos, a maioria dos crist\u00e3os na Igreja achou normal usar o nome de Jesus para conquistar povos e colonizar. Hoje temos dificuldade de compreender como padres, bispos e pastores, mesmo pessoas santas, conviveram com a escravid\u00e3o negra e ind\u00edgena. Provavelmente, no futuro, as pessoas ter\u00e3o&nbsp; dificuldade de compreender como n\u00f3s, crist\u00e3os de hoje, aceitamos conviver com essas imensas desigualdades sociais, com o racismo estrutural da sociedade, com a viol\u00eancia em todas as suas formas. At\u00e9 hoje, muita gente acha que isso n\u00e3o tem nada a ver com a f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus chamou os tr\u00eas amigos mais \u00edntimos para fazer deles testemunhas da transfigura\u00e7\u00e3o. A cena \u00e9 impressionante. Jesus leva a um alto monte Pedro e os dois irm\u00e3os, filhos de Zebedeu. Eram os tr\u00eas ap\u00f3stolos mais claramente identificados com uma Igreja judaica e com a esperan\u00e7a messi\u00e2nica de tipo popular judaica. Enquanto eles est\u00e3o no monte com Jesus, conforme Marcos, embaixo da montanha, os outros disc\u00edpulos discutem com os escribas (professores da Lei) e n\u00e3o podem curar um menino surdo-mudo que um pai, pobre e angustiado veio pedir que curassem (Mc 9,14 ss).<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele Cristo que Pedro, Tiago e Jo\u00e3o veem envolvido da presen\u00e7a divina e cheio de luz \u00e9 o Jesus de Nazar\u00e9 que se revelou a eles como pobre, impotente e candidato a morrer na cruz. Por estarem ainda muito presos \u00e0 cultura religiosa, Pedro prop\u00f5e construir tr\u00eas tendas, como era costume na festa lit\u00fargica das Tendas e ficarem ali no monte em uma esp\u00e9cie de \u00eaxtase carism\u00e1tico. N\u00e3o lhes importavam os outros do grupo l\u00e1 embaixo em conflito com os religiosos e incapazes de curar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, Jesus os levou para o monte afim de lhes revelar qual era o projeto divino. Que carinho e cuidado com seus amigos mais \u00edntimos. O fato deles verem ao lado de Jesus, as figuras de Mois\u00e9s e Elias \u00e9 significativo. Mostra que eles devem ver a experi\u00eancia de Jesus como a B\u00edblia conta o que aconteceu a Mois\u00e9s e a Elias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia de Mois\u00e9s na montanha, os disc\u00edpulos ouviam na escritura uma hist\u00f3ria complicada. Conforme o livro do \u00caxodo, depois que o povo adora o bezerro de ouro, Mois\u00e9s quebra as t\u00e1buas da alian\u00e7a e, em conflito com o povo, sobe de novo ao monte. Deus o manda descer e retomar o trabalho de organiza\u00e7\u00e3o do povo e da caminhada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao profeta Elias, o livro dos Reis conta que o profeta tinha matado os profetas de Baal em nome de Deus. Tinha amea\u00e7ado de morte ao rei Acab em nome do poder de Deus. Quando a rainha Jesabel decidiu mat\u00e1-lo, o profeta descobriu que Deus n\u00e3o iria salv\u00e1-lo. Resolveu fugir. Exatamente, quando estava amea\u00e7ado de morte e rejeitado pelos poderosos, sobe o mesmo monte de Mois\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambas experi\u00eancias eram de fracasso e ruptura com um tipo de vis\u00e3o de Deus: a idolatria do bezerro de ouro no caso de Mois\u00e9s e a vis\u00e3o de um Deus poderoso e guerreiro no caso de Elias que chamava Deus: o Deus dos ex\u00e9rcitos. E ali no monte, Deus s\u00f3 se revelou a ele quando o profeta conseguiu ver a presen\u00e7a divina no sil\u00eancio de uma brisa da tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto do evangelho, os disc\u00edpulos tamb\u00e9m eram testemunhas de um fracasso de Jesus na Galileia. Tamb\u00e9m estavam em conflito com ele porque n\u00e3o aceitavam que Deus deixasse que o seu Messias fosse amea\u00e7ado de morte e n\u00e3o fizesse nada para impedir a sua morte. No alto do monte, Deus tinha revelado a Elias que o profeta teria de se despir do poder, de qualquer instinto de viol\u00eancia e tinha de mudar a pr\u00f3pria forma de ver Deus para cumprir a miss\u00e3o social e pol\u00edtica a qual o mesmo Deus o enviava. Do mesmo modo, agora, ali no monte da transfigura\u00e7\u00e3o, Jesus retoma essas experi\u00eancias. Ali, aos tr\u00eas disc\u00edpulos renitentes e teimosos em permanecer em uma religi\u00e3o ligada a milagres e ao poder, Deus declara: Este \u00e9 o meu Filho amado. Escutem-no. E pronto. Assim, Deus confirma e revalida a palavra que Jesus tinha dito sobre o caminho da cruz como sendo o \u00fanico caminho necess\u00e1rio de f\u00e9 e de miss\u00e3o que ele aceita viver.<\/p>\n\n\n\n<p>O Cristianismo tradicional interpretou isso no sentido sacrificial. Jesus precisava morrer para cumprir um sacrif\u00edcio oferecido a Deus. Isso significa que n\u00e3o se conseguiu sair do plano da religi\u00e3o tradicional e se substituiu simplesmente o Juda\u00edsmo rab\u00ednico do templo e da sinagoga pelo Cristianismo das catedrais e do direito can\u00f4nico. A transfigura\u00e7\u00e3o de Jesus prop\u00f5e outro caminho de f\u00e9. N\u00e3o este da religi\u00e3o sacrificial e cultual.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje a nossa f\u00e9 est\u00e1 desfigurada pela incoer\u00eancia e separa\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e vida. Ser testemunhas da transfigura\u00e7\u00e3o \u00e9 aceitar contemplar a luz divina presente nas rela\u00e7\u00f5es ecum\u00eanicas e caminho da unidade. \u00c9 ver a gl\u00f3ria de Deus presente na figura do Cristo que enfrenta os professores da Lei e os religiosos do templo, assim como os governadores do imp\u00e9rio de hoje. \u00c9 passar de uma religi\u00e3o predominantemente institucional para uma f\u00e9 prof\u00e9tica e livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, um desafio para a f\u00e9 \u00e9 n\u00e3o permitir que o nome de Deus seja usado para legitimar a iniquidade. O Estado de Israel n\u00e3o tem direito de usar a B\u00edblia e o nome de Deus para legitimar o seu racismo e cometer um genoc\u00eddio contra o povo palestino. As Igrejas crist\u00e3s n\u00e3o t\u00eam direito de usar o nome de Deus para permitir que pastores e l\u00edderes defendam no Congresso pautas como o latif\u00fandio, o armamentismo ou o projeto de um Brasil pentecostal que n\u00e3o respeita a pluralidade cultural e religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>A transfigura\u00e7\u00e3o de Jesus mostra Jesus rodeado das figuras da tradi\u00e7\u00e3o judaica. Hoje, a transfigura\u00e7\u00e3o de Jesus no Brasil o revela rodeado de figuras como o Zumbi dos Palmares, Marielle Franco e M\u00e3e Stella de Oxossi, s\u00f3 para dizer alguns nomes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso sermos testemunhas de uma espiritualidade prof\u00e9tica como transfigura\u00e7\u00e3o de um Cristianismo que sem isso afugenta a juventude mais cr\u00edtica. Esta n\u00e3o aceita mais crer porque a autoridade mandou. A transfigura\u00e7\u00e3o revela que s\u00f3 podemos atingir a intimidade de Deus no cuidado uns dos outros e da m\u00e3e Terra e no tratamento das chagas dolorosas que ferem a vida humana hoje. Como o ap\u00f3stolo Paulo escreveu: \u201c<em>Ele transformar\u00e1 os nossos fr\u00e1geis corpos mortais para serem semelhantes ao seu corpo glorioso<\/em>\u201d (Fl 3,21).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tornar nossa f\u00e9 prof\u00e9tica e martirial (Mc 9,2- 10) \u2013 por Marcelo Barros Neste 2\u00ba domingo da Quaresma (ano B), 25\/02\/2024, o evangelho de Marcos (9,2-10) nos traz a cena que, comumente, se chama a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13098,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,29,43,26],"tags":[],"class_list":["post-13096","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-movimentos-sociais-populares","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13096","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13096"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13096\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13099,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13096\/revisions\/13099"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13098"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13096"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13096"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13096"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}