{"id":13123,"date":"2024-02-29T10:16:39","date_gmt":"2024-02-29T13:16:39","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13123"},"modified":"2024-02-29T10:16:41","modified_gmt":"2024-02-29T13:16:41","slug":"a-pascoa-de-jesus-e-a-casa-de-deus-em-nos-jo-213-25-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-pascoa-de-jesus-e-a-casa-de-deus-em-nos-jo-213-25-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"A P\u00e1scoa de Jesus e a casa de Deus em n\u00f3s (Jo 2,13-25) \u2013 por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A P\u00e1scoa de Jesus e a casa de Deus em n\u00f3s (Jo 2,13-25) \u2013 por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Marcelo-Barros-no-14o-Intereclesial-das-CEBs-300x169-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13124\" width=\"779\" height=\"439\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste 3\u00ba domingo da Quaresma (ano B), dia 03\/03\/2024, o evangelho \u00e9 Jo\u00e3o 2,13 a 25. Todos os quatro evangelhos se referem a esse incidente conflituoso de Jesus no templo. Os outros evangelhos o situam na \u00faltima semana de Jesus, poucos dias antes de morrer. O quarto evangelho que lemos nesse domingo o coloca no in\u00edcio da miss\u00e3o de Jesus. Logo depois de fazer o seu primeiro sinal em Can\u00e1 da Galileia, ele vai a Jerusal\u00e9m para a P\u00e1scoa e realiza o gesto prof\u00e9tico, provocat\u00f3rio e agressivo em rela\u00e7\u00e3o ao templo.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme os evangelhos, desde que, a partir do batismo no Jord\u00e3o, Jesus iniciou a sua miss\u00e3o prof\u00e9tica, ia a Jerusal\u00e9m e, portanto, ao templo, ao menos, uma vez por ano. Portanto, estava habituado a ver no \u00e1trio do templo o p\u00e1tio dos vendedores de animais para os sacrif\u00edcios e os cambistas. Sempre funcionou assim. Por que, ent\u00e3o, de repente, dessa vez, toma um chicote de cordas e expulsa os vendedores do \u00e1trio do templo?<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o evangelho, Jesus expulsa todos os vendedores de animais para os sacrif\u00edcios, mas parece que a palavra prof\u00e9tica \u00e9 dita mais explicitamente contra os vendedores de pombas. Por qu\u00ea? Possivelmente, como as pombas eram vendidas aos mais pobres, \u00e9 a eles que Jesus diz de forma mais contundente: \u201c<em>Tirem isso daqui. N\u00e3o fa\u00e7am da casa do meu Pai um mercado<\/em>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao verem isso, os disc\u00edpulos interpretam esse incidente de acordo com a tradi\u00e7\u00e3o religiosa judaica. O evangelho diz que eles se lembram do salmo 69 que diz: <em>O zelo da tua casa me consome<\/em>. Pensam que Jesus estava movido por esse zelo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 casa de Deus. Se fosse assim, o que Jesus pretendia era purificar o templo, ent\u00e3o profanado por um mercado que n\u00e3o era do agrado de Deus. At\u00e9 hoje, muitos padres e pastores entendem assim. H\u00e1 at\u00e9 B\u00edblias que intitulam essa cena: \u201cA purifica\u00e7\u00e3o do templo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, conforme o evangelho, a inten\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o era purificar o templo.&nbsp; O evangelho come\u00e7a dizendo: Estava pr\u00f3xima a P\u00e1scoa dos judeus, isto \u00e9, do sistema judaico. Para a B\u00edblia a festa sempre era chamada: \u201cA P\u00e1scoa do Senhor\u201d. Mas, conforme o livro do \u00caxodo, a P\u00e1scoa n\u00e3o era feita no templo. N\u00e3o tinha sacerdotes. Quem matava o cordeiro pascal era cada fam\u00edlia e o comiam por fam\u00edlia ou com os vizinhos. Diferentemente disso, na \u00e9poca de Jesus, o cordeiro pascal s\u00f3 podia ser imolado no templo, pelos sacerdotes. Em seu livro, \u201cJerusal\u00e9m no tempo de Jesus\u201d, Joachim Jeremias calcula que, em cada P\u00e1scoa, mais ou menos 18 mil cordeiros eram sacrificados no templo. E os sacerdotes ganhavam muito com esse neg\u00f3cio. Por tr\u00e1s desse sistema religioso, estava a compreens\u00e3o de que, para se ter a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus tinha que se pagar sacrif\u00edcios. Aqueles homens que vendiam animais no templo eram empregados dos sacerdotes. Eles eram os donos daquele com\u00e9rcio. Foram eles os atingidos principais por aquele ato de agress\u00e3o que Jesus realizou.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitas religi\u00f5es e at\u00e9 em certos meios cat\u00f3licos, at\u00e9 hoje, ainda vigora esse sistema. At\u00e9 hoje, os santu\u00e1rios ganham muito dinheiro com velas cujas ceras v\u00e3o se queimando, se processando e com elas fazendo novas velas para as pessoas comprarem e acenderem. At\u00e9 hoje, os ex-votos s\u00e3o feitos para as pessoas pagarem promessas. Se n\u00e3o cumprirem o que prometem, pensam que Deus castiga. O problema pior das religi\u00f5es do templo \u00e9 que usam Deus e condicionam a gra\u00e7a ao poder dos sacerdotes e a seus interesses. Na Igreja Cat\u00f3lica, h\u00e1 padres que pregam que, sem sacramentos, n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Na teologia da prosperidade, sem dar dinheiro ao pastor, n\u00e3o se obt\u00e9m a gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho de Jo\u00e3o n\u00e3o fala em purifica\u00e7\u00e3o do templo. Trata-se mais de uma expuls\u00e3o. O verbo grego usado nesse relato \u00e9 <em>exebalen, <\/em>o mesmo termo usado para o exorcismo. O que Jesus quer \u00e9 libertar a f\u00e9 e o templo da cultura religiosa sacrificial. Ao tirar os animais do templo, Ele anuncia que Deus n\u00e3o quer sacrif\u00edcios, nem de animais, nem da vida de ningu\u00e9m. Para Jesus, os sacrif\u00edcios n\u00e3o t\u00eam sentido. Mesmo as nossas liturgias, ou s\u00e3o vividas como atos de comunh\u00e3o e gratuidade, ou s\u00e3o arremedos dos antigos sacrif\u00edcios e cultos que o nosso mestre condenou.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o evangelho, todas as vezes que Jesus ia ao templo, nunca foi para o culto. Ia para ensinar. Ele mesmo disse isso ao ser interrogado pelo sacerdote: \u201cTodos os dias estava no templo para ensinar e n\u00e3o me prendestes\u201d (Mt 26,55). Ou a nossa f\u00e9 \u00e9 prof\u00e9tica, ou n\u00e3o \u00e9 a mesma de Jesus. Deus n\u00e3o quer sacrif\u00edcios e sim amor e miseric\u00f3rdia. Nunca quis Quaresma de atos de penit\u00eancia. Quer Campanha da Fraternidade e Amizade Social como caminhos de espiritualidade e de P\u00e1scoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o evangelho, os disc\u00edpulos de Jesus interpretaram erradamente o gesto de Jesus pensando que ele queria purificar o templo. No entanto, os sacerdotes e religiosos do templo n\u00e3o se enganaram. Perceberam claramente o sentido do gesto de Jesus e viram que esse gesto ia contra o interesse econ\u00f4mico e social deles. Sentiram-se amea\u00e7ados por Jesus. O chicote que Jesus levantou para tirar dali os animais atingia a eles e a seus interesses. Por isso, perguntaram: <em>Que sinal voc\u00ea d\u00e1 para agir dessa forma? Quem lhe deu autoridade para agir assim?(acabar com a religi\u00e3o e o sistema de vender a gra\u00e7a de Deus<\/em>?)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O papa Francisco tem muitas vezes denunciado o clericalismo na Igreja Cat\u00f3lica. A opini\u00e3o p\u00fablica fica favor\u00e1vel ao papa e muita gente do povo concorda. Grande parte do clero e da hierarquia, n\u00e3o. Acabar com o clericalismo vai ser prejudicial para os interesses deles que vivem do poder eclesi\u00e1stico e dessa religi\u00e3o sacerdotal. O papa tenta mudar. No entanto, ser\u00e1 poss\u00edvel libertar o Cristianismo do Clericalismo? Como?&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus responde: Sim. A f\u00e9 prof\u00e9tica, vivida em comunidade, pode ter elementos religiosos, mas n\u00e3o centrados na institui\u00e7\u00e3o e sim na profecia. Por isso, ele responde aos sacerdotes: <em>Podem desfazer (o verbo \u00e9 este) este santu\u00e1rio (isso \u00e9, esse tipo de religi\u00e3o do templo) e eu reconstruirei outro santu\u00e1rio<\/em>. E o evangelho explica: <em>ele falava do templo do seu corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A P\u00e1scoa deve ser para n\u00f3s a reconstru\u00e7\u00e3o em n\u00f3s e na nossa vida disso que, nesse evangelho, Jesus chamou: <em>a casa do meu Pai.<\/em> \u00c9 a mesma express\u00e3o que na ceia o far\u00e1 dizer aos disc\u00edpulos: <em>Na casa do meu Pai h\u00e1 muitas moradas, no acampamento do meu Pai h\u00e1 muitas tendas<\/em>. Somos n\u00f3s as tendas do Esp\u00edrito no qual Deus vem morar. \u00c9 essa a nossa tarefa pascal. Deixar que Jesus reconstrua em n\u00f3s a casa de Deus. \u00c9 isso o que evangelho diz ao insistir: Ele disse: Podem destruir esse templo (o verbo grego usado \u00e9 <em>kataly\u00f4<\/em>: desatar ou mais precisamente invalidar\/ anular e em tr\u00eas dias, eu o reerguerei\u201d (v. 19).<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho comenta que ele se referia ao templo do seu corpo e os disc\u00edpulos se recordaram disso, depois que Jesus foi reerguido dos mortos (modo de falar como se o corpo fosse uma constru\u00e7\u00e3o). \u00c9 essa a nossa f\u00e9 pascal.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A P\u00e1scoa de Jesus e a casa de Deus em n\u00f3s (Jo 2,13-25) \u2013 por Marcelo Barros Neste 3\u00ba domingo da Quaresma (ano B), dia 03\/03\/2024, o evangelho \u00e9 Jo\u00e3o 2,13 a 25. 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