{"id":13274,"date":"2024-05-11T10:03:17","date_gmt":"2024-05-11T13:03:17","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13274"},"modified":"2024-05-11T10:03:22","modified_gmt":"2024-05-11T13:03:22","slug":"sonhar-mais-um-sonho-impossivel-mc-1615-20-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/sonhar-mais-um-sonho-impossivel-mc-1615-20-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"\u201cSonhar mais um sonho imposs\u00edvel\u201d (Mc 16,15-20) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c<strong>Sonhar mais um sonho imposs\u00edvel<\/strong>\u201d (Mc 16,15-20) \u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"530\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13275\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg 800w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-300x199.jpeg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, padre e monge da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste pen\u00faltimo domingo do tempo pascal, celebramos a festa que a tradi\u00e7\u00e3o chama de \u201cAscens\u00e3o de Jesus\u201d. Neste ano B, dia 12\/05\/2024, o evangelho lido nas comunidades \u00e9 Marcos 16,15-20. Trata-se de um texto que, provavelmente, foi acrescentado ao evangelho de Marcos, no s\u00e9culo II, meio s\u00e9culo depois de que o evangelho de Marcos tinha sido escrito e publicado. Por essa raz\u00e3o e pelo seu conte\u00fado muito pr\u00f3prio e original, diferente de todo o evangelho anterior, esse texto que a liturgia das Igrejas l\u00ea nesse domingo pede de n\u00f3s aten\u00e7\u00e3o especial. Ler ao p\u00e9 da letra poderia nos levar a um jeito contr\u00e1rio de viver a f\u00e9 ao que o conjunto do evangelho prop\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos esclarecer aqui algumas diferen\u00e7as fundamentais entre esse texto do evangelho da Ascens\u00e3o e o conjunto anterior do evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcos e todos os evangelhos nos apresentam uma imagem de Deus que \u00e9 Pai de toda a humanidade, Deus Amor que salva a todos por sua gra\u00e7a. No serm\u00e3o da montanha, Jesus diz: \u201c<em>Deus faz nascer o sol sobre os bons e sobre os maus e faz chover sobre os justos e os injustos<\/em>\u201d (Mt 5,45). Conforme o pr\u00f3prio evangelho de Marcos, Jesus tinha dito aos disc\u00edpulos: \u201c<em>Quem n\u00e3o \u00e9 contra n\u00f3s, est\u00e1 a nosso favor<\/em>\u201d (Mc 9,40).<\/p>\n\n\n\n<p>Se isso \u00e9 verdade, ent\u00e3o, o que significa que nesse texto do evangelho que lemos hoje, Jesus ressuscitado afirma: \u201c<em>Quem crer e for batizado ser\u00e1 salvo. Quem n\u00e3o crer ser\u00e1 condenado\u201d<\/em> (v. 16)?<\/p>\n\n\n\n<p>Outra palavra estranha: em todo o evangelho, Jesus mostra aos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas que a f\u00e9 n\u00e3o pode se basear em milagres e sinais extraordin\u00e1rios. Durante o tempo de sua miss\u00e3o, Jesus se nega a dar sinais do c\u00e9u (Mc 8,12). Como explicar que, agora, o Cristo Ressuscitado manda os ap\u00f3stolos em miss\u00e3o e promete que a palavra ser\u00e1 acompanhada por milagres extraordin\u00e1rios? Ser\u00e1 que depois da ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus que, antes, n\u00e3o gostava de dar sinais, agora, cede \u00e0 religi\u00e3o de milagres que at\u00e9 hoje tanta gente nesse mundo prefere e procura?<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 podemos compreender essas palavras de Jesus pelo contexto hist\u00f3rico que mudou em rela\u00e7\u00e3o ao tempo em que os textos anteriores tinham sido escritos. Esse evangelho pode nos ajudar a compreender o perigo de uma leitura fundamentalista dos textos evang\u00e9licos. Ele nos convida a escutar n\u00e3o apenas o que est\u00e1 escrito, mas \u201co que o Esp\u00edrito diz, hoje, \u00e0s Igrejas\u201d (Ap 2,7).<\/p>\n\n\n\n<p>O relato que lemos, hoje, nessa festa da Ascens\u00e3o, como j\u00e1 expliquei, foi colocado no conjunto do texto de Marcos bem mais tarde e abre a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e0s dimens\u00f5es do universo. Antes, os ap\u00f3stolos eram testemunhas do reinado divino para o povo judeu. Agora, devem ir para o mundo todo. Devem ir ao mundo todo testemunhar o projeto divino no mundo: mergulhar as pessoas e os coletivos (povos) no projeto do Amor Divino. O texto n\u00e3o fala do batismo confessional desta ou daquela Igreja. Trata-se de ser batizados\/as, ou seja, mergulhados\/as no projeto divino da salva\u00e7\u00e3o. Salva-se quem entra na l\u00f3gica divina do amor, ou seja, se reconhece ou n\u00e3o que o amor \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia do Ser Divino.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, podemos compreender que quem n\u00e3o entra nessa perspectiva est\u00e1 condenado, n\u00e3o por Deus que n\u00e3o condena ningu\u00e9m, mas porque a pr\u00f3pria pessoa se nega a entrar na l\u00f3gica do amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Os antigos imaginaram a ascens\u00e3o de Jesus como subida, como se o c\u00e9u estivesse acima das nuvens. O ap\u00f3stolo Paulo nunca falou em ascens\u00e3o. Afirmou que a humanidade de Jesus foi assumida plenamente em Deus (Ef 1,17-23). Ora, a humanidade de Jesus \u00e9 exatamente a mesma de todos\/as n\u00f3s. Assim sendo, \u00e9 nossa humanidade que foi divinizada. Na eucaristia, a louva\u00e7\u00e3o popular que serve de pref\u00e1cio canta<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Os anjos aplaudem cantando:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>na gl\u00f3ria divina, o ser humano chegou<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o evangelho conta com essa imagem da ascens\u00e3o de Jesus \u00e9 o processo de diviniza\u00e7\u00e3o interior que podemos, hoje, contemplar nas pessoas e comunidades que vivem na l\u00f3gica da ternura do reino divino e testemunham que o amor \u00e9 mais forte do que a morte. Quando ningu\u00e9m imagina, a resist\u00eancia das comunidades ind\u00edgenas, negras, dos movimentos sociais e de todas as for\u00e7as subversivas da hist\u00f3ria est\u00e3o a\u00ed e revelam: um novo mundo \u00e9 necess\u00e1rio, poss\u00edvel e estamos, sim, construindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Contemplemos essa for\u00e7a divina nas comunidades da resist\u00eancia. Junto com elas, manifestemos o mist\u00e9rio do Cristo Vivo, o Jesus da gente, com rosto negro, sangue de \u00edndio e corpo de mulher. \u00c9 isso que nos faz:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSonhar mais um sonho imposs\u00edvel,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Lutar quando \u00e9 f\u00e1cil ceder<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Vencer o inimigo invenc\u00edvel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Negar quando a regra \u00e9 vender<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sofrer a tortura implac\u00e1vel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Romper a incab\u00edvel pris\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Voar num limite improv\u00e1vel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tocar o inacess\u00edvel ch\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 minha lei, \u00e9 minha quest\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Virar esse mundo, cravar esse ch\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o me importa saber se \u00e9 terr\u00edvel demais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E amanh\u00e3, se esse ch\u00e3o que eu beijei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>For meu leito e perd\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Vou saber que valeu delirar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E morrer de paix\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E assim, seja l\u00e1 como for<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Vai ter fim a infinita afli\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E o mundo vai ver uma flor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Brotar do imposs\u00edvel ch\u00e3o\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica do <em>Homem de la Mancha, <\/em>(traduzida ao portugu\u00eas por Chico Buarque) chama-nos a contaminar a Terra de utopia, re-significar como ressurrei\u00e7\u00e3o os sinais de servi\u00e7o aos irm\u00e3os\/\u00e3s marginalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta semana que vai da festa da Ascens\u00e3o a Pentecostes, no Brasil, cada ano, o Conselho Nacional de Igrejas Crist\u00e3s (CONIC) nos convida para participarmos da Semana de Ora\u00e7\u00f5es pela Unidade dos Crist\u00e3os. Ser\u00e1 o modo mais profundo de entrarmos na prepara\u00e7\u00e3o para celebrarmos, no pr\u00f3ximo domingo, a festa de Pentecostes e pedir que o Esp\u00edrito Santo venha como dom da unidade para as nossas Igrejas. Sabemos que essa unidade s\u00f3 se construir\u00e1 a partir de baixo e das fronteiras da f\u00e9. Precisamos ter coragem para ousar, para conspirar ressurrei\u00e7\u00e3o fazendo daquilo que em n\u00f3s \u00e9 mais humano e fr\u00e1gil come\u00e7o de nova humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSonhar mais um sonho imposs\u00edvel\u201d (Mc 16,15-20) \u2013 Por Marcelo Barros Neste pen\u00faltimo domingo do tempo pascal, celebramos a festa que a tradi\u00e7\u00e3o chama de \u201cAscens\u00e3o de Jesus\u201d. 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