{"id":13326,"date":"2024-05-27T17:43:01","date_gmt":"2024-05-27T20:43:01","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13326"},"modified":"2024-05-27T17:43:06","modified_gmt":"2024-05-27T20:43:06","slug":"dia-sagrado-para-a-desobediencia-civil-e-a-libertacao-mc-223-36-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/dia-sagrado-para-a-desobediencia-civil-e-a-libertacao-mc-223-36-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Dia sagrado para a desobedi\u00eancia civil e a liberta\u00e7\u00e3o (Mc 2,23-3,6) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Dia sagrado para a desobedi\u00eancia civil e a liberta\u00e7\u00e3o (Mc 2,23-3,6) \u2013 Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"530\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13327\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-1.jpeg 800w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-1-300x199.jpeg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-1-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Padre Marcelo Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste IX domingo comum, dia 02\/06\/2024, o evangelho de Mc 2,23 a 3,6 nos conta o quarto dos cinco choques que, conforme a comunidade de Marcos, Jesus enfrentou com os representantes da religi\u00e3o tradicional. Dessa vez, o conflito \u00e9 com os fariseus e parece que eles (fariseus) o provocaram. Antes, Jesus tinha se enfrentado com os sacerdotes (saduceus), depois com os escribas e agora com os fariseus. O Evangelho resume essa pol\u00eamica atrav\u00e9s de uma controv\u00e9rsia sobre a observ\u00e2ncia do s\u00e1bado como dia sagrado e a quest\u00e3o do alimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bom lermos esse evangelho \u00e0 luz das pol\u00eamicas e controv\u00e9rsias que temos hoje, nas Igrejas, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre espiritualidade e compromisso social e pol\u00edtico, sobre \u00e9tica pessoal (e mesmo sexual) e a quest\u00e3o dos direitos humanos, civis e as diversidades com as quais hoje, nos debatemos na defesa das minorias e do Pluralismo cultural e religioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca de Jesus, as prescri\u00e7\u00f5es religiosas tinham feito do s\u00e1bado um dia de repouso que n\u00e3o podia ser desrespeitado. Violar o s\u00e1bado era t\u00e3o grave que acarretava at\u00e9 pena de morte. Assim, o s\u00e1bado que, conforme o livro do Deuteron\u00f4mio, deveria ser mem\u00f3ria da liberta\u00e7\u00e3o do Egito e medida para garantir vida digna para todos e todas, se tornou, pela lei, instrumento de medo e de morte. Por isso, ao enfrentar essa institui\u00e7\u00e3o, Jesus enfrenta uma das coisas mais sagradas e importantes para a identidade do seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o evangelho, o conflito ocorreu porque, em um s\u00e1bado, os disc\u00edpulos, com fome, come\u00e7aram a arrancar espigas do campo para comer. Arrancavam as espigas de trigo e com as m\u00e3os as debulhavam.&nbsp; De acordo com a lei, usar faca ou foice era proibido no dia de s\u00e1bado, mas colher com as m\u00e3os era permitido (Dt 23,26). No entanto, os fariseus pensavam que, no s\u00e1bado, n\u00e3o se deveria fazer nem isso. Jesus responde com o m\u00e9todo dos rabinos \u2013 usando a Escritura. Jesus cita um epis\u00f3dio da vida do rei Davi no qual Davi e os seus companheiros comeram os p\u00e3es que eram sagrados. Jesus conta essa hist\u00f3ria n\u00e3o tanto como o texto b\u00edblico narra e sim do jeito que a tradi\u00e7\u00e3o oral tinha guardado a hist\u00f3ria. De acordo com Jesus, o problema foi que aqueles p\u00e3es eram reservados s\u00f3 aos sacerdotes. Conforme a hist\u00f3ria, Davi e seus companheiros que n\u00e3o eram sacerdotes os comeram. Al\u00e9m disso, fizeram isso em um dia de s\u00e1bado. Por isso, Jesus conclui que a lei do s\u00e1bado foi feita em fun\u00e7\u00e3o da pessoa humana e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa palavra de Jesus n\u00e3o \u00e9 original. Na \u00e9poca dos Macabeus (180 antes de Cristo), o rabino Shimon ben Menasya tinha escrito: &#8220;O s\u00e1bado \u00e9 dado para voc\u00ea e n\u00e3o voc\u00ea para o s\u00e1bado.&#8221; Assim, vemos que Jesus n\u00e3o queria falar contra a institui\u00e7\u00e3o do s\u00e1bado. Ao contr\u00e1rio, ele valorizava o s\u00e1bado para fazer o s\u00e1bado voltar a ser visto como dom divino e como o dia da liberta\u00e7\u00e3o de Israel (Dt 5). Ele n\u00e3o concordava com o fato de que a teologia dos sacerdotes tinha feito do s\u00e1bado um conjunto de leis e de proibi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Benedetto Calatti, monge beneditino italiano, verdadeiro profeta da renova\u00e7\u00e3o eclesial nos tempos do Conc\u00edlio Vaticano II e no imediato p\u00f3s-conc\u00edlio nos dizia: \u201cQuantos s\u00e1bados, as Igrejas inventaram para controlar as pessoas e ser\u00e1 que n\u00f3s mesmos n\u00e3o inventamos tamb\u00e9m alguns s\u00e1bados?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a mais profunda espiritualidade judaico-crist\u00e3, se o S\u00e1bado n\u00e3o \u00e9 s\u00edmbolo e elemento de liberdade e alegria, n\u00e3o \u00e9 o s\u00e1bado de Deus, que o criou para fazer de cada ser humano uma pessoa livre e libertadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os tempos do Mahatma Gandhi na \u00cdndia em sua luta n\u00e3o violenta contra o colonialismo ingl\u00eas e a do pastor Martin-Luther King nos Estados Unidos contra o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o imposta ao povo negro, um instrumento importante de contesta\u00e7\u00e3o tem sido a desobedi\u00eancia civil. As pessoas oprimidas se unem e se organizam em atos que claramente desobedecem a leis que eles denunciam como sendo injustas e por isso n\u00e3o podem ser obedecidas. Jesus e o seu pequeno grupo de disc\u00edpulos e disc\u00edpulas praticaram a desobedi\u00eancia civil contra leis religiosas que discriminavam pessoas e categorias humanas. Eram leis que, em nome de Deus, davam aos sacerdotes e religiosos do templo poder para controlar e dominar as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, o papa Francisco denuncia o clericalismo como sendo um c\u00e2ncer que devasta o corpo das Igrejas e prop\u00f5e a sinodalidade (caminhar juntos) como o modo normal das Igrejas serem e viverem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito importante que pessoas e comunidades comecem a praticar a desobedi\u00eancia civil contra a religi\u00e3o clerical que at\u00e9 hoje discrimina e legitima viol\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus fez isso ao defender que os disc\u00edpulos tivessem direito a colher trigo no dia de s\u00e1bado e culminou a sua a\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica indo \u00e0 sinagoga e dentro da sinagoga, em pleno s\u00e1bado, curar um homem de m\u00e3o seca (Mc 3,1- 6).<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha iniciado sua atividade p\u00fablica expulsando um esp\u00edrito mau de dentro da sinagoga. Agora, novamente, na sinagoga, cura um homem que, por ser aleijado, nem teria podido entrar na sinagoga. O texto diz que Jesus o coloca no meio da comunidade e provoca os seus advers\u00e1rios: Em dia de s\u00e1bado, \u00e9 permitido fazer o bem ou o mal? O evangelho diz que olha furioso para aqueles homens religiosos. \u00c9 um dos textos evang\u00e9licos mais fortes esse que fala do olhar irado de Jesus. (Geralmente, sempre falamos de Jesus como manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que Jesus poderia ter curado o homem l\u00e1 fora e em segredo. No entanto, ele quis provocar e fazer do ato de cura um gesto prof\u00e9tico de desobedi\u00eancia civil e de liberdade contra a religi\u00e3o e o sistema opressores. O evangelho diz que aqueles homens da sinagoga sa\u00edram dali decididos a matar Jesus. Infelizmente, at\u00e9 hoje, h\u00e1 religiosos que, em nome de Deus, acabam odiando e matando as pessoas e grupos que n\u00e3o se curvam ao seu poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, mais do que nunca, \u00e9 urgente testemunhar que Deus \u00e9 amor, \u00e9 liberdade e fonte de liberta\u00e7\u00e3o para todos e todas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia sagrado para a desobedi\u00eancia civil e a liberta\u00e7\u00e3o (Mc 2,23-3,6) \u2013 Por Marcelo Barros Neste IX domingo comum, dia 02\/06\/2024, o evangelho de Mc 2,23 a 3,6 nos conta o quarto dos cinco choques<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-13326","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13326"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13328,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13326\/revisions\/13328"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}