{"id":13346,"date":"2024-06-01T15:33:32","date_gmt":"2024-06-01T18:33:32","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13346"},"modified":"2024-06-01T15:33:37","modified_gmt":"2024-06-01T18:33:37","slug":"salvaremo-nos-a-partir-do-principio-esperanca-por-leonardo-bof","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/salvaremo-nos-a-partir-do-principio-esperanca-por-leonardo-bof\/","title":{"rendered":"Salvaremo-nos a partir do princ\u00edpio-esperan\u00e7a \u2013 Por Leonardo Bof"},"content":{"rendered":"\n<p>Salvaremo-nos a partir do princ\u00edpio-esperan\u00e7a \u2013 Por Leonardo Boff<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"562\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/61AePcgjL._AC_UF10001000_QL80_.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13347\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/61AePcgjL._AC_UF10001000_QL80_.jpg 1000w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/61AePcgjL._AC_UF10001000_QL80_-300x169.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/61AePcgjL._AC_UF10001000_QL80_-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A grande enchente que est\u00e1 assolando o Rio Grande do Sul \u00e9 um dos sinais mais inequ\u00edvocos, dado pela M\u00e3e Terra, dos efeitos extremamente danosos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. J\u00e1 estamos dentro dela. N\u00e3o adianta os negacionistas se recusarem em aceitar esse dado. Os fatos falam por si. Dentro de pouco chegar\u00e3o na vida de todas as pessoas, ricos e pobres, como chegou a todos na maioria das cidades ribeirinhas daquele estado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ocorreu uma surpreendente acelera\u00e7\u00e3o do processo de aquecimento global e n\u00e3o se cumpriu o decidido no Acordo de Paris de 2015 segundo o qual se previa uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de gazes de efeito estufa para n\u00e3o aumentarmos a temperatura de 1,5\u00baC at\u00e9 2030. Quase nada se fez: em 2022 foram lan\u00e7adas na atmosfera 37,5 bilh\u00f5es de toneladas de CO\u00b2 e em 2023 foram 40,8 bilh\u00f5es de toneladas. Tudo foi excessivo. Em raz\u00e3o disso alguns climat\u00f3logos sustentam que antes de 2030 como previsto, o aquecimento se antecipou. Por volta de 2026-2028 o clima da Terra se estabilizaria em torno de 38-40\u00baC e em alguns lugares com n\u00fameros mais elevados.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A temperatura de nosso corpo est\u00e1 por volta de 36,5\u00baC. Imaginem se pela noite a temperatura ambiente se mantiver por volta de 38\u00baC? Muitos, entre os idosos e crian\u00e7as, n\u00e3o aguentar\u00e3o e poder\u00e3o at\u00e9 morrer. E para todos ser\u00e1 uma grande agonia. Sem falar da perda da biodiversidade e das safras de alimentos, necess\u00e1rios para a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem viu claro o estado da Terra foi um representante dos povos origin\u00e1rios, aqueles que se sentem Terra e parte da natureza, uma lideran\u00e7a yanomami Davi Kopenawa: \u201cA Terra \u00e9 nossa m\u00e3e e sofre h\u00e1 muito tempo. Como um ser humano que sente dor, ela sente quando invasores, o agroneg\u00f3cio, mineradoras e petroleiras derrubam milhares de \u00e1rvores e cavam fundo no solo, no mar. Ela est\u00e1 pedindo ajuda e dando avisos para que os n\u00e3o ind\u00edgenas parem de arrancar a pele da Terra.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como continuamos arrancando a pele da Terra e agravando a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, o potencial de esperan\u00e7a est\u00e1 chegando ao limite. Cientistas deixaram claro que a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica n\u00e3o poder\u00e3o reverter esta situa\u00e7\u00e3o, apenas advertir da chegada de eventos extremos e mitigar suas consequ\u00eancias desastrosas. Chegamos \u00e0 atual situa\u00e7\u00e3o global simplesmente porque grande parte da popula\u00e7\u00e3o desconhece a real situa\u00e7\u00e3o da Terra e a maioria dos chefes de Estado e os CEOs das grandes empresas preferem continuar a l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o ilimitada, arrancada da natureza e do consumo sem limites, a ouvir as advert\u00eancias das ci\u00eancias da Terra e da vida. N\u00e3o se fez a li\u00e7\u00e3o de casa. Agora a fatura amarga chegou.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que ocorreu no Sul do Brasil \u00e9 apenas o come\u00e7o. Os desastres ecol\u00f3gicos v\u00e3o se repetir com mais frequ\u00eancia e de forma cada vez mais grave em todas as partes do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde vamos buscar energias para ainda crer e esperar? Como foi dito com sabedoria: \u201cquando n\u00e3o h\u00e1 mais raz\u00e3o para crer, ent\u00e3o come\u00e7a a f\u00e9; quando n\u00e3o h\u00e1 mais raz\u00e3o para esperar, ent\u00e3o come\u00e7a a esperan\u00e7a\u201d. Como disse com acerto o autor da ep\u00edstola aos Hebreus (por volta dos anos 80 do s\u00e9culo I):\u201d&nbsp;<em>A f\u00e9 \u00e9 o fundamento do que se espera e a convic\u00e7\u00e3o das realidades que n\u00e3o se veem<\/em>\u201d (Hb 11,1). A f\u00e9 v\u00ea o que n\u00e3o se v\u00ea com os simples olhos carnais. A f\u00e9 v\u00ea com os olhos do esp\u00edrito que \u00e9 o nosso profundo, a possibilidade de um mundo que ainda vir\u00e1, mas que, seminalmente mas ainda invis\u00edvel, est\u00e1 entre n\u00f3s. Por isso a f\u00e9 se abre \u00e0 esperan\u00e7a que \u00e9 sempre ir al\u00e9m do que \u00e9 dado e verificado. A f\u00e9 e a esperan\u00e7a fundam o mundo das utopias que forcejam por se realizar historicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui vale o princ\u00edpio-esperan\u00e7a. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o Ernst Bloch cunhou a express\u00e3o&nbsp;<em>principio-esperan\u00e7a.<\/em>&nbsp;Ele representa um motor interior que sempre est\u00e1 funcionando e alimentando o imagin\u00e1rio e o inesgot\u00e1vel potencial da exist\u00eancia humana e da hist\u00f3ria. O Papa Francisco na&nbsp;<em>Fratelli&nbsp;<\/em>tutti afian\u00e7a: \u201ca esperan\u00e7a nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunst\u00e2ncias concretas e dos condicionamentos hist\u00f3ricos em que vive\u201d (n. 55). Assumir este princ\u00edpio-esperan\u00e7a hoje, nesta nova fase da Terra, \u00e9 extremamente urgente.<\/p>\n\n\n\n<p>O princ\u00edpio-esperan\u00e7a \u00e9 o nicho de todas as utopias. Ele permite continuamente projetar novas vis\u00f5es, novos caminhos ainda n\u00e3o trilhados e sonhos vi\u00e1veis. O sentido da utopia \u00e9 sempre nos fazer andar (Eduardo Galeano), sempre superar dificuldades e melhorar a realidade. Como humanos, somos seres ut\u00f3picos. \u00c9 o princ\u00edpio-esperan\u00e7a que nos poder\u00e1 salvar e abrir&nbsp;uma dire\u00e7\u00e3o nova para a Terra e seus filhos e filhas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Qual a nossa utopia m\u00ednima, vi\u00e1vel e necess\u00e1ria? Ela implica,&nbsp;antes de mais nada, a busca da humaniza\u00e7\u00e3o do ser humano. Ele se desumanizou, pois se transformou no anjo exterminador da natureza. S\u00f3 recuperar\u00e1 sua humanidade se come\u00e7ar&nbsp;a viver a partir daquilo que \u00e9 de sua natureza: um ser de amoriza\u00e7\u00e3o, de cuidado, de comunh\u00e3o, de coopera\u00e7\u00e3o, de compaix\u00e3o, de ser \u00e9tico e de ser espiritual que se responsabiliza por seus atos para que sejam benfazejos para todos. Pelo fato de n\u00e3o ter criado espa\u00e7o a esses valores e princ\u00edpios, fomos empurrados na crise atual que pode nos conduzir ao abismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa utopia vi\u00e1vel e necess\u00e1ria se concretiza sempre, caso tenhamos tempo, dentro das contradi\u00e7\u00f5es, inevit\u00e1veis em todos os processos hist\u00f3ricos. Mas ela significar\u00e1 um novo horizonte de esperan\u00e7a que alimentar\u00e1 a caminhada da humanidade na dire\u00e7\u00e3o do futuro. Desta<em>&nbsp;\u00f3tica<\/em>&nbsp;nasce uma&nbsp;<em>nova \u00e9tica<\/em>.&nbsp; Por todos os lados surgem for\u00e7as seminais que buscam e j\u00e1 ensaiam um novo padr\u00e3o de comportamento humano e ecol\u00f3gico. Representar\u00e1 aquilo que Pierre Teilhard de Chardin desde seu ex\u00edlio na China em 1933 chamava de&nbsp;<em>noosfera.<\/em>&nbsp;Seria aquela esfera na qual as mentes e os cora\u00e7\u00f5es (<em>noos<\/em>&nbsp;em grego) entrariam numa nova sintonia fina, caracterizada pela amoriza\u00e7\u00e3o, pelo cuidado, pela mutualidade entre todos, pela espiritualiza\u00e7\u00e3o das intencionalidades coletivas. Dizia um aforismo antigo: \u201cquando n\u00e3o sabes para onde vais, regresse para saber de onde vens\u201d. Temos que regressar \u00e0 nossa pr\u00f3pria natureza de onde viemos, pois, ela cont\u00e9m as&nbsp;indica\u00e7\u00f5es para onde ir: para aqueles valores acima enunciados que nos tirar\u00e3o da crise. No meio de tanto abatimento e melancolia pela situa\u00e7\u00e3o grave do mundo, nisso cremos e esperamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Leonardo Boff escreveu <em>Habitar a Terra<\/em>, Vozes 2022;&nbsp;<em>Cuidar da Casa Comum: pistas para protelar o fim do mundo,<\/em>&nbsp;Vozes 2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvaremo-nos a partir do princ\u00edpio-esperan\u00e7a \u2013 Por Leonardo Boff[1] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A grande enchente que est\u00e1 assolando o Rio Grande do Sul \u00e9 um dos sinais mais inequ\u00edvocos, dado pela M\u00e3e Terra, dos efeitos extremamente danosos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13347,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,47,46,44,38,49,27,30,56,43,57,26],"tags":[],"class_list":["post-13346","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-agua","category-direito-a-cultura-popular","category-direito-a-memoria","category-direito-a-saude","category-direito-a-terra","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-meio-ambiente","category-pedagogia-emancipatoria","category-podcast","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13346"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13348,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13346\/revisions\/13348"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}