{"id":13385,"date":"2024-06-15T09:35:55","date_gmt":"2024-06-15T12:35:55","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13385"},"modified":"2024-06-15T09:36:01","modified_gmt":"2024-06-15T12:36:01","slug":"carcere-e-dignidade-humana-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/carcere-e-dignidade-humana-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"C\u00c1RCERE E DIGNIDADE HUMANA\u00a0\u00a0&#8211; Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>C\u00c1RCERE E DIGNIDADE HUMANA\u00a0\u00a0&#8211; Por Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/images-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13386\" width=\"779\" height=\"490\"\/><figcaption>Frei Betto<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Participei em Bras\u00edlia do Semin\u00e1rio Internacional \u201cSeguran\u00e7a P\u00fablica, Direitos Humanos &amp; Democracia\u201d, promovido pelo IREE. Discorri sobre o tema que intitula este artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Minha vantagem sobre o grande n\u00famero de palestrantes ali reunidos, entre 6 e 7 de junho, \u00e9 ter sido preso comum ao longo de dois anos: 1972 e 1973. Estive em tr\u00eas unidades prisionais de S\u00e3o Paulo: Penitenci\u00e1ria do Estado, Carandiru e Penitenci\u00e1ria Regional de Presidente Venceslau, que ora abriga o comando do PCC.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A ditadura militar decidira afastar tr\u00eas frades dominicanos acusados de \u201cterroristas\u201d do conv\u00edvio dos presos pol\u00edticos, ap\u00f3s dois anos de encarceramento: Fernando de Brito, Ivo Lesbaupin e eu. Para tentar evitar que a medida repercutisse como persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, tr\u00eas outros presos pol\u00edticos foram inclu\u00eddos no pacote de transfer\u00eancias: Maurice Politi, Vanderley Caixe e Manoel Porf\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Minha resposta \u00e9 \u201csim\u201d quando me perguntam se \u00e9 poss\u00edvel ressocializar presos comuns. N\u00e3o h\u00e1, contudo, interesse do Estado, como bem explica Michel Foucault em sua obra \u201cVigiar e punir\u201d. O sistema carcer\u00e1rio brasileiro, que hoje abriga quase 900 mil detentos (cerca de 40% sem condena\u00e7\u00e3o formal), \u00e9 meramente punitivo e vingativo. Submete corpos e n\u00e3o reeduca subjetividades.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em Presidente Venceslau, onde permanecemos por mais tempo, tr\u00eas iniciativas alteraram os paradigmas da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria: incentivo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica; curso supletivo de ensino m\u00e9dio; e acesso ao r\u00e1dio. Apesar das resist\u00eancias da administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria, criamos oficinas de pintura e grupo de teatro. Os participantes dessas atividades recuperaram a autoestima ao expressar, em telas e interpreta\u00e7\u00f5es c\u00eanicas, o conturbado universo que traziam na subjetividade. Um eficiente processo de autoterapia, pelo qual o \u00f3cio carcer\u00e1rio se viu superado por intenso empenho nos diferentes espa\u00e7os de express\u00f5es art\u00edsticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para surpresa da dire\u00e7\u00e3o do c\u00e1rcere, de 400 presos comuns, 68 se inscreveram no curso supletivo, ent\u00e3o denominado madureza. Formadas duas turmas, os seis presos pol\u00edticos assumiram os conte\u00fados did\u00e1ticos e pedag\u00f3gicos. Os exames eram aplicados por professores vindos de fora, o que assegurou validade oficial ao curso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As conversas da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, at\u00e9 ent\u00e3o centradas em delitos e pornografia, passaram a ter como refer\u00eancias a hist\u00f3ria do Brasil, contos de Machado de Assis ou a Tabela Peri\u00f3dica. Aumentaram os pedidos de livros \u00e0 biblioteca e o acervo foi ampliado gra\u00e7as \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de amigos. \u00c9rico Ver\u00edssimo nos enviou meia d\u00fazia de grandes caixotes com farta literatura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A muito custo convencemos o diretor da penitenci\u00e1ria a permitir que cada um dos 400 presos tivesse r\u00e1dio na cela individual. Descontou-se o valor do aparelho do pec\u00falio prisional assegurado por lei a cada encarcerado. O que n\u00e3o sabemos \u00e9 se a compra por atacado correspondeu ao valor que pagamos pelo produto&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Favorecer o acesso ao r\u00e1dio foi como abrir janelas nos muros da penitenci\u00e1ria. Diante da diversidade de informa\u00e7\u00f5es, as conversas deixaram de ter como tema central a criminalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tivesse o governo interesse e empenho em ressocializar os detentos, transformaria nossos c\u00e1rceres em grandes oficinas de habilita\u00e7\u00e3o profissional. Os presos trabalham, mas em atividades mec\u00e2nicas, sem criatividade. Conheci um, em Presidente Venceslau, que h\u00e1 oito anos limpava o mesmo corredor&#8230; Outro trabalhava na alfaiataria, mas n\u00e3o sabia fazer uma cal\u00e7a ou camisa. Sua tarefa era pregar bot\u00f5es&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em sistema de cooperativas, como faz o Instituto Humanitas360, envolvendo inclusive as fam\u00edlias das detentas, \u00e9 poss\u00edvel propiciar qualifica\u00e7\u00e3o profissional, produ\u00e7\u00e3o de renda e resgate da autoestima cidad\u00e3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;H\u00e1, no entanto, que adotar medidas correlatas ao sistema prisional, como evitar a privatiza\u00e7\u00e3o dos c\u00e1rceres (onera-se o custo do sistema e favorece a corrup\u00e7\u00e3o entre governantes e empres\u00e1rios); descriminalizar o uso e o com\u00e9rcio de drogas; desmilitarizar as pol\u00edcias; combater a tortura e o racismo; qualificar os carcereiros; limitar as pris\u00f5es cautelares; aprimorar o sistema de sa\u00fade f\u00edsica e ps\u00edquica dos encarcerados; e favorecer a sa\u00eddas tempor\u00e1rias, agora vetadas pelo atual Congresso, embora seja \u00ednfimo o n\u00famero de infratores dessa medida restaurativa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Se tais atitudes n\u00e3o forem tomadas, nosso sistema prisional continuar\u00e1 a ser antro de corrup\u00e7\u00e3o e tortura, e escola de reincid\u00eancia criminal. E n\u00f3s, cidad\u00e3os e cidad\u00e3s livres, obrigados a auto encarceramento, retidos em casa por medo das ruas, acossados pelo medo, amea\u00e7ados por transtornos ps\u00edquicos e s\u00edndrome do p\u00e2nico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O mais importante, por\u00e9m, \u00e9 diminuir a criminalidade. Para isso a receita \u00e9 \u00f3bvia: a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social; universaliza\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o do sistema educacional; pleno emprego; e cultura da \u00e9tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o interessa \u00e0s for\u00e7as obscurantistas da acumula\u00e7\u00e3o privada do capital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cCartas da pris\u00e3o\u201d (Companhia das Letras), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Frei Betto \u00e9 autor de 78 livros editados no Brasil, dos quais 42 tamb\u00e9m no exterior. Voc\u00ea poder\u00e1 adquiri-los com desconto na Livraria Virtual \u2013 <\/strong><a href=\"http:\/\/www.freibetto.org\/\"><strong>www.freibetto.org<\/strong><\/a><strong>&nbsp; <\/strong><strong>Ali os encontrar\u00e1&nbsp;a pre\u00e7os mais baratos<\/strong><strong> <\/strong><strong>e os receber\u00e1 em casa pelo correio.&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00c1RCERE E DIGNIDADE HUMANA\u00a0\u00a0&#8211; Por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Participei em Bras\u00edlia do Semin\u00e1rio Internacional \u201cSeguran\u00e7a P\u00fablica, Direitos Humanos &amp; Democracia\u201d, promovido pelo IREE. 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