{"id":13569,"date":"2024-09-16T16:17:02","date_gmt":"2024-09-16T19:17:02","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13569"},"modified":"2024-09-16T16:17:07","modified_gmt":"2024-09-16T19:17:07","slug":"guia-para-quem-aceita-perder-mc-929-36-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/guia-para-quem-aceita-perder-mc-929-36-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Guia para quem aceita perder (Mc 9,29-36) \u2013 por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Guia para quem aceita perder (Mc 9,29-36) \u2013 por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"530\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13570\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg 800w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-300x199.jpeg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, biblista e te\u00f3logo, monge beneditino<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Reflex\u00e3o b\u00edblica para o XXV Domingo comum, dia 22\/09\/2024. No campo social e pol\u00edtico, a quest\u00e3o do poder continua a ser um desafio fundamental. Nos ambientes tradicionais de direita, h\u00e1 uma cultura do autoritarismo, considerado como lideran\u00e7a. No entanto, mesmo nos movimentos populares e nos grupos que optam pela transforma\u00e7\u00e3o do mundo, o desafio do poder tamb\u00e9m \u00e9 muito presente. Pol\u00edticos progressistas se comportam como coron\u00e9is e \u00e9 comum que a ambi\u00e7\u00e3o pessoal continue a ser o modo normal de agir das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas Igrejas crist\u00e3s, apesar de que conforme os evangelhos, Jesus prop\u00f4s uma total reviravolta nas rela\u00e7\u00f5es de poder, desde os tempos mais antigos, a quest\u00e3o do poder tem sido fonte de divis\u00e3o entre os ministros e de conflito por predomin\u00e2ncia entre as Igrejas locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, o papa Francisco tem denunciado o clericalismo como verdadeira chaga na Igreja. No entanto, a divis\u00e3o entre cl\u00e9rigos e leigos \u00e9 t\u00e3o arraigada que, mesmo uma proposta importante como a Sinodalidade, apresentada pelo papa como \u201cmodo normal da Igreja ser\u201d,&nbsp; esbarra na cultura eclesi\u00e1stica, que confunde minist\u00e9rio com hierarquia e aceita sinodalidade, desde que salvaguarde o poder do cl\u00e9rigo ordenado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a partir dessa realidade e desse apelo de Jesus \u00e0 convers\u00e3o que podemos reler e procurar entender o evangelho lido neste XXV domingo comum do ano B: Marcos 9,29-36.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto hist\u00f3rico parece ser o fato de que Jesus j\u00e1 n\u00e3o atuava mais com a multid\u00e3o. Embora ainda estivesse na Galileia, agia como se fosse clandestino. N\u00e3o queria que as pessoas soubessem da sua presen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia humana revela que ningu\u00e9m opta pela clandestinidade simplesmente porque gosta de se esconder, ou porque prefere ser inc\u00f3gnito. Geralmente, as pessoas entram na clandestinidade para salvar a vida ou poder realizar algo que seria imposs\u00edvel fazer publicamente. O evangelho explica que Jesus se colocou como clandestino, porque se dedicava a formar os disc\u00edpulos\/as e fazia isso preparando-os para o grande trauma que seria a sua pris\u00e3o e morte na cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>No tempo de Jesus ou mesmo d\u00e9cadas depois, na \u00e9poca em que o evangelho foi escrito, o que significava preparar algu\u00e9m para aceitar a cruz? Mesmo hoje, como nos preparamos para assumir a cruz?<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a Idade M\u00e9dia, se desenvolveu um Cristianismo dolorista que falava da cruz como a capacidade de aceitar sacrif\u00edcios e dores. Nas Igrejas, predominava uma espiritualidade baseada no que, ent\u00e3o, se chamava de mortifica\u00e7\u00e3o. Hoje, optamos por uma f\u00e9 centrada na vida e na alegria e n\u00e3o na dor. No entanto, no tempo de Jesus, na Palestina, n\u00e3o se poderia imaginar um Messias que se propunha a libertar o povo e aceitava ser preso, condenado pelo imp\u00e9rio e morto na cruz, como, na \u00e9poca, era o supl\u00edcio imposto aos rebeldes e subversivos pol\u00edticos. Para os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Jesus, esse foi o maior dilema de Jesus: conforme a cultura deles e a cultura religiosa at\u00e9 hoje comum, se a pessoa \u00e9 de Deus, Deus est\u00e1 no comando e o sinal disso \u00e9 a vit\u00f3ria contra os inimigos. Se as coisas n\u00e3o acontecem assim, n\u00e3o seria de Deus que nunca poderia aceitar o fracasso e a cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse foi o desafio de Jesus: assumir a miss\u00e3o de Cristo (Messias) e fazer as pessoas compreenderem que ele cumpriria sua miss\u00e3o libertadora n\u00e3o pela vit\u00f3ria pol\u00edtica contra o imp\u00e9rio e sim ao dar sentido positivo e fecundo \u00e0 entrega da sua vida. Ele tomou como meta da sua miss\u00e3o n\u00e3o a tomada do poder e sim a inser\u00e7\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o de condenado pelo sistema pol\u00edtico. Ao assumir a cruz, Jesus revela uma nova proposta de rela\u00e7\u00f5es humanas e de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, baseada no amor gratuito e incondicional, na justi\u00e7a como condi\u00e7\u00e3o para a Paz e no cuidado com a Vida em todas as suas dimens\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a primeira parte deste texto do evangelho de hoje cont\u00e9m a segunda advert\u00eancia que Jesus fez aos disc\u00edpulos avisando o que iria sofrer em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte mostra a conversa mais \u00edntima e tranquila que ele teve com o seu grupo quando chegou em casa, na comunidade (isto \u00e9, na Igreja dom\u00e9stica). Essa conversa teve como tema os conflitos de poder que ele, Jesus, percebia haver no grupo e a sua proposta de que para ser disc\u00edpulo dele a pessoa tem de tomar o lugar do servi\u00e7o e n\u00e3o o do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto a predi\u00e7\u00e3o de Jesus sobre a sua cruz como a conversa sobre o poder na comunidade dos disc\u00edpulos foram ambas entendidas de forma espiritualista e nem uma nem outra parece ter sido compreendida pelos disc\u00edpulos. O exegeta espanhol Jabier Pikassa comentou este evangelho afirmando:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO que Jesus critica n\u00e3o \u00e9 o \u201cego\u00edsmo\u201d na busca de cargos. Jesus \u00e9 contra a pr\u00f3pria exist\u00eancia de cargos na Igreja (Mc 9,35-37). Geralmente, os eclesi\u00e1sticos interpretam as palavras de Jesus como uma cr\u00edtica ao simples autoritarismo. Se se tratasse de uma discuss\u00e3o sobre formas de exercer a autoridade, seria um problema secund\u00e1rio que se resolveria com uma \u00e9tica de boa conduta. No entanto, o problema n\u00e3o \u00e9 de formas e sim de princ\u00edpios. <strong>N\u00e3o se trata de mandar bem ou mal e sim de n\u00e3o mandar. <\/strong>N\u00e3o se trata de governar sem ego\u00edsmo e sim de superar o pr\u00f3prio governo, superando assim toda l\u00f3gica humana, na linha da gratuidade, como fazem as crian\u00e7as e \u00e9 uma crian\u00e7a que Jesus apresenta como modelo\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em pouco tempo, j\u00e1 nas primeiras gera\u00e7\u00f5es da Igreja, santos bispos como Clemente de Roma, Irineu e outros interpretaram os textos evang\u00e9licos para dizer que Jesus instituiu sacerdotes e colocou Pedro como papa na Igreja. Desde quase o come\u00e7o da Igreja sempre houve luta pelo poder entre ministros e estes lutaram para evitar a cruz e serem aceitos pela sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se prestarmos aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria linguagem, os disc\u00edpulos perguntavam quem seria o maior e o mais importante. Jesus responde que n\u00e3o se trata de ser primeiro. Deve-se procurar ser o \u00faltimo. E no an\u00fancio da cruz, a express\u00e3o que ele usa \u00e9 se entregar. O Filho do Homem vai ser entregue&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, ambas as afirma\u00e7\u00f5es, tanto a palavra sobre a cruz, como a palavra sobre o antipoder podem ser compreendidas a partir do princ\u00edpio de que \u00e9 preciso entregar a vida para ganh\u00e1-la definitivamente (Mc 8, 35). Ao dar a pr\u00f3pria vida, Jesus d\u00e1 o exemplo do que acabava de afirmar como Mestre. Morre como um lavrador que se revolta contra o imp\u00e9rio. Para o mundo, a sua morte \u00e9 humilhante e vergonhosa. Para quem \u00e9 disc\u00edpulo ou disc\u00edpula, a mesma doa\u00e7\u00e3o da vida se torna refer\u00eancia de entrega e consagra\u00e7\u00e3o, a qual todos n\u00f3s somos chamados\/as.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, a rebeli\u00e3o dos povos ind\u00edgenas do Sul do M\u00e9xico se organizou como movimento zapatista desde a segunda metade do s\u00e9culo XX e se tornou p\u00fablica no dia do ano novo de 1994. Atualmente, organiza a regi\u00e3o de Chiapas em caracoles, ou seja, formas circulares e comunit\u00e1rias de governos municipais. Ali, o princ\u00edpio b\u00e1sico \u00e9 mandar obedecendo. N\u00e3o h\u00e1 chefe, nem comandante. H\u00e1 apenas um (ou uma) representante do governo sempre colegiado a que chamam de <strong>\u201cbom governo\u201d e esses ou essas s\u00e3o sub-comandantes<\/strong>. <strong>O \u201cmandar obedecendo\u201d \u00e9 o princ\u00edpio \u00e9tico de rela\u00e7\u00f5es novas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com esse evangelho de hoje, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o \u00e9 uma vit\u00f3ria atrav\u00e9s do poder, como at\u00e9 hoje, cantam algumas can\u00e7\u00f5es do tempo pascal e sim uma afirma\u00e7\u00e3o da Vida e do Amor a partir do fracasso, da humilha\u00e7\u00e3o e da morte. O evangelho de hoje tem para n\u00f3s a grande boa not\u00edcia de que ser\u00e1 poss\u00edvel aceitarmos, um dia (tomara que logo) que quem na entrega da vida e no jogo do amor perde acaba ganhando e, ao mesmo tempo, deixa o desafio de como ver ressurrei\u00e7\u00e3o e vida em meio a tantas calamidades e sofrimentos dos povos crucificados de hoje e das nossas crucifix\u00f5es de cada dia&#8230;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; PIKAZA, Jabier, <strong>Comentario al Evangelio de Marcos, <\/strong>Vida Publishers, Madrid, 2014, p, 443.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guia para quem aceita perder (Mc 9,29-36) \u2013 por Marcelo Barros Reflex\u00e3o b\u00edblica para o XXV Domingo comum, dia 22\/09\/2024. 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