{"id":13589,"date":"2024-09-21T08:40:40","date_gmt":"2024-09-21T11:40:40","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13589"},"modified":"2024-09-21T08:40:45","modified_gmt":"2024-09-21T11:40:45","slug":"a-nossa-responsabilidade-face-a-era-do-piroceno-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-nossa-responsabilidade-face-a-era-do-piroceno-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"A NOSSA RESPONSABILIDADE FACE \u00c0 ERA DO PIROCENO \u2013 Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A NOSSA RESPONSABILIDADE FACE \u00c0 ERA DO PIROCENO <\/strong>\u2013 Por<strong> <\/strong>Leonardo Boff &#8211; <a href=\"https:\/\/leonardoboff.org\/2024\/09\/18\/a-nossa-responsabilidade-face-a-era-do-piroceno\/\">18\/09\/2024<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/images.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13590\" width=\"779\" height=\"535\"\/><figcaption>Leonardo Boff, te\u00f3logo da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com a irrup\u00e7\u00e3o do piroceno (a Terra sob fogo) se mostrando em todos os continentes com queimadas que nos assustam por sua dimens\u00e3o, surge a pergunta: qual \u00e9 a nossa responsabilidade face a esta emerg\u00eancia? Essa quest\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida porque grande parte dos inc\u00eandios, especialmente, no Brasil, teriam sido causados por seres humanos. Nossa responsabilidade, no entanto, \u00e9 cuidar e guardar os ecossistemas e o planeta vivo, Gaia, a M\u00e3e Terra. Mas comparecemos como um anjo exterminador do Apocalipse.<\/p>\n\n\n\n<p>Para superarmos nosso sentimento de desola\u00e7\u00e3o e de medo do fim da esp\u00e9cie que resulta da Terra fervendo, nos obrigamos a fazer uma s\u00e9ria reflex\u00e3o para compreendermos&nbsp;melhor nossa responsabilidade por tais eventos devastadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A Terra e a natureza n\u00e3o s\u00e3o um rel\u00f3gio que j\u00e1 aparece montado uma vez por todas. Elas derivam de um longu\u00edssimo processo evolutivo e c\u00f3smico que j\u00e1 tem 13,7 bilh\u00f5es de anos. O \u201crel\u00f3gio\u201d foi sendo montado lentamente, os seres foram aparecendo a partir dos mais simples para os cada vez mais complexos. Todos os fatores que entram na constitui\u00e7\u00e3o de cada ecossistema com seus seres e organismos possuem sua ancestralidade, sua lat\u00eancia e em seguida a sua emerg\u00eancia. Todos possuem sua hist\u00f3ria,&nbsp;irrevers\u00edvel, pr\u00f3pria do tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>O princ\u00edpio&nbsp;<em>cosmog\u00eanico<\/em>&nbsp;atua permanentemente. Ilya Prigogine, pr\u00eamio Nobel de 1977, mostrou que os sistemas abertos &nbsp;como a Terra, a natureza e o universo p\u00f5em em xeque&nbsp; o conceito cl\u00e1ssico de tempo linear, postulado pela f\u00edsica cl\u00e1ssica. O tempo n\u00e3o \u00e9 mais mero par\u00e2metro do movimento, mas a medida dos desenvolvimentos internos de um mundo em processo permanente de mudan\u00e7a, de passagem do desequil\u00edbrio para patamares mais altos de equil\u00edbrio (cf.&nbsp;<em>Entre o tempo e a eternidade<\/em>, Companhia das Letras, S. Paulo 1992, 147ss). \u00c9 a cosmog\u00eanese.<\/p>\n\n\n\n<p>A natureza se apresenta como um processo de autotransced\u00eancia; ao evoluir, ela se auto-supera criando novas ordens. Opera nela o&nbsp;<em>princ\u00edpio cosmog\u00eanico<\/em>&nbsp;(a energia criadora) sempre em a\u00e7\u00e3o mediante o qual os seres v\u00e3o surgindo e na medida de sua complexidade v\u00e3o tamb\u00e9m ultrapassando a inexorabilidade da entropia, pr\u00f3pria dos sistemas fechados. Esta autotransced\u00eancia dos seres em evolu\u00e7\u00e3o pode apontar para aquilo que as religi\u00f5es e as tradi\u00e7\u00f5es espirituais sempre chamaram de Deus, a transcend\u00eancia absoluta ou aquele futuro que n\u00e3o \u00e9 mais a \u201cmorte t\u00e9rmica\u201d; ao contr\u00e1rio, \u00e9 a culmin\u00e2ncia&nbsp;suprema de ordem, de harmonia e de vida (cf. &nbsp;Peacoke, A. R.,&nbsp;<em>Criation in the World of Science<\/em>, Oxford Univ.&nbsp; Press, Oxford l979; Pannenberg, W.,&nbsp;<em>Toward a Theology of Nature<\/em>. Essays on Science and Faith, John Knox Press, 1993 29-49).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o mostra qu\u00e3o irreal \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o r\u00edgida entre natureza e hist\u00f3ria, entre mundo e ser humano, separa\u00e7\u00e3o que legitimou e consolidou tantos outros dualismos. Todos est\u00e3o dentro de um \u00fanico e imenso movimento: a cosmog\u00eanese.&nbsp; Como todos os seres, o ser humano, com sua racionalidade, capacidade de comunica\u00e7\u00e3o e de amor resulta tamb\u00e9m ele desse processo c\u00f3smico.<\/p>\n\n\n\n<p>As energias e todos os elementos que maduraram no interior das grandes estrelas vermelhas, h\u00e1 bilh\u00f5es de anos, entram em sua constitui\u00e7\u00e3o. Possuem a mesma ancestralidade que o universo. Vigora uma solidariedade de origem e tamb\u00e9m de destino com todos os demais seres do universo.&nbsp; Ele n\u00e3o pode ser visto fora do princ\u00edpio cosmog\u00eanico, como um ser err\u00e1tico, enviado \u00e0 Terra por alguma Divindade criadora. Se aceitarmos essa Divindade devemos dizer que todos s\u00e3o enviados por Ela n\u00e3o apenas o ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta inclus\u00e3o do ser humano no conjunto dos seres e como resultado de um processo cosmog\u00eanico impede a persist\u00eancia do antropocentrismo (que concretamente \u00e9 um androcentrismo, centrado no var\u00e3o com exclus\u00e3o da mulher).&nbsp; Este revela uma vis\u00e3o estreita, desgarrada dos demais seres. Afirma que o \u00fanico sentido da evolu\u00e7\u00e3o e da exist\u00eancia dos demais consistiria na produ\u00e7\u00e3o do ser humano, homem e mulher. L\u00f3gico, o universo inteiro se fez c\u00famplice na gesta\u00e7\u00e3o do ser humano. Mas n\u00e3o apenas dele, mas dos outros seres tamb\u00e9m. Todos estamos interconectados e dependemos das estrelas. S\u00e3o elas que convertem o hidrog\u00eanio em h\u00e9lio e da combina\u00e7\u00e3o&nbsp;de ambos, provem o oxig\u00eanio, o carbono, o nitrog\u00eanio, o f\u00f3sforo e o pot\u00e1ssio sem os quais n\u00e3o haveria os amino\u00e1cidos nem as prote\u00ednas indispens\u00e1veis \u00e0 vida. Sem a radia\u00e7\u00e3o estelar liberada neste processo c\u00f3smico, milh\u00f5es de estrelas resfriariam, o sol, possivelmente, nem existiria e sem ele, n\u00e3o haveria vida nem n\u00f3s estar\u00edamos aqui escrevendo sobre estas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem a pr\u00e9-exist\u00eancia do conjunto dos fatores prop\u00edcios \u00e0 vida que foram se elaborando em bilh\u00f5es de anos e, a partir da vida em geral e como subcap\u00edtulo, a vida humana, jamais surgiria o indiv\u00edduo pessoal que somos cada um de n\u00f3s. Pertencemo-nos mutuamente: os elementos primordiais do universo, as energias que est\u00e3o ativas desde o big-bang, os demais fatores constituintes do cosmos e n\u00f3s mesmos como esp\u00e9cie que irrompeu quando 99,98% da Terra estava pronta. A partir disso devemos pensar&nbsp;cosmocentricamente e agir ecocentricamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa, pois, deixar para tr\u00e1s como ilus\u00f3rio e arrogante todo antropocentrismo e androcentrismo. N\u00e3o devemos, entretanto, confundir o&nbsp;<em>antropocentrismo<\/em>&nbsp;com princ\u00edpio&nbsp;<em>andr\u00f3pico<\/em>&nbsp;(formulado em l974 por Brandon Carter, cf. Alonso, J. M.,&nbsp;<em>Introducci\u00f3n al principio antr\u00f3pico<\/em>, Encuentro Ediciones, Madrid l989).&nbsp; Por ele se quer dizer o seguinte: somente podemos fazer as reflex\u00f5es que estamos fazendo por que somos portadores de consci\u00eancia, sensibilidade de intelig\u00eancia. N\u00e3o s\u00e3o as amebas, nem os sabi\u00e1s ou os cavalos que possuem esta faculdade. Recebemos da evolu\u00e7\u00e3o tais faculdades para exatamente falar disso tudo e facultar \u00e0 Terra, atrav\u00e9s de n\u00f3s, contemplar seus irm\u00e3os, os planetas e as demais estrelas e n\u00f3s podendo viver e celebrar nossa vida. Da\u00ed dizermos que somos Terra que sente, pensa e ama. Para isso que existimos no meio dos demais seres com os quais nos sentimos conectados. Essa singularidade nossa n\u00e3o nos leva a romper com eles, pois os inserimos no todo que vemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sermos seres de consci\u00eancia, de sensibilidade e de intelig\u00eancia surge em n\u00f3s um imperativo \u00e9tico: cabe a n\u00f3s cuidar da M\u00e3e Terra, zelar por todas as condi\u00e7\u00f5es que lhe permitem continuar viva e dar vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfrentamos nesse momento talvez o maior desafio de nossa exist\u00eancia sobre a Terra: n\u00e3o permitir que ela se acabe sob o fogo, como, ali\u00e1s, aventam as Escrituras crist\u00e3s. E se acabar\u00e1 \u00e9 por nossa&nbsp;irresponsabilidade e falta de cuidado. Inauguramos a era do antropoceno. Quer dizer, n\u00f3s e n\u00e3o algum meteoro rasante est\u00e1 amea\u00e7ando a vida na Terra. Nesse momento, o ponto culminante, talvez, final do antropoceno que \u00e9 o&nbsp;<em>piroceno<\/em>, a era do fogo. O fogo tomou conta da Terra. At\u00e9 h\u00e1 pouco control\u00e1vamos o fogo. Agora \u00e9 o fogo que nos controla. Ele pode fazer ferver o planeta e torn\u00e1-lo inabit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed se deriva nossa responsabilidade de salvaguardar o planeta para que n\u00e3o sucumba ao inferno do fogo, mas garanta sua biocapacidade de nos entregar tudo o que precisamos para viver e sustentar nossa civiliza\u00e7\u00e3o que dever\u00e1 mudar radicalmente. De n\u00f3s depende se teremos futuro ou se seremos incinerados pelo fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo Boff escreveu&nbsp;<em>Cuidar da Terra-proteger a vida<\/em>, Record 2010;&nbsp;<em>Cuidar da Casa comum<\/em>, Vozes 2023;&nbsp;<em>Habitar a Terra<\/em>, Vozes 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A NOSSA RESPONSABILIDADE FACE \u00c0 ERA DO PIROCENO \u2013 Por Leonardo Boff &#8211; 18\/09\/2024 Com a irrup\u00e7\u00e3o do piroceno (a Terra sob fogo) se mostrando em todos os continentes com queimadas que nos assustam por<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13590,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,47,46,44,38,49,27,30,56,43,26],"tags":[],"class_list":["post-13589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-agua","category-direito-a-cultura-popular","category-direito-a-memoria","category-direito-a-saude","category-direito-a-terra","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-meio-ambiente","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13589"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13589\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13591,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13589\/revisions\/13591"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}