{"id":13834,"date":"2024-12-01T16:42:42","date_gmt":"2024-12-01T19:42:42","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13834"},"modified":"2024-12-01T16:42:48","modified_gmt":"2024-12-01T19:42:48","slug":"encontro-de-migrantes-lugar-privilegiado-por-padre-alfredo-j-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/encontro-de-migrantes-lugar-privilegiado-por-padre-alfredo-j-goncalves\/","title":{"rendered":"Encontro de migrantes: lugar privilegiado \u2013 Por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Encontro de migrantes: lugar privilegiado<\/strong><em> \u2013 <\/em>Por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"569\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2021-05-27-at-18.05.34-2-1024x569-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13835\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2021-05-27-at-18.05.34-2-1024x569-1.jpeg 1024w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2021-05-27-at-18.05.34-2-1024x569-1-300x167.jpeg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2021-05-27-at-18.05.34-2-1024x569-1-768x427.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Isso mesmo, todo encontro abre um po\u00e7o e, neste, \u00e1gua e sede se cruzam e se complementam. Revelam que ningu\u00e9m \u00e9 s\u00f3 \u00e1gua e ningu\u00e9m s\u00f3 sede. Todos somos uma mistura de ambas, com lacunas e possibilidades desconhecidas. Tais po\u00e7os, quando realizados entre migrantes de v\u00e1rias etnias, mant\u00eam determinada natureza privilegiada. Onde se encontram eles? Pode ser na hora da partida, pelas encruzilhadas dos caminhos, nos territ\u00f3rios fronteiri\u00e7os, nas numerosas Casas e\/ou Centros de acolhida para Migrantes ou no momento da chegada. Em qualquer lugar onde eles possam se encontrar, carregam consigo os \u201cmil rostos do outro\u201d. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso! Carregam igualmente distintas vis\u00f5es de mundo, ideias plurais e valores mesclados. Professam outras formas de credo, entoam hinos diversos, honram bandeiras de cores m\u00faltiplas. Se \u00e9 verdade que \u201cno cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa e no cora\u00e7\u00e3o de cada cultura residem sementes do Verbo\u201d \u2013 como diz a Doutrina Social da Igreja \u2013 todo migrante, impl\u00edcita ou explicitamente, \u00e9 portador de um grande potencial de v\u00edvida evangeliza\u00e7\u00e3o em termos de experi\u00eancias diferenciadas do sobrenatural.<\/p>\n\n\n\n<p>No interc\u00e2mbio de semelhantes experi\u00eancias, \u00e1gua e sede emergem de cada pessoa, de cada povo e de cada cultura. As estradas percorridas representam extens\u00f5es geogr\u00e1ficas que, para o sucesso ou para o fracasso, acabar\u00e3o por convergir para esses po\u00e7os ou o\u00e1sis. Verdadeiros igarap\u00e9s que formam a gigantesca bacia de um rio imagin\u00e1rio. Ademais, de encruzilhada em encruzilhada, tecem tamb\u00e9m uma rede de conhecimentos extremamente rica e colorida. Os obst\u00e1culos e supera\u00e7\u00f5es de cada travessia, o interc\u00e2mbio das experi\u00eancias plurais e diferenciadas costuram novos saberes. As informa\u00e7\u00f5es sobre veredas e atalhos, riscos e armadilhas, passando por bocas \u00e1vidas e ouvidos atentos, v\u00e3o ganhando terreno, espalhando-se com a velocidade da Internet. Sim, porque para todo o migrante, o telefone celular converteu-se num instrumento indispens\u00e1vel na bagagem. Rede de caminhos batidos, rede de entrepostos livres ou minados e rede de informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma e mesma coisa. E, neste caso, ao serem intercambiados, os saberes n\u00e3o se somam; se multiplicam. Esse tipo de aprendizado do caminho cresce de forma geom\u00e9trica, n\u00e3o apenas aritm\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre lembrar que essa forma de sabedoria, tecida pelos passos sinuosos e tortuosos do deserto, da floresta ou da fronteira, bem como pelas ondas do mar e a correnteza dos rios, permanece viva e din\u00e2mica. Passa de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o como um saber rico, essencial e fundamental. Com efeito, as experi\u00eancias migrat\u00f3rias, adquiridas por bem ou por mal, se fundem e enriquecem simultaneamente a mem\u00f3ria pessoal e coletiva. Tal fus\u00e3o de conhecimentos, tecida com as \u201caventuras e desventuras\u201d do passado, termina por fecundar o porvir, descortinando novas janelas para o futuro. Em outras palavras, a <em>experi\u00eancia retrospectiva <\/em>da migra\u00e7\u00e3o traz em sua bagagem um <em>potencial prospectivo<\/em>, denominada pelo fil\u00f3sofo alem\u00e3o Hans-Georg Gadamer como \u201cfus\u00e3o de horizontes\u201d. Potencial com coragem suficiente para se lan\u00e7ar por \u201cmares nunca dantes navegados\u201d, na express\u00e3o do poeta portugu\u00eas Lu\u00eds de Cam\u00f5es. Dizem os migrantes que, depois de ter arrancado as ra\u00edzes pela primeira vez e partido, torna-se mais f\u00e1cil efetuar novas repartidas. A opera\u00e7\u00e3o mais dolorosa \u00e9 cortar os la\u00e7os com a terra que nos viu nascer e crescer.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos par\u00e1grafos precedentes, n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil concluir que cada parada, cada po\u00e7o ou cada encontro, nesse terreno minado dos deslocamentos humanos de massa, serve de oportunidade para novo aprendizado. Certo, toda oportunidade arrasta a sombra de um oportunismo. E n\u00e3o faltam oportunistas, chamem-se eles \u201cgatos, coiotes ou traficantes\u201d, para roubar do migrante d\u00f3lar a d\u00f3lar, centavo a centavo. Mas \u00e9 justamente a troca de saberes entre os viajantes que lhes vai blindando contra os perigos que rondam as estradas in\u00f3spitas. Nesse mesmo interc\u00e2mbio, atrav\u00e9s das experi\u00eancias contadas e recontadas, o pr\u00f3prio migrante saber\u00e1 como discernir uma rede de apoio de uma rede de explora\u00e7\u00e3o. Coisa que j\u00e1 \u00e9 uma boa li\u00e7\u00e3o, pois \u00e0s vezes ambas costumam trabalhar de maneira t\u00e3o inextrinc\u00e1vel, que a diferen\u00e7a \u00e9 muito t\u00eanue e sutil. A m\u00e1-f\u00e9 sabe como imitar a boa-f\u00e9, mas facilmente se trai no trato direto e transparente.<\/p>\n\n\n\n<p>De po\u00e7o em po\u00e7o, de encontro em encontro, a cada etapa do caminho, o migrante \u00e9 igual e ao mesmo tempo diferente daquele que um dia deixou a pr\u00f3pria p\u00e1tria. Igual, porque sempre se reportar\u00e1 \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o primordial de seu povo\/na\u00e7\u00e3o; diferente, porque foi capaz de colher e ampliar seu saber com outras experi\u00eancias dos desenraizados que a hist\u00f3ria colocou no seu caminho. Uns e outros, no exerc\u00edcio de uma rec\u00edproca fus\u00e3o do passado poder\u00e3o projetar a fus\u00e3o de um futuro menos amargo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Assessor do SPM \u2013 S\u00e3o Paulo, 27\/11\/2024<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontro de migrantes: lugar privilegiado \u2013 Por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves[1] Isso mesmo, todo encontro abre um po\u00e7o e, neste, \u00e1gua e sede se cruzam e se complementam. 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