{"id":13838,"date":"2024-12-01T16:47:06","date_gmt":"2024-12-01T19:47:06","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13838"},"modified":"2024-12-01T16:47:11","modified_gmt":"2024-12-01T19:47:11","slug":"por-que-chegamos-a-estarrecedora-situacao-atual-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/por-que-chegamos-a-estarrecedora-situacao-atual-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"Por que chegamos a estarrecedora situa\u00e7\u00e3o atual? \u2013 Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por que chegamos a estarrecedora situa\u00e7\u00e3o atual? <\/strong>\u2013 Por<strong> <\/strong>Leonardo Boff<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image_processing20200706-26197-jxc56o.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13839\" width=\"778\" height=\"520\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image_processing20200706-26197-jxc56o.jpeg 512w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image_processing20200706-26197-jxc56o-300x200.jpeg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/image_processing20200706-26197-jxc56o-420x280.jpeg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Leonardo Boff<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 lugar comum afirmar que estamos no cora\u00e7\u00e3o de uma grande crise de civiliza\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o \u00e9 regional mas global. Na verdade, ela encerra uma infinidade de outras crises, no econ\u00f4mico, no pol\u00edtico, no ideol\u00f3gico, no educacional, no religioso e at\u00e9 no espiritual. N\u00e3o sabemos o que nos espera. Temos mais e mais a consci\u00eancia de que assim como&nbsp; o mundo est\u00e1, n\u00e3o pode continuar. O caminho atual nos est\u00e1 levando \u00e0 beira de um precip\u00edcio. Temos que mudar. \u00c9 atribu\u00edda a Einstein a frase: \u201co pensamento que criou a crise atual n\u00e3o pode ser o mesmo que nos vai tirar dela\u201d. Temos que definir um novo caminho. Como constru\u00ed-lo para que seja realmente outro tipo de mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>O fato irrecus\u00e1vel \u00e9 que h\u00e1 demasiado caos&nbsp; destrutivo sem previs\u00e3o de ser generativo. H\u00e1 formas de desumanidade que ultrapassam tudo o que temos vivido e sofrido na hist\u00f3ria. Basta assistir ao genoc\u00eddio que ocorre a c\u00e9u aberto na Faixa de Gaza perpetrado por um Primeiro Ministro israelense, cruel e sem piedade, Benjamin Netanhyau, apoiado por um Presidente cat\u00f3lico norte-americano e pela Comunidade Europeia que trai seus ideais hist\u00f3ricos de direitos humanos, de liberdade e de democracia. Todos estes se fazem c\u00famplices do crime hediondo contra a humanidade. Sem esquecer que vigora uma nefasta onda de \u00f3dio, a nega\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da verdade. Prevalece a ignor\u00e2ncia e a linguagem grosseira e ofensiva. Esse anti-fen\u00f4meno se d\u00e1 principalmente no Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;S\u00f3 o fato de 1% possuir a riqueza de mais da metade da humanidade, demonstra qu\u00e3o perverso, profundamente desigual e injusto \u00e9 o cen\u00e1rio social&nbsp;mundial. Acresce ainda a emerg\u00eancia ecol\u00f3gica com a insustentabilidade do planeta Terra, velho e com recursos&nbsp;<em>limitados<\/em>&nbsp;que, em si, n\u00e3o suporta um crescimento&nbsp;<em>ilimitado<\/em>, obsess\u00e3o das pol\u00edticas sociais dos pa\u00edses. Esse processo extenuou, devido \u00e0 superexplora\u00e7\u00e3o, os biomas terrestres e est\u00e1 pondo em risco as bases naturais que sustentam a vida (Earth Overshoot). A &nbsp;continuidade da aventura humana neste planeta n\u00e3o est\u00e1 assegurada. Bem escreveu o Papa Francisco em sua enc\u00edclica&nbsp;<em>Fratelli tutti&nbsp;<\/em>(2020):\u201d Estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ningu\u00e9m se salva\u201d. Tudo vem resumido pelo aquecimento global crescente, inaugurando, ao que parece, uma nova fase mais aquecida e perigosa da hist\u00f3ria da Terra e da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que chegamos \u00e0 atual situa\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora que pode p\u00f4r em risco o futuro da vida humana e da natureza?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es da situa\u00e7\u00e3o funesta da atualidade. N\u00e3o tenho a pretens\u00e3o de ter uma resposta suficiente. Mas levanto uma&nbsp;<em>hip\u00f3tese<\/em>, fruto de toda uma vida de estudo e de reflex\u00e3o. Estimo que a nossa situa\u00e7\u00e3o remonta l\u00e1 atr\u00e1s, h\u00e1 dois milh\u00f5es de anos, quando surgiu o&nbsp;<em>homo habilis<\/em>, o ser humano que inventou instrumentos de interven\u00e7\u00e3o nos ciclos da natureza. At\u00e9 a\u00ed sua rela\u00e7\u00e3o era de&nbsp;<em>intera\u00e7\u00e3o<\/em>, sintonizando-se com os ritmos naturais e tomando o que sua m\u00e3o alcan\u00e7ava. Agora, com o&nbsp;<em>homo habilis<\/em>&nbsp;ou&nbsp;<em>faber<\/em>&nbsp;come\u00e7a a&nbsp;<em>interven\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/em>na natureza: a ca\u00e7a de animais e a derrubada de matas para um cultivo rudimentar. Depois de milhares de anos, levou avante a interven\u00e7\u00e3o at\u00e9 chegar h\u00e1 10-12 mil anos, no neol\u00edtico, com a&nbsp;<em>agress\u00e3o<\/em>&nbsp;da natureza. Interferiu-se no curso dos rios, inaugurando a agricultura de irriga\u00e7\u00e3o e o manejo de inteiras regi\u00f5es que implicava mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es com a natureza e j\u00e1 depredando-a.&nbsp; Por fim, a partir da era do industrialismo e do modo moderno e contempor\u00e2neo de produ\u00e7\u00e3o pela t\u00e9cnica, pela automa\u00e7\u00e3o, pela rob\u00f3tica e pela intelig\u00eancia artificial levou a um processo de&nbsp;<em>destrui\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;da natureza. Projetamos uma nova era geol\u00f3gica,&nbsp;a do antropoceno e seus derivados, o necroceno e o piroceno. A\u00ed comparece o ser humano como o Sat\u00e3 da Terra. Transformou o jardim do \u00c9den num matadouro,como denunciou o bi\u00f3logo E.Wilson.N\u00e3o se comportou como o anjo cuidador de todo o criado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo hist\u00f3rico-social ganhou sua justifica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica pelos pais fundadores da modernidade com Galileo Galilei, Descartes, Newton, Francis Bacon e outros. Para eles, o ser humano \u00e9 \u201cmestre e dono\u201d da natureza. N\u00e3o se sentia parte dela, mas estava fora e acima dela. A Terra at\u00e9 ent\u00e3o tida como&nbsp;<em>Magna Mater<\/em>&nbsp;que tudo nos d\u00e1, passou a ser considerada como uma coisa inerte (<em>res extensa)<\/em>, sem prop\u00f3sito, no m\u00e1ximo, um ba\u00fa de recursos entregues ao uso e ao bel prazer do ser humano. O eixo orientador deste modo de ver o mundo&nbsp; \u00e9 a&nbsp;<em>vontade de poder,<\/em>&nbsp;como domina\u00e7\u00e3o do outro, dos povos, de suas terras (coloniza\u00e7\u00e3o), da classe oper\u00e1ria, da natureza, da vida at\u00e9 o m\u00ednimo gene, da mat\u00e9ria at\u00e9 o pequen\u00edssimo topquark. A servi\u00e7o da domina\u00e7\u00e3o foi criada a ci\u00eancia, n\u00e3o apenas como justo conhecimento te\u00f3rico de&nbsp;<em>como&nbsp;<\/em>as coisas se estruturam mas como instrumento de domina\u00e7\u00e3o e de novos inventos. Ela foi logo apropriada pela vontade de poder, convertendo-a numa opera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo circundante. Com ela se moveu uma verdadeira guerra contra a Terra, sem chance de venc\u00ea-la, arrancando tudo dela em fun\u00e7\u00e3o do sonho de um crescimento ilimitado de bens materiais. Atacou-se a Terra em todos os n\u00edveis, tendo como consequ\u00eancia a devasta\u00e7\u00e3o de praticamente os principais biomas, sem medir os efeitos colaterais. \u00c9 o imp\u00e9rio da raz\u00e3o instrumental-anal\u00edtica e tecnocr\u00e1tica. N\u00e3o podemos deixar de apreciar os imensos benef\u00edcios que trouxe para a vida humana. Mas ao mesmo tempo criou o princ\u00edpio de&nbsp;<em>autodestrui\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;com armas letais que podem liquidar toda a vida. A raz\u00e3o ficou irracional e enlouquecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje chegamos ao ponto-limite de a Terra se mostrar gravemente enferma. Como \u00e9 um Super-Organismo vivo, Gaia, reage mando-nos eventos extremos: secas severas e nevascas rigorosas, uma vasta gama de v\u00edrus e bact\u00e9rias, algumas letais, al\u00e9m de tuf\u00f5es, tornados, enchentes e terremotos. &nbsp;N\u00e3o estamos indo ao encontro do aquecimento global. Estamos j\u00e1 dentro dele. A ci\u00eancia chegou atrasada, apenas pode alertar para a chegada de desastres e minorar seus efeitos danosos. Efetivamente, esta mudan\u00e7a clim\u00e1tica amea\u00e7a perigosamente a vida de crian\u00e7as e de idosos e p\u00f5e sob grave risco o futuro do sistema-vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Acresce um dado nada desprez\u00edvel. O despotismo da raz\u00e3o \u2013 o racionalismo \u2013 recalcou o que h\u00e1 demais humano em n\u00f3s: nossa capacidade de sentir, de amar, de cuidar, de viver a dimens\u00e3o dos valores como a amizade, a empatia, a compaix\u00e3o, em fim, o mundo das excel\u00eancias. Tudo isso era visto como empecilho para o olhar objetivo das ci\u00eancias. Separou-se mente e cora\u00e7\u00e3o, a raz\u00e3o intelectual e a raz\u00e3o sens\u00edvel. Tal ruptura ocasionou profunda distor\u00e7\u00e3o dos comportamentos, ocasionando insensibilidade face ao drama dos milh\u00f5es e milh\u00f5es de pobres e miser\u00e1veis e a falta de cuidado para com a natureza e suas \u201cbondades\u201d como dizem os povos andinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se quis\u00e9ssemos resumir numa pequena f\u00f3rmula a crise civilizacional diria: ela perdeu a&nbsp;<em>justa medida<\/em>, valor, presente em todas as tradi\u00e7\u00f5es \u00e9ticas da humanidade. Tudo \u00e9 desmedido, o assalto \u00e0 natureza, o uso da viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es pessoais e sociais, as guerras sem qualquer medida de conten\u00e7\u00e3o, o predom\u00ednio desmedido da competi\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o da coopera\u00e7\u00e3o, o consumo desmedido ao lado da fome canina de milh\u00f5es, sem qualquer senso de solidariedade e de humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A seguir este projeto de civiliza\u00e7\u00e3o, calcado sobre o&nbsp;<em>poder-domina\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e somente sobre a&nbsp;<em>raz\u00e3o instrumental e sem cora\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;hoje mundializado, iremos fatalmente ao encontro de uma trag\u00e9dia ecol\u00f3gico-social&nbsp; a ponto de fazer o planeta Terra inabit\u00e1vel para n\u00f3s e para os organismos vivos. Seria o nosso fim depois de&nbsp;milh\u00f5es de anos sobre esse belo e ridente planeta. N\u00e3o soubemos cuid\u00e1-lo para ser a Casa Comum de todos os humanos, a natureza inclu\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como o processo da g\u00eanese do cosmos e da Terra n\u00e3o \u00e9 linear, mas d\u00e1 saltos para cima e para frente, pode ocorrer o&nbsp;<em>inesperado<\/em>. Face a um grande impacto ou cat\u00e1strofe, pode torna vi\u00e1vel uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental. Levaria a mudar a consci\u00eancia coletiva da humanidade. Como disse o poeta alem\u00e3o H\u00f6lderin (+1843):\u201dAi onde mora o perigo, cresce tamb\u00e9m o que o salva\u201d. Esse salvamento significaria a mudan\u00e7a necess\u00e1ria de paradigma civilizat\u00f3rio e assim garantindo o nosso futuro. Isso poderia representar a utopia poss\u00edvel e vi\u00e1vel para a atual situa\u00e7\u00e3o. Oxal\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo Boff escreveu\u00a0<em>A busca da justa medida (2 vol), Vozes 2002\/3; Cuidar da Casa Comum: pistas para evitar o fim do mundo<\/em>, Vozes 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que chegamos a estarrecedora situa\u00e7\u00e3o atual? \u2013 Por Leonardo Boff \u00c9 lugar comum afirmar que estamos no cora\u00e7\u00e3o de uma grande crise de civiliza\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o \u00e9 regional mas global. 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