{"id":13841,"date":"2024-12-02T15:54:00","date_gmt":"2024-12-02T18:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13841"},"modified":"2024-12-02T15:54:05","modified_gmt":"2024-12-02T18:54:05","slug":"lc-31-6-2o-domingo-do-advento-retomar-a-caminhada-nos-desertos-do-mundo-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/lc-31-6-2o-domingo-do-advento-retomar-a-caminhada-nos-desertos-do-mundo-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Lc 3,1-6: 2\u00ba Domingo do Advento \u2013 Retomar a caminhada nos desertos do mundo \u2013 por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Lc 3,1-6: 2\u00ba Domingo do Advento \u2013 Retomar a caminhada nos desertos do mundo<\/strong> \u2013 por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/images.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13842\" width=\"780\" height=\"517\"\/><figcaption>Marcelo Barros, monge e biblista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste 2\u00ba domingo do Advento (do ano C) o evangelho \u00e9 Lucas 3,1-6 e introduz a miss\u00e3o de Jo\u00e3o Batista como profeta no deserto. A liturgia nos ajuda a preparar para vivenciarmos o Natal verdadeiro, n\u00e3o como se fosse apenas a festa do Menino Jesus e sim como celebra\u00e7\u00e3o da vinda do reino de Deus, isto \u00e9, da plena manifesta\u00e7\u00e3o do seu amor que quer novas rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais. O evangelho mostra que essa vinda se atualiza, atrav\u00e9s da palavra prof\u00e9tica, no meio dos acontecimentos da hist\u00f3ria. Esse evangelho afirma que a palavra de Deus foi dirigida a Jo\u00e3o Batista no deserto. Em latim, o texto chega a dizer que, no deserto, a Palavra se fez em Jo\u00e3o, assim como, no dia do Natal, vamos ouvir o quarto evangelho afirmar: \u201cA Palavra se fez carne e \u00e9 o Filho \u00fanico do Pai\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho de hoje nos diz que a Palavra se realiza em Jo\u00e3o Batista. O protagonista n\u00e3o \u00e9 o profeta. A protagonista \u00e9 a Palavra que ele recebe e encarna e esse processo de receber e incorporar a Palavra de Deus se realiza no deserto. N\u00e3o \u00e9 no centro do imp\u00e9rio, nem em meio \u00e0 agita\u00e7\u00e3o urbana. \u00c9 no deserto, que a Palavra se faz vida na profecia de Jo\u00e3o. No mundo b\u00edblico, o deserto era espa\u00e7o negativo. Era considerado o lugar dos dem\u00f4nios. Mas, Deus transforma o lugar da solid\u00e3o em etapa de travessia para a liberta\u00e7\u00e3o. Na B\u00edblia, o deserto significa a clandestinidade do caminho para a liberdade da terra, acima de tudo \u00e9 a caminhada de luta e de intimidade com Deus. \u00c9 o tempo do namoro da comunidade com o seu Amado.&nbsp; \u00c9 no meio da luta de liberta\u00e7\u00e3o que o povo oprimido aprende a viver a intimidade com o Amor Divino.<\/p>\n\n\n\n<p>No evangelho de Lucas, a miss\u00e3o de Jo\u00e3o Batista \u00e9 apresentada como precursor do reinado divino e n\u00e3o apenas da vinda de Jesus, j\u00e1 que o evangelho mostra a miss\u00e3o do profeta Jo\u00e3o quando Jesus j\u00e1 \u00e9 adulto e n\u00e3o antes dele nascer. Lucas conta que Jesus \u00e9 batizado e come\u00e7a a sua miss\u00e3o quando Jo\u00e3o \u00e9 preso e vai ser morto. Assim, o Batista em sua miss\u00e3o e sua palavra precede sempre a vinda do reino de Deus. Essa \u00e9 a sua atualidade. O evangelho situa esse acontecimento de Jo\u00e3o no contexto hist\u00f3rico e social da \u00e9poca. No 15\u00ba ano do imp\u00e9rio de Tib\u00e9rio Cesar&#8230; O an\u00fancio do reino se d\u00e1 em meio \u00e0 realidade social e pol\u00edtica opressora. N\u00e3o se pode separar o evangelho da realidade do mundo. Assim, o caminho do evangelho ser\u00e1 sempre testemunho dessa Palavra. Uma palavra gr\u00e1vida do reino de Deus. O que significa isso hoje?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem n\u00e3o compreenda porque, ou como o padre J\u00falio Lancelotti e as irm\u00e3s que convivem e trabalham com as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua podem \u201cgostar\u201d desse trabalho. Ali, em meio a tanta desumanidade, encontram motiva\u00e7\u00e3o para a vida. Do mesmo modo, companheiros e companheiras que atuam nos diversos n\u00edveis da Pol\u00edtica. Pensemos em vereadores\/as, deputados\/as e senadores\/as, que, por se comprometerem com as camadas mais oprimidas da popula\u00e7\u00e3o e por defenderem direitos sociais e ambientais, suportam acusa\u00e7\u00f5es injustas, press\u00f5es de todo o tipo e se mant\u00eam fieis na defesa da justi\u00e7a ecossocial.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo, podemos lembrar n\u00e3o poucos irm\u00e3os e irm\u00e3s que procuram colaborar com as diversas inst\u00e2ncias das pastorais sociais da Igreja (Cat\u00f3lica ou evang\u00e9licas) e, muitas vezes, sabem que falam no deserto. N\u00e3o s\u00e3o ouvidos e valorizados.&nbsp; A realidade atual parece t\u00e3o pesada, como um t\u00fanel no qual n\u00e3o se v\u00ea a luz da sa\u00edda e preciso encontrar luzes dentro do pr\u00f3prio t\u00fanel escuro das injusti\u00e7as. Como se n\u00e3o houvesse caminho para frente. No evangelho de hoje, o profeta diz: Abram no deserto um caminho&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme os Atos dos Ap\u00f3stolos, caminho ou caminhada foi o primeiro nome do movimento de Jesus. No Brasil dos anos 1970, caminhada foi o nome que se deu \u00e0 parte da Igreja inserida nos processos de liberta\u00e7\u00e3o do povo. At\u00e9 hoje, \u00e9 comum se falar em \u201cm\u00e1rtires da caminhada\u201d, \u201cartistas da caminhada\u201d. Esse evangelho de hoje deixa claro que se trata de caminho no deserto e para a terra ou a realidade da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Praticamente todos os anos, os evangelhos do 2\u00ba Domingo do Advento nos convidam a olhar a figura de Jo\u00e3o Batista e a pensar esse tempo do Advento como \u201ctempo para intensificar a espera e vigil\u00e2ncia\u201d. Fazemos isso retomando a inser\u00e7\u00e3o nas lutas justas do povo oprimido. Preparar a vinda do reino divino \u00e9 abrir caminho nos desertos do mundo e das Igrejas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de algo po\u00e9tico ou apenas metaf\u00f3rico. Os desertos da caminhada podem n\u00e3o ser os acidentes geogr\u00e1ficos, marcados pela areia e aridez. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es de car\u00eancia, pobreza e dificuldades de todo tipo que enfrentamos na caminhada de um mundo que anda na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do reinado divino. Para o modo da Igreja ser, o papa Francisco prop\u00f5e sinodalidade \u2013 caminhada conjunta -, mas&nbsp; esse processo \u00e9 imposs\u00edvel, se se mant\u00e9m o sistema hier\u00e1rquico, baseado na sacralidade de um poder divinizado. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No evangelho de Lucas, a figura prof\u00e9tica de Jo\u00e3o Batista retoma a promessa de um disc\u00edpulo do profeta Isa\u00edas no tempo do cativeiro da Babil\u00f4nia (seis s\u00e9culos antes de Cristo). Anuncia que, no deserto, onde n\u00e3o h\u00e1 estradas, Deus vai abrir um caminho de liberta\u00e7\u00e3o para o povo. Aplainar\u00e1 montanhas e abismos e o conduzir\u00e1 \u00e0 terra da liberta\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a profecia. Ela trouxe esperan\u00e7a para o povo antigo e \u00e2nimo para as primeiras comunidades crist\u00e3s, no tempo em que esse evangelho foi redigido. Em nossos dias, pode ser mensagem de luz e de for\u00e7a para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a profecia consiste em acreditar e testemunhar que com Deus na companhia superaremos montanhas intranspon\u00edveis. Vai fazer com que se abram caminhos, onde at\u00e9 aqui quase s\u00f3 h\u00e1 obst\u00e1culos. Esse texto do evangelho conclui que toda criatura (n\u00e3o somente os humanos, mas toda a natureza junto com a humanidade) ver\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a promessa divina e se dar\u00e1 gratuitamente, mas n\u00e3o de forma m\u00e1gica. \u00c9 a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, mas precisa do nosso testemunho e trabalho. Como Jo\u00e3o Batista, precisamos, hoje, mergulhar (em grego, batizar) esse mundo na a\u00e7\u00e3o libertadora. Para isso, precisamos assumir os desertos da luta e da marginalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo esportivo, atletas se preparam para as competi\u00e7\u00f5es, com um tempo de concentra\u00e7\u00e3o. Artistas chegam antes dos espet\u00e1culos para o necess\u00e1rio \u201cesquentamento\u201d. Educadores\/as marcam f\u00f3runs e jornadas especiais. Diversos caminhos de espiritualidade valorizam tempos e espa\u00e7os de retiro. No Candombl\u00e9 Iorub\u00e1, as pessoas iniciadas (or\u00f4), ficam confinadas durante semanas ou mesmo um m\u00eas, para ter completada a sua consagra\u00e7\u00e3o. Nas culturas ind\u00edgenas, rituais de inicia\u00e7\u00e3o sempre pedem isolamento e cuidados especiais. Do mesmo modo, podemos afirmar que o compromisso da f\u00e9 e da espiritualidade libertadora tamb\u00e9m pedem aquilo que, na B\u00edblia \u00e9 representado pelo chamado ao deserto. V\u00e1rias religi\u00f5es t\u00eam seu in\u00edcio marcado geogr\u00e1fica e espiritualmente pelo deserto como caminho para a terra prometida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O povo de Deus no deserto andava<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas \u00e0 sua frente Algu\u00e9m caminhava<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O povo de Deus era rico de nada<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00f3 tinha a esperan\u00e7a e o p\u00f3 da estrada<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tamb\u00e9m sou Teu povo, Senhor<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E estou nessa estrada<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Somente a Tua gra\u00e7a me basta e mais nada!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O povo de Deus ao longe avistou<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A terra querida que o amor preparou<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O povo de Deus corria e cantava<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E nos seus louvores, Teu poder proclamava<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tamb\u00e9m sou Teu povo, Senhor<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E estou nessa estrada<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cada dia mais perto da terra esperada! (Nelly de Silva Barros).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lc 3,1-6: 2\u00ba Domingo do Advento \u2013 Retomar a caminhada nos desertos do mundo \u2013 por Marcelo Barros Neste 2\u00ba domingo do Advento (do ano C) o evangelho \u00e9 Lucas 3,1-6 e introduz a miss\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13842,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-13841","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13841"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13841\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13843,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13841\/revisions\/13843"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13842"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}