{"id":13874,"date":"2024-12-07T08:11:13","date_gmt":"2024-12-07T11:11:13","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13874"},"modified":"2024-12-07T08:11:19","modified_gmt":"2024-12-07T11:11:19","slug":"memoria-e-esquecimento-por-padre-alfredo-j-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/memoria-e-esquecimento-por-padre-alfredo-j-goncalves\/","title":{"rendered":"MEM\u00d3RIA E ESQUECIMENTO &#8211; Por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><strong>MEM\u00d3RIA E ESQUECIMENTO<\/strong> <\/strong>&#8211; Por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><em> \u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"681\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/p.alfredo_goncalves-1024x681.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13875\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/p.alfredo_goncalves-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/p.alfredo_goncalves-300x200.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/p.alfredo_goncalves-768x511.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/p.alfredo_goncalves-420x280.jpg 420w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/p.alfredo_goncalves.jpg 1067w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Padre Alfredo Gon\u00e7alves<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A frase \u00e9 de Milan Kundera: \u201ca luta do homem contra o poder \u00e9 a luta da mem\u00f3ria contra o esquecimento\u201d (KUNDERA, M. <em>O livro do riso e do esquecimento<\/em>, Ed. Nova Fronteira, 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1987, Rio de Janeiro-RJ). Fatos recentes ressaltam a import\u00e2ncia desse instrumento de resist\u00eancia \u2013 a mem\u00f3ria. H\u00e1 menos de um m\u00eas, veio \u00e0 luz o extenso relat\u00f3rio da Pol\u00edcia Federal (com quase 900 p\u00e1ginas) sobre a tentativa de golpe de Estado, no Brasil. Essa famigerada tentativa de golpe, perpetrada pelo ex-presidente Bolsonaro com altos escal\u00f5es das for\u00e7as armadas, terminou com os ataques \u00e0 sede dos tr\u00eas poderes, em Bras\u00edlia-DF, por milhares de pessoas origin\u00e1rios de todo territ\u00f3rio nacional, dia 08 de janeiro de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas semanas, entretanto, um novo tema tomou os espa\u00e7os da grande m\u00eddia e das redes digitais ou sociais, como se queira. Trata-se, desta vez, da viol\u00eancia da pol\u00edcia militar do Estado de S\u00e3o Paulo, exposta flagrantemente em distintas abordagens \u2018bisonhas e bizarras\u201d, para dizer o m\u00ednimo, pois seria mais correto classific\u00e1-las, pura e simplesmente, de criminosas. A mais emblem\u00e1tica tem a ver com o trope\u00e7o das for\u00e7as militares com o jovem trabalhador Marcelo Barbosa Amaral. Ap\u00f3s dominarem o rapaz e apreenderem sua motocicleta, o soldado da PM Luan Felipe Alves Pereira, sem mais nem menos, o atirou de cabe\u00e7a para baixo do alto de uma ponte, como se fosse um saco de lixo. Sozinho, o homem conseguiu deixar a \u00e1gua suja do c\u00f3rrego e, de alguma forma, voltar para casa. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso! O policial e seus comparsas n\u00e3o somente o deixaram para tr\u00e1s e o esqueceram ali, como proibiram que fosse resgatado pelos vizinhos curiosos que acabaram por assistir e gravar a inusitada cena.<\/p>\n\n\n\n<p>Brevemente, outros dois casos. Primeiro, v\u00e1rios agentes de seguran\u00e7a do metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo, incluindo um policial \u00e0 paisana, dominaram e asfixiaram um rapaz que tentou saltar por cima da catraca. O cidad\u00e3o ainda foi socorrido pelo SAMU, mas n\u00e3o resistiu aos ferimentos, vindo a morrer no hospital. Em segundo lugar, o seguran\u00e7a de um supermercado, tamb\u00e9m ele policial \u00e0 paisana, matou com onze tiros disparados \u00e0 queima roupa e pelas costas, outro rapaz que acabara de furtar duas embalagens. Tr\u00eas abordagens estapaf\u00fardias, as quais terminaram em trag\u00e9dia. Tamanha foi a divulga\u00e7\u00e3o desses fatos e das imagens, que o fantasmag\u00f3rico \u201cpersonagem da ponte\u201d foi afastado da corpora\u00e7\u00e3o e preso preventivamente, enquanto os demais respondem por esses atos desastrados. Quanto ao governador Tarc\u00edsio de Freitas, veio a p\u00fablico constatar o obvio, isto \u00e9, a abordagem violenta da pol\u00edcia, bem como reconsiderar sua opini\u00e3o negativa sobre o uso de c\u00e2meras no uniforme das tropas, passando a ach\u00e1-las necess\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Que tem a ver tudo isso com a frase de M. Kundera? Muito simples: o fogo e a fuma\u00e7a de hoje jamais podem ocultar o inferno de ontem ou do passado, seja este \u00faltimo recente ou remoto. Se \u00e9 verdade, por um lado, que a vis\u00e3o imediata e mais recente da trucul\u00eancia direta dos soldados escancara a extrema viol\u00eancia das for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado, por outro lado, ela tamb\u00e9m pode esconder o autoritarismo obtuso e retr\u00f3grado de nossas classes dominantes, estruturalmente e historicamente golpistas. O poder arbitr\u00e1rio ou totalit\u00e1rio tende sempre a apagar os males cometidos pelas autoridades respons\u00e1veis e diretas. Nada melhor para isso do que a avalanche di\u00e1ria e permanente de not\u00edcias ligadas \u00e0 viol\u00eancia. \u201cEsta, sim, que \u00e9 viol\u00eancia, se e quando confrontada com a \u201cordem e o progresso\u201d dos tempos da ditadura\u201d \u2013 demonstram os donos do poder! Deste modo, a hist\u00f3ria real e concreta de regimes que disseminaram a persegui\u00e7\u00e3o e a pris\u00e3o, a tortura e a morte de tantos cidad\u00e3os, pode ser facilmente esquecida por atos de arbitrariedade que \u201caqui e agora\u201d, est\u00e3o diante de nossas telas e telinhas. Estudar hist\u00f3ria \u00e9 isso: conectar a mem\u00f3ria imediata com a mem\u00f3ria remota.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, quando a viol\u00eancia cotidiana vem a ser manipulada e espetacularizada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo banalizada, os instrumentos estruturais de uma sociedade violenta permanecem na penumbra, dissolvem-se no show formado pelo fogo de artif\u00edcio imediato. Qual o racioc\u00ednio correto? Dar-se conta de que os atos violentos que, neste exato momento, enchem nossos olhos e tomam nossa aten\u00e7\u00e3o, na verdade, n\u00e3o passam de um reflexo, uma verdadeira caixa de resson\u00e2ncia da viol\u00eancia impregnada e \u00e0s vezes naturalizada pela trajet\u00f3ria de determinada sociedade. N\u00e3o \u00e9 l\u00edcito confundir atitude violenta com viol\u00eancia, certo, mas tampouco ser\u00e1 l\u00edcito ignorar sua vincula\u00e7\u00e3o. Ou seja, toda e qualquer atitude violenta que encontre respaldo na lei e na autoridade respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a nacional traduz, no fundo, uma viol\u00eancia aberta ou encoberta, n\u00e3o raro legitimada por amplos setores da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Assessor do SPM \u2013 S\u00e3o Paulo, 06\/12\/2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MEM\u00d3RIA E ESQUECIMENTO &#8211; Por padre Alfredo J. 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