{"id":14044,"date":"2025-02-01T09:35:39","date_gmt":"2025-02-01T12:35:39","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14044"},"modified":"2025-02-01T09:36:56","modified_gmt":"2025-02-01T12:36:56","slug":"14044-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/14044-2\/","title":{"rendered":"QUANDO UMA BISPA ENFRENTA DONALD TRUMP \u2013 Por Eduardo Hoornaert"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>QUANDO UMA BISPA ENFRENTA DONALD TRUMP <\/strong>\u2013 Por<strong> <\/strong>Eduardo Hoornaert<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"773\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/30-04_eduardo_foto_lagarto_noticias.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14045\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/30-04_eduardo_foto_lagarto_noticias.jpg 800w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/30-04_eduardo_foto_lagarto_noticias-300x290.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/30-04_eduardo_foto_lagarto_noticias-768x742.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption><strong> <\/strong>Eduardo Hoornaert. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O serm\u00e3o de 14 minutos, proferido pela Bispa Mariann Budde na Catedral da Igreja Episcopal em Washington no dia 21\/01 pp., na presen\u00e7a de Donald Trump, um dia ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o deste como Presidente dos EEUU no Capit\u00f3lio da mesma cidade, nestes dias ronda o mundo e j\u00e1 foi objeto de inumer\u00e1veis coment\u00e1rios. Mesmo assim, penso que vale a pena voltar de esse memor\u00e1vel serm\u00e3o, cuja import\u00e2ncia excede as condi\u00e7\u00f5es concretas em que foi proferido, por nos lembrar alguns aspectos fundamentais do ser crist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que Trump foi \u00e0 Catedral para agradecer a Deus sua vit\u00f3ria eleitoral. Mas ele teve de ouvir um serm\u00e3o que n\u00e3o foi de agradecimento a Deus, mas tratou do tema da \u2018uni\u00e3o\u2019. Se h\u00e1 uma terra, neste mundo, onde a uni\u00e3o \u00e9 fundamental e a divis\u00e3o pode ser catastr\u00f3fica, \u00e9 a terra denominada, significativamente, de \u2018Estados Unidos\u2019. N\u00e3o \u00e9 por nada que o lema desse pa\u00eds seja <em>E(x) pluribus unum <\/em>(de muitos um). Formada, basicamente, por imigrantes de diversas regi\u00f5es da Europa (A m\u00e3e de Trump, Mary Anne MacLeod, migrou em 1930 da Esc\u00f3cia aos EEUU), a na\u00e7\u00e3o necessita ficar unida, como Mariann Budde intuiu com rara perspic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, ela convidou os presentes a orar pela uni\u00e3o do pa\u00eds. Eis, em resumo, o que ela disse: \u2018Somos estrangeiros e estrangeiras, nesta terra de Deus, e nossa for\u00e7a prov\u00e9m de nossa uni\u00e3o: \u2018e pluribus unum\u2019. Portanto, temos de combater narrativas de divis\u00e3o. Em nossa frente, temos dois imperativos: o da miseric\u00f3rdia e o do reconhecimento da dignidade de qualquer pessoa humana, mesmo dos invis\u00edveis e indesejados\u2019. Palavras que, embora repletas de alus\u00f5es a Donald Trump, n\u00e3o se dirigiam diretamente a ele. Mas, nos \u00faltimos minutos, Mariann Budde se dirigiu ao Presidente e disse: <em>neste momento, muitas pessoas andam assustadas<\/em>. <em>N\u00e3o s\u00e3o criminosos. Servem nos nossos restaurantes, carregam nossas mercadorias, trabalham em nossos frigor\u00edficos, limpam nossas ro\u00e7as, recolhem nossas colheitas, cuidam de nossos neg\u00f3cios, constroem nossos pr\u00e9dios, vigiam nossas propriedades, fazem turnos noturnos em nossos hospitais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, Trump se manifestou. Pediu que Mariann se desculpasse da falta de respeito. Ao que ela respondeu: <em>N\u00e3o vou pedir desculpas por falar em miseric\u00f3rdia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cena me transporta a um epis\u00f3dio dos evangelhos. Quando Jesus cinge uma toalha e passa a lavar os p\u00e9s dos ap\u00f3stolos, Pedro fica com ar carrancudo e fechado, exatamente a cara de Trump ao escutar as palavras de Mariann.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jesus lava os p\u00e9s de Pedro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, Jesus pratica uma <em>Umwertung aller Werte <\/em>(Nietzsche), uma \u2018subvers\u00e3o de todos os valores\u2019. Ter miseric\u00f3rdia com \u2018pecadores\u2019, dignificar rejeitados e \u2018irregulares\u2019, eis o esp\u00edrito de Jesus, que lava os p\u00e9s de seus disc\u00edpulos, com espanto geral.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e1 para cavar mais e refletir sobre o teor categ\u00f3rico de falas, atitudes e decis\u00f5es de Donald Trump, que muitos admiram. Aqui estamos diante de uma quest\u00e3o em cima da qual os fil\u00f3sofos se debru\u00e7am desde s\u00e9culos: nas afirma\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas costumam entrar imperativos n\u00e3o \u00e9ticos, embora comumente revestidos de moralidade, como s\u00e3o, por exemplo: interesses pessoais, vantagens financeiras, luta pelo poder e exerc\u00edcio do poder, op\u00e7\u00e3o por modelos autorit\u00e1rios, ou simplesmente acomoda\u00e7\u00e3o com situa\u00e7\u00f5es injustas existentes. A dificuldade consiste no fato que, na maioria dos casos, esses discursos categ\u00f3ricos se apresentam como sendo informativos ou designativos, ou seja, pretendem expressar as coisas como elas s\u00e3o efetivamente. Eis o engodo. Discursos aparentemente designativos podem ocultar o que se pretende efetivamente: emitir uma ordem, expressar um desejo, um sentimento, uma imagina\u00e7\u00e3o, um sonho, um projeto, um c\u00e1lculo, etc. S\u00e3o discursos que n\u00e3o revelam, mas ocultam, cont\u00eam intencionalidades n\u00e3o confessas, procuram exercer um dom\u00ednio sobre as mentes humanas, com a finalidade de fazer passar determinados posicionamentos, formar consensos, enfim, enganar as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil constatar que a maioria dos discursos, hoje emitidos por poderes pol\u00edticos e econ\u00f4micos, serve para justificar imperativos n\u00e3o \u00e9ticos. Isso cria uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, que todos e todas podemos observar diariamente. As pessoas, em sua maioria, acabam se metendo num labirinto de palavras t\u00e3o intricado, que elas n\u00e3o encontram mais a sa\u00edda. Elas se parecem com aquelas moscas que voam para c\u00e1 e para l\u00e1 dentro de uma garrafa aberta. A boca da garrafa est\u00e1 aberta, ou seja, h\u00e1 sa\u00edda. Mas as pessoas n\u00e3o a encontram, de t\u00e3o confusas e desorientadas, t\u00e3o desacostumadas a refletir. Elas costumam, desde muito, entregar sua intelig\u00eancia ao \u2018Jornal Nacional\u2019 da TV Globo, \u00e0s manchetes da revista Veja ou \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo. Desse modo mal escapam ao bombardeio di\u00e1rio de Fake News, que hoje toma conta dos notici\u00e1rios. Eis uma situa\u00e7\u00e3o que o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman qualificou de \u2018l\u00edquida\u2019. N\u00e3o h\u00e1 mais verdade, s\u00f3 h\u00e1 not\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p>Fico pensando: como \u00e9 que esse tema da complexidade cognitiva ficou por tanto tempo fora das cogita\u00e7\u00f5es de eminentes fil\u00f3sofos cl\u00e1ssicos da tradi\u00e7\u00e3o ocidental, como Arist\u00f3teles e Agostinho? Como \u00e9 que eles n\u00e3o alertaram com o devido vigor diante dos perigos de uma cogni\u00e7\u00e3o pervertida? Mesmo muitos fil\u00f3sofos modernos parecem omissos nesse ponto, ao dar a impress\u00e3o de confiar demais em \u2018informa\u00e7\u00f5es\u2019. Quem contempla o atual cen\u00e1rio do universo cognitivo, verifica com espanto qu\u00e3o facilmente as pessoas se deixam prender nas redes de discursos enganosos. Como j\u00e1 dizia Maquiavelli, as pessoas costumam ficar indefesas (ele fala at\u00e9 em \u2018dispon\u00edveis\u2019) diante de enunciados emanados de fontes que lhes parecem confi\u00e1veis. Voltaire ainda acrescentou: <em>mentez, mentez toujours: il en restera toujours quelque chose<\/em> (mintam, mintam sempre: algo h\u00e1 de ficar). E Goebbels, ministro da informa\u00e7\u00e3o do governo nazista, nos anos 1930, completou: <em>uma mentira repetida mil vezes se torna verdade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, tivemos de esperar a revolu\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do s\u00e9culo XX para ver aparecer uma gera\u00e7\u00e3o de fil\u00f3sofos disposta a encarar de frente a quest\u00e3o cognitiva e se propor a premunir as pessoas contra palavras enganosas, esclarecer a perversidade de determinados usos da linguagem e precaver diante de palavras pretensamente designativas. N\u00e3o \u00e9 por acaso que um dos analistas pol\u00edticos mais argutos de nossos dias seja Noam Chomsky, um linguista. Nem falo em Slavoj Zizek, Bakhtin, Ricoeur, Bourdieu e outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses fil\u00f3sofos linguistas nos prop\u00f5em um exerc\u00edcio di\u00e1rio, o de limpar nossa cabe\u00e7a. Ningu\u00e9m se engane: a <em>Fake News<\/em> veio para ficar e se desenvolver sempre mais, pois repousa sobre uma tecnologia em pleno desenvolvimento, que ainda n\u00e3o revelou todas as suas potencialidades. Vivemos em sociedades cada vez mais \u2018inform\u00e1ticas\u2019, onde n\u00e3o s\u00f3 enormes conglomerados informativos derramam sobre n\u00f3s diariamente um fluxo ininterrupto de informa\u00e7\u00f5es, mas onde o celular permite que cada um(a) de n\u00f3s emita, por sua vez, informa\u00e7\u00f5es e afirma\u00e7\u00f5es, a seu bel prazer. Nossa \u00fanica defesa reside em nosso c\u00e9rebro, como nos lembra Mao Tse Tung:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Que os p\u00e1ssaros fa\u00e7am ninhos nas \u00e1rvores<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Voc\u00ea n\u00e3o pode impedir.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas que eles fa\u00e7am ninhos em seu cabelo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Isso voc\u00ea pode impedir.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>QUANDO UMA BISPA ENFRENTA DONALD TRUMP \u2013 Por Eduardo Hoornaert O serm\u00e3o de 14 minutos, proferido pela Bispa Mariann Budde na Catedral da Igreja Episcopal em Washington no dia 21\/01 pp., na presen\u00e7a de Donald<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14045,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,46,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14044","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-cultura-popular","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14044"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14044\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14047,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14044\/revisions\/14047"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14045"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}