{"id":14119,"date":"2025-02-13T10:53:49","date_gmt":"2025-02-13T13:53:49","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14119"},"modified":"2025-02-13T11:02:03","modified_gmt":"2025-02-13T14:02:03","slug":"14119-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/14119-2\/","title":{"rendered":"Lc 6,17.20-26: SER FELIZES MESMO NO MEIO DE TANTA DOR &#8211; Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Lc 6,17.20-26: SER FELIZES MESMO NO MEIO DE TANTA DOR<\/strong> &#8211; Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/images-9.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14120\" width=\"779\" height=\"517\"\/><figcaption>Marcelo Barros, irm\u00e3o, padre e monge<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste VI Domingo comum (do ano C), o evangelho lido nas comunidades crist\u00e3s nos traz um texto b\u00e1sico para a nossa f\u00e9: Lucas 6,17-26. Provavelmente o evangelho colheu palavras que Jesus disse aqui e ali e as reuniu, como um \u00fanico discurso. As perspectivas a partir das quais Mateus e Lucas contam as mesmas palavras de Jesus s\u00e3o diversas. Mateus conta a proclama\u00e7\u00e3o das bem-aventuran\u00e7as como in\u00edcio do Serm\u00e3o da montanha (Mt 5-7). Mostra Jesus como novo Mois\u00e9s, a transmitir a alian\u00e7a de Deus para um novo povo, ampliado e aberto. As comunidades de Lucas tomam s\u00f3 algumas partes do discurso e o situa na plan\u00edcie, como figura da extens\u00e3o do mundo inteiro. Resume as bem-aventuran\u00e7as em quatro e acrescenta quatro lamenta\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cAis\u201d &#8211; que o evangelho de Mateus n\u00e3o registra.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos vers\u00edculos 17 a 19, Lucas situa o contexto social. Diz que o cen\u00e1rio a partir do qual, ap\u00f3s descer a montanha com os doze ap\u00f3stolos, NA PLANIC\u00cdE. Jesus falou para um povo adoecido e aberto que se re\u00fane para escutar Jesus e ser curado. O texto diz que as pessoas v\u00eam tanto da regi\u00e3o judaica, como do mundo estrangeiro, o que constitui a realidade das comunidades para as quais, nos anos 80 do 1\u00ba s\u00e9culo, esse evangelho foi escrito. A a\u00e7\u00e3o terap\u00eautica de Jesus une a palavra e o toque corporal. No entanto, Jesus prop\u00f5e mais do que a cura de doen\u00e7as: prop\u00f5e novo caminho de vida a partir da realiza\u00e7\u00e3o concreta das bem-aventuran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Andr\u00e9 Chouraqui, judeu crist\u00e3o, que conheceu bem a terra de Jesus e os costumes da \u00e9poca, traduziu o termo \u201cbem-aventurado\/a\u201d pela express\u00e3o: \u201cem marcha\u201d, ou \u201cpara frente!\u201d, ou \u201ca caminho\u201d. De fato, na cultura em que Jesus viveu, a infelicidade \u00e9 estar parado. Em hebraico, o termo para doen\u00e7a \u00e9 mahala, que quer dizer andar em c\u00edrculo, estar preso, fechado em seu sofrimento, em seus pensamentos ou at\u00e9 mesmo em suas emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que as pessoas que mais sofrem s\u00e3o aquelas que se deixam dominar pelos sintomas e ficam paralisadas pelas mem\u00f3rias negativas ou pela saudade idealizada do que foi vivido.&nbsp; Por isso, a bem-aventuran\u00e7a consiste, de fato, na disposi\u00e7\u00e3o de dar um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma boa defini\u00e7\u00e3o da espiritualidade \u00e9 dar um passo a mais do lugar onde se est\u00e1. (&#8230;) No seu livro sobre as bem-aventuran\u00e7as, Jean-Yves Leloup insiste: \u201ccada bem-aventuran\u00e7a \u00e9 um convite para nos recolocar em marcha, a partir de nossas l\u00e1grimas, a partir do caminho que j\u00e1 percorremos. H\u00e1 ainda muito a caminhar\u201d (Vozes, 2004, pp. 57-58).<\/p>\n\n\n\n<p>As comunidades de Lucas proclamam como prediletas de Deus e amadas \u201cas pessoas pobres, famintas e aquelas que choram\u201d. S\u00e3o essas pessoas que o evangelho convoca para se p\u00f4r em marcha. O motivo pelo qual essas pessoas s\u00e3o aben\u00e7oadas e felizes \u00e9 que Deus n\u00e3o quer que haja injusti\u00e7as e desigualdade no mundo. S\u00e3o bem-aventuradas, porque, como daqui a pouco o reinado de Deus vem ao mundo, poder\u00e3o deixar de ser pobres, famintas e aflitas. Ao colocar os verbos no presente, (\u201cO reino \u00e9 de voc\u00eas\u201d), Jesus n\u00e3o faz apenas promessa para o futuro. De acordo com essas palavras, \u00e9 poss\u00edvel ser feliz j\u00e1, mesmo em meio \u00e0 luta da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o evangelho de Lucas proclamou essas palavras de Jesus, as comunidades crist\u00e3s tinham sido testemunhas da guerra dos romanos contra os povos da Palestina. As comunidades crist\u00e3s tinham visto a destrui\u00e7\u00e3o do templo e viviam a repress\u00e3o violenta do ex\u00e9rcito do imp\u00e9rio, sob o imperador Domiciano.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o an\u00fancio das bem-aventuran\u00e7as para as pessoas pobres e sofredoras podia parecer loucura. De fato, qual seria a base hist\u00f3rica para afirmar que as pessoas v\u00edtimas da sociedade imperial poderiam ser consoladas e, de alguma forma, viver a alegria do reinado divino?<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade e a perspectiva social e pol\u00edtica n\u00e3o permitiam, de modo algum, a proclama\u00e7\u00e3o de qualquer sa\u00edda esperan\u00e7osa. Ainda em nossos dias, como crer que a proclama\u00e7\u00e3o das bem-aventuran\u00e7as n\u00e3o \u00e9 pura loucura que anuncia uma esperan\u00e7a, de fato, imposs\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>O que significa proclamar bem-aventuran\u00e7as para as pessoas que est\u00e3o exclu\u00eddas e s\u00e3o v\u00edtimas de uma sociedade excludente? Ser\u00e1 que o fato de proclam\u00e1-las mudar\u00e1 alguma coisa?<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o projeto divino, ningu\u00e9m deve suportar injusti\u00e7as e iniquidades de forma resignada para depois gozar as del\u00edcias do c\u00e9u. Esse tipo de interpreta\u00e7\u00e3o da f\u00e9 legitimou o Cristianismo colonial escravagista. A perspectiva das bem-aventuran\u00e7as de Jesus vai no sentido oposto. Anuncia que chegou o tempo messi\u00e2nico e as pessoas deserdadas e marginalizadas pelo mundo s\u00e3o preferidas do reinado de Deus para mudar as condi\u00e7\u00f5es do mundo. As pessoas pobres e exclu\u00eddas n\u00e3o s\u00e3o bem-aventuradas por causa dos seus m\u00e9ritos e sim simplesmente porque Deus as ama e quis salv\u00e1-las. Deus sempre opta pelos marginalizados\/as.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o nos ensinou a viver a comunh\u00e3o com os pobres, mas contra a pobreza injusta. Agora, a Ecoteologia nos ensina que para a sobreviv\u00eancia da vida na terra, \u00e9 preciso mudar totalmente esse sistema de consumo. Os povos ind\u00edgenas nos ensinam o paradigma do bem-viver (colocar-se em comum uns com os outros e com a terra e priorizar o bem-comum).<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme Lucas, do mesmo modo que \u201cparabeniza\u201d \u00e0s pessoas pobres, famintas e sofredoras, Jesus proclama quatro lamenta\u00e7\u00f5es. Conforme o evangelho, ele estava na plan\u00edcie, com uma multid\u00e3o de pessoas pobres que vieram para ser curadas e libertadas. Ali n\u00e3o estava ningu\u00e9m rico. Mesmo assim, Jesus proclama essas lamenta\u00e7\u00f5es: \u201cAi de voc\u00eas, ricos e todos os que est\u00e3o muito bem na vida&#8230;\u201d.&nbsp; Certamente, Lucas se refere mais a pessoas e grupos da sua \u00e9poca do que diretamente a pessoas do tempo de Jesus. Nesse discurso, Jesus fala do presente e denuncia situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a. Ele reconhece: rebelar-se \u00e9 justo, porque esse mundo \u00e9 absurdo. Jesus faz isso ligando a situa\u00e7\u00e3o atual com uma vis\u00e3o m\u00edstica do futuro, aberta \u00e0 esperan\u00e7a do reino, ou seja, a certeza de um mundo novo. Esse \u00e9 o nosso caminho para juntos ser felizes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Hora da Alegria, m\u00fasica de Z\u00e9 Vicente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Chegou a hora da alegria<br>vamos ouvir essa palavra que nos guia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Tua palavra vem chegando bem veloz<br>Por todo canto, hoje se escuta a sua voz<br>Aleluia, aleluia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Nada se cria sem a for\u00e7a e o calor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Que sai da boca de Deus, nosso criador<br>Aleluia, aleluia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>O mandamento de Deus \u00e9 retid\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>\u00c9 luz nos olhos e prazer no cora\u00e7\u00e3o<br>Aleluia, aleluia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Esta \u00e9 a palavra da certeza<br>E da justi\u00e7a que nos liberta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>da opress\u00e3o e da cobi\u00e7a<br>Aleluia, aleluia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Bendita seja esta palavra do Senhor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Mel saboroso e alimento para o amor<br>Aleluia, aleluia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>O c\u00e9u proclama a tua gl\u00f3ria, \u00f3 meu Deus<br>A Terra inteira canta um hino de louvor<br>Aleluia, aleluia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lc 6,17.20-26: SER FELIZES MESMO NO MEIO DE TANTA DOR &#8211; Por Marcelo Barros Neste VI Domingo comum (do ano C), o evangelho lido nas comunidades crist\u00e3s nos traz um texto b\u00e1sico para a nossa<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14120,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14119","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14119"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14124,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14119\/revisions\/14124"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}