{"id":14125,"date":"2025-02-13T11:43:13","date_gmt":"2025-02-13T14:43:13","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14125"},"modified":"2025-02-13T12:55:58","modified_gmt":"2025-02-13T15:55:58","slug":"pessoas-bem-aventuradas-e-as-malditas-a-partir-de-lc-617-20-26-e-mt-51-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/pessoas-bem-aventuradas-e-as-malditas-a-partir-de-lc-617-20-26-e-mt-51-12\/","title":{"rendered":"PESSOAS BEM-AVENTURADAS E AS &#8220;MALDITAS&#8221; a partir de Lc 6,17.20-26 e Mt 5,1-12 &#8211; Por frei Gilvander"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>PESSOAS BEM-AVENTURADAS E AS &#8220;MALDITAS&#8221; A PARTIR DE Lc 6,17.20-26 e Mt 5,1-12<\/strong> &#8211; Por Frei Gilvander Moreira<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"597\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Apresentacao1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14126\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Apresentacao1.jpg 960w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Apresentacao1-300x187.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Apresentacao1-768x478.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o Canal Paz e Bem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O chamado &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221;, no plano do povo, do Evangelho de Lucas (Lc 6,20-49) \u00e9 paralelo ao &#8220;discurso da montanha&#8221; do Evangelho de Mateus (Mt 5-7). As indica\u00e7\u00f5es de lugar est\u00e3o em Lc 6,12.17. Segundo Lucas, Jesus desce da montanha e na plan\u00edcie, no plano do povo, no mesmo n\u00edvel, olho no olho, apresenta as bem-aventuran\u00e7as. O &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221; de Lucas constitui a primeira parte da chamada &#8220;interpola\u00e7\u00e3o menor&#8221; de Lucas, que compreende os epis\u00f3dios exclusivos de Lucas que est\u00e3o em Lc 6,20-8,3.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos em Lc 6,20-23 um texto das bem-aventuran\u00e7as diferente de Mt 5,3-12. No entanto, h\u00e1 tamb\u00e9m v\u00e1rias semelhan\u00e7as. Elas v\u00eam do fato de que tanto as comunidades de Mateus como as de Lucas se serviram de um Evangelho, hoje perdido, que reunia palavras e ensinamentos de Jesus, que se costuma chamar de \u201cQ\u201d ou \u201cEvangelho dos ditos de Jesus\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas estas comunidades n\u00e3o copiaram literalmente no texto do Evangelho os ditos de Jesus. E isto explica a diferen\u00e7a entre os textos das bem-aventuran\u00e7as no Evangelho das comunidades de Mateus e no Evangelho das comunidades de Lucas. O primeiro texto surgiu em fun\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia vivida pelas comunidades de Mateus, com seus valores, desafios, expectativas, a sua forma de entender o projeto de Jesus. As comunidades de Lucas tinham outros problemas e desafios, outra maneira de compreender e viver o seguimento e o projeto de Jesus!<\/p>\n\n\n\n<p>Da fonte &#8220;Q&#8221; prov\u00e9m Lc 6,20b-23, que s\u00e3o semelhantes a Mt 5,3.4.6.11-12;<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> A Fonte \u201cQ\u201d refere-se a um evangelho perdido, composto por ditos, senten\u00e7as e \u201cprov\u00e9rbios\u201d que est\u00e3o no Evangelho de Lucas e no Evangelho de Mateus, e n\u00e3o est\u00e3o no Evangelho de Marcos. A origem de Lc 6,24-26, os quatro \u201cais\u201d, \u00e9 muito problem\u00e1tica. O biblista H. Frankemolle pensa que os &#8220;ais&#8221; (\u201cas maldi\u00e7\u00f5es\u201d) formavam parte da fonte &#8220;Q&#8221;; sua omiss\u00e3o por Mateus se explicaria pelo fato de que n\u00e3o enquadram com a tonalidade de seu discurso. J\u00e1 o biblista Dupont<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, defende que os &#8220;ais&#8221; constituem uma adi\u00e7\u00e3o de Lucas, o que \u00e9 mais prov\u00e1vel pela grande incid\u00eancia de vocabul\u00e1rio lucano.<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221; de Lucas (Lc 6,20-49) \u00e9 muito mais breve do que o &#8220;discurso da montanha&#8221; de Mateus (Mt 5-7) com tr\u00eas cap\u00edtulos. Apesar das m\u00faltiplas diferen\u00e7as entre ambos, h\u00e1 uma grande coincid\u00eancia b\u00e1sica, que faz pensar em um n\u00facleo origin\u00e1rio recolhido da fonte &#8220;Q&#8221; e elaborado pessoalmente por cada um dos dois evangelistas. O predom\u00ednio das semelhan\u00e7as \u00e9 t\u00e3o evidente, que leva automaticamente a pensar que a tradi\u00e7\u00e3o conservou extensos fragmentos de um grande discurso de Jesus, pronunciado, talvez, no princ\u00edpio do seu minist\u00e9rio p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente n\u00e3o tenha nenhum texto da tradi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica que tenha sofrido, atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, tantas e t\u00e3o variadas interpreta\u00e7\u00f5es como o chamado &#8220;discurso da montanha&#8221; de Mt 5-7. O &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221; foi relegado benignamente a um segundo plano. Sobre Mt foram feitas leituras aleg\u00f3rica, escatol\u00f3gica, fundamentalista, sociol\u00f3gica e, naturalmente, teol\u00f3gica. A concep\u00e7\u00e3o patr\u00edstica viu no &#8220;discurso da montanha&#8221; uma s\u00edntese da \u00e9tica crist\u00e3, passando pela teologia medieval, que fundava nesse discurso a distin\u00e7\u00e3o entre preceitos e conselhos de perfei\u00e7\u00e3o, e continuando pela teoria da Reforma e sua doutrina dos dois reinos ou do ideal inating\u00edvel da ortodoxia luterana, at\u00e9 chegar \u00e0s modernas interpreta\u00e7\u00f5es, que deduzem desse discurso uma \u00e9tica da provisoriedade ou uma pol\u00edtica da n\u00e3o resist\u00eancia ao mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia predomina uma tend\u00eancia a interpretar este discurso dentro da globalidade do Evangelho de Mateus, o que nos faz pensar em uma observa\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a Mahatma Gandhi: &#8220;A mensagem de Jesus n\u00e3o se esgota na inviolada globalidade do discurso da montanha&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao endere\u00e7ar seu &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221; aos disc\u00edpulos e \u00e0s disc\u00edpulas, Lucas n\u00e3o pode ter outra inten\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja configurar a conduta e o comportamento desse grupo: as comunidades crist\u00e3s; \u00e9 para qualificar a forma\u00e7\u00e3o dos\/as disc\u00edpulos\/as.<\/p>\n\n\n\n<p>Na reda\u00e7\u00e3o lucana do discurso, as palavras de Jesus se referem \u00e0 exist\u00eancia normal e concreta de cada dia: pobreza, fome, sofrimento, \u00f3dio, ostracismo, que s\u00e3o preocupa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. A adi\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica: &#8220;agora&#8221; (Lc 6,21ac.25ac) revela o interesse de Lucas pela vida concreta do crist\u00e3o, com suas incid\u00eancias espec\u00edficas. O ponto de partida para o verdadeiro n\u00facleo da mensagem, o amor, tem que dominar a exist\u00eancia do\/a disc\u00edpulo\/a de Cristo. A exorta\u00e7\u00e3o ao amor, em Lc 6,27-36, se move em um campo limitado: o amor aos inimigos, por\u00e9m em Lc 6,37-45 se alarga os horizontes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mateus mostra uma clara tend\u00eancia a acrescentar diversos materiais \u00e0s palavras de Jesus; a essa tend\u00eancia se deve, indubitavelmente, o n\u00famero de nove bem-aventuran\u00e7as no Evangelho de Mateus ou oito, se Mt 5,5<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> for uma glosa<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> acrescentada posteriormente. Alguns biblistas defendem a exist\u00eancia somente de sete bem-aventuran\u00e7as argumentando que Mt 5,11-12 n\u00e3o fazem parte das bem-aventuran\u00e7as, pois h\u00e1 uma &#8220;inclus\u00e3o&#8221; em Mt 5,3 e Mt 5,10. E tamb\u00e9m o paralelismo com as sete par\u00e1bolas em Mt 13 e os sete &#8220;ais&#8221; de Mt 23.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Lc, as bem-aventuran\u00e7as se dirigem aos &#8220;disc\u00edpulos&#8221; como os verdadeiramente pobres, famintos, aflitos e proscritos na Palestina sob o imperialismo romano. Confira Lc 6,27: &#8220;<em>Eu digo a voc\u00eas que me escutam\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em um Novo Testamento, que procura a correspond\u00eancia mais exata do texto grego, o tradutor portugu\u00eas Frederico Louren\u00e7o traduz assim Mateus 5,3: \u201cBem-aventurados os mendigos pelo Esp\u00edrito\u201d. Em nota, explica: \u201cA palavra grega <em>pt\u00f4kh\u00f3s<\/em> significa de forma inequ\u00edvoca \u201cmendigo\u201d. Por isso, serve no Antigo Testamento grego (LXX) para traduzir a palavra hebraica <em>ebyon, que significa<\/em> \u201cmendigo ou pedinte\u201d. O fato da mesma palavra <em>pt\u00f4kh\u00f3s<\/em> ter sido utilizada para traduzir tamb\u00e9m o hebraico <em>on\u00ee<\/em> (\u201cpobre, dependente), no Antigo Testamento grego, justifica, no entender de alguns biblistas, a op\u00e7\u00e3o de se traduzir sempre <em>pt\u00f4kh\u00f3s<\/em> por pobre no Novo Testamento, mas a meu ver, a palavra ret\u00e9m claramente a sua identidade sem\u00e2ntica no texto dos Evangelhos e, por isso, opto na presente tradu\u00e7\u00e3o, por respeitar o seu verdadeiro sentido&#8230;\u201d<a id=\"_ftnref6\" href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Lucas n\u00e3o espiritualiza a condi\u00e7\u00e3o dos seus disc\u00edpulos, como faz Mateus; as prescri\u00e7\u00f5es que Mateus acrescenta &#8211; &#8220;<em>pobres em esp\u00edrito<\/em>&#8220;, fome e sede &#8220;<em>de justi\u00e7a<\/em>&#8221; &#8211; obedecem \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de diversos membros das comunidades crist\u00e3s mistas a quem \u00e9 dirigida a narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica. Outros acr\u00e9scimos importantes: homem &#8220;sensato&#8221; (Mt 7,24), pensar &#8220;mal&#8221; (Mt 9,4), Pai &#8220;no c\u00e9u&#8221; (Mt 6,9) etc. Para Mt, Jesus Cristo \u00e9 novo Mois\u00e9s; para Lc, o galileu \u00e9 \u201co misericordioso\u201d (Lc 6,36), concretiza\u00e7\u00e3o da profecia de Oseias (Os 6,6): \u201cs\u00f3 quero miseric\u00f3rdia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221; (Lc 6,20-49) se diferencia do &#8220;discurso da montanha&#8221; de Mt n\u00e3o somente por causa da geografia. Mateus apresenta Jesus como o novo Mois\u00e9s, portador da nova Lei e da Justi\u00e7a do Reino. Lucas preferiu apresentar Jesus como a express\u00e3o m\u00e1xima da miseric\u00f3rdia divina: &#8220;<em>Sejam misericordiosos, como tamb\u00e9m o Pai de voc\u00eas \u00e9 misericordioso<\/em>&#8221; (Lc 6,36). Lucas est\u00e1 preocupado com problemas internos da comunidade: pessoas que se julgam superiores \u00e0s outras e, por isso, emitem ju\u00edzos a respeito dos outros membros da comunidade, a quest\u00e3o das lideran\u00e7as comunit\u00e1rias, a corre\u00e7\u00e3o fraterna. A religi\u00e3o n\u00e3o deve ser algo para ser ensinado &#8220;aos outros&#8221;, mas para ter seus valores vivenciados e testemunhados. O &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221; mostra que a nova sociedade come\u00e7a dentro da comunidade, transformando profundamente as rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais que a regem.<\/p>\n\n\n\n<p>No Evangelho de Mateus e no Evangelho de Jo\u00e3o, os fariseus e religiosos do templo s\u00e3o comparados com cegos, porque optam por serem de linha conservadora e s\u00e3o fundamentalistas, moralistas, rigoristas (Cf. Jo 9). J\u00e1 em Lucas, Jesus chega a considerar como cegos os pr\u00f3prios disc\u00edpulos. Portanto, a melhor solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a &#8220;cura do espelho&#8221;: procurar <em>seguir<\/em> aquilo que de bom percebemos nos outros e <em>corrigir<\/em> em n\u00f3s o que achamos que est\u00e1 errado em nossos semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Lc, a pobreza, a fome, a afli\u00e7\u00e3o, o \u00f3dio, o ostracismo caracterizam a situa\u00e7\u00e3o concreta e existencial dos disc\u00edpulos de Jesus, que \u00e9 quem \u00e9 declarado &#8220;feliz&#8221;. Nas quatro situa\u00e7\u00f5es de felicidade e infelicidade que s\u00e3o apresentadas, as tr\u00eas primeiras se referem a realidades da vida concreta, cotidiana (pobreza, fome, sofrimento X riqueza, saciedade, alegria), enquanto a \u00faltima se refere \u00e0 situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de seguidores e seguidoras de Jesus (odiados X elogiados). Enquanto as tr\u00eas primeiras s\u00e3o feitas em frases curtas, a \u00faltima \u00e9 mais desenvolvida.<\/p>\n\n\n\n<p>Como algu\u00e9m pode ter a coragem de afirmar que pobres, aflitos e famintos s\u00e3o ou podem ser felizes, sem ser hip\u00f3crita ou c\u00ednico? A propaganda est\u00e1 a todo momento dizendo que felicidade \u00e9 ter o carro do ano, uma mans\u00e3o, fazer viagens etc. \u00c9 preciso n\u00e3o entrar na l\u00f3gica da sociedade de consumo como caminho \u00fanico para a vida feliz (cf. Lc 12,22-31: \u201cObservem os l\u00edrios do campo!\u201d). A primeira coisa que importa \u00e9 que os pobres n\u00e3o percam sua dignidade e autoestima, apesar de serem marginalizados pela sociedade!<\/p>\n\n\n\n<p>As bem-aventuran\u00e7as concretizam e radicalizam aquilo que foi proclamado por Jesus na sinagoga de Nazar\u00e9 (Lc 4,18). Um dos problemas dos ricos \u00e9 que vivem de forma autossuficiente. Para se tornarem ricos tiveram que acumular explorando de alguma forma e, assim, se negaram a viver a vida partilhando, sendo solid\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A quarta bem-aventuran\u00e7a tem caracter\u00edsticas diferentes: \u201c<em>Felizes de voc\u00eas se os homens os odeiam, se os expulsam, os insultam e amaldi\u00e7oam o nome de voc\u00eas, por causa do Filho do Homem<\/em>\u201d (Lc 6,22). Esta bem-aventuran\u00e7a diz respeito a hostilidades que os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas sofrem por causa do seguimento do Filho do Homem. Atualizando, poder\u00edamos dizer que sem terra em si mesmo n\u00e3o \u00e9 problema para os rica\u00e7os, mas <strong>Sem Terra em movimento<\/strong>, unidos e organizados, transformam-se em um grande problema para os poderosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fala-se nos tais \u201cpobres em esp\u00edrito\u201d muitas vezes para se referir a pessoas que possuem muitos bens e riquezas, mas seriam desapegadas delas. E com isso se justifica tanto a riqueza quanto a pobreza, porque ent\u00e3o haveria tamb\u00e9m os pobres com cora\u00e7\u00e3o de rico. Ou seja, segundo essa compreens\u00e3o a bem-aventuran\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 enfocando a riqueza ou a pobreza, mas o apego ou desapego. A quest\u00e3o residiria no interior da pessoa, no seu cora\u00e7\u00e3o, no seu esp\u00edrito; inclusive existem B\u00edblias que traduzem \u201cfelizes os que t\u00eam <em>cora\u00e7\u00e3o de pobre<\/em> &#8230;\u201d, o que \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o ao sentido original da bem-aventuran\u00e7a. No entanto, n\u00e3o parece ser disso que a comunidade de Mateus est\u00e1 falando. Quando no seu evangelho aparece a palavra \u201cesp\u00edrito\u201d ela nunca est\u00e1 se referindo ao interior das pessoas, \u00e0 sua alma ou a seu cora\u00e7\u00e3o. Ou ela se refere ao Esp\u00edrito de Deus, que age nas pessoas e particularmente em Jesus (cf. Mt 4,1; 12,18.28.31; 22,43) ou aos esp\u00edritos maus (Mt 8,16; 10,1; 12,43.45). Para se referir ao interior das pessoas as palavras s\u00e3o outras (veja a bem-aventuran\u00e7a de Mt 5,8: \u201c<em>Felizes os de cora\u00e7\u00e3o puro<\/em>, &#8230;\u201d). Com certeza as comunidades de Mateus n\u00e3o est\u00e3o querendo desviar a aten\u00e7\u00e3o da pobreza material para a espiritual, como tantas vezes se tem dito por a\u00ed. Basta ver para quem Jesus dirige as bem-aventuran\u00e7as, segundo o Evangelho das comunidades de Mateus: \u201caos pobres adoecidos, epil\u00e9ticos, paral\u00edticos, oprimidos, em multid\u00f5es\u201d (Cf. Mt 4,23-5,2! As comunidades do Evangelho de Mateus falam muito mais dos pobres que encontram sua for\u00e7a no Esp\u00edrito de Deus para lutar e construir o Reino!<\/p>\n\n\n\n<p>Ao nos aprofundarmos nessas passagens b\u00edblicas, considerando seu contexto e atentos aos acontecimentos do nosso tempo,&nbsp; vale ressaltar que \u00e9 preciso voltar a Jesus e \u00e0 sua proposta para a implanta\u00e7\u00e3o do reinado divino aqui e agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, bem-aventuradas s\u00e3o todas as pessoas empobrecidas, marginalizadas, exclu\u00eddas, que n\u00e3o se entregam ao sistema opressor,\u00a0n\u00e3o introjetam a ideologia dominante, e todas as pessoas de boa vontade que a elas se unem, com f\u00e9, coragem e esperan\u00e7a,\u00a0 em marcha coletiva, no caminho em luta por justi\u00e7a, por vida digna e em defesa da nossa Casa Comum.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG, mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; assessor da CPT, CEBI, Movimentos Sociais e Ocupa\u00e7\u00f5es. E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Face book: Gilvander Moreira III \u2013 Canal no You Tube: Frei Gilvander luta pela terra e por direitos<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lc 27-33.35b-36 = Mt 5,39-42.44-48; 7,12; Lc 37a.38b.39bc.40-42 = Mt 7,1-5; 10,24-25; 15,14; Lc 43-45 = Mt 7,16-20; cf. Mt 12,33-35; Lc 46-49 = Mt 7,21.24-27.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> No livro <strong>Les b\u00e9atitudes<\/strong> I, pp. 299-342.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cBem-aventurados os humildes porque conquistar\u00e3o a terra.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Anota\u00e7\u00e3o em um texto para explicar o sentido de uma palavra ou esclarecer uma passagem.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> &#8211; Cf. <strong>B\u00edblia \u2013 Novo Testamento<\/strong> \u2013 <em>Os quatro Evangelhos.<\/em> Traduzido do grego por FREDERICO LOUREN\u00c7O. Companhia das Letras, 2017, pp.91-92.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PESSOAS BEM-AVENTURADAS E AS &#8220;MALDITAS&#8221; A PARTIR DE Lc 6,17.20-26 e Mt 5,1-12 &#8211; Por Frei Gilvander Moreira[1] O chamado &#8220;discurso da plan\u00edcie&#8221;, no plano do povo, do Evangelho de Lucas (Lc 6,20-49) \u00e9 paralelo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14126,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,49,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14125","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-terra","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14125","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14125"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14125\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14130,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14125\/revisions\/14130"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14126"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}