{"id":14144,"date":"2025-02-19T11:14:19","date_gmt":"2025-02-19T14:14:19","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14144"},"modified":"2025-02-19T11:14:24","modified_gmt":"2025-02-19T14:14:24","slug":"lc-627-38-outro-modo-de-amar-e-possivel-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/lc-627-38-outro-modo-de-amar-e-possivel-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Lc 6,27-38 &#8211; OUTRO MODO DE AMAR \u00c9 POSS\u00cdVEL \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Lc 6,27-38 &#8211; OUTRO MODO DE AMAR \u00c9 POSS\u00cdVEL<\/strong> \u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/images.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14145\" width=\"779\" height=\"779\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/images.jpg 225w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/images-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 779px) 100vw, 779px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesse 7\u00ba domingo do tempo comum (Ano C), o evangelho lido nas comunidades, Lucas 6,27-38, \u00e9 uma das mais desafiadoras palavras de Jesus. Ele convida todas as pessoas ao amor gratuito, ecum\u00eanico e interreligioso, aberto a todo mundo. Diz que para sermos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas dele, precisamos abrir nossos seres e nossas vidas para amarmos como Deus ama e nos tornarmos como Deus \u00e9: Amor e Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n\n\n\n<p>Aparentemente, isso parece imposs\u00edvel. Vivemos em um mundo, no qual vigora a cultura do com\u00e9rcio, na qual n\u00e3o h\u00e1 lugar para a gratuidade e para o dom. Jesus nos convida a viver novo estilo de justi\u00e7a que supera a reciprocidade quantitativa e as conven\u00e7\u00f5es sociais que mandam amar a quem nos ama. Quem quer seguir Jesus, precisa aprender a amar como Jesus experimentou em sua vida. Amar com o pr\u00f3prio amor divino em n\u00f3s&#8230; A meta \u00e9 se assemelhar a Deus. O que caracteriza o Pai \u00e9 doa\u00e7\u00e3o total e independente. \u201cO Pai \u00e9 bom para os ingratos e maus\u201d. \u00c9 isso que est\u00e1 por tr\u00e1s da ordem: \u201cAmem seus inimigos, e fa\u00e7am o bem aos que odeiam voc\u00eas\u201d (Lc 6,27).<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas palavras de Jesus, desde muito tempo, h\u00e1 quem distinga mandamentos e conselhos.&nbsp; Conforme essa vis\u00e3o, Jesus d\u00e1 mandamentos quando fala em v\u00f3s e d\u00e1 conselhos quando concretiza os mandamentos e fala em tu. Os mandamentos valem sempre. Os conselhos, de acordo com o contexto. O mandamento \u00e9 Amai os inimigos. O conselho seria exemplificar com casos nos quais isso pode ser concretizado. Por exemplo: D\u00e1 a quem te pede&#8230; que \u00e9 como explica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9, necessariamente, para ser tomada ao p\u00e9 da letra e sim a partir do contexto social ou da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente, o que se chama de \u201cmandamento\u201d soa mais como proposta de vida: \u201cfazei o bem\u201d, \u201corai\u201d pelos inimigos. Isso explica como seria o amar que Jesus nos prop\u00f5e. O verbo grego \u201cagapa\u00f4\u201d n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201cfile\u00f4\u201d. N\u00e3o se trata de um amor de sentimento, simpatia e amizade. O termo que o evangelho usa significa comportamento de solidariedade, de perd\u00e3o e abertura interior. Jesus n\u00e3o mandou que tenhamos afei\u00e7\u00e3o ou carinho por uma pessoa exploradora, um pol\u00edtico opressor, por um juiz corrupto, ou por um fascista. O que Ele nos prop\u00f5e \u00e9 que respeitemos a dignidade humana deles, mesmo que sejam bandidos e apesar de que n\u00e3o agem como pessoas conscientes da sua humanidade. Nada que eles fizerem pode nos fazer renunciar a um modo de viver. Jamais podemos aceitar pautas de discrimina\u00e7\u00e3o social. Jamais odiar algu\u00e9m, ou querer o mal para outra pessoa, seja quem for. O educador Paulo Freire dizia que demos amar todas as pessoas, mas n\u00e3o devemos amar todas as pessoas do mesmo jeito. Devemos amar as pessoas injusti\u00e7adas, empobrecidas, nos colocando solidariamente ao lado delas para com elas e a partir delas lutarmos pelos seus direitos. E devemos amar as pessoas opressoras fazendo o poss\u00edvel e o imposs\u00edvel para retirar das m\u00e3os delas as armas da opress\u00e3o. Por exemplo, o latif\u00fandio \u00e9 uma arma de explora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o do latifundi\u00e1rio. Logo, lutar pela partilha e socializa\u00e7\u00e3o da terra \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o espiritual querida pelo Evangelho de Jesus Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>O amor cr\u00edtico e l\u00facido aos inimigos significa, em qualquer situa\u00e7\u00e3o, jamais negar a dignidade humana deles e, em nome dessa, lutar para que eles a vivam. Quanto \u00e0s concretiza\u00e7\u00f5es do \u201cdar a outra face\u201d, como canta a can\u00e7\u00e3o de Leon Greco, imortalizada pela voz de Mercedes Soza e que Beth Carvalho gravou em portugu\u00eas:<\/p>\n\n\n\n<p>Eu s\u00f3 pe\u00e7o a Deus<\/p>\n\n\n\n<p>Que a injusti\u00e7a n\u00e3o me seja indiferente<\/p>\n\n\n\n<p>Pois n\u00e3o posso dar a outra face<\/p>\n\n\n\n<p>Se j\u00e1 fui machucada brutalmente<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus falou para dar a outra face, mas ele n\u00e3o deu a outra face e sim interrogou ao falar a verdade: \u201cPor que me bates?\u201d (Jo 18,23).<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, descobrimos que faz parte do modo de amar ao inimigo tentar, por todos os meios pac\u00edficos, impedir que ele continue a oprimir e amea\u00e7ar. O amor aos inimigos nos obriga a defender a comunidade da opress\u00e3o deles e impedir que as pessoas vulner\u00e1veis vivam situa\u00e7\u00f5es de risco. O amor ao inimigo nos manda lutar pacificamente contra os opressores para libertar quem est\u00e1 por eles oprimida e, assim, buscar libertar o opressor de sua pr\u00f3pria opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XX, v\u00e1rias pessoas nos diversos continentes procuraram atuar em movimentos de liberta\u00e7\u00e3o a partir dessa intui\u00e7\u00e3o de respeito e amor cr\u00edtico aos inimigos. No contexto n\u00e3o crist\u00e3o, Gandhi deu exemplo disso ao lutar contra o imp\u00e9rio ingl\u00eas. No \u00e2mbito das Igrejas, podemos recordar pessoas como o pastor Martin-Luther King e, no Brasil, Dom H\u00e9lder C\u00e2mara. No Natal de 1967, o pastor Martin-Luther King pregava:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNunca vamos abrir m\u00e3o da determina\u00e7\u00e3o em nos desfazer de quaisquer vest\u00edgios de discrimina\u00e7\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds. No entanto, nesse processo, n\u00e3o podemos nos despojar do nosso privil\u00e9gio de amar. Eu vi tanto \u00f3dio que tamb\u00e9m passo a querer odiar. Vi \u00f3dio em rostos de delegados e de cidad\u00e3os brancos, de conselheiros e de membros da Klu-Klus-Kan no sul dos EUA. Deparei com tanto \u00f3dio, que tamb\u00e9m sinto em mim a tenta\u00e7\u00e3o de odiar. Mas, cada vez que vejo isso, repito para mim mesmo que o \u00f3dio \u00e9 uma carga onerosa e molesta demais para suportar\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, a jovem judia Etty Hillesum (28 anos) escrevia em seu di\u00e1rio: \u201cOs alem\u00e3es nazistas podem tudo, menos nos for\u00e7ar a odi\u00e1-los. Isso eles n\u00e3o podem fazer. N\u00e3o podem roubar a nossa humanidade\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Compreender a dor de quem nos agride ajuda a perdoar e a n\u00e3o querer mal, mesmo se temos o direito de nos defender.<\/p>\n\n\n\n<p>O padre Andr\u00e9 Chouraqui traduz Lc 6, 36: \u201cSejam misericordiosos\/as como o Pai\u201d por \u201csejam matriciais\u201d, isto \u00e9, uterinos. Trata-se do amor que a m\u00e3e tem pelo filho que est\u00e1 no \u00fatero. \u00c9 uma caracter\u00edstica de como Deus se revelou na alian\u00e7a do Sinai (Cf. Ex 34, 6- 7). Esse vers\u00edculo do evangelho de Lucas corresponde ao que Mateus tinha dito: \u201cSejam perfeitos\/as como o Pai do c\u00e9u \u00e9 perfeito\u201d (Mt 5, 48). Lucas traduz por miseric\u00f3rdia, amor gratuito e total. Como Deus que \u00e9 fiel a n\u00f3s, mesmo quando n\u00f3s somos infi\u00e9is a ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, em nossos dias, prosperam grupos crist\u00e3os que testemunham uma f\u00e9 excludente. Falam de um Deus cruel e violento, discriminador e legitimador de injusti\u00e7as. Temos de viver a f\u00e9 e testemunhar a pr\u00e1tica comunit\u00e1ria de forma oposta a esse Cristianismo do \u00f3dio e do desamor, convictos do que nos ensinou e testemunhou Francisco de Assis: \u201cS\u00f3 o amor constr\u00f3i.\u201d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Cf. MARTIN LUTHER&nbsp; KING JR, <strong>&nbsp;A Christmas Sermon on Peace, <\/strong>&nbsp;no comp\u00eandio <em>A Testament of Hope: The essencial Writtings and Speeches of Martin Luther King, <\/em>San Francisco, Harper-Collins 1986, p. 256, citado por Boletin del Priorato de Weston, otono\/invierno 200, p. 2.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lc 6,27-38 &#8211; OUTRO MODO DE AMAR \u00c9 POSS\u00cdVEL \u2013 Por Marcelo Barros Nesse 7\u00ba domingo do tempo comum (Ano C), o evangelho lido nas comunidades, Lucas 6,27-38, \u00e9 uma das mais desafiadoras palavras de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14145,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,35,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14144","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-dos-quilombolas","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14144"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14144\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14146,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14144\/revisions\/14146"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14145"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}